{"id":278426,"date":"2019-03-31T15:47:12","date_gmt":"2019-03-31T18:47:12","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=278426"},"modified":"2019-03-31T15:47:12","modified_gmt":"2019-03-31T18:47:12","slug":"boris-fausto-e-o-golpe-de-64-e-impossivel-ir-contra-fatos-estabelecidos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/boris-fausto-e-o-golpe-de-64-e-impossivel-ir-contra-fatos-estabelecidos\/","title":{"rendered":"Boris Fausto e o golpe de 64: \u201c\u00c9 imposs\u00edvel ir contra fatos estabelecidos\u201d"},"content":{"rendered":"<div class=\"articulo__apertura\">\n<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div class=\"articulo-encabezado-texto\">\n<div id=\"articulo-titulares\" class=\"articulo-titulares\">\n<h1 id=\"articulo-titulo\" class=\"articulo-titulo \"><\/h1>\n<div class=\"articulo-subtitulos\">\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\"><em>Historiador diz que as For\u00e7as Armadas nunca reconheceram os aspectos mais negativos do regime militar e que n\u00e3o havia amea\u00e7a imediata de implanta\u00e7\u00e3o de um regime comunista<\/em><\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"articulo-apertura \">\n<figure class=\"foto superior foto_w980\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2019\/03\/30\/politica\/1553984610_147330_1553985610_noticia_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2019\/03\/30\/politica\/1553984610_147330_1553985610_noticia_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2019\/03\/30\/politica\/1553984610_147330_1553985610_noticia_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2019\/03\/30\/politica\/1553984610_147330_1553985610_noticia_normal.jpg 980w\" alt=\"Historiador Boris Fausto, em depoimento para a s\u00e9rie Mem\u00f3rias.\" width=\"980\" height=\"551\" \/><\/p>\n<div class=\"seedtag-gohan seedtag-adunit st-in-image\">\n<div class=\"st-container\"><\/div>\n<\/div><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Historiador Boris Fausto, em depoimento para a s\u00e9rie Mem\u00f3rias.<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">REPRODU\u00c7\u00c3O<\/span>\u00a0<span class=\"foto-agencia\">TV C\u00c2MARA<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"firma \">\n<div class=\"autor\">\n<div class=\"autor-texto\"><span class=\"autor-nombre\"><a title=\"Ver todas as not\u00edcias de Thiago Domenici (Ag\u00eancia P\u00fablica)\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/el_pais\/a\/\">THIAGO DOMENICI (AG\u00caNCIA P\u00daBLICA)<\/a><\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p>O historiador e cientista pol\u00edtico Boris Fausto, 88 anos, \u00e9 autor de estudos cl\u00e1ssicos sobre a hist\u00f3ria do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/brasil\">Brasil<\/a>\u00a0e foi professor titular do Departamento de Ci\u00eancia Pol\u00edtica da Universidade de S\u00e3o Paulo. Em entrevista \u00e0 P\u00fablica, ele diz que n\u00e3o havia \u201camea\u00e7a imediata de implanta\u00e7\u00e3o de um regime\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/comunismo\">comunista<\/a>\u201d nas v\u00e9speras do golpe militar que completa 55 anos na pr\u00f3xima segunda-feira. Segundo ele, as afirma\u00e7\u00f5es mais recentes de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/jair_messias_bolsonaro\">Jair Bolsonaro<\/a>\u00a0sobre a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/dictadura_brasilena\">ditadura<\/a>\u00a0n\u00e3o s\u00e3o uma \u201creinterpreta\u00e7\u00e3o\u201d, mas a \u201cnega\u00e7\u00e3o de fatos\u201d comprovados na historiografia em documentos, testemunhos e reconhecimento do estado brasileiro dos\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/03\/30\/deportes\/1553901938_175156.html\">crimes cometidos no per\u00edodo de exce\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0(1964 a 1985). Fausto, que tamb\u00e9m \u00e9 membro da Academia Brasileira de Ci\u00eancias, v\u00ea o cen\u00e1rio futuro com preocupa\u00e7\u00e3o. \u201cAndei falando antes das elei\u00e7\u00f5es que est\u00e1vamos na corda bamba, na beira do abismo e n\u00e3o vejo muitas raz\u00f5es para mudar essa sensa\u00e7\u00e3o. \u00c9 triste\u201d.