{"id":282758,"date":"2019-05-12T11:06:07","date_gmt":"2019-05-12T14:06:07","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=282758"},"modified":"2019-05-12T11:06:07","modified_gmt":"2019-05-12T14:06:07","slug":"ter-filhos-ou-escrever-livros-escritoras-que-refletiram-sobre-a-maternidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/ter-filhos-ou-escrever-livros-escritoras-que-refletiram-sobre-a-maternidade\/","title":{"rendered":"Ter filhos ou escrever livros? Escritoras que refletiram sobre a maternidade"},"content":{"rendered":"<div class=\"articulo__apertura\">\n<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div class=\"articulo-encabezado-texto\">\n<div id=\"articulo-titulares\" class=\"articulo-titulares\">\n<h1 id=\"articulo-titulo\" class=\"articulo-titulo \" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"articulo-subtitulos\" style=\"text-align: justify;\">\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\">De Natalia Ginzburg a Zadie Smith, v\u00e1rias autoras refletiram sobre as tens\u00f5es entre maternidade e cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria<\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"articulo-apertura \" style=\"text-align: justify;\">\n<figure class=\"foto superior foto_w980\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2019\/05\/02\/cultura\/1556793186_130621_1557246263_noticia_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2019\/05\/02\/cultura\/1556793186_130621_1557246263_noticia_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2019\/05\/02\/cultura\/1556793186_130621_1557246263_noticia_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2019\/05\/02\/cultura\/1556793186_130621_1557246263_noticia_normal.jpg 980w\" alt=\"Dia das M\u00e3es\" width=\"980\" height=\"602\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">A escritora norte-americana Shirley Jackson com seus quatro filhos, em sua casa, em 1956<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">ERICH HARTMANN<\/span>\u00a0<span class=\"foto-agencia\">MAGNUM<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"firma \">\n<div class=\"autor\">\n<div class=\"autor-texto\"><span class=\"autor-nombre\"><a title=\"Ver todas as not\u00edcias de Aloma Rodr\u00edguez\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/aloma_rodriguez_gascon\/a\/\">ALOMA RODR\u00cdGUEZ<\/a><\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"articulo-datos\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Natalia_Ginzburg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Natalia Ginzburg<\/a>\u00a0(1916-1991) contava que, no come\u00e7o, quando foi\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/maternidad\"><strong>m\u00e3e<\/strong><\/a>, n\u00e3o entendia como era poss\u00edvel escrever tendo filhos. \u201cN\u00e3o entendia como poderia me separar deles para seguir o personagem de uma hist\u00f3ria\u201d, escreve no ensaio\u00a0<em>Meu Of\u00edcio<\/em>, inclu\u00eddo em\u00a0<em>As Pequenas Virtudes<\/em>\u00a0(Cosac Naify, esgotado). Ginzburg teve cinco filhos e publicou romances, ensaios e pe\u00e7as de teatro, ent\u00e3o encontrou um jeito. Mas a ambival\u00eancia em torno da maternidade continua sendo objeto de reflex\u00f5es, e a rela\u00e7\u00e3o entre\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/literatura\">escrever<\/a> e criar filhos vai ganhando espa\u00e7o nas livrarias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 o motor da crise existencial tratada em\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/04\/26\/internacional\/1556264752_630548.