{"id":279211,"date":"2019-04-07T10:53:41","date_gmt":"2019-04-07T13:53:41","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=279211"},"modified":"2019-04-07T10:53:41","modified_gmt":"2019-04-07T13:53:41","slug":"cantico-dos-canticos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/cantico-dos-canticos\/","title":{"rendered":"C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"articulo__apertura\" style=\"text-align: justify;\">\n<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div class=\"articulo-encabezado-texto\">\n<div id=\"articulo-titulares\" class=\"articulo-titulares\">\n<div class=\"articulo-subtitulos\">\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\"><em>\u00c9 justo que se preste uma homenagem a V\u00edctor Garc\u00eda de la Concha. Seu \u00faltimo livro \u00e9 uma edi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica do C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos de Salom\u00e3o, traduzido do hebraico pelo frei Luis de Le\u00f3n<\/em><\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"articulo-apertura \">\n<div class=\"firma \">\n<div class=\"autor\">\n<div class=\"autor-texto\"><span class=\"autor-nombre\"><a title=\"Ver todas as not\u00edcias de Mario Vargas Llosa\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/mario_vargas_llosa\/a\/\">MARIO VARGAS LLOSA<\/a><\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"articulo-datos\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<figure class=\"foto  izquierda  foto_w360\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2019\/04\/05\/opinion\/1554478403_212182_1554561810_noticia_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2019\/04\/05\/opinion\/1554478403_212182_1554561810_noticia_normal_recorte1.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2019\/04\/05\/opinion\/1554478403_212182_1554561810_noticia_normal.jpg 360w\" alt=\"C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos\" width=\"360\" height=\"599\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">FERNANDO VICENTE<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma oportuna arritmia salvou\u00a0<a href=\"https:\/\/es.wikipedia.org\/wiki\/V%C3%ADctor_Garc%C3%ADa_de_la_Concha\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">V\u00edctor Garc\u00eda de la Concha<\/a>\u00a0da homenagem que ir\u00edamos prestar-lhe em C\u00f3rdoba (Argentina) durante o oitavo Congresso da L\u00edngua realizado recentemente na cidade. Tivemos de nos contentar com um bom document\u00e1rio sobre seus esfor\u00e7os acad\u00eamicos para refor\u00e7ar o car\u00e1ter unit\u00e1rio do espanhol, apesar de ser incessantemente irrigado por mais de vinte pa\u00edses no mundo. Mas n\u00e3o se livrar\u00e1 por muito tempo, j\u00e1 que o\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/instituto_cervantes\">Instituto Cervantes<\/a>\u00a0pretende entregar a ele em Madri a medalha que ficou sem destinat\u00e1rio nessa ocasi\u00e3o. Eu, da minha parte, o homenageei lendo seu \u00faltimo livro:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.libreriaalberti.com\/libros\/cantar-de-cantares-de-salomon-edicion-de-victor-garcia-de-la-concha\/9788494823237\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">uma edi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica do\u00a0<em>C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos<\/em>\u00a0de Salom\u00e3o<\/a>, traduzido do hebraico pelo frei Luis de Le\u00f3n, publicado recentemente pela Editora Vaso Roto em sua cole\u00e7\u00e3o Esenciales Poes\u00eda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 um livro impec\u00e1vel, lido do in\u00edcio ao fim com imenso prazer; ainda que tamb\u00e9m com certa indigna\u00e7\u00e3o, porque, por escrev\u00ea-lo e pelas intrigas dos eternos invejosos, o infeliz frei Luis de Le\u00f3n ficou v\u00e1rios anos preso em Valladolid e foi torturado pela Inquisi\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, nunca viu editada essa bela tradu\u00e7\u00e3o publicada somente duzentos anos ap\u00f3s sua morte (em 1798). Em sua apresenta\u00e7\u00e3o, Garc\u00eda de la Concha d\u00e1 todos os dados necess\u00e1rios para se conhecer a hist\u00f3ria do poema e das vicissitudes dolorosas que significou para o frei Luis de Le\u00f3n \u2013 incluindo o julgamento intermin\u00e1vel a que foi submetido \u2013 se arriscar a traduzi-lo do hebraico \u00e0 l\u00edngua castelhana.