{"id":277725,"date":"2019-03-25T05:09:33","date_gmt":"2019-03-25T08:09:33","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=277725"},"modified":"2019-03-25T05:09:33","modified_gmt":"2019-03-25T08:09:33","slug":"o-problema-da-esquerda-nao-e-a-pauta-dita-identitaria-mas-sim-a-lacracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/o-problema-da-esquerda-nao-e-a-pauta-dita-identitaria-mas-sim-a-lacracao\/","title":{"rendered":"\u201cO problema da esquerda n\u00e3o \u00e9 a pauta dita identit\u00e1ria, mas sim a lacra\u00e7\u00e3o\u201d"},"content":{"rendered":"<div class=\"articulo__apertura\">\n<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div class=\"articulo-encabezado-texto\">\n<div id=\"articulo-titulares\" class=\"articulo-titulares\">\n<h1 id=\"articulo-titulo\" class=\"articulo-titulo \" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"articulo-subtitulos\" style=\"text-align: justify;\">\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\"><em>Para fil\u00f3sofa e matem\u00e1tica, campo progressista deve se opor \u00e0 reforma da Previd\u00eancia de Bolsonaro apresentando seu pr\u00f3prio projeto. Defende que a renova\u00e7\u00e3o deve vir a partir dos munic\u00edpios<\/em><\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"articulo-apertura \" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"firma firma--vertical\">\n<div class=\"autor\">\n<div class=\"autor-texto\"><span class=\"autor-nombre\"><a title=\"Ver todas as not\u00edcias de Felipe Betim\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/felipe_betim\/a\/\">FELIPE BETIM<\/a><\/span><\/p>\n<div class=\"autor-perfiles\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo-introduccion\" class=\"articulo-introduccion\">\n<p>No ano passado, a fil\u00f3sofa e matem\u00e1tica Tatiana Roque, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), decidiu se filiar ao\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/psol_partido_socialismo_libertad_brasil\">Partido Socialismo Liberdade (PSOL)<\/a>\u00a0e se candidatar a deputada federal pelo Rio, conseguindo 15.789 votos. N\u00e3o foi o suficiente para entrar na C\u00e2mara dos Deputados. De volta a vida acad\u00eamica, Roque agora ajuda a articular um movimento transversal de pessoas independentes que n\u00e3o se encaixam ou n\u00e3o identificam com as correntes de partidos como o PT e o pr\u00f3prio PSOL, mas que querem fazer pol\u00edtica e ter propostas progressistas concretas. &#8220;Muitos expressam vontade de fazer trabalho de base. A experi\u00eancia do &#8216;vira voto&#8217; [\u00e0s v\u00e9speras da elei\u00e7\u00e3o de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/jair_messias_bolsonaro\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jair Bolsonaro<\/a>] foi muito marcante para todo mundo. Eram pessoas que estavam afastadas da pol\u00edtica. E elas v\u00e3o fazer pol\u00edtica onde agora? Como?&#8221;, explica Roque em entrevista ao EL PA\u00cdS. O principal foco, acredita, \u00e9 reconstruir a esquerda, derrotada nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es pelo ultraconservador Bolsonaro, a partir das elei\u00e7\u00f5es municipais de 2020.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"roba_principal\" class=\"envoltorio_publi\" style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"elpais_gpt-MPU1\" class=\"publi_luto_horizontal\" data-google-query-id=\"COaP9ovrnOECFVD14QodfFgDcA\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/7811748\/elpais_web\/brasil\/politica\/mpu1_0__container__\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<figure class=\"foto  izquierda  foto_w360\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2019\/03\/20\/politica\/1553037448_213932_1553038095_noticia_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2019\/03\/20\/politica\/1553037448_213932_1553038096_noticia_normal_recorte1.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2019\/03\/20\/politica\/1553037448_213932_1553038095_noticia_normal.jpg 360w\" alt=\"A fil\u00f3sofa e matem\u00e1tica Tatiana Roque.