<\/p>\n<div id=\"elpais_gpt-INTEXT\" data-google-query-id=\"CP2IoJ6EreECFYwIswAdI7wJ2Q\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/7811748\/elpais_web\/brasil\/politica\/intext_0__container__\"><iframe id=\"google_ads_iframe_\/7811748\/elpais_web\/brasil\/politica\/intext_0\" title=\"3rd party ad content\" name=\"google_ads_iframe_\/7811748\/elpais_web\/brasil\/politica\/intext_0\" width=\"1\" height=\"1\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\" data-google-container-id=\"d\" data-load-complete=\"true\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<\/div>\n<p><strong>Pergunta.<\/strong>\u00a0O presidente Jair Bolsonaro disse que as For\u00e7as Armadas podem comemorar 1964. O porta-voz da presid\u00eancia justificou que o presidente n\u00e3o considera que houve um golpe militar, mas uma rea\u00e7\u00e3o apoiada pela sociedade contra uma alegada amea\u00e7a comunista. Qual sua avalia\u00e7\u00e3o como historiador?<\/p>\n<div class=\"teads-adCall\"><\/div>\n<p><strong>Resposta.<\/strong>\u00a0Ele [Bolsonaro] vai contra as evid\u00eancias. A hist\u00f3ria comporta sempre muitas interpreta\u00e7\u00f5es na depend\u00eancia da \u00e9poca em que se escreve e na depend\u00eancia da opini\u00e3o de quem escreve. Agora, \u00e9 imposs\u00edvel negar os fatos. \u00c9 imposs\u00edvel ir contra fatos estabelecidos. E, no caso de 1964, houve a interrup\u00e7\u00e3o de um mandato de um presidente leg\u00edtimo, houve cassa\u00e7\u00e3o de deputados, houve persegui\u00e7\u00f5es de toda ordem, houve viol\u00eancias. Ent\u00e3o, n\u00e3o se trata de uma reinterpreta\u00e7\u00e3o, se trata de negar fatos e isso n\u00e3o faz sentido.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Mas isso n\u00e3o \u00e9 preocupante vindo de um presidente da Rep\u00fablica, negar fatos que, de v\u00e1rias maneiras, levaram\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/07\/04\/politica\/1530734238_207748.html\">pessoas a morrer sob tortura, desaparecimentos<\/a>?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0\u00c9 preocupante embora n\u00e3o seja surpreendente. Conhecendo a carreira, o hist\u00f3rico do presidente eleito, n\u00e3o h\u00e1 nada de surpreendente que ele queira comemorar o golpe de 1964. Ele tem feito coisas nessa linha, tem se pronunciado nessa linha. N\u00e3o h\u00e1 surpresa mas \u00e9 uma pena que isso ocorra.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Muitos argumentos usam a amea\u00e7a do comunismo para o golpe naquele per\u00edodo. At\u00e9 pra gente estabelecer quest\u00f5es hist\u00f3ricas, afinal de contas, o Brasil estava \u00e0 beira do comunismo em 1964?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Vamos tentar discriminar essa quest\u00e3o. \u00c9 preciso considerar essa \u00e9poca de uma forma diferente dos dias de hoje. N\u00f3s est\u00e1vamos em plena\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/guerra_fria\">Guerra Fria<\/a>, existia Cuba com a vit\u00f3ria de uma revolu\u00e7\u00e3o que seguiu para um certo tipo, digamos, de socialismo autorit\u00e1rio. Ent\u00e3o, \u00e9 nesse contexto que a gente pode entender a preocupa\u00e7\u00e3o de setores militares. Amea\u00e7a imediata de implanta\u00e7\u00e3o de um regime comunista n\u00e3o havia. O que havia era uma situa\u00e7\u00e3o de divis\u00e3o do pa\u00eds, de uma radicaliza\u00e7\u00e3o, \u00e0s vezes, era efetiva, \u00e0s vezes, era mais verbal do que efetiva. Agora, evitar essa situa\u00e7\u00e3o por um golpe que durou 20 e tantos anos, a\u00ed as coisas pesam de um modo diferente na balan\u00e7a. Se houvesse uma convic\u00e7\u00e3o de que era preciso enfrentar, sim, uma situa\u00e7\u00e3o muito dif\u00edcil mas preservar de qualquer forma as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas a gente n\u00e3o teria chegado ao ponto que chegou, e, enfim, com o fechamento que foi grave em 64 e\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/06\/05\/cultura\/1528224984_573224.html\">se tornou grav\u00edssimo em 68<\/a>\u00a0e resultando num per\u00edodo triste, dif\u00edcil da nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Ainda desse ponto de vista da historiografia, n\u00e3o \u00e9 incomum ver declara\u00e7\u00f5es que dizem que a hist\u00f3ria tem sido contada com matiz ideol\u00f3gico socialista. O presidente j\u00e1 falou a respeito, o pr\u00f3prio filho do presidente,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/eduardo_nantes_bolsonaro\">Eduardo Bolsonaro<\/a>, publicou mensagens em que afirma que a ditadura militar \u00e9 mal retratada pelos livros did\u00e1ticos. Tamb\u00e9m o general da reserva Al\u00e9ssio Ribeiro Souto j\u00e1 declarou que \u201cos livros de hist\u00f3ria que n\u00e3o tragam a verdade sobre 64 precisam ser eliminados\u201d. Estamos passando por uma tentativa de revisionismo? Em que medida o revisionismo se torna perigoso para o registro dos acontecimentos hist\u00f3ricos?