{"id":282852,"date":"2019-05-13T10:53:11","date_gmt":"2019-05-13T13:53:11","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=282852"},"modified":"2019-05-13T10:53:11","modified_gmt":"2019-05-13T13:53:11","slug":"13-de-maio-como-dois-estados-brasileiros-aboliram-a-escravidao-antes-de-1888","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/13-de-maio-como-dois-estados-brasileiros-aboliram-a-escravidao-antes-de-1888\/","title":{"rendered":"13 de maio: como dois Estados brasileiros aboliram a escravid\u00e3o antes de 1888"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"byline\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"byline__name\">Camilla Veras Mota<\/span><\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/CCBB\/production\/_106911425_18e75abe-7ba3-4587-825d-813248ead496.jpg\" alt=\"Pintura da sess\u00e3o parlamentar que aboliu a escravid\u00e3o no Cear\u00e1, em 1884\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span>Pintura da sess\u00e3o parlamentar que aboliu a escravid\u00e3o no Cear\u00e1 em 1884: articula\u00e7\u00e3o nacional<\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\" style=\"text-align: justify;\">Em 30 de agosto 1881, um grupo de jangadeiros respons\u00e1veis pelo embarque de mercadorias no porto da capital da prov\u00edncia do Cear\u00e1 entrava em greve.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Liderados por Jos\u00e9 Lu\u00eds Napole\u00e3o, um escravo liberto que comprara a pr\u00f3pria liberdade &#8211; e a de quatro irm\u00e3s &#8211; com suas economias, e por Francisco Jos\u00e9 Nascimento, filho de pescadores da cidade de Aracati, eles se recusavam a transportar os negros escravizados que seriam levados dali para outras prov\u00edncias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 tinham se passado 30 anos desde que o tr\u00e1fico transatl\u00e2ntico havia sido proibido e uma d\u00e9cada da Lei do Ventre Livre, que considerava livres todos os filhos de mulheres escravizadas nascidos a partir de sua promulga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A escravid\u00e3o no Brasil, entretanto, se mantinha &#8211; ainda que sob uma oposi\u00e7\u00e3o crescente da opini\u00e3o p\u00fablica, em parte influenciada pelo abolicionismo nos EUA e em diversos outros pa\u00edses, e diante da resist\u00eancia dos escravizados contra a explora\u00e7\u00e3o de seu trabalho e a viol\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O simbolismo da insurrei\u00e7\u00e3o dos jangadeiros correu o Imp\u00e9rio.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/F3CB\/production\/_106911426_1db39dc5-821f-41e0-8475-73b5e1c2e38a.jpg\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00e3o Drag\u00e3o do Mar\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Conhecido como Drag\u00e3o do Mar, jangadeiro Francisco Jos\u00e9 do Nascimento foi incorporado \u00e0 &#8216;propaganda&#8217; do movimento abolicionista<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1883, os &#8220;catraieiros&#8221; do Amazonas, que desempenhavam a mesma fun\u00e7\u00e3o dos jangadeiros cearenses &#8211; ligavam o cais do porto aos navios com suas pequenas embarca\u00e7\u00f5es &#8211; tamb\u00e9m entraram em greve e se negaram a transportar os negros escravizados que seriam enviados do Norte a outras regi\u00f5es do territ\u00f3rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No ano seguinte, as duas prov\u00edncias aboliram a escravid\u00e3o &#8211; quatro anos antes da assinatura da Lei \u00c1urea em 13 de maio de 1888.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pioneirismo foi resultado de uma conjun\u00e7\u00e3o de fatores, que v\u00e3o desde o ativismo dos abolicionistas ao papel secund\u00e1rio dos escravizados na economia local.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A articula\u00e7\u00e3o com o movimento nacional, capitaneado por figuras como Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio, Joaquim Nabuco e Andr\u00e9 Rebou\u00e7as, foi determinante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m de avaliarem as causas, especialistas ouvidos pela BBC News Brasil tamb\u00e9m destacam um lado &#8220;obscuro&#8221; e menos discutido da aboli\u00e7\u00e3o antecipada: a liberdade prec\u00e1ria dos alforriados &#8220;sob condi\u00e7\u00e3o&#8221;, que continuavam tendo de prestar servi\u00e7o aos antigos senhores, muitos como empregados dom\u00e9sticos.