{"id":285042,"date":"2019-06-02T09:50:46","date_gmt":"2019-06-02T12:50:46","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=285042"},"modified":"2019-06-02T09:50:46","modified_gmt":"2019-06-02T12:50:46","slug":"como-e-por-que-as-religioes-evoluiram","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/como-e-por-que-as-religioes-evoluiram\/","title":{"rendered":"Como e por que as religi\u00f5es evolu\u00edram"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"byline\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"byline__name\">Brandon Ambrosino<\/span><\/div>\n<div class=\"with-extracted-share-icons\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share-row\">\n<div class=\"share-tools--no-event-tag\">\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-twite\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/CA7D\/production\/_106773815_72a089e1-9f07-49c7-8e22-43aa841b5a1a.jpg\" alt=\"Mulher reza\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span>A religi\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno corporal porque a maneira religiosa de exist\u00eancia evoluiu por milh\u00f5es de anos conforme os corpos de nossos ancestrais interagiam com outros corpos ao seu redor<\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Este \u00e9 o meu corpo.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas palavras, gravadas nos testamentos como tendo sido pronunciadas por Jesus durante a \u00daltima Ceia, s\u00e3o ditas diariamente em igrejas do mundo todo antes da comunh\u00e3o. Quando crist\u00e3os ouvem essas palavras faladas no presente, somos lembrados do passado, que est\u00e1 sempre conosco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas quanto do passado \u00e9 lembrado pelos crist\u00e3os? Sem d\u00favida os \u00faltimos dois mil\u00eanios, marcados tamb\u00e9m por disputas de doutrinas, divis\u00e3o de igrejas, epis\u00f3dios de viol\u00eancia, excomunh\u00f5es, pronunciamentos papais e v\u00e1rios debates metaf\u00edsicos, todos orbitando em torno da comunh\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas n\u00f3s podemos ir ainda mais para tr\u00e1s no tempo, para o desenvolvimento das tradi\u00e7\u00f5es orais que foram fixadas em textos que incorporaram o Novo Testamento. E podemos retroceder ainda mais, muito antes do surgimento do Cristianismo. Afinal de contas, Jesus era judeu e seu ato de partir o p\u00e3o com os disc\u00edpulos nos lembra da hist\u00f3ria inteira do povo judeu, incluindo sua fuga da escravid\u00e3o eg\u00edpcia e o recebimento do Torah no Sinai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 poss\u00edvel, por\u00e9m, ir ainda mais longe. Qualquer refei\u00e7\u00e3o religiosa \u00e9, antes de mais nada, uma refei\u00e7\u00e3o. \u00c9 um ato de compartilhar uma mesa, certamente um ritual importante no Antigo Oriente. O s\u00eader (jantar cerimonial judaico em que se recorda a liberta\u00e7\u00e3o do povo de Israel), e depois a comunh\u00e3o, foram &#8220;apropriados&#8221; teol\u00f3gica e liturgicamente, mas os sentimentos positivos sobre compartilhar uma refei\u00e7\u00e3o j\u00e1 estavam l\u00e1. Esses sentimentos existem desde a emerg\u00eancia dos humanos modernos, h\u00e1 200 mil anos.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1189D\/production\/_106773817_25998e1a-ff41-45f1-a2ca-3d57ed540d27.jpg\" alt=\"O compartilhamento de comida\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>O compartilhamento de comida \u00e9 comum em v\u00e1rias religi\u00f5es antigas &#8211; e pode refletir algumas preocupa\u00e7\u00f5es pr\u00e9-hist\u00f3ricas<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, ainda assim, o homo sapiens n\u00e3o foi a \u00fanica esp\u00e9cie a descobrir os benef\u00edcios do compartilhamento de comida. Os neandertais