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>Maternidade<\/em>(Companhia das Letras, 2019), em que Sheila Heti<\/a>\u00a0busca averiguar se quer ter filhos. Tamb\u00e9m em\u00a0<em>La Mejor Madre del Mundo<\/em>\u00a0(in\u00e9dito no Brasil), da espanhola Nuria Labari, a narradora acredita que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ser m\u00e3e e\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/escritores\">escritora<\/a>. \u201cSou uma m\u00e3e amadora e j\u00e1 estou acabada: escrevo pelas costas das minhas filhas, como se elas n\u00e3o fossem o suficiente\u201d, confessa. E um pouco mais adiante: \u201cAs artistas com talento s\u00e3o filhas, sempre filhas de suas m\u00e3es, por mais que tenham descend\u00eancia. As boas escritoras escrevem sobre serem filhas ou sobre qualquer assunto onde seu ponto de vista possa ser o centro do mundo (\u2026). J\u00e1 uma m\u00e3e \u00e9 o sat\u00e9lite de outro ser mais importante. Uma m\u00e3e \u00e9 a ant\u00edtese do eu criador\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma postura intermedi\u00e1ria foi adotada por Laura Sandler em um provocador artigo publicado em 2013 pela revista\u00a0<em>The Atlantic<\/em>. Intitulado\u00a0<em>O Segredo de Ser Uma Escritora de Sucesso e M\u00e3e: Ter S\u00f3 Um Filho<\/em>, aquele texto desatou uma pol\u00eamica da qual participou, entre outras, Zadie Smith. Sandler se baseava na resposta da artista Alice Walker \u00e0 pergunta sobre se criadoras devem ter filhos: \u201cDevem ter filhos \u2013 supondo-se que desejem \u2013, mas s\u00f3 um. Com um voc\u00ea consegue se movimentar. Com mais voc\u00ea \u00e9 como uma pata choca\u201d. Sandler observa que Walker teve um s\u00f3 filho, como Susan Sontag, Elizabeth Hardwick, Joan Didion e Margaret Atwood. Zadie Smith respondeu: \u201cTenho dois filhos. Dickens teve 10 \u2013 e acho que Tolst\u00f3i tamb\u00e9m. Algu\u00e9m se preocupou em algum momento se esses homens eram pais demais para serem escritores?\u201d. O que incomodou Smith foi a sugest\u00e3o de que ter filhos diminui a criatividade: \u201cA simples ideia de que a maternidade seja obrigatoriamente uma amea\u00e7a para a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/creatividad\">criatividade<\/a>\u00a0\u00e9 totalmente absurda. A verdadeira amea\u00e7a para a liberdade \u00e9 o problema da falta de tempo, que \u00e9 igual se voc\u00ea for escritora, enfermeira ou trabalhar em uma f\u00e1brica\u201d. Conciliar a maternidade com a escrita, ou com qualquer outro trabalho, tem a ver, como observou Jane Smiley por conta dessa discuss\u00e3o, com algo mais tang\u00edvel: \u201cO segredo n\u00e3o est\u00e1 em ter s\u00f3 um filho, e sim em viver onde h\u00e1 boas creches e seja socialmente aceito que os\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/10\/27\/actualidad\/1540642938_849795.html\">homens dediquem tempo a participar da educa\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0de seus filhos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Contra os Filhos<\/em>\u00a0(Todavia), da chilena Lina Meruane, exp\u00f5e um argumento um pouco mais ousado: ataca o lugar central das crian\u00e7as na vida dos progenitores. Nesse livro, revisto e ampliado na edi\u00e7\u00e3o de 2018, Meruane fala sobre c\u00e9lebres escritoras sem filhos: Teresa de \u00c1vila, Emily Dickinson, Jane Austen, Katherine Mansfield, Dorothy Parker e\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/virginia_woolf\">Virginia Woolf<\/a>. Embora a lista de escritoras m\u00e3es seja igualmente longa, Meruane acredita que \u201ctodas s\u00e3o assombradas por esse anjo transtornador que as incita a escolher\u201d. E se a escolha tiver que ser feita, uma resposta frequente \u00e9 a dada por\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/clarice_lispector\">Clarice Lispector<\/a>: \u201cEu desistiria da literatura. N\u00e3o tenho d\u00favidas de que como m\u00e3e sou mais importante que como escritora\u201d. Claro que tamb\u00e9m h\u00e1 exemplos de autoras que, diante da alternativa, deixaram seus filhos, caso de Doris Lessing e Muriel Spark, como aponta Meruane.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O assunto, entretanto, n\u00e3o \u00e9 tanto uma quest\u00e3o ontol\u00f3gica quanto material, de organiza\u00e7\u00e3o do tempo.