{"id":284608,"date":"2019-05-29T14:56:10","date_gmt":"2019-05-29T17:56:10","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=284608"},"modified":"2019-05-29T14:56:10","modified_gmt":"2019-05-29T17:56:10","slug":"cortes-atrasam-pesquisa-sobre-chicungunha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/cortes-atrasam-pesquisa-sobre-chicungunha\/","title":{"rendered":"Cortes atrasam pesquisa sobre chicungunha"},"content":{"rendered":"<div class=\"post-header\">\n<div class=\"inner\">\n<h2 class=\"bloco-title\"><\/h2>\n<h3 class=\"bloco-chamada\"><em>Em Laborat\u00f3rio da UFRJ, trabalho de mapeamento gen\u00e9tico do v\u00edrus esbarra na falta de recursos; equipe alertou sobre novas doen\u00e7as<\/em><\/h3>\n<p><span class=\"bloco-autor\">RAPHAEL KAPA<\/span><\/p>\n<div class=\"bloco-data\"><\/div>\n<div class=\"header-share\">\n<div class=\"social\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"post-img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/laboratorio_interna_29052019.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<div class=\"post-legenda\"><span class=\"credito\">INTERVEN\u00c7\u00c3O DE PAULA CARDOSO SOBRE FOTO DE RAPHAEL KAPA<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div id=\"\">\n<div id=\"ad-topo\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"post-inner\">\n<p><span class=\"capitalize\">N<\/span>o Laborat\u00f3rio de Virologia Molecular da UFRJ, o pesquisador F\u00e1bio Limonte tem uma fun\u00e7\u00e3o espec\u00edfica: \u00e9 o \u00fanico da equipe de cerca de vinte pessoas dedicado exclusivamente a estudar o v\u00edrus da chicungunha para tentar entender por que as sequelas da doen\u00e7a, como dores f\u00edsicas nas juntas, perduram por meses nos pacientes. A pesquisa \u00e9 coordenada pelo professor e geneticista Amilcar Tanuri, chefe do laborat\u00f3rio. Este semestre, outros dois pesquisadores se juntariam ao grupo e passariam a atuar no mapeamento gen\u00e9tico do v\u00edrus. Mas o professor Tanuri foi informado de que a nova dupla do seu laborat\u00f3rio est\u00e1 entre os 3 474 bolsistas que tiveram aux\u00edlios cancelados pelo cortes de verbas realizados pelo Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o (MEC).<\/p>\n<p>De janeiro a abril de 2019, houve 12 mil novos casos confirmados de chicungunha no Brasil, com tr\u00eas mortes e outros 24 mil casos prov\u00e1veis da doen\u00e7a. O total \u00e9 abaixo do registrado no mesmo per\u00edodo de 2018. Na cidade do Rio, a doen\u00e7a recrudesceu este ano, com 13.918 casos, mais que os 10.700 do ano passado.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos tr\u00eas anos, o Laborat\u00f3rio da UFRJ analisou 279 amostras de v\u00edrus, m\u00e9dia de 93 por ano, em um trabalho voltado exclusivamente para a chicungunha. Foi desta forma que identificou no Rio a presen\u00e7a do mayaro, um v\u00edrus \u201cprimo\u201d da chicungunha, que migrou da Amaz\u00f4nia para o Sudeste. Agora seria o momento de aumentar o n\u00famero de amostras para acompanhar migra\u00e7\u00f5es, muta\u00e7\u00f5es ou o surgimento de novos v\u00edrus. Devido aos cortes nas bolsas, o ritmo de trabalho do laborat\u00f3rio foi reduzido, e a m\u00e9dia de an\u00e1lises caiu. \u201cHoje s\u00f3 fazemos 40% do que poder\u00edamos\u201d, afirma Tanuri. Pesquisas cient\u00edficas n\u00e3o terminam do dia para a noite. Os efeitos dos cortes ter\u00e3o longa dura\u00e7\u00e3o, tal como as sequelas da chicungunha, mais uma das arboviroses transmitidas pelo mosquito\u00a0<i>Aedes aegypti<\/i>.