<\/p>\n<section id=\"sumario_3|despiece\" class=\"sumario_despiece derecha\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<header class=\"sumario-encabezado\">\n<h4 class=\"sumario-titulo\"><span class=\"sin_enlace\">OUTROS ARTIGOS DO AUTOR<\/span><\/h4>\n<\/header>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com a lenda, o rei Salom\u00e3o teve setecentas mulheres e trezentas concubinas. Mas nenhuma delas o inspirou como a filha do Fara\u00f3, a sulamita, um poema t\u00e3o profundo e terreno como esse c\u00e2ntico que, apesar de suas ousadas e voluptuosas imagens, se recitava primeiro na Pascoa judaica (ainda que os judeus s\u00f3 pudessem l\u00ea-lo ap\u00f3s completar quarenta anos) e fazia parte do Antigo Testamento. Nesta edi\u00e7\u00e3o, cuidadosamente anotada, est\u00e3o tamb\u00e9m as\u00a0<em>Explica\u00e7\u00f5es<\/em>\u00a0\u00e0 sua tradu\u00e7\u00e3o escritas por frei Luis de Le\u00f3n e que, pela delicadeza e perfei\u00e7\u00e3o de sua prosa, assim como pela sabedoria de suas an\u00e1lises e observa\u00e7\u00f5es filol\u00f3gicas, s\u00e3o um complemento indispens\u00e1vel do poema. A liberdade das efus\u00f5es trocadas pelos amantes brilha desde os primeiros versos do poema com a ardente proclama\u00e7\u00e3o da Esposa: \u201cBeije-me com beijos de sua boca \/ porque seus amores s\u00e3o melhores do que o vinho\u201d.<\/p>\n<section id=\"sumario_1|html\" class=\"sumario_html izquierda\"><a name=\"sumario_1\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p class=\"texto_grande\">V\u00edctor Garc\u00eda de la Concha foi um excepcional cr\u00edtico da poesia m\u00edstica espanhola<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fiel \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o, frei Luis lembra de tempos em tempos em suas Explica\u00e7\u00f5es que, na verdade, o\u00a0<em>C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos<\/em>\u00a0\u00e9 uma alegoria, ou seja, uma paix\u00e3o figurada que narra a inquebrant\u00e1vel uni\u00e3o de Deus e da Igreja e que, portanto, os galanteios e car\u00edcias desenfreadas dos esposos ao longo do poema n\u00e3o s\u00e3o carnais e sim espirituais e simb\u00f3licos. Temo que ningu\u00e9m que o leia em nossos incr\u00e9dulos tempos engula semelhante teoria. Mas, talvez, n\u00e3o seja t\u00e3o absurdo o contr\u00e1rio; ou seja, que a maestria art\u00edstica com que \u00e9 descrita essa paix\u00e3o ardente que possui os amantes a carrega de espiritualidade e lhe confere uma dimens\u00e3o que transcende a vida meramente vivida, desejada e consumada e a enriquece com uma proje\u00e7\u00e3o religiosa e ultraterrena.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O autor do poema e, seja como for, seu tradutor ao espanhol, conheciam o amor, a atra\u00e7\u00e3o da mulher, os jogos da sedu\u00e7\u00e3o, os segredos do desejo, e haviam imaginado (e talvez vivido) a felicidade e o gozo f\u00edsico que o texto evoca com tanto refinamento e delicadeza. Os amantes se observam, se examinam, se excitam, se despem e fazem amor. Tamb\u00e9m brincam, disfar\u00e7ados de pastorinhos, correm pelos campos, se escondem entre as \u00e1rvores e em meio aos rebanhos de cabras, simulam se perder e, ent\u00e3o, a Esposa perde a raz\u00e3o e, correndo todos os riscos, durante a noite se lan\u00e7a pelas ruas de Jerusal\u00e9m \u00e0 procura de seu Amado. Tudo aquilo \u00e9 um ingrediente do jogo teatral que fez parte da paix\u00e3o