certamente compartilhavam seus recursos, por exemplo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Pense em ca\u00e7adores e coletores comendo&#8221;, me disse um de meus professores de teologia quando comecei a me perguntar sobre a profunda hist\u00f3ria evolucion\u00e1ria por tr\u00e1s da eucaristia. &#8220;Os ca\u00e7adores se orgulhavam de ter se dado bem e compartilhavam com sua fam\u00edlia, os que preparavam a comida s\u00e3o reconhecidos e apreciados, todas as barrigas ficam cheias e todos se sentem bem. Surgem diversas intera\u00e7\u00f5es sociais positivas. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que tanto conte\u00fado mitol\u00f3gico \u00e9 constru\u00eddo em torno da comida.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o compartilhamento de comida precede nossos ancestrais humanos e \u00e9 observada em chimpanz\u00e9s e bonobos. Ali\u00e1s, um artigo recentemente publicado documentou uma pesquisa sobre bonobos dividindo comida com bonobos de fora de seu grupo social. Barbara Fruth, uma das autoras do estudo, disse \u00e0 revista digital Sapiens que a divis\u00e3o de comida &#8220;deve ter origem no nosso \u00faltimo ancestral em comum&#8221;. Com base no rel\u00f3gio molecular, o \u00faltimo ancestral em comum de humanos e macacos viveu h\u00e1 19 milh\u00f5es de anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando eu ou\u00e7o as palavras &#8220;este \u00e9 meu corpo&#8221;, minha mente imediatamente me leva para uma linha da evolu\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Religi\u00e3o profunda<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Comecei este texto com uma discuss\u00e3o sobre a eucaristia porque minha tradi\u00e7\u00e3o religiosa em particular \u00e9 a crist\u00e3. Mas o argumento que estou fazendo &#8211; que as experi\u00eancias religiosas t\u00eam hist\u00f3rias muito espec\u00edficas e longas &#8211; poderia ser feito com a maioria dos fen\u00f4menos religiosos. Isso \u00e9 porque, nas palavras do soci\u00f3logo Robert Bellah, &#8220;nada \u00e9 perdido&#8221;. A hist\u00f3ria vai at\u00e9 o fim da linha para tr\u00e1s, e quem, como e onde estamos agora \u00e9 o resultado de seu desenrolar. Qualquer fen\u00f4meno humano que existe \u00e9 um fen\u00f4meno humano que se tornou o que \u00e9. N\u00e3o h\u00e1 uma religi\u00e3o menos verdadeira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se n\u00f3s formos pensar sobre a profunda hist\u00f3ria da religi\u00e3o, precisamos ser claros sobre que religi\u00e3o \u00e9 essa. Em seu livro\u00a0<i>O Bonobo e o Ateu<\/i>, o primatologista Frans de Waal conta uma hist\u00f3ria engra\u00e7ada sobre sua participa\u00e7\u00e3o em um painel da Academia Americana da Religi\u00e3o. Quando um participante sugeriu que eles come\u00e7assem definindo o que \u00e9 religi\u00e3o, algu\u00e9m comentou que, da \u00faltima vez que tentaram fazer isso, &#8220;metade da audi\u00eancia raivosamente deixou o local&#8221;. &#8220;E isso em uma academia com esse nome!&#8221;, disse Waal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda assim, precisamos come\u00e7ar de algum lugar, ent\u00e3o Waal sugere a seguinte defini\u00e7\u00e3o: &#8220;a rever\u00eancia compartilhada ao sobrenatural, sagrado ou espiritual, assim como os s\u00edmbolos, rituais e adora\u00e7\u00e3o associados&#8221;. A defini\u00e7\u00e3o de de Waal ecoa outra dada pelo soci\u00f3logo \u00c9mile Durkheim, que tamb\u00e9m enfatizou a import\u00e2ncia das experi\u00eancias compartilhadas que &#8220;unem uma comunidade moral&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A import\u00e2ncia da experi\u00eancia compartilhada n\u00e3o pode ser desconsiderada j\u00e1 que, na hist\u00f3ria que estamos contando, a evolu\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o humana \u00e9 insepar\u00e1vel da cada vez maior sociabilidade da linha homin\u00eddea. Como diz Bellah, a religi\u00e3o \u00e9 uma maneira de ser. N\u00f3s tamb\u00e9m podemos encar\u00e1-la como uma maneira de sentir, uma maneira de sentir juntos.