<\/p>\n<p>O contingenciamento de recursos para as universidades federais foi anunciado pelo ministro da Educa\u00e7\u00e3o, Abraham Weintraub, no final do m\u00eas de abril. Segundo o ministro, que citou inicialmente tr\u00eas universidades (UnB, UFF e UFBA) como afetadas pela medida, a justificativa \u00e9 de que eram locais de balb\u00fardia. Depois a decis\u00e3o foi estendida a todas as institui\u00e7\u00f5es federais, com cortes de, em m\u00e9dia, 30% das verbas de custeio, destinadas \u00e0 limpeza, manuten\u00e7\u00e3o e seguran\u00e7a. Mas os cortes tamb\u00e9m atingiram a Capes, ag\u00eancia que financia bolsas a pesquisadores que atuam em laborat\u00f3rios como o da UFRJ.<\/p>\n<p>Segundo o professor Tanuri, o trabalho poderia ser otimizado, mas com um s\u00f3 pesquisador \u00e9 imposs\u00edvel. \u201cCom tr\u00eas bolsistas far\u00edamos o trabalho desej\u00e1vel. Enquanto um analisaria uma amostra, outro j\u00e1 estaria preparando novas an\u00e1lises e por a\u00ed vai. Atrasamos em meses o que poderia ser feito em semanas\u201d, afirma. A previs\u00e3o para o futuro n\u00e3o \u00e9 das melhores. \u201cFicamos com apenas um bolsista para essa pesquisa de chicungunha. Quando terminar o per\u00edodo da bolsa, se continuar com os bloqueios atuais, ou se realoca de outra pesquisa ou ela para.\u201d<\/p>\n<p>Para quem est\u00e1 em casa, com as dores pelo corpo, n\u00e3o parece, mas dois pesquisadores a menos no laborat\u00f3rio reduzem concretamente a chance de descobrir se a pessoa tem chicungunha ou um v\u00edrus aparentado. O laborat\u00f3rio trabalha na parte da vigil\u00e2ncia, etapa que vem antes mesmo da preven\u00e7\u00e3o na \u00e1rea da sa\u00fade. De acordo com 21\u00aa Assembleia Mundial da Sa\u00fade, em 1968, que se dedicou especialmente ao tema, a vigil\u00e2ncia \u00e9 a \u201ccoleta sistem\u00e1tica e o uso de informa\u00e7\u00e3o epidemiol\u00f3gica para o planejamento, implementa\u00e7\u00e3o e avalia\u00e7\u00e3o do controle de doen\u00e7as\u201d. \u00c9 por meio de trabalhos rotineiros como o do laborat\u00f3rio que governos s\u00e3o alertados sobre poss\u00edveis surtos de v\u00edrus, suas caracter\u00edsticas e como deve ser feita a preven\u00e7\u00e3o. Com menos pesquisadores, a equipe investiga menos e for\u00e7osamente emite menos alertas. Trabalhos sobre chicungunha publicados pelo grupo trazem menos dados novos e mais releituras de levantamentos antigos.<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">O<\/span>espa\u00e7o do laborat\u00f3rio forma um labirinto de tr\u00eas andares, todo dividido em pequenas ilhas de trabalho onde cerca de vinte pesquisadores, entre professores e universit\u00e1rios, se esbarram e fazem fila para utilizar o maquin\u00e1rio que ainda funciona. O mais disputado deles \u00e9 o que chamam de \u201cfluxo\u201d, uma esta\u00e7\u00e3o de trabalho em que o pesquisador consegue manipular o v\u00edrus com seguran\u00e7a. Existem tr\u00eas deles no local, e cada um comporta dois pesquisadores. Somente um est\u00e1 funcionando, o que atrasa o trabalho de manipula\u00e7\u00e3o e an\u00e1lise de amostras. A an\u00e1lise de uma \u00fanica amostra pode demorar horas com um \u00fanico pesquisador na esta\u00e7\u00e3o. Sem alternativa, outros trabalhos ficam parados.