{"id":279017,"date":"2019-04-05T09:59:05","date_gmt":"2019-04-05T12:59:05","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=279017"},"modified":"2019-04-05T09:59:05","modified_gmt":"2019-04-05T12:59:05","slug":"abaporu-a-historia-do-quadro-mais-valioso-da-arte-brasileira-que-volta-a-ser-exposto-no-pais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/abaporu-a-historia-do-quadro-mais-valioso-da-arte-brasileira-que-volta-a-ser-exposto-no-pais\/","title":{"rendered":"Abaporu: a hist\u00f3ria do quadro mais valioso da arte brasileira, que volta a ser exposto no pa\u00eds"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"byline\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"byline__name\">Edison Veiga<\/span><\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-portrait no-caption full-width lead\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/1251F\/production\/_106293057_525769e3-ee92-45f0-8f05-c6d154dcca7b.jpg\" alt=\"Reprodu\u00e7\u00e3o do Abaporu\" width=\"793\" height=\"931\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><span class=\"off-screen\">Direito de imagem<\/span><span class=\"story-image-copyright\">MALBA<\/span><\/span><\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\" style=\"text-align: justify;\">Em 11 de janeiro de 1928, a pintora Tarsila do Amaral (1886-1973) acordou ansiosa. Era anivers\u00e1rio de seu marido, o escritor Oswald de Andrade (1890-1954), e ela tinha preparado uma surpresa: um quadro de 85 cent\u00edmetros por 73 cent\u00edmetros, pintado em segredo nos \u00faltimos meses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com seu jeito afobado e verborr\u00e1gico, Oswald nem deixou que\u00a0<a class=\"story-body__link\" href=\"https:\/\/www.bbc.co.uk\/portuguese\/topics\/37dcc888-51a7-4470-82d8-8ef2b811d482\">artista<\/a>\u00a0explicasse a obra. Foi logo elogiando, dizendo que era a coisa mais incr\u00edvel que ela j\u00e1 tinha feito. &#8220;\u00c9 excepcional este quadro&#8221;, dizia ele. &#8220;\u00c9 o homem plantado na terra.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No mesmo dia, Oswald mostrou o presente para um de seus amigos, o poeta Raul Bopp (1898-1984). E juntos come\u00e7aram a enxergar ali, naquela figura enigm\u00e1tica, um \u00edndio canibal, um homem antrop\u00f3fago, aquele que iria devorar a cultura para se apossar dela e reinvent\u00e1-la.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tarsila empolgou-se com a interpreta\u00e7\u00e3o e correu para um velho dicion\u00e1rio de tupi-guarani. Ali encontrou as palavras &#8220;aba&#8221; e &#8220;poru&#8221; &#8211; &#8220;homem que come&#8221;. Estava batizado aquele que se tornaria o mais valioso quadro da arte brasileira,\u00a0<i>Abaporu<\/i>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o que seria apenas um presente de anivers\u00e1rio de uma artista para seu marido acabou transcendendo qualquer relacionamento para se tornar um dos quadros mais famosos do\u00a0<a class=\"story-body__link\" href=\"https:\/\/www.bbc.co.uk\/portuguese\/topics\/15f1bcf6-b6ab-48e8-b708-efed41e43d31\">Brasil<\/a> &#8211; e, certamente, o mais valioso.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/AFEF\/production\/_106293054_tarsila_do_amaral_ca._1925.jpg\" alt=\"Em foto preto e branco, Tarsila do Amaral aparece de perfil\" width=\"549\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Tarsila do Amaral pintou o quadro mais valioso da arte brasileira em 1928 | Foto: Dom\u00ednio p\u00fablico<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Sua grandeza se deu desde o in\u00edcio, porque naquele contexto ele acabou inspirando o Manifesto Antrop\u00f3fago, escrito por Oswald, e o movimento que seria decorrente desse texto, a Antropofagia&#8221;, afirma Tarsilinha do Amaral, sobrinha-neta e respons\u00e1vel pelos direitos da obra da artista, em entrevista \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Em seguida, o quadro acabou virando s\u00edmbolo de tudo o que o modernismo queria dizer. A antropofagia, no sentido de absorver a cultura europeia, dominante na \u00e9poca, e transform\u00e1-la em algo nacional, tudo isso foi sintetizado com Abaporu.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Um quadro com essa hist\u00f3ria foi ganhando import\u00e2ncia e fama. E tudo colaborou para ele se tornar o quadro mais importante da arte brasileira&#8221;, diz Tarsilinha.