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/166BD\/production\/_106773819_4ddc84c7-e88b-43f1-bd85-23adf4138f58.jpg\" alt=\"Seguidores da Igreja Batista de Nazar\u00e9\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Seguidores da Igreja Batista de Nazar\u00e9 escalam a Montanha sagrada de Nhlangakazi. Cren\u00e7as e rituais religiosos ajudam a unir grupos de pessoas<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto boa parte dos estudos cient\u00edficos sobre religi\u00e3o serem sobre religi\u00f5es com uma doutrina com base teol\u00f3gica, o psic\u00f3logo evolucion\u00e1rio Robin Dunbar acredita que essa \u00e9 uma maneira limitada de estudar o fen\u00f4meno porque &#8220;ignora completamente o fato de que a maior parte das religi\u00f5es da hist\u00f3ria humana tiveram um outro formato, de estilo xam\u00e2nico, que n\u00e3o tinha deuses nem c\u00f3digos morais&#8221;. (Dunbar se refere a xam\u00e2nico no sentido de religi\u00f5es cujas experi\u00eancias geralmente envolvem \u00eaxtase e viagem at\u00e9 mundos espirituais). Enquanto esses formatos baseados na teologia t\u00eam apenas alguns poucos milhares de anos e caracter\u00edsticas de sociedades p\u00f3s-agricultoras, Dubar afirma que os modelos xam\u00e2nicos t\u00eam mais de 500 mil anos. S\u00e3o caracter\u00edsticos de comunidades de coletores e ca\u00e7adores, diz ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se queremos entender como e por que a religi\u00e3o evoluiu, Dunbar diz que precisamos come\u00e7ar examinando as religi\u00f5es &#8220;descascando os acr\u00e9scimos culturais&#8221;. N\u00f3s precisamos focar menos em quest\u00f5es sobre grandes deuses e cren\u00e7as e mais nas capacidades que surgiram entre nossos antigos ancestrais que permitiram a eles criar uma maneira religiosa de estar junto.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Adapta\u00e7\u00e3o ou subproduto?<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Afinal de contas, todas as sociedades t\u00eam algum tipo de religi\u00e3o. &#8220;N\u00e3o h\u00e1 exce\u00e7\u00e3o para isso&#8221;, diz Waal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 duas grandes perspectivas sobre o motivo disso. Uma \u00e9 chamada funcionalismo ou adaptacionismo: a ideia de que a religi\u00e3o tem benef\u00edcios evolucion\u00e1rios positivos, que mais frequentemente s\u00e3o definidos em termos de sua contribui\u00e7\u00e3o para a vida em grupo. Como diz Waal: &#8220;se todas as sociedades t\u00eam religi\u00e3o, deve ter um prop\u00f3sito social&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outros adotam a vis\u00e3o de que a religi\u00e3o \u00e9 um &#8220;spandrel&#8221;, um subproduto de processos evolucion\u00e1rios. A palavra &#8220;spandrel&#8221; aqui se refere a um formato arquitet\u00f4nico que \u00e9 um cruzamento entre arcos e o teto. A religi\u00e3o, segundo essa interpreta\u00e7\u00e3o, \u00e9 como um \u00f3rg\u00e3o obsoleto. Talvez foi um fator de adapta\u00e7\u00e3o nos ambientes em que originalmente se desenvolveu, mas, neste ambiente em que vivemos, n\u00e3o se adapta mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou talvez as cren\u00e7as religiosas sejam o resultado de mecanismos psicol\u00f3gicos que evolu\u00edram para resolver problemas ecol\u00f3gicos n\u00e3o relacionados com religi\u00e3o. De qualquer forma, a evolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o aspirava criar a religi\u00e3o, ela surgiu conforme a evolu\u00e7\u00e3o buscava outras coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto pessoas de ambos lados do debate t\u00eam seus motivos, n\u00e3o parece \u00fatil definir a evolu\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o em termos preto no branco. Algo que foi meramente um subproduto de um processo evolucion\u00e1rio pode muito bem ter sido usado por seres humanos para alguma fun\u00e7\u00e3o ou para resolver um problema espec\u00edfico.