\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/alice_munro\">Alice Munro<\/a>, uma ganhadora do Nobel que s\u00f3 publicou seu primeiro livro de contos aos 37 anos, sempre disse que escrevia contos em vez de romances porque era o que conseguia durante as sestas de seus filhos. Edna O\u2019Brien, entretanto, n\u00e3o renunciou a se lan\u00e7ar com um romance aproveitando o hor\u00e1rio escolar, como conta em\u00a0<em>Country Girl<\/em>: \u201cDeixava-os na escola e voltava correndo para casa para escrever; sentava-me no amplo parapeito da janela do quarto deles, que era bastante profundo, e escrevia em blocos de anota\u00e7\u00f5es comprados na Irlanda, chamados Aisling, que em ga\u00e9lico significa\u00a0<em>sonho<\/em>\u00a0ou\u00a0<em>vis\u00e3o<\/em>. (\u2026) Cada dia \u00e0s 13h45, hor\u00e1rio em que levava ao meu marido sua bandeja com ch\u00e1 Earl Grey e duas torradas ligeiramente queimadas com um pouco de azeite de oliva, soltava o bloco de anota\u00e7\u00f5es com a esperan\u00e7a de que o cap\u00edtulo do dia seguinte se mantivesse intacto em mim\u201d.<\/p>\n<section id=\"sumario_1|html\" class=\"sumario_html izquierda\"><a name=\"sumario_1\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p class=\"texto_grande\">Shirley Jackson usava o tema dom\u00e9stico para escrever textos autopar\u00f3dicos sobre sua vida como dona de casa<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um caso paradigm\u00e1tico da turbulenta rela\u00e7\u00e3o entre as tarefas de uma m\u00e3e de fam\u00edlia e a literatura \u00e9 Shirley Jackson, autora de\u00a0<em>A Assombra\u00e7\u00e3o da Casa da Colina<\/em>\u00a0e refer\u00eancia, entre outros, para Stephen King. Ela se definia como \u201cuma escritora que, por uma s\u00e9rie de erros de avalia\u00e7\u00e3o pr\u00f3prios da ingenuidade e da ignor\u00e2ncia, se v\u00ea mergulhada em uma fam\u00edlia com quatro filhos e um marido, numa casa de 18 c\u00f4modos, sem nenhuma ajuda\u201d. Jackson usava o tema dom\u00e9stico para escrever textos autopar\u00f3dicos sobre sua vida como dona de casa, mas tamb\u00e9m lhe servia de inspira\u00e7\u00e3o para sua literatura mais fant\u00e1stica.\u00a0<em>Let Me Tell You<\/em>\u00a0(sem tradu\u00e7\u00e3o no Brasil) re\u00fane muitos de seus textos sobre seu of\u00edcio e sobre como se organizava para conseguir horas de escrita. Conta que se distra\u00eda da monotonia das tarefas dom\u00e9sticas imaginando hist\u00f3rias. \u201cUm escritor sempre est\u00e1 escrevendo\u201d, diz Jackson. Tampouco uma m\u00e3e deixa de s\u00ea-lo. Mas aprende a conciliar, como descobriu Natalia Ginzburg: \u201cO que eu sentia por meus filhos era um sentimento que ainda n\u00e3o tinha aprendido a dominar. Depois fui aprendendo pouco a pouco. Nem sequer demorei muito. Ainda preparava molho de tomate e sopa de s\u00eamola, mas ia pensando no que escreveria.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escrever e criar os filhos s\u00e3o coisas que ocorrem num mesmo espa\u00e7o, o da casa, e talvez por isso todas as escritoras m\u00e3es procurem com ainda mais afinco aquele \u201cum quarto s\u00f3 seu\u201d de Virginia Woolf. E, se tiver trinco, melhor ainda.<\/p>\n<p class=\"nota_pie\" style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Aloma Rodr\u00edguez<\/em><\/strong>\u00a0<em>\u00e9 escritora e tradutora.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Natalia Ginzburg\u00a0(1916-1991) contava que, no come\u00e7o, quando foi\u00a0m\u00e3e, n\u00e3o entendia como era poss\u00edvel escrever tendo filhos. \u201cN\u00e3o entendia como poderia me separar deles para seguir o personagem de uma hist\u00f3ria\u201d, escreve no ensaio\u00a0Meu Of\u00edcio, inclu\u00eddo em\u00a0As Pequenas V<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":282759,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-282758","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/escritora-preta.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/282758","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=282758"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/282758\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/282759"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=282758"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=282758"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=282758"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}