<\/p>\n<div class=\"teads-adCall\"><\/div>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Que h\u00e1 uma tentativa de revisionismo, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida. As For\u00e7as Armadas nunca reconheceram os aspectos mais negativos de 1964, nunca fizeram uma an\u00e1lise de um ponto de vista em que fosse ressaltada as viol\u00eancias, a quebra da ordem democr\u00e1tica, uma quebra at\u00e9 dos padr\u00f5es de conviv\u00eancia dentro do pa\u00eds. Na medida em que isso ocorre e com a chegada desse governo de direita, sob certos aspectos, de extrema direita, entende-se que essa revis\u00e3o que vinha forte no meio militar ocorra tamb\u00e9m, digamos, no setor da direita como um todo. Isso \u00e9 muito ruim porque transforma um epis\u00f3dio de viol\u00eancia, de ruptura do regime democr\u00e1tico, num epis\u00f3dio que pareceria uma esp\u00e9cie de salva\u00e7\u00e3o nacional. N\u00e3o existe d\u00favida que h\u00e1 um entendimento de revis\u00e3o no governo de tudo que ocorreu em 1964 e nos anos seguintes.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Tem gente que chama de golpe, gente que chama de movimento, gente que chama de revolu\u00e7\u00e3o. Com base na tua pesquisa como historiador como o senhor define o per\u00edodo?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Tendo a chamar mais de ditadura. O que n\u00e3o quer dizer que a minha interpreta\u00e7\u00e3o dos fatos tenha se alterado. \u00c9 evidente para qualquer pessoa que se disponha a estudar esse per\u00edodo que a ditadura de 1964 n\u00e3o \u00e9 uma quartelada. Acho que ningu\u00e9m diz mais isso. Saiu dos quart\u00e9is, surpreendeu os civis e eles se instalaram numa situa\u00e7\u00e3o de absoluta for\u00e7a. O que quero dizer \u00e9 que, nas condi\u00e7\u00f5es de divis\u00e3o da sociedade brasileira, tal como estava e nas condi\u00e7\u00f5es de insatisfa\u00e7\u00e3o de determinados setores, n\u00e3o estou falando s\u00f3 de setores da elite, mas tamb\u00e9m de uma ampla classe m\u00e9dia, o golpe contou com uma mobiliza\u00e7\u00e3o importante. Isso legitima. E na medida que os anos se seguiram foram os anos do milagre etc, das altas taxas de crescimento, esse prest\u00edgio durou. \u00c9 importante assinalar esse aspecto. At\u00e9 para entender a durabilidade do regime que n\u00e3o se deve apenas \u00e0 for\u00e7a. Agora, quando voc\u00ea v\u00ea a supress\u00e3o das liberdades, a viol\u00eancia, a limpeza no Parlamento, as pris\u00f5es de toda ordem, a persegui\u00e7\u00e3o de dirigentes sindicais, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que se trata de um golpe. \u00c9 um golpe com parte de mobiliza\u00e7\u00e3o popular mas a natureza de golpe predomina.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Em nota enviada sobre as\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/03\/26\/politica\/1553609505_570456.html\">\u201ccomemora\u00e7\u00f5es\u201d do 31 de mar\u00e7o<\/a>, o general Azevedo, ministro da Defesa, e os comandantes das For\u00e7as Armadas, destacam que a interven\u00e7\u00e3o militar ocorreu com o apoio da popula\u00e7\u00e3o e citam a Marcha por Deus e a Fam\u00edlia. O senhor considera que de fato o golpe foi apoiado pela popula\u00e7\u00e3o? At\u00e9 que ponto a Marcha pode ser vista como representativa do conjunto da sociedade?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0A Marcha da Fam\u00edlia com Deus pela Liberdade mostrou que o golpe tinha um lastro social significativo no meio urbano, em setores da classe m\u00e9dia e da classe alta. Mas da\u00ed a falar em \u201cmovimento representativo do conjunto da sociedade\u201d vai uma enorme dist\u00e2ncia. A divis\u00e3o social era evidente, mesmo no seio das For\u00e7as Armadas. Basta lembrar o n\u00famero de expuls\u00f5es e viol\u00eancias na institui\u00e7\u00e3o militar, logo ap\u00f3s o golpe.