\" width=\"360\" height=\"360\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">A fil\u00f3sofa e matem\u00e1tica Tatiana Roque.<\/span><span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">REPRODU\u00c7\u00c3O<\/span>\u00a0<span class=\"foto-agencia\">FACEBOOK<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Pergunta.<\/strong>\u00a0O que voc\u00ea destacaria de positivo e negativo na\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/02\/20\/politica\/1550676678_385935.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">reforma da Previd\u00eancia<\/a>?<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Resposta.<\/strong>\u00a0Antes de fazer uma discuss\u00e3o t\u00e9cnica, h\u00e1 uma discuss\u00e3o pol\u00edtica. Ela precisa ser pensada num contexto pol\u00edtico muito especifico. Existe um campo liberal que realmente n\u00e3o est\u00e1 interessado em combater os privil\u00e9gios, mas em diminuir os direitos. Fez uma alian\u00e7a com o Governo Bolsonaro, o que h\u00e1 de mais retr\u00f3grado e antidemocr\u00e1tico, para empurrar essa reforma. Independentemente de pontos que sejam pertinentes, como a idade m\u00ednima, que diz respeito a uma mudan\u00e7a demogr\u00e1fica e que \u00e9 consenso, tem esse problema pol\u00edtico. A reforma \u00e9 fruto de uma alian\u00e7a entre\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/08\/23\/politica\/1534995588_943964.html\">uma for\u00e7a ultraliberal representada por Paulo Guedes<\/a>, que quer fazer n\u00e3o s\u00f3 essa como v\u00e1rias reformas que v\u00e3o no sentido de diminuir o estado de bem-estar social, e uma for\u00e7a ultraconservadora antidemocr\u00e1tica.<\/p>\n<div class=\"teads-adCall\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/08\/04\/politica\/1501799787_669833.html\">Em outra entrevista<\/a>, no auge do Governo Temer, voc\u00ea afirmou que a esquerda deveria ter um projeto de reforma da Previd\u00eancia, mas que aquele Governo era ileg\u00edtimo. Bolsonaro chegou pelas urnas. A esquerda deve se opor a uma reforma mais uma vez, ou negociar no Congresso?<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0Uma coisa n\u00e3o anula a outra. A esquerda deve ser uma oposi\u00e7\u00e3o radical a um Governo radical. O que eu dizia e continuo dizendo \u00e9 que a esquerda tem que fazer oposi\u00e7\u00e3o a essas reformas ultraliberais tendo um outro projeto de reforma da Previd\u00eancia.\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/nelson-barbosa\/2019\/01\/carta-ao-povo-petista.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Isso foi inclusive apontado pelo Nelson Barbosa<\/a>\u00a0[ex-ministro da Fazenda do Governo Dilma Rousseff]. Agora, \u00e9 claro que, na a\u00e7\u00e3o parlamentar,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/02\/20\/politica\/1550684558_009836.html\">voc\u00ea deve tentar diminuir aqueles pontos mais prejudiciais para os mais pobres<\/a>, como as mudan\u00e7as no Benef\u00edcio da Presta\u00e7\u00e3o Continuada (BPC), na aposentadoria rural&#8230; Existem mudan\u00e7as claramente prejudiciais aos mais pobres e acho que existe uma alian\u00e7a mais ampla contra esses pontos. E \u00e9 claro que a esquerda deve se unir a esse bloco parlamentar e negociar junto. Mas, de um modo geral, como for\u00e7a de oposi\u00e7\u00e3o, deve ser contra. Mas deve ter um projeto pr\u00f3prio.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0Isso parece estar longe de acontecer&#8230;<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0Vai ter que caminhar junto com uma renova\u00e7\u00e3o da esquerda. Ela est\u00e1 numa fase de muta\u00e7\u00e3o, passando de uma fase de hegemonia do PT para uma fase em que varias for\u00e7as est\u00e3o disputando essa hegemonia. O PSOL est\u00e1 em boas condi\u00e7\u00f5es de disputar essa hegemonia, mas esse projeto s\u00f3 vai ser poss\u00edvel assim que essa esquerda conseguir se renovar e renovar seu quadro institucional. \u00c9 natural que, nesse processo, a a\u00e7\u00e3o seja mais de resist\u00eancia. Precisamos passar urgentemente dessa fase, com projetos mais afirmativos. E n\u00e3o acho que ser\u00e3o, em um primeiro momento, projetos nacionais. A tend\u00eancia, e foi assim na hist\u00f3ria do Brasil, \u00e9 que a esquerda comece a firmar seus projetos mais positivos no \u00e2mbito local.