dos casais ao longo dos s\u00e9culos; e, entretanto, a poesia do\u00a0<em>C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos<\/em>\u00a0o transforma em uma experi\u00eancia singular, excepcional e \u00fanica. Era talvez a isso que se referia Jorge Guill\u00e9n quando chamou o poema de um \u201cc\u00e2ntico prodigioso\u201d. N\u00e3o resta a menor d\u00favida de que o \u00e9 e, para os leitores deste tempo, como \u00e9 maravilhoso, como \u00e9 atual, como nos fala diretamente de um amor que conhecemos, como parece extraordinariamente pr\u00f3ximo \u00e0 poesia experimental e de vanguarda, gra\u00e7as ao atrevimento de suas met\u00e1foras e ao deslocamento de sua sintaxe, \u00e0 liberdade exercida por seu autor a cada verso. Na grande poesia h\u00e1 sempre algo superlativo e inef\u00e1vel, que nos fascina ao mesmo tempo em que nos assusta, pois nos abre as portas \u2013 ou as frestas \u2013 desse \u201coutro lado\u201d que a vida tamb\u00e9m tem e que somente a grande arte \u2013 a poesia e a m\u00fasica \u2013 s\u00e3o capazes de nos fazer entrever. H\u00e1 muito tempo n\u00e3o tinha tanto prazer lendo um poema que n\u00e3o havia relido desde meus tempos de estudante.<\/p>\n<section id=\"sumario_2|html\" class=\"sumario_html izquierda\"><a name=\"sumario_2\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p class=\"texto_grande\">O autor do poema e, seja como for, seu tradutor ao espanhol, conheciam o amor, a atra\u00e7\u00e3o da mulher, os jogos da sedu\u00e7\u00e3o, os segredos do desejo<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 justo que se preste uma homenagem a V\u00edctor Garc\u00eda de la Concha. Foi um excepcional cr\u00edtico da poesia m\u00edstica espanhola, e poucos analistas descreveram com a flu\u00eancia e eleg\u00e2ncia com que ele o fez, no livro fundamental que \u00e9\u00a0<em>Al Aire de Su Vuelo<\/em>, a poesia de santa Teresa, de s\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz e do pr\u00f3prio frei Luis de Le\u00f3n. A poesia m\u00edstica \u00e9 algo mais do que poesia, o testemunho de um encontro inusitado em que seres excepcionais cruzam uma fronteira misteriosa rumo a algo al\u00e9m do que a raz\u00e3o e o conhecimento podem reconhecer, algo a que s\u00f3 se chega atrav\u00e9s do milagre da f\u00e9, e que, justamente por isso, est\u00e1 fora do alcance do ser puramente racionalista e agn\u00f3stico. E, entretanto, a beleza imperec\u00edvel de certas imagens, emo\u00e7\u00f5es e m\u00fasicas, e a ast\u00facia e sutileza do cr\u00edtico, aproximam esses leitores refrat\u00e1rios ao cora\u00e7\u00e3o dessa poesia que \u00e9 mais do que poesia, e permitem que ele compartilhe com seus autores sua embriaguez irracional e sua loucura divina. Mas V\u00edctor Garc\u00eda de la Concha tamb\u00e9m foi um sagaz leitor do romance moderno espanhol e latino-americano, como mostrou em sua cole\u00e7\u00e3o de ensaios\u00a0<em>Cinco Novelas en Clave Simb\u00f3lica<\/em>, publicada em 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como diretor do Instituto Cervantes, no que foi provavelmente o per\u00edodo mais cr\u00edtico da crise econ\u00f4mica na Espanha, lutou n\u00e3o s\u00f3 para n\u00e3o fechar nenhum centro do Instituto Cervantes como para abrir v\u00e1rios outros em diversos continentes. E foi um diretor excepcional da Real Academia Espanhola, que trabalhou de maneira incans\u00e1vel para estreitar os v\u00ednculos entre todas as academias americanas e a espanhola, de modo que despareceram as reservas e dist\u00e2ncias que anteriormente frustraram essa colabora\u00e7\u00e3o. A vitalidade e o impulso crescente do espanhol pelo mundo t\u00eam h\u00e1 muitos anos nesse antigo professor da Universidade de Salamanca um de seus melhores guardi\u00f5es.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 justo que se preste uma homenagem a V\u00edctor Garc\u00eda de la Concha. 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