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Analisando agora os tempos recentes, h\u00e1 paralelos na hist\u00f3ria republicana brasileira de algo parecido com esse conjunto de for\u00e7as que fazem a composi\u00e7\u00e3o do Governo Bolsonaro?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0N\u00e3o vejo. \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o absolutamente inusitada e uma situa\u00e7\u00e3o que produz espanto.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0O que produz mais espanto ao senhor?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Muitas coisas.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0No terreno dos costumes?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Iniciativas retr\u00f3gradas que colocam o Brasil a n\u00e3o sei quantos dec\u00eanios para tr\u00e1s. Ali\u00e1s, de uma forma muito tosca, muito retr\u00f3grada mesmo, numa sociedade que avan\u00e7ou muito no terreno dos costumes. Mas que tamb\u00e9m tem um setor ponder\u00e1vel que se firmou muito numa tradi\u00e7\u00e3o hoje superada, fora at\u00e9 do entendimento hist\u00f3rico. Ali\u00e1s, isso ficou muito claro desde antes da vit\u00f3ria do Bolsonaro. A\u00ed n\u00e3o tem surpresa nenhuma. Mas \u00e9 um recuo que \u00e9 uma coisa bastante triste.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0O senhor classificou que \u00e9 um governo de direita e em certos aspectos de extrema direita. O senhor consegue me dizer qual \u00e9 essa direita que hoje est\u00e1 no poder?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Primeiro, \u00e9 uma direita com ra\u00edzes internacionais. Essa direita tem horror a globaliza\u00e7\u00e3o como processo mas ela pr\u00f3pria \u00e9 uma direita globalizada. E essa direita n\u00e3o \u00e9 igual em todos os lugares. Em cada regi\u00e3o ou at\u00e9 em cada pa\u00eds, h\u00e1 um elemento que \u00e9 mais caracter\u00edstico desse avan\u00e7o. Se voc\u00ea pegar a Europa, \u00e9 a xenofobia, fator que potencializa essa direita, que d\u00e1 um lastro a essa direita. A gente sabe qual \u00e9 a for\u00e7a da xenofobia, a gente conhece os movimentos totalit\u00e1rios ou autorit\u00e1rios do s\u00e9culo XX e sabe que esse \u00e9 um elemento mobilizador muito forte. Num pa\u00eds como o Brasil, para chegar at\u00e9 n\u00f3s, a xenofobia n\u00e3o existe com essa for\u00e7a da Europa. N\u00e3o \u00e9 esse o elemento central. O elemento central \u00e9: a quest\u00e3o dos costumes, de uma sociedade muito dividida nesse ponto. A meu ver a quest\u00e3o de g\u00eanero, da identidade feminina, que tem nos setores masculinos e n\u00e3o s\u00f3 neles, um impacto muito forte que \u00e9 preciso considerar. Isso tudo deu muito lastro a uma direita nacional. O \u00f3dio ao PT, de que \u201cPT nunca mais\u201d, e \u00e9 preciso entender isso tamb\u00e9m. E o quarto fator \u00e9 o medo e a impot\u00eancia da popula\u00e7\u00e3o diante da criminalidade. S\u00e3o caldos para o avan\u00e7o dessa direita.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Na sua vis\u00e3o, a quest\u00e3o do feminismo aglutina uma direita contr\u00e1ria ao movimento de mulheres?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Sim. A verdade \u00e9 que h\u00e1 perda do poder, um cisma do poder do macho, seja no interior da fam\u00edlia, seja nas rela\u00e7\u00f5es de trabalho, e essa ideia de que a subordina\u00e7\u00e3o da mulher est\u00e1 sendo quebrada \u2013 e est\u00e1 sendo quebrada mesmo \u2013 tem um impacto muito grande para essa direita. E n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que Bolsonaro saiu na frente bem na faixa masculina da popula\u00e7\u00e3o e levou muito tempo para alcan\u00e7ar uma vota\u00e7\u00e3o quase equilibrada no setor feminino da sociedade.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Gostaria que o senhor fizesse uma an\u00e1lise desse perfil militar no governo.