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Itiner\u00e1rio de uma obra<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o Abaporu n\u00e3o seria de Oswald por muito tempo. No fim de 1929, Tarsila e ele se separaram. Na hora da divis\u00e3o dos bens, a pintora ofereceu ao poeta, de sua cole\u00e7\u00e3o, uma obra muito mais valorizada, \u00e0 \u00e9poca &#8211;\u00a0<i>O Enigma de Um Dia, de Giorgio de Chirico<\/i>\u00a0(1888-1978). E ficou com seu homem que come.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1928, o quadro foi exibido pela primeira vez em uma exposi\u00e7\u00e3o, em Paris. No ano seguinte, integraria as duas primeiras mostras individuais de Tarsila, uma em S\u00e3o Paulo, outra no Rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Abaporu voltaria a ser exibido em terras cariocas em 1933. Em 1950, o quadro foi exibido no Museu de Arte Moderna (MAM) de S\u00e3o Paulo. Dois anos depois, integrou nova mostra no MAM. O Abaporu participaria ainda de duas bienais: a VII de S\u00e3o Paulo, em 1963, e a XXXII de Veneza, em 1964.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1969, o quadro participou de uma turn\u00ea por v\u00e1rias cidades brasileiras, na mostra\u00a0<i>Tarsila: 50 Anos de Pintura<\/i>. Tr\u00eas anos mais tarde, estaria novamente exposto em S\u00e3o Paulo, na comemora\u00e7\u00e3o dos 50 anos da Semana de Arte Moderna de 1922.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas nos anos 1960, Tarsila havia vendido o quadro para o colecionador Pietro Maria Bardi (1900-1999), fundador do Museu de Arte de S\u00e3o Paulo (Masp). Conforme Tarsilinha conta em seu livro\u00a0<i>Abaporu: Uma Obra de Amor<\/i>, &#8220;a pintora nutria uma expectativa de que o quadro passasse a integrar permanentemente o acervo de um museu&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bardi preferiu fazer dinheiro. Menos de um m\u00eas depois da aquisi\u00e7\u00e3o, revendeu a obra para o colecionador \u00c9rico Stickel (1920-2004). Em 1984, o galerista Raul Forbes comprou o quadro por US$ 250 mil &#8211; ent\u00e3o o valor mais caro j\u00e1 pago por uma pintura brasileira. Em 1995, Forbes decidiu leiloar Abaporu na famosa Christie&#8217;s, em Nova York. Foi arrematada pelo empres\u00e1rio argentino Eduardo Constantini, por US$ 1,35 milh\u00e3o &#8211; novamente um recorde nacional.<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption body-narrow-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/304\/cpsprodpb\/2BDD\/production\/_106292211_malba2.png\" alt=\"Duas m\u00e3os com luvas seguram o Abaporu\" width=\"412\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"304\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Imagem do museu em Buenos Aires mostra o processo de preparo da obra antes de ser embarcada para o Brasil | Foto: Instagram do Museu Malba<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Constantini criaria o Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires, o Malba, para o qual doou a cole\u00e7\u00e3o. O Abaporu voltaria a ser exibido no Brasil em 2008, em mostra na Pinacoteca do Estado, em S\u00e3o Paulo; em 2011, no Pal\u00e1cio do Planalto, em Bras\u00edlia; e em 2016, no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a exposi\u00e7\u00e3o no Masp desde nesta sexta-feira (5), o quadro chega \u00e0 casa sonhada por Tarsila &#8211; a renomada institui\u00e7\u00e3o criada pelo homem para quem ela vendeu a obra, Pietro Bardi.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">O quadro mais caro do Brasil<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como o Abaporu n\u00e3o est\u00e1 \u00e0 venda, a refer\u00eancia mais precisa que pode ser utilizada para estimar seu valor \u00e9 o seguro feito durante exposi\u00e7\u00f5es. No ano passado, quando esteve exposto no MoMA, o museu de arte moderna de Nova York, a ap\u00f3lice garantia US$ 45 milh\u00f5es. Questionados pela reportagem, nem o Masp nem o Malba informaram se o valor foi aumentado para a exibi\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 BBC News Brasil, o argentino Eduardo Constantini, fundador e presidente do Malba, n\u00e3o economizou elogios \u00e0 obra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Sem d\u00favida \u00e9 a pe\u00e7a mais representativa e valiosa da arte brasileira. Sua iconicidade cresce ano a ano, como um mito tamb\u00e9m da arte latino-americana&#8221;, pontua. &#8220;Seu valor estimado hoje \u00e9 imposs\u00edvel de ser definido, mas \u00e9 muito superior a US$ 45 milh\u00f5es.