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/6623\/production\/_106774162_30e7eb11-68aa-49a3-9c88-549ec2af9aff.jpg\" alt=\"Fi\u00e9is mu\u00e7ulmanos\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Fi\u00e9is mu\u00e7ulmanos fazem suas ora\u00e7\u00f5es da tarde (Isha) na Caba. Emo\u00e7\u00f5es como rever\u00eancia, lealdade e amor s\u00e3o centrais para muitas celebra\u00e7\u00f5es religiosas<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso pode ser verdade para muitos comportamentos &#8211; incluindo m\u00fasica &#8211; mas a religi\u00e3o apresenta um quebra-cabe\u00e7a particular, j\u00e1 que frequentemente envolve comportamentos extremamente custosos, como altru\u00edsmo e, \u00e0s vezes, at\u00e9 autossacrif\u00edcio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por esse motivo, alguns te\u00f3ricos como Dunbar argumentam que n\u00f3s devemos tamb\u00e9m olhar al\u00e9m do indiv\u00edduo: para a sobreviv\u00eancia do grupo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso \u00e9 conhecido como sele\u00e7\u00e3o de m\u00faltiplos n\u00edveis, que &#8220;reconhece que benef\u00edcios de sa\u00fade podem \u00e0s vezes ter efeitos em n\u00edvel de grupo, em vez de ser apenas o produto direto de a\u00e7\u00f5es individuais&#8221;, define Dunbar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um exemplo \u00e9 a ca\u00e7a coletiva, que permite que grupos cacem mais do que qualquer membro conseguiria ca\u00e7ar individualmente. Ca\u00e7ar coletivamente significa mais para mim, mesmo que eu tenha que dividir a carne (j\u00e1 que o animal sendo dividido j\u00e1 \u00e9 maior do que qualquer coisa que eu conseguiria ca\u00e7ar sozinho).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o h\u00e1 uma hist\u00f3ria da religi\u00e3o de uma criatura individualmente. Nossa hist\u00f3ria \u00e9 sobre n\u00f3s.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Sentimentos primeiro<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se queremos entender religi\u00e3o, ent\u00e3o precisamos olhar para nossa hist\u00f3ria profundamente para entender como nossos ancestrais humanos evolu\u00edram para viver em grupos em primeiro lugar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00f3s somos, afinal de contas, descendentes de uma longa linha de homin\u00eddeos com &#8220;la\u00e7os sociais fracos e sem estruturas de grupo permanentes&#8221;, diz Jonathan Turner, autor do livro\u00a0<i>A Emerg\u00eancia e Evolu\u00e7\u00e3o da Religi\u00e3o<\/i>. Isso levou Turner ao que ele considera a pergunta de US$ 1 milh\u00e3o: &#8220;como a sele\u00e7\u00e3o de Darwin trabalhou na neuroanatomia dos homin\u00eddeos para faz\u00ea-los mais sociais para que eles pudessem gerar conex\u00f5es sociais para formar grupos? Isso n\u00e3o \u00e9 algo natural para macacos&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nossa linha de macacos evoluiu do nosso \u00faltimo ancestral comum h\u00e1 19 milh\u00f5es de anos. Os orangotangos se separaram entre 13 e 16 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s e o gorila entre 8 e 9 milh\u00f5es. A linha do homin\u00eddeo se dividiu em duas entre 5 e 7 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s, com uma das linhas levando aos chimpanz\u00e9s e bonobos e outra at\u00e9 n\u00f3s. N\u00f3s, humanos modernos, compartilhamos 99% dos nossos genes com chimpanz\u00e9s &#8211; o que significa que somos