{"id":278782,"date":"2019-04-03T10:50:56","date_gmt":"2019-04-03T13:50:56","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=278782"},"modified":"2019-04-03T10:50:56","modified_gmt":"2019-04-03T13:50:56","slug":"o-misterio-dos-158-corpos-de-africanos-escravizados-jogados-num-lixao-em-portugal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/o-misterio-dos-158-corpos-de-africanos-escravizados-jogados-num-lixao-em-portugal\/","title":{"rendered":"O mist\u00e9rio dos 158 corpos de africanos escravizados jogados num lix\u00e3o em Portugal"},"content":{"rendered":"<div class=\"articulo__apertura\">\n<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div class=\"articulo-encabezado-texto\">\n<div id=\"articulo-titulares\" class=\"articulo-titulares\">\n<h1 id=\"articulo-titulo\" class=\"articulo-titulo \" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"articulo-subtitulos\" style=\"text-align: justify;\">\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\"><em>Ossadas de homens, mulheres e crian\u00e7as demonstram as circunst\u00e2ncias desumanas das primeiras explora\u00e7\u00f5es portuguesas pela costa oeste do continente<\/em><\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"articulo-apertura \" style=\"text-align: justify;\">\n<figure class=\"foto superior foto_w980\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2019\/03\/29\/actualidad\/1553848854_810812_1554191598_noticia_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2019\/03\/29\/actualidad\/1553848854_810812_1554191598_noticia_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2019\/03\/29\/actualidad\/1553848854_810812_1554191598_noticia_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2019\/03\/29\/actualidad\/1553848854_810812_1554191598_noticia_normal.jpg 980w\" alt=\"Restos de um africano escravizado encontrados em Lagos (Portugal).\" width=\"980\" height=\"677\" \/><\/p>\n<div class=\"seedtag-gohan seedtag-adunit st-in-image\">\n<div class=\"st-container\"><\/div>\n<\/div><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Restos de um africano escravizado encontrados em Lagos (Portugal).<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">DRYAS ARQUEOLOG\u00cdA LDA<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"firma \">\n<div class=\"autor\">\n<div class=\"autor-texto\"><span class=\"autor-nombre\"><a title=\"Ver todas as not\u00edcias de Vicente G. Olaya\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/vicente_olaya\/a\/\">VICENTE G. OLAYA<\/a><\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A Europa reabriu em 2009 as bocarras dos infernos quando a Prefeitura de Lagos \u2013 hoje uma pl\u00e1cida, ensolarada, tur\u00edstica e bela cidade do Algarve portugu\u00eas \u2013 decidiu construir um estacionamento subterr\u00e2neo alguns metros al\u00e9m de suas muralhas medievais, em uma \u00e1rea urbana conhecida como Vale da Gafaria. As escavadoras iniciaram seu trabalho e come\u00e7aram a brotar dezenas de ossos de seres humanos. Maria Teresa Santos Ferreira, professora de Antropologia da Universidade de Coimbra, foi ao local com sua equipe. Hoje, dez anos depois, os resultados de sua pesquisa foram publicados no\u00a0<a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/journal\/10991212\"><em>International Journal of Osteoarchaeology<\/em><\/a>: eram os corpos de 158\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/esclavitud\">africanos escravizados<\/a>, cujos restos foram abandonados em um dep\u00f3sito de lixo no come\u00e7o do s\u00e9culo XV. Arrancados de sua terra pela viol\u00eancia e vendidos por traficantes, muitos deles n\u00e3o conseguiram suportar a viagem \u00e0\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/portugal\">Portugal<\/a>. As ossadas de homens, mulheres e crian\u00e7as \u2013 seis dos quais foram lan\u00e7ados ao dep\u00f3sito com p\u00e9s e m\u00e3os amarrados com cordas \u2013 demonstram as circunst\u00e2ncias desumanas das primeiras explora\u00e7\u00f5es portuguesas pela costa oeste do continente.<\/p>\n<section id=\"sumario_2|foto\" class=\"sumario_foto izquierda\"><a name=\"sumario_2\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w360\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2019\/03\/29\/actualidad\/1553848854_810812_1553858781_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2019\/03\/29\/actualidad\/1553848854_810812_1553858782_sumario_normal_recorte1.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2019\/03\/29\/actualidad\/1553848854_810812_1553858781_sumario_normal.jpg 360w\" alt=\"Santos Ferreira, com um dos restos humanos de Lagos.\" width=\"360\" height=\"547\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Santos Ferreira, com um dos restos humanos de Lagos.<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">DRYAS ARQUEOLOG\u00cdA LTDA.<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/section>\n<div class=\"teads-inread\" style=\"text-align: justify;\">\n<div>\n<div class=\"teads-ui-components-credits\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Infante Henrique o Navegante (1394-1460) foi o primeiro dos grandes exploradores dos mares da \u00c1frica e das ilhas do Atl\u00e2ntico. Suas caravelas sulcavam as costas partindo do maior porto do sul do reino, Lagos, uma cidade que logo se transformaria no grande bazar europeu de carne humana. \u201cOs escravos\u201d, diz Santos Ferreira, \u201cvinham das batidas feitas na parte ocidental do continente, assim como da compra dos traficantes mu\u00e7ulmanos, que por sua vez os traziam do interior da \u00c1frica\u201d. Por isso, as an\u00e1lises determinaram que os enterrados vinham de popula\u00e7\u00f5es banto (fundamentalmente na \u00c1frica subsaariana, com exce\u00e7\u00e3o do sul e da costa leste).