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0Isso tem a ver com o conceito de\u00a0<em>municipalismo<\/em>\u00a0que voc\u00ea vem trabalhando? O que significa?<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0Existe uma tend\u00eancia internacional, em pa\u00edses como Espanha e Bol\u00edvia, em dar maior poder aos munic\u00edpios, tanto do ponto de vista da gest\u00e3o como da arrecada\u00e7\u00e3o e do desenvolvimento econ\u00f4mico. Mas, sobretudo, do ponto de vista do aprofundamento da democracia, no sentido de torn\u00e1-la mais participativa e menos representativa. Trata-se de buscar os mecanismos que podem nos fazer sair dessa crise da democracia representativa. E podemos tanto utilizar experi\u00eancias do passado como propor experi\u00eancias novas. A inst\u00e2ncia que permite fazer isso \u00e9 o munic\u00edpio. \u00c9 uma inst\u00e2ncia que favorece a participa\u00e7\u00e3o, o controle social, a transpar\u00eancia e as pol\u00edticas participativas.\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/11\/27\/politica\/1543348031_337221.html?rel=mas\">Focar nos munic\u00edpios<\/a>\u00a0\u00e9 o caminho mais efetivo para renovar a esquerda.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0No Brasil isso passa por rever o pacto federativo?<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0Exatamente. O Brasil tem um problema: a Constitui\u00e7\u00e3o de 88 teve um grande avan\u00e7o ao dar mais autonomia aos Estados e munic\u00edpios, mas isso n\u00e3o se traduziu em uma descentraliza\u00e7\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria que acompanhasse a execu\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas. Muitas responsabilidades foram transferidas sem uma contrapartida or\u00e7amentaria, sendo que a capacidade de arrecada\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria \u00e9 pequena. Isso gera aquelas missas de prefeitos e governadores indo pedir mais e mais para a Uni\u00e3o. Tamb\u00e9m acho que existe uma cultura em n\u00e3o se investir em desenvolvimento econ\u00f4mico local, a partir de suas voca\u00e7\u00f5es territoriais.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0As elei\u00e7\u00f5es de 2020 s\u00e3o um ponto de partida?<\/p>\n<section id=\"sumario_2|html\" class=\"sumario_html derecha\"><a name=\"sumario_2\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p class=\"texto_grande\">&#8220;Focar nos munic\u00edpios \u00e9 o caminho mais efetivo para renovar a esquerda&#8221;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0Totalmente, acho que precisamos investir muito nisso, n\u00e3o s\u00f3 no PSOL. Esse tipo de constru\u00e7\u00e3o na esquerda tem uma longa tradi\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria do PT, que come\u00e7ou a ocupar governos locais e a se distinguir por um modo singular de governar, o\u00a0<em>modo petista<\/em>de governar. A experi\u00eancia do Or\u00e7amento participativo \u00e9 tida como refer\u00eancia de aprofundamento da democracia e de experimenta\u00e7\u00e3o de mecanismos participativo no mundo inteiro. Mas essas experi\u00eancias t\u00e3o inovadoras implementadas pelo PT foram deixadas de lado pelo pr\u00f3prio PT. Isso faz parte dessa mudan\u00e7a que o PT teve quando foi para o Governo Federal, em que as pol\u00edticas locais se tornaram secund\u00e1rias, fazendo com que o partido aderisse a pr\u00e1ticas de governo viciadas e clientelistas que interromperam esse caminho de renova\u00e7\u00e3o. O grande dilema que temos \u00e9 como renovar a esquerda a partir dessas pr\u00e1ticas renovadoras sem cair nos v\u00edcios dos governos petistas.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0O PT demorou 20 anos para chegar ao poder federal. A esquerda pode demorar tudo isso para voltar?