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">O tr\u00e1fico interprovincial e o &#8216;Drag\u00e3o do Mar&#8217;<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A m\u00e3o de obra escrava n\u00e3o chegou a ser predominante no Cear\u00e1 como o foi nas prov\u00edncias nordestinas de Pernambuco e da Bahia, diz o historiador Eur\u00edpedes Funes, da Universidade Federal do Cear\u00e1 (UFC).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela era usada em paralelo \u00e0 for\u00e7a de trabalho de &#8220;pobres e livres&#8221; e de escravos ind\u00edgenas. Por ser uma \u00e1rea de coloniza\u00e7\u00e3o tardia, acrescenta Franck Ribard, tamb\u00e9m do departamento de Hist\u00f3ria da UFC, o Cear\u00e1 concentrava n\u00famero elevado de ind\u00edgenas, muitos fugidos de outras regi\u00f5es onde eram capturados em massa nas primeiras d\u00e9cadas da coloniza\u00e7\u00e3o e submetidos a trabalhos for\u00e7ados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A economia local era baseada na pecu\u00e1ria, que n\u00e3o demandava a m\u00e3o de obra intensiva da grande empresa a\u00e7ucareira que moveu o Brasil col\u00f4nia nos s\u00e9culos 16 e 17.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Amazonas, por sua vez, era a prov\u00edncia com o menor n\u00famero de homens e mulheres escravizados do Imp\u00e9rio, conta Patr\u00edcia Melo Sampaio, da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com o censo de 1872 &#8211; o primeiro do Brasil -, pouco mais de uma d\u00e9cada antes da aboli\u00e7\u00e3o viviam l\u00e1 979 escravizados, n\u00famero bastante inferior aos 6,6 mil registrados no Mato Grosso, prov\u00edncia que estava imediatamente antes na lista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Sua import\u00e2ncia, contudo, n\u00e3o deve ser minimizada com base nesses dados. A propriedade escrava era um poderoso marcador de distin\u00e7\u00e3o social e de privil\u00e9gios &#8211; e a elite possuidora de escravos tinha clareza disso&#8221;, ressalta a pesquisadora.<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/11ADB\/production\/_106911427_fbn.jpg\" alt=\"Tr\u00e1fico interprovincial criou fluxo de escravizados do Norte e Nordeste para os cafezais do Sudeste\" width=\"853\" height=\"1200\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Tr\u00e1fico interprovincial criou fluxo de escravizados do Norte e Nordeste para os cafezais do Sudeste<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso porque ter escravos significava possuir um bem extremamente valioso em uma sociedade com poucas op\u00e7\u00f5es de cr\u00e9dito e baixa liquidez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m de vend\u00ea-los, os &#8220;senhores&#8221; poderiam alug\u00e1-los para prestar servi\u00e7os a terceiros como amas de leite, criadas, carpinteiros e marceneiros &#8211; e os jornais do Cear\u00e1 dessa \u00e9poca est\u00e3o cheios de an\u00fancios desse tipo &#8211; ou us\u00e1-los como lastro em opera\u00e7\u00f5es mercantis, ou seja, como garantia em caso de n\u00e3o pagamento de d\u00edvidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;\u00c9 preciso compreender a multiplicidade de facetas e do enraizamento da escravid\u00e3o no Brasil imperial, e o Amazonas n\u00e3o escapa desta l\u00f3gica.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso explica, por exemplo, porque o tr\u00e1fico interprovincial ganhou f\u00f4lego na d\u00e9cada de 1870.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa \u00e9poca, &#8220;senhores&#8221; de \u00e1reas em decad\u00eancia econ\u00f4mica, como Norte e Nordeste, passaram a vender seus cativos para prov\u00edncias em que se pagava muito por eles &#8211; especialmente as do Sudeste, onde a ind\u00fastria do caf\u00e9 crescia movida pelo trabalho do negro escravizado, explica a historiadora Maria Alice Rosa Ribeiro, que pesquisa a sociedade escravista campineira no Centro de Mem\u00f3ria da Unicamp.