<\/p>\n<p>A pesquisa de chicungunha \u00e9 s\u00f3 uma das vinte frentes de estudos abrigadas no laborat\u00f3rio. Dessas, metade est\u00e1 parada, afetada por sucessivos anos de perda de verbas. \u201cDas mais de vinte frentes que temos aqui, mais ou menos dez foram reduzidas drasticamente. Na verdade, tocadas com for\u00e7a, estamos entre tr\u00eas e quatro\u201d, afirma Tanuri, professor de gen\u00e9tica da UFRJ. Ainda est\u00e3o ativas, embora reduzidas, pesquisas ligadas a resist\u00eancia a medicamentos para o HIV, o efeito do zika v\u00edrus em fetos e, justamente, a dura\u00e7\u00e3o das sequelas da chicungunha. Estudos sobre dengue, febre amarela, um novo v\u00edrus achado no Rio, o mayaro e sobre HTLV, \u201cprimo do HIV\u201d perderam verba e tiveram de ser paralisados ou interrompidos.<\/p>\n<p>Logo na entrada do laborat\u00f3rio, o freezer principal, onde deveria ser guardado o material gen\u00e9tico de pesquisas, traz um aviso de que n\u00e3o pode ser utilizado. O mesmo recado pode ser visto em outros equipamentos. O freezer queimou ap\u00f3s uma pane por causa de um pico de luz no pr\u00e9dio. O equipamento deixou de funcionar, tudo que estava dentro descongelou e ficou inutilizado \u2013 inclusive o material org\u00e2nico usado nas pesquisas sobre zika e microcefalia. Material que foi obtido em coletas nacionais em 2016, quando, em pleno surto de zika, a equipe do Laborat\u00f3rio de Virologia Molecular da UFRJ agiu em parceria com cientistas franceses que j\u00e1 tinham estudado a doen\u00e7a uma d\u00e9cada atr\u00e1s. O conv\u00eanio s\u00f3 foi poss\u00edvel porque os pesquisadores da Fran\u00e7a mant\u00eam o material org\u00e2nico de suas pesquisas seguro e organizado, e disponibilizaram informa\u00e7\u00f5es para os brasileiros. Os dados foram usados nas pesquisas sobre o v\u00edrus e sua rela\u00e7\u00e3o com outras doen\u00e7as, como o aparecimento de microcefalia em beb\u00eas cujas m\u00e3es tiveram zika na gravidez. Dois pesquisadores do laborat\u00f3rio, Tanuri e Rodrigo Brindeiro, coordenaram o trabalho apresentando o sequenciamento completo do genoma do zika. O resultado foi publicado na\u00a0<i>Lancet<\/i>, uma das publica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas mais importantes do mundo.<\/p>\n<p>Com a pane do freezer, v\u00e1rias etapas da pesquisa ter\u00e3o que recome\u00e7ar do zero. O epis\u00f3dio \u00e9 reflexo da perda de recursos ao longo dos anos, e o or\u00e7amento da UFRJ ficar\u00e1 ainda mais apertado com o contingenciamento anunciado pelo MEC, cortando 41% da verba de custeio, utilizada para limpeza, energia e seguran\u00e7a. \u201cEst\u00e1 cada vez pior. Estamos vivendo um retrabalho. Quando o freezer quebrou, perdemos todo o material biol\u00f3gico dentro dele. \u00c9 um m\u00eas para voltar a como est\u00e1vamos. Al\u00e9m disso, o material de trabalho \u00e9 caro e foi descartado. Isso tudo faz demorarmos para responder \u00e0 sociedade\u201d, afirma Tanuri em sua sala de menos de quatro metros quadrados, sentado no sof\u00e1 e apoiando sua m\u00e3o em uma edi\u00e7\u00e3o da obra\u00a0<i>Origem das Esp\u00e9cies<\/i>\u00a0de Darwin que est\u00e1 no encosto do m\u00f3vel.