<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0A reconstru\u00e7\u00e3o n\u00e3o vai ser r\u00e1pida. Se nesse meio tempo vamos a um Governo Federal n\u00e3o d\u00e1 para saber. A situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 muito aberta, muitos n\u00e3o esperavam a elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro. Seria bom que a esquerda estivesse preparada para voltar, mas isso depende de uma reorganiza\u00e7\u00e3o dessas for\u00e7as muito mais dif\u00edcil e imprevis\u00edvel de se fazer. Devemos investir agora, principalmente no caso do PSOL, que est\u00e1 mais bem posicionado para isso, nessas experi\u00eancias de governo locais. No Rio, talvez\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/04\/14\/politica\/1523658699_298994.html\">com Marcelo Freixo candidato, vamos fazer esse debate<\/a>.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0As chamadas quest\u00f5es identit\u00e1rias parecem n\u00e3o ter apelo junto a setores populares. Como acha que a esquerda deve abordar essas pautas?<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0N\u00e3o \u00e9 que\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/03\/01\/politica\/1551402478_860357.html\">as ditas quest\u00f5es identit\u00e1rias n\u00e3o tenham apelo popular<\/a>. Acho que o modo como muitas vezes a luta \u00e9 travada chega a popula\u00e7\u00e3o de um jeito distorcido. \u00c9 menos a pauta dita identit\u00e1ria que o modo\u00a0<em>lacrativo<\/em>\u00a0de se fazer pol\u00edtica. Essa cultura da lacra\u00e7\u00e3o est\u00e1 atrapalhando n\u00e3o s\u00f3 as pautas identit\u00e1rias, est\u00e1 atrapalhando geral. Se a gente tiver propostas concretas de pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas para as mulheres, por exemplo, acho que teria receptividade na popula\u00e7\u00e3o mais pobre e na despolitizada. O problema \u00e9 como abordar isso. Elas precisam ser abordadas dentro de um trabalho pol\u00edtico mais amplo, que n\u00e3o seja s\u00f3 essa disputa de marca\u00e7\u00e3o de posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0A esquerda perdeu conex\u00e3o com a classe trabalhadora?<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0A esquerda tem a concep\u00e7\u00e3o de que o agente da transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 baseado nessa ideia de trabalhador, que \u00e9 uma ideia muito homogeneizante. Isso continua existindo, apesar de o trabalho ter mudado. S\u00f3 que os grupos que se organizam para melhorar suas condi\u00e7\u00f5es de vida n\u00e3o se organizam mais em fun\u00e7\u00e3o de categorias t\u00e3o homogeneizantes. Os modos de vida, as experi\u00eancias, as sensibilidades se tornaram muito mais importantes ao se inserir num coletivo. N\u00e3o \u00e0 toa vemos tantos coletivos feministas, negros, LGBTs, de legaliza\u00e7\u00e3o das drogas, de ambientalistas&#8230; Os coletivos se organizam mais em fun\u00e7\u00e3o daquilo que os afeta de modo singular. Muito mais do que uma categoria de trabalho. As pessoas s\u00e3o trabalhadoras de jeitos t\u00e3o diferentes que n\u00e3o necessariamente v\u00e3o se identificar pelo fato de serem trabalhadoras. O movimento dos\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/movimiento_chalecos_amarillos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Coletes Amarelos<\/a>, na Fran\u00e7a, \u00e9 um \u00f3timo exemplo. Trouxe uma s\u00e9rie de atores invis\u00edveis. A esquerda tem que estar muito atenta porque esses atores est\u00e3o demandando aten\u00e7\u00e3o. E a esquerda tem que se abrir para isso. A greve dos caminhoneiros foi isso. No Brasil temos uma enorme categoria de jovens\u00a0<em>nem nem<\/em>, que nem estudam nem trabalham. Se a esquerda n\u00e3o fala com elas, algo est\u00e1 errado. Um projeto de Previd\u00eancia tem que dar prote\u00e7\u00e3o para essas pessoas que t\u00eam trabalho informal, situa\u00e7\u00e3o de vida inst\u00e1vel, intermitente&#8230; E a proposta n\u00e3o pode ser pleno emprego, porque isso n\u00e3o \u00e9 muito realista.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0O que aprender com a nova esquerda norte-americana?