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Milhares de homens e mulheres foram parar no Oeste Paulista e no Vale do Para\u00edba dessa maneira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria da greve dos jangadeiros entra justamente nesse contexto. Jos\u00e9 Lu\u00eds Napole\u00e3o, Francisco Jos\u00e9 Nascimento &#8211; que ficaria conhecido como &#8220;Drag\u00e3o do Mar&#8221; &#8211; e os colegas se recusaram a transportar os escravos da praia \u00e0s embarca\u00e7\u00f5es que os levariam \u00e0s cidades onde os novos &#8220;donos&#8221; os esperavam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria virou s\u00edmbolo da aboli\u00e7\u00e3o no Estado &#8211; e inclusive deu &#8220;for\u00e7a extra para a mobiliza\u00e7\u00e3o amazonense&#8221;, diz Patr\u00edcia Sampaio -, mas ela n\u00e3o foi &#8220;espont\u00e2nea&#8221;, ressalta \u00c2ngela Alonso, professora livre-docente do departamento de Sociologia da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP).<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">As sociedades abolicionistas<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os jangadeiros se organizaram por meio da Sociedade Libertadora Cearense, formada por pol\u00edticos e intelectuais da prov\u00edncia e articulada com o movimento abolicionista nacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os clubes e sociedades abolicionistas come\u00e7aram a pipocar no imp\u00e9rio a partir da d\u00e9cada de 1860, influenciadas em parte por movimentos semelhantes em pa\u00edses como Estados Unidos e Cuba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Os intelectuais da \u00e9poca eram cosmopolitas, eles n\u00e3o eram caipiras, como muita gente imagina. Viajavam, acompanhavam as not\u00edcias internacionais &#8211; que, depois do tel\u00e9grafo, instalado no Brasil na d\u00e9cada de 1860, chegavam aqui mais r\u00e1pido ainda&#8221;, diz a autora de\u00a0<i>Flores, votos e balas: O movimento abolicionista brasileiro (1868-88)<\/i>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, a elite brasileira do s\u00e9culo 19 acompanhou atenta os epis\u00f3dios da Guerra de Secess\u00e3o americana, que teve in\u00edcio em 1861 e que contrap\u00f4s os Estados do Sul, escravistas, e os do Norte, favor\u00e1veis \u00e0 aboli\u00e7\u00e3o. L\u00e1, a 13\u00aa Emenda, que acabou com a escravid\u00e3o, foi assinada por Abraham Lincoln em 1865.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A liberta\u00e7\u00e3o dos escravizados no Brasil, ressalta a soci\u00f3loga, fez parte de um &#8220;domin\u00f3 internacional&#8221;, uma sequ\u00eancia de aboli\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Das &#8216;vaquinhas&#8217; para compra de alforria \u00e0s insurrei\u00e7\u00f5es<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os clubes e sociedades em todo o pa\u00eds faziam campanha atrav\u00e9s da imprensa e, em muitas prov\u00edncias, arrecadavam fundos para comprar a liberdade de escravizados &#8211; um dispositivo institucionalizado em 1871, com a Lei do Ventre Livre, que tamb\u00e9m criou oficialmente o fundo de emancipa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o tempo, as cerim\u00f4nias de entrega das cartas aos escravizados foram virando eventos cada vez maiores, teatralizados, com leituras de poesia e realiza\u00e7\u00e3o de concertos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A estrat\u00e9gia de compra das alforrias, para Alonso, era uma forma de os abolicionistas sinalizarem a constru\u00e7\u00e3o de uma aboli\u00e7\u00e3o gradual, sem afronta direta ao\u00a0<i>status quo<\/i>\u00a0&#8211; que, nos EUA, esteve na raiz na guerra civil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De vez em quando, entretanto, apareciam epis\u00f3dios como o da greve dos jangadeiros, para pressionar o governo com uma amea\u00e7a de poss\u00edvel radicaliza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o por acaso, o caso foi amplamente noticiado por Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio, figura central do abolicionismo &#8211; que tinha interlocu\u00e7\u00e3o com os ativistas cearenses -, na Gazeta de Not\u00edcias do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Os jangadeiros s\u00f3 conseguiram fazer o que fizeram porque tinham parte importante da elite pol\u00edtica e das for\u00e7as policiais ao seu lado&#8221;, ela acrescenta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Cear\u00e1, o abolicionismo ganhou f\u00f4lego depois da &#8220;grande seca&#8221; de 1877, que se estendeu por tr\u00eas anos e deixou a prov\u00edncia em estado de calamidade, diz o historiador Eylo Fagner Silva Rodrigues, que dedicou a pesquisa de mestrado e doutorado ao tema da escravatura e da aboli\u00e7\u00e3o no Estado.