<\/p>\n<p>A tal resposta \u00e0 sociedade de que fala Tanuri tem uma peculiaridade: se oferecida, n\u00e3o costuma ganhar notoriedade; quando negligenciada, por\u00e9m, causa transtornos. O retorno de um laborat\u00f3rio como o da UFRJ para a sociedade se d\u00e1 em duas frentes: a primeira \u00e9 a pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, com dados e alertas remetidos a gestores em sa\u00fade; a segunda \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os dentro da universidade que servem para difundir o conhecimento produzido. Um exemplo \u00e9 a \u201cRede Zika Paulo de Go\u00e9s\u201d, criada em 2016, da pr\u00f3pria UFRJ, que funcionou como uma esp\u00e9cie de central de informa\u00e7\u00f5es sobre a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>No Brasil, laborat\u00f3rios de pesquisa raramente t\u00eam pesquisadores que n\u00e3o s\u00e3o professores. Estudantes de gradua\u00e7\u00e3o, mestrado e doutorado atuam nas pesquisas como assistentes e recebem bolsas para isso. Os recursos t\u00eam origens diferentes, da Capes, que \u00e9 vinculada ao MEC, e do CNPq, vinculado ao Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia, Tecnologia, Inova\u00e7\u00e3o e Comunica\u00e7\u00f5es. S\u00f3 na UFRJ foram 65 bolsas cortadas na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, envolvendo mestrados, doutorados e p\u00f3s-doutorados.<\/p>\n<p>os cortes se misturam com os antigos. A curva de queda no or\u00e7amento da UFRJ evidencia perdas ao longo dos \u00faltimos anos. Em 2014, o or\u00e7amento (em valores corrigidos) seria de 582 milh\u00f5es de reais, mas s\u00f3 487 milh\u00f5es foram liberados. Em 2019, n\u00e3o se sabe o quanto ser\u00e1 liberado para a institui\u00e7\u00e3o, mas a previs\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria \u00e9 de 361 milh\u00f5es de reais. Uma perda de mais de 200 milh\u00f5es de reais at\u00e9 ent\u00e3o. Logo ap\u00f3s as passeatas pela educa\u00e7\u00e3o no dia 15 de maio, o ministro Weintraub usou sua conta no Twitter para avisar que vai trazer \u201cboas not\u00edcias\u201d sobre o contingenciamento. Em n\u00fameros ou em chocolates, elas ainda n\u00e3o apareceram. \u201cA situa\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 est\u00e1 ruim, pode se tornar insustent\u00e1vel. No ano passado, tivemos 37 ind\u00edcios de inc\u00eandio que foram debelados pela brigada volunt\u00e1ria. Isso aqui podia virar um Museu Nacional. A principal causa de inc\u00eandio s\u00e3o os aparelhos de ar-condicionados, por causa da fia\u00e7\u00e3o que n\u00f3s temos\u201d, conta Brindeiro. \u201c\u00c9 a tempestade perfeita. A universidade \u00e9 cara. Mas experimenta a ignor\u00e2ncia. \u00c9 mais cara\u201d, conclui Tanuri.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"post-fim no-print\">\n<div class=\"post-fim-autor\"><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em Laborat\u00f3rio da UFRJ, trabalho de mapeamento gen\u00e9tico do v\u00edrus esbarra na falta de recursos; equipe alertou sobre novas doen\u00e7as<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":284609,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[6,12],"tags":[],"class_list":["post-284608","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-municipios","category-saude"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/mosquito1.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/284608","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=284608"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/284608\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/284609"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=284608"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=284608"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=284608"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}