<\/p>\n<section id=\"sumario_4|html\" class=\"sumario_html izquierda\"><a name=\"sumario_4\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p class=\"texto_grande\">&#8220;Essa cultura da lacra\u00e7\u00e3o est\u00e1 atrapalhando n\u00e3o s\u00f3 as pautas identit\u00e1rias, est\u00e1 atrapalhando geral&#8221;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0Precisamos de uma mudan\u00e7a econ\u00f4mica de fundo, e essa nova esquerda americana vem falando muito no Green New Deal. \u00c9 algo fundamental, porque por tr\u00e1s de Trump est\u00e1 o negacionismo clim\u00e1tico. Ent\u00e3o a oposi\u00e7\u00e3o a ele tamb\u00e9m deve focar nisso, tem que levar a s\u00e9rio o aquecimento global e as limita\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas. As mudan\u00e7as econ\u00f4micas t\u00eam que ser pensadas a partir disso.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0Como isso poderia ser aplicado no Brasil?<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0Existe uma esquerda brasileira com uma vis\u00e3o muito industrializante, que acha que a solu\u00e7\u00e3o para o desenvolvimento econ\u00f4mico \u00e9 industrializar, e a partir disso criar emprego e resolver as quest\u00f5es sociais a partir do emprego. Tudo bem, acho que um pa\u00eds como o Brasil, que tem pouca ind\u00fastria, precisa fazer isso. Mas principalmente\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/06\/15\/economia\/1529091114_614722.html\">fazer isso com um modelo produtivo mais tecnol\u00f3gico, n\u00e3o uma industrializa\u00e7\u00e3o atrasada<\/a>\u00a0\u2014e n\u00e3o vai\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/11\/30\/economia\/1512012918_284848.html\">criar emprego suficiente pra resolver o problema social<\/a>. Acredito cada vez mais que esse outro modelo tem que partir da limita\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica, encarando com seriedade o problema das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. N\u00e3o adianta um projeto econ\u00f4mico\u00a0baseado em commodities e minera\u00e7\u00e3o que afete o meio ambiente e leve a um desastre como o de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/rompimiento_presa_brumadinho\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Brumadinho<\/a>. N\u00e3o d\u00e1 mais. E isso tem a ver com o municipalismo, porque a partir das iniciativas de desenvolvimento econ\u00f4mico local, de economias territoriais, \u00e9 mais poss\u00edvel desenvolver alternativas que em escala nacional. E a\u00ed tem duas vias fundamentais: uma \u00e9 a quest\u00e3o dos cuidados, uma proposta de trabalho e prote\u00e7\u00e3o social baseado numa economia dos cuidados, que cuide desse problema e crie postos de trabalho voltados para isso, j\u00e1 que \u00e9 uma tend\u00eancia mundial; outra coisa \u00e9 a quest\u00e3o dos bens comuns, como a \u00e1gua, a energia&#8230;. Essa gest\u00e3o dos bens comuns com uma preocupa\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica \u00e9 uma outra tend\u00eancia que a gente tem que incorporar nesse modelo municipalista. Tem a ver tamb\u00e9m com saneamento b\u00e1sico, que \u00e9 um ponto terr\u00edvel e que o Brasil n\u00e3o consegue fazer.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0V\u00ea riscos para a democracia mundial?<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0Estamos vivendo uma fragiliza\u00e7\u00e3o em v\u00e1rias camadas. Do ponto de vista econ\u00f4mico, \u00e9 um ataque ao estado de bem-estar social, que \u00e9 o que temos de democracia mais efetiva no mundo. Acho que isso \u00e9 o mais grave para a democracia. \u00c9 uma tentativa de fazer com que \u00e1reas do bem-estar social passem a fazer parte de um campo de acumula\u00e7\u00e3o de capital. A quest\u00e3o da capitaliza\u00e7\u00e3o da Previd\u00eancia \u00e9 isso, a privatiza\u00e7\u00e3o da sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o \u00e9 isso. O SUS \u00e9 refer\u00eancia mundial, a educa\u00e7\u00e3o universal p\u00fablica precisa melhorar qualidade e a gest\u00e3o, mas o modelo a gente conseguiu implementar. N\u00e3o \u00e9 andando pra tr\u00e1s que vamos resolver.