<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/0D53\/production\/_106911430_bn1.jpg\" alt=\"Grande seca de 1877 espalhou pobreza e mis\u00e9ria pelo Cear\u00e1\" width=\"666\" height=\"1041\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\">Grande seca de 1877 espalhou pobreza e mis\u00e9ria pelo Cear\u00e1<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Amazonas, a atua\u00e7\u00e3o das sociedades abolicionistas teve ajuda importante da ma\u00e7onaria, que se &#8220;dedicou intensamente a angariar recursos&#8221; para o fundo de emancipa\u00e7\u00e3o, diz Sampaio, da UFAM.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Reconhecimento internacional<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos ativistas respons\u00e1veis pela &#8220;ritualiza\u00e7\u00e3o&#8221; das entregas das cartas de alforria foi o educador baiano Ab\u00edlio C\u00e9sar Borges, que foi professor de uma gera\u00e7\u00e3o de abolicionistas que inclui Rui Barbosa, Castro Alves e o pol\u00edtico S\u00e1tiro de Oliveira Dias &#8211; que foi presidente da prov\u00edncia do Cear\u00e1 e, em 25 de mar\u00e7o de 1884, assinou a aboli\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Havia uma expectativa nacional pela promulga\u00e7\u00e3o no Cear\u00e1. Meses antes, na Gazeta de Not\u00edcias, Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio inaugurou uma coluna semanal com uma &#8220;contagem regressiva&#8221; que enumerava as cidades cearenses em que a aboli\u00e7\u00e3o j\u00e1 havia sido decretada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira foi Acarape, atual Reden\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em uma manobra para evitar uma contraofensiva por parte do governo central, quando a data estipulada pelos ativistas para a aboli\u00e7\u00e3o se aproximava, expoentes do movimento buscaram apoio e reconhecimento internacional para ela &#8211; Joaquim Nabuco organizou um banquete em Londres e Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio fez outro em Paris.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Quando aconteceu de fato, ela j\u00e1 era imposs\u00edvel de reprimir&#8221;, diz Alonso, que \u00e9 presidente do Centro Brasileiro de An\u00e1lise e Planejamento (Cebrap).<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption body-narrow-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/304\/cpsprodpb\/3463\/production\/_106911431_josepatrocinio.jpg\" alt=\"Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio\" width=\"461\" height=\"568\" data-highest-encountered-width=\"304\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-portrait has-caption body-narrow-width\" style=\"text-align: justify;\">Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio tinha interlocu\u00e7\u00e3o direta com os abolicionistas cearenses<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Amazonas, o presidente da prov\u00edncia, Theodoreto Souto &#8211; que era cearense -, promulgou a aboli\u00e7\u00e3o em 24 de maio, quando foram libertos os \u00faltimos escravos matriculados na prov\u00edncia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O plano dos abolicionistas de promover a aboli\u00e7\u00e3o gradativamente nas demais prov\u00edncias foi interrompida por uma rea\u00e7\u00e3o dos escravistas, que conseguiram al\u00e7ar ao Conselho de Ministros o conservador Bar\u00e3o de Cotegipe, que capitaneou uma repress\u00e3o severa ao movimento abolicionista, com persegui\u00e7\u00f5es f\u00edsicas e judiciais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A promulga\u00e7\u00e3o da Lei \u00c1urea em 13 de maio de 1888 se d\u00e1 em um cen\u00e1rio de crise no imp\u00e9rio, com intensifica\u00e7\u00e3o das fugas e insurrei\u00e7\u00f5es de escravizados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O documento assinado pela princesa Isabel estava longe do que os abolicionistas imaginavam. O projeto encampado por eles, de Manuel Pinto de Sousa Dantas, que foi presidente do Conselho de Ministros entre 1884 e 1885, previa o pagamento de uma esp\u00e9cie de renda m\u00ednima aos alforriados e a distribui\u00e7\u00e3o de terras, &#8220;uma esp\u00e9cie de minirreforma agr\u00e1ria&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Mas uma parte do movimento abolicionista decidiu apoiar (a Lei \u00c1urea) porque n\u00e3o sabia quando teria outra oportunidade (de institucionalizar o fim da escravid\u00e3o)&#8221;, diz Alonso.