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/10\/01\/cultura\/1538393024_389864.html\">barcos portugueses<\/a>\u00a0chegaram pela primeira vez em 1444 ao litoral do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/senegal\">Senega<\/a>l e logo retornaram ao porto de Lagos carregados de mercadorias, incluindo pessoas escravizadas, diz o relat\u00f3rio. Mas em 1512, o rei Manuel I ordenou que Lisboa tivesse a exclusividade do tr\u00e1fico de escravos. De qualquer maneira, e ainda que Lagos tenha perdido import\u00e2ncia, as naus continuaram chegando a esse porto antes de alcan\u00e7ar a capital. N\u00e3o se sabe quantos africanos escravizados entraram em Portugal nesses s\u00e9culos, porque os arquivos se perderam durante o terremoto de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/lisboa\">Lisboa<\/a>\u00a0em 1755. Mas se calcula que entre 1441 e 1470 chegaram por volta de mil africanos por ano e quase 2.000 anuais nas duas d\u00e9cadas seguintes, um n\u00famero que se manteve est\u00e1vel e diminuiu a partir de 1530.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O estudo \u2013 do qual, al\u00e9m de Santos, participaram Catarina Coelhoa, Jo\u00e3o de Oliveira Coelho, David Navegaa, Sofia N. Wasterlaina e Ana Rufino e que contou com o apoio do Archaeological Institute of America e da Funda\u00e7\u00e3o Gerda Henkel \u2013 estabelece que os corpos foram colocados no dep\u00f3sito de lixo entre os s\u00e9culos XV e XVII, e que muitos daqueles infelizes sofreram em vida traumatismos e les\u00f5es degenerativas. Os especialistas analisaram o sexo de 88 deles (56,31% de mulheres, 29,13% de homens e o restante indeterminado). A idade de sua morte foi estabelecida entre os 20 e 30 anos em 32% dos casos, os 30 e 40 anos para 40% e 6,59% com mais de 40 anos.<\/p>\n<section id=\"sumario_1|foto\" class=\"sumario_foto izquierda\"><a name=\"sumario_1\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w360\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2019\/03\/29\/actualidad\/1553848854_810812_1553858655_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2019\/03\/29\/actualidad\/1553848854_810812_1553858655_sumario_normal_recorte1.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2019\/03\/29\/actualidad\/1553848854_810812_1553858655_sumario_normal.jpg 360w\" alt=\"Escava\u00e7\u00e3o do estacionamento, no centro o dep\u00f3sito de lixo com os corpos.\" width=\"360\" height=\"240\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Escava\u00e7\u00e3o do estacionamento, no centro o dep\u00f3sito de lixo com os corpos.<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-agencia\">DRYAS ARQUEOLOGIA LTDA.<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m dos adultos, a equipe da empresa Dryas Arqueologia LTDA. encontrou tamb\u00e9m 31 menores (\u201cn\u00e3o-adultos\u201d), em muitos dos quais foram detectadas altera\u00e7\u00f5es nas denti\u00e7\u00f5es e um atraso no crescimento. De acordo com o estudo, os menores foram expostos \u201ca duras condi\u00e7\u00f5es\u201d, o que lhes provocou d\u00e9ficits nutricionais que se refletem em suas estruturas \u00f3sseas, com osteoporose cranial e falta de esmalte nos dentes. Isso, por sua vez, evidencia suas \u201cduras e curtas vidas\u201d. Os antrop\u00f3logos, entretanto, vislumbraram algum sinal de humanidade no enterro dos menores, j\u00e1 que em 66,7% dos casos \u201cparecem ter sido enterrados com mais cuidado do que os adultos\u201d. Desses \u00faltimos, 79,4% n\u00e3o seguiam a \u201chabitual orienta\u00e7\u00e3o\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/cristianismo\">crist\u00e3<\/a>\u00a0da \u00e9poca, com a cabe\u00e7a na dire\u00e7\u00e3o oeste e os p\u00e9s na dire\u00e7\u00e3o leste\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquela \u00e9poca, somente as pessoas batizadas podiam ser enterradas dentro da cidade. \u201cOs escravos, evidentemente, n\u00e3o eram, de modo que seus corpos foram depositados nos dep\u00f3sitos de lixo, como poderia acontecer, por exemplo, com os animais. Essa situa\u00e7\u00e3o mudou posteriormente e passaram a ser enterrados dentro da cidade\u201d, diz Santos Ferreira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos corpos analisados, foram encontradas evid\u00eancias de que quatro mulheres, um homem e um menor de idade foram amarrados antes de morrer, o que deixa claro como esses \u201cindiv\u00edduos escravizados foram tratados, mesmo na hora de sua morte\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ossadas de homens, mulheres e crian\u00e7as demonstram as circunst\u00e2ncias desumanas das primeiras explora\u00e7\u00f5es portuguesas pela costa oeste do continente<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":278785,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-278782","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/ossada-humana.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/278782","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=278782"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/278782\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/278785"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=278782"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=278782"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=278782"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}