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tarsilinha revela que, em 2011, a ent\u00e3o presidente Dilma Rousseff perguntou a Constantini quanto custaria repatriar a obra. &#8220;Eu estava ao lado e ele falou em US$ 200 milh\u00f5es&#8221;, conta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O atual recorde financeiro atingido por uma obra de arte brasileira \u00e9 outro quadro de Tarsila. A Lua, pintado em 1928, foi comprado em fevereiro deste ano pelo MoMA por US$ 20 milh\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;As obras dela est\u00e3o alcan\u00e7ando valores estratosf\u00e9ricos, e isso valoriza os demais quadros tamb\u00e9m&#8221;, comenta Tarsilinha. &#8220;Tarsila do Amaral est\u00e1 come\u00e7ando a ganhar relev\u00e2ncia para o mundo.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Professora de Hist\u00f3ria da Arte da ABRA &#8211; Escola de Arte e Design, de S\u00e3o Paulo, a arquiteta M\u00e1rcia Iabutti considera que, a despeito das cifras das ap\u00f3lices, o Abaporu \u00e9 uma rara obra &#8220;de valor inestim\u00e1vel&#8221;. &#8220;\u00c9 s\u00edmbolo de um movimento e carrega todo um contexto junto a ela&#8221;, comenta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O marchand e doutor em hist\u00f3ria da arte Ol\u00edvio Guedes tem da mesma opini\u00e3o. Para ele, o quadro \u00e9 daqueles que &#8220;valem cada cent\u00edmetro&#8221;. &#8220;O mercado tem vida pr\u00f3pria e numa eventual negocia\u00e7\u00e3o futura \u00e9 ele quem dir\u00e1 o pre\u00e7o&#8221;, afirma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Guedes d\u00e1 a equa\u00e7\u00e3o que faz com que um quadro desse quilate seja valorizado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Uma obra de arte \u00e9 not\u00f3ria por v\u00e1rios sentidos: o artista, seus relacionamentos, seu momento hist\u00f3rico e suas rela\u00e7\u00f5es com o per\u00edodo&#8221;, resume.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tarsila foi inventiva quanto \u00e0s t\u00e9cnicas, era do circuito considerado a elite intelectual brasileira dos anos 1920 e traduziu, com seu trabalho, o contexto cultural de ent\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Somando tudo isso temos seu status e, portanto, sua contabiliza\u00e7\u00e3o financeira&#8221;, completa Guedes. &#8220;Abaporu \u00e9 uma obra com curr\u00edculo pr\u00f3prio.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/FE0F\/production\/_106293056_autorretrato2.jpg\" alt=\"Autorretrato de Tarsila do Amaral\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Autorretrato de Tarsila do Amaral; pintora traduziu, com seu trabalho, o contexto cultural de sua \u00e9poca e meio | Imagem: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">O marchand acredita que at\u00e9 o fato de a obra pertencer a uma institui\u00e7\u00e3o estrangeira contribuiu para a valoriza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;\u00c9 status&#8221;, diz. &#8220;Por\u00e9m, \u00e9 p\u00e9ssimo n\u00e3o t\u00ea-la (no Brasil).&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Guedes compara com o fato de a Mona Lisa, obra m\u00e1xima do italiano Leonardo da Vinci (1452-1519), estar no franc\u00eas Museu do Louvre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tarsilinha diz que, no \u00edntimo, tamb\u00e9m gostaria que a obra mais importante da tia-av\u00f3 estivesse no pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Claro que eu ficaria feliz com esse quadro no Brasil. Por outro lado, acho que para a arte brasileira a venda do Abaporu foi important\u00edssima. A arte brasileira come\u00e7ou a ter um car\u00e1ter internacional depois disso&#8221;, avalia, comentando que, sobretudo ap\u00f3s a mostra realizada ano passado no MoMA, a obra da artista tem despertado muito interesse em outros pa\u00edses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Estivesse recentemente em Paris, no Centro Georges Pompidou, e o diretor me disse ter interesse em uma mostra da Tarsila. A brit\u00e2nica Tate Modern tamb\u00e9m j\u00e1 se manifestou nesse sentido.