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m temos que estar atentos porque a democracia n\u00e3o se fragiliza com pr\u00e1ticas ditatoriais, mas com mecanismos antidemocr\u00e1ticos sendo inseridos dentro das institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas e dentro das leis. Por isso, muitas vezes n\u00e3o reparamos como sendo antidemocr\u00e1ticos. \u00c9 o que Viktor Orb\u00e1n, primeiro-ministro da Hungria, chama de &#8220;<a href=\"https:\/\/elpais.com\/internacional\/2017\/02\/05\/actualidad\/1486261822_043605.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">democracia iliberal<\/a>&#8220;. Trata-se de minar as institui\u00e7\u00f5es da democracia liberal por dentro.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0Como responder a essas amea\u00e7as?<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0Existe uma demanda por mais participa\u00e7\u00e3o, por um aprofundamento da democracia que foi deixada nas m\u00e3os das elites e econ\u00f4micas, e as pessoas n\u00e3o se sentem participando ap\u00f3s o momento do voto. Muitas decis\u00f5es que afetam a popula\u00e7\u00e3o s\u00e3o tomadas por uma tecnocracia, uma elite de\u00a0<em>experts<\/em>\u00a0que n\u00e3o \u00e9 eleita. Isso \u00e9 algo aprofundado pelo neoliberalismo. D\u00e1 a sensa\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o importa em quem voc\u00ea vote, v\u00e3o ser sempre essas pessoas que tomam decis\u00f5es. O maior exemplo \u00e9 a Uni\u00e3o Europeia. O \u00e1pice foi quando os gregos votaram &#8216;n\u00e3o&#8217; no plebiscito sobre o ajuste, mas o Governo fez o contr\u00e1rio porque era uma determina\u00e7\u00e3o da\u00a0<em>troika<\/em>\u00a0[Comiss\u00e3o Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monet\u00e1rio Internacional]. No Brasil, muitos votaram em Bolsonaro por protesto, de saco cheio de tudo. Temos que ter uma resposta para isso.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0Que tipo de resposta?<\/p>\n<section id=\"sumario_5|html\" class=\"sumario_html izquierda\"><a name=\"sumario_5\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p class=\"texto_grande\">&#8220;A democracia se fragiliza com mecanismos antidemocr\u00e1ticos sendo inseridos dentro das institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas e dentro das leis&#8221;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0N\u00e3o temos institui\u00e7\u00f5es de controle, de acompanhamento, de\u00a0<em>accountability<\/em>, de transpar\u00eancia entre as a\u00e7\u00f5es de quem elegemos e a popula\u00e7\u00e3o. Votamos e depois acabou. A solu\u00e7\u00e3o para isso n\u00e3o \u00e9 um incentivo ao nacionalismo. Precisamos inventar novas institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas. Quando os livros que est\u00e3o a\u00ed falam em &#8220;fim da democracia&#8221;, acho que isso significa um esgotamento de uma forma de democracia que vivemos desde o fim de Segunda Guerra. N\u00e3o \u00e9 o fim, \u00e9 a necessidade de pensar em inova\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, mecanismos democr\u00e1ticos que respondam a esse anseio da popula\u00e7\u00e3o e que fa\u00e7a que tenha um engajamento com as decis\u00f5es e pol\u00edticas.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0Durante a campanha o PSOL falou muito em realizar referendos. Acredita que a democracia direta \u00e9 o caminho?<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0Existe uma idealiza\u00e7\u00e3o do uso do referendo como forma de aprofundamento da democracia. N\u00e3o sei se \u00e9 via referendo que vamos deixar mais direta a democracia. Acho que podemos pensar em novas institui\u00e7\u00f5es que v\u00e3o al\u00e9m da temporalidade do voto, institui\u00e7\u00f5es que mantenham uma participa\u00e7\u00e3o cont\u00ednua. Por isso gosto das experi\u00eancias participativas que se d\u00e3o nas esferas locais, como foi o caso dos Or\u00e7amentos participativos no Brasil.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para fil\u00f3sofa e matem\u00e1tica, campo progressista deve se opor \u00e0 reforma da Previd\u00eancia de Bolsonaro apresentando seu pr\u00f3prio projeto. 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