<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/5B73\/production\/_106911432_leiaurea.jpg\" alt=\"Lei \u00c1urea\" width=\"961\" height=\"1251\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Lei \u00c1urea excluiu uma s\u00e9rie de dispositivos reivindicados pelos abolicionistas, entre eles a distribui\u00e7\u00e3o de terras aos alforriados<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">O lado &#8216;obscuro&#8217; da aboli\u00e7\u00e3o precoce<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A liberdade prec\u00e1ria &#8211; que n\u00e3o discutiu a inser\u00e7\u00e3o dos novos cidad\u00e3os na sociedade brasileira ou no mercado de trabalho &#8211; n\u00e3o foi exclusividade de 1888.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Cear\u00e1 e no Amazonas, a maior parte das alforrias foi dada &#8220;sob condi\u00e7\u00e3o&#8221;: o liberto tinha de pagar um pec\u00falio para &#8220;ressarcir&#8221; o senhor e\/ou se comprometer a continuar trabalhando para ele, muitas vezes sem sal\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Manaus, diz Patr\u00edcia Sampaio, da UFAM, cerca de 60% das alforrias registradas nos cart\u00f3rios s\u00e3o onerosas &#8211; muitas condicionando a compra da carta de liberdade \u00e0 continuidade da presta\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ou seja, os senhores ganhavam a melhor parte: recebiam o dinheiro e continuavam a contar com o trabalho do alforriado.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso explica porque, tr\u00eas anos depois da aboli\u00e7\u00e3o, explodiu o n\u00famero de &#8220;criados de servir e agregados&#8221; no censo de 1887 em Fortaleza, ressalta o historiador Eur\u00edpedes Funes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O chamado Livro de Matr\u00edculas de Criados do Estado est\u00e1 cheio de exemplos ilustrativos de &#8220;trabalhadores livres, por\u00e9m ainda recolhidos aos cativeiros dom\u00e9sticos&#8221;, na defini\u00e7\u00e3o de Eylo Fagner Rodrigues.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um deles \u00e9 o de Eug\u00eania Joaquina da Concei\u00e7\u00e3o, registrada por seu antigo propriet\u00e1rio, Jo\u00e3o Luiz Rangel, em 11 de julho de 1887, da seguinte forma: &#8220;minha ex-escrava, continua a residir na minha casa, como creada, gratuitamente, por tempo indeterminado&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Casos como esse n\u00e3o eram incomuns. Muitos dos libertos continuaram vivendo sob o teto dos &#8220;ex-senhores&#8221; e passaram a trabalhar em troca de roupa e comida &#8211; inclusive crian\u00e7as &#8211; em condi\u00e7\u00f5es muitas vezes parecidas \u00e0s que eram submetidos at\u00e9 1884.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pesquisador encontrou nos arquivos do antigo Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o da Prov\u00edncia do Cear\u00e1, atual Tribunal de Justi\u00e7a, v\u00e1rias a\u00e7\u00f5es de libertos contra ex-propriet\u00e1rios que os tentavam reescravizar.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um deles \u00e9 o de Eug\u00eania Joaquina da Concei\u00e7\u00e3o, registrada por seu antigo propriet\u00e1rio, Jo\u00e3o Luiz Rangel, em 11 de julho de 1887, da seguinte forma: &#8220;minha ex-escrava, continua a residir na minha casa, como creada, gratuitamente, por tempo indeterminado&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":282853,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-282852","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/abolicao-da-escravatura.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/282852","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=282852"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/282852\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/282853"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=282852"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=282852"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=282852"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}