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Iabutti lamenta profundamente o Abaporu n\u00e3o integrar nenhuma cole\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Fere o orgulho nacional. N\u00e3o tem o menor sentido&#8221;, afirma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 a cr\u00edtica e curadora Aracy Amaral, professora de Hist\u00f3ria da Arte da Universidade de S\u00e3o Paulo, tem outra opini\u00e3o. Para ela, \u00e9 importante que a obra da Tarsila perten\u00e7a a uma institui\u00e7\u00e3o estrangeira, pela visibilidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;\u00c9 uma honra o Abaporu estar em cole\u00e7\u00e3o t\u00e3o prestigiada como o Malba. Assim como \u00e9 uma honra A Lua integrar o MoMA&#8221;, cita. &#8220;S\u00e3o cole\u00e7\u00f5es do mais alto n\u00edvel internacional. Nessas institui\u00e7\u00f5es, as obras s\u00e3o cuidadas e vistas por um grande p\u00fablico.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Interpreta\u00e7\u00f5es<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o que \u00e9, afinal, o Abaporu? A leitura de Oswald de Andrade e Raul Bopp acabou dominando o imagin\u00e1rio: aquela criatura canibal simbolizaria o brasileiro devorando a cultura europeia e refazendo-a ao seu modo. &#8220;Era um grupo maluco que falava que a gente pode comer o europeu e depois criar uma coisa nova&#8221;, diz Iabutti.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;\u00c9 uma obra muito interessante, porque traduz o sentimento de brasilidade&#8221;, prossegue a professora. &#8220;Abaporu tem uma composi\u00e7\u00e3o muito limpa, muito concisa. \u00c9 uma pessoa agigantada, de uma pessoa com p\u00e9s e m\u00e3os muito grandes, como se fosse o trabalhador. \u00c9 a representa\u00e7\u00e3o do brasileiro, sendo visto de baixo para cima, com rosto indefinido, como se n\u00e3o fosse uma s\u00f3 pessoa. Tem a cabe\u00e7a pequena, os bra\u00e7os e as pernas grandes &#8211; uma cr\u00edtica social.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2014, Tarsilinha lan\u00e7ou em livro uma tese inusitada para explicar a obra da tia-av\u00f3. Em\u00a0<i>Abaporu: Uma Obra de Amor<\/i>, ela traz evid\u00eancias de que a pintura seja um autorretrato de Tarsila, provavelmente nua, feita como presente ao marido.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1733F\/production\/_106293059_tarsiladoamaralsobrinhaehomnimadeabaporuemfrenteaoquadro-arquivopessoal.png\" alt=\"Tarsilinha posa em frente ao Abaporu, pe\u00e7a ic\u00f4nica de sua tia-av\u00f3\" width=\"549\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Tarsilinha faz pesquisas sobre a obra da tia-av\u00f3 | Foto: Arquivo pessoal<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tarsilinha recorreu a pesquisas familiares para corroborar a vers\u00e3o. Ela descobriu que na casa onde a artista morava com Oswald, um sobrado na Rua Bar\u00e3o de Piracicaba, regi\u00e3o central de S\u00e3o Paulo, havia um grande espelho que ficava inclinado no corredor que dava para seu quarto-ateli\u00ea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O reflexo, distorcido por conta da posi\u00e7\u00e3o inclinada do espelho, mexeu com a imagina\u00e7\u00e3o da artista. Foi um estalo. Ela sabia perceber a poesia nos detalhes, tinha esse faro art\u00edstico agu\u00e7ado de quem n\u00e3o enxerga o \u00f3bvio nas coisas, mas vai al\u00e9m. Tarsila viu na cena uma oportunidade de cria\u00e7\u00e3o&#8221;, relata ela, no livro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;No espelho, a cabe\u00e7a da artista aparecia bem pequena. O p\u00e9, gigante. Seus olhos de pintora se encantaram com aquela vis\u00e3o inusitada, diferente e, por isso mesmo, interessante.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Tarsila deve ter gastado muito tempo se observando. Horas, talvez. O p\u00e9 imenso\u2026 A cabe\u00e7a, min\u00fascula\u2026 A boca e os olhos quase sumindo, a m\u00e3o ca\u00edda ao lado do p\u00e9 grande\u2026 Que figura diferente!&#8221;, prossegue. &#8220;Aquela imagem lhe parecia provocativa, ousada, perfeita, bem-humorada. Ficou gravada em sua retina, grudada em seu pensamento. Tornou-se uma insistente obsess\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um outro indicativo \u00e9 anat\u00f4mico. De acordo com relatos familiares colhidos por Tarsilinha, a artista, assim como a figura que aparece no famoso quadro, tamb\u00e9m tinha o segundo dedo do p\u00e9 maior do que o ded\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Sem d\u00favida \u00e9 a pe\u00e7a mais representativa e valiosa da arte brasileira. 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