<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0S\u00f3 observa\u00e7\u00e3o preliminar. \u00c9 por isso que a revis\u00e3o pelos militares do que ocorreu em 1964 e nos anos seguintes seria muito importante. Eles n\u00e3o fizeram essa revis\u00e3o.\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/03\/29\/politica\/1553895462_193096.html\">Ao contr\u00e1rio do que aconteceu na Argentina, Chile<\/a>\u00a0etc. H\u00e1 algumas diferen\u00e7as que s\u00e3o significativas, como o fato de que esse grupo militar que assumiu o poder, n\u00e3o assumiu sozinho, mas tem um peso muito grande. E esse peso tende a crescer, porque eles n\u00e3o s\u00e3o loucos e eles enfrentam loucos de todo o tipo. Esse grupo n\u00e3o tem, como tinha em 1964, interesse em interromper um processo formal democr\u00e1tico. E nem mesmo, pelo menos at\u00e9 aqui, tem impedido a liberdade de express\u00e3o. Os arreganhos a liberdade de express\u00e3o tem ocorrido por parte de setores ligados ao presidente, a pr\u00f3pria presid\u00eancia, aos seus filhos, Olavo de Carvalho e companhia bela. Ataques espec\u00edficos \u00e0\u00a0<em>Folha de S.Paulo<\/em>\u00a0e coisas assim\u2026 Nesse quadro, acho que h\u00e1 uma diferen\u00e7a grande com 1964 e h\u00e1, de fato, um setor militar que est\u00e1 disposto a manter o regime democr\u00e1tico e as liberdades. Est\u00e1 disposto, mas n\u00e3o a qualquer pre\u00e7o. Acho que se voc\u00ea tem uma situa\u00e7\u00e3o de desordem, de um caos muito grande na sociedade essa linha pode mudar, porque creio, de modo geral, que a posi\u00e7\u00e3o militar \u00e9 assim: a ordem vem antes da democracia. Democracia tudo bem, mas se a democracia, no entender deles, estiver comprometendo a ordem, eles n\u00e3o impedir\u00e3o medidas de exce\u00e7\u00e3o. Mas esse n\u00e3o \u00e9 o quadro de hoje, de jeito nenhum. Tem-se que entender isso se n\u00e3o voc\u00ea entra numa posi\u00e7\u00e3o de estar em bloco contra tudo e isso n\u00e3o leva a nada ou leva a coisas piores.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0A sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 que de 2013 para c\u00e1 as quest\u00f5es pol\u00edticas e sociais se agudizaram muito. O que o senhor acha?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>Sim, acho que as coisas se enrolaram cada vez mais. Para algu\u00e9m que tenha frieza e n\u00e3o viva no Brasil e est\u00e1 meio distanciado, o que acontece aqui \u00e9 inusitado, causa muito espanto. Agora, n\u00f3s estamos vivendo desde 2013 anos inteiramente alucinantes.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Historiador gosta mais do passado mas o cen\u00e1rio futuro o senhor v\u00ea com que perspectiva?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Com bastante preocupa\u00e7\u00e3o. Com preocupa\u00e7\u00e3o do mundo, eu diria. E olha que, em geral, sou otimista. Andei falando antes das elei\u00e7\u00f5es que est\u00e1vamos na corda bamba, na beira do abismo e n\u00e3o vejo muitas raz\u00f5es para mudar essa sensa\u00e7\u00e3o. \u00c9 triste. Eu j\u00e1 falei v\u00e1rias vezes essa palavra triste e n\u00e3o por acaso, mas porque at\u00e9 para a vida cotidiana voc\u00ea ver problemas muito grandes dentro de n\u00f3s n\u00e3o \u00e9 bom, em todos os sentidos. Mas vamos l\u00e1, tem-se que viver.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Historiador diz que as For\u00e7as Armadas nunca reconheceram os aspectos mais negativos do regime militar e que n\u00e3o havia amea\u00e7a imediata de implanta\u00e7\u00e3o de um regime comunista<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":278075,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1175,6],"tags":[],"class_list":["post-278426","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-educacao","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/ditadura-militar.jpeg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/278426","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=278426"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/278426\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/278075"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=278426"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=278426"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=278426"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}