os macacos mais pr\u00f3ximos da linha inteira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As semelhan\u00e7as entre humanos e chimpanz\u00e9s s\u00e3o bem conhecidas, mas uma diferen\u00e7a importante tem a ver com tamanho do grupo. Chimpanz\u00e9s, em m\u00e9dia, conseguem manter um grupo de 45 elementos, diz Dunbar. &#8220;Parece que esse \u00e9 o maior tamanho de grupo que pode ser mantido por aliciamento&#8221;, diz ele. O tamanho m\u00e9dio de um grupo humano \u00e9 de 150, conhecido como &#8220;o n\u00famero de Dunbar&#8221;. O motivo disso, segundo ele, \u00e9 que os humanos t\u00eam a capacidade de chegar a ter tr\u00eas vezes mais contatos sociais do que os chimpanz\u00e9s devido uma certa quantidade de esfor\u00e7o social. A religi\u00e3o humana vem dessa capacidade maior de sociabilidade. Como?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como nossos ancestrais s\u00edmios se mudaram de habitats de florestas para ambientes mais abertos, como as savanas no leste e sul da \u00c1frica, as press\u00f5es de Darwin agiram sobre eles para torn\u00e1-los mais soci\u00e1veis e assim ter maior prote\u00e7\u00e3o de predadores e um melhor acesso a comida. Tamb\u00e9m tornou mais f\u00e1cil achar um parceiro. Sem a habilidade de manter novas estruturas &#8211; como pequenos grupos de cinco ou seis chamados fam\u00edlias nucleares &#8211; esses macacos n\u00e3o teriam sido capazes de sobreviver, segundo Turner.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o como a natureza realizou esse processo de socializa\u00e7\u00e3o? Turner diz que a chave n\u00e3o est\u00e1 no que tipicamente entendemos como intelig\u00eancia, mas com as emo\u00e7\u00f5es, que foram acompanhadas por algumas mudan\u00e7as importantes na estrutura do nosso c\u00e9rebro. Ele afirma que as altera\u00e7\u00f5es mais importantes t\u00eam a ver com as partes subcorticais do c\u00e9rebro, o que deu aos homin\u00eddeos a capacidade de sentir um leque mais amplo de emo\u00e7\u00f5es. Essas emo\u00e7\u00f5es a mais promoveram a conex\u00e3o, uma conquista crucial para o desenvolvimento da religi\u00e3o.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/B443\/production\/_106774164_5e11076f-f02f-449c-9e33-26ed1f397b50.jpg\" alt=\"Rever\u00eancia\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Sentimentos religiosos complexos muitas vezes s\u00e3o a combina\u00e7\u00e3o de muitas emo\u00e7\u00f5es. A rever\u00eancia, por exemplo, \u00e9 uma mistura de medo e felicidade<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">O processo de melhoramento da regi\u00e3o subcortical a que Turner se refere data de 4,5 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s, quando o primeiro Australopitecos surgiu. Inicialmente, a sele\u00e7\u00e3o aumentou o tamanho de seus c\u00e9rebros em 100 cent\u00edmetros c\u00fabicos (cc) al\u00e9m do c\u00e9rebro dos chimpanz\u00e9s, para cerca de 450 cc (no Australopitecos afarensis). Para fazer uma compara\u00e7\u00e3o, isso \u00e9 menor nos homin\u00eddeos mais recentes &#8211; o Homo habilis tinha uma capacidade cranial de 775 cc, enquanto o Homo erectus tinha uma um pouquinho maior, de 800-850. Os humanos modernos, por outro lado, tem um c\u00e9rebro muito maior do que qualquer um desses, com uma capacidade cranial de at\u00e9 1.400 cc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas esse tamanho cerebral menor n\u00e3o significa que nada estava acontecendo no c\u00e9rebro do homin\u00eddeo. Turner diz que o tamanho do c\u00e9rebro n\u00e3o reflete o melhoramento subcortical que estava acontecendo entre o surgimento do Australopitec\u00edneo (cerca de 4 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s) e do Homo erectus (1,8 milh\u00e3o de anos atr\u00e1s). &#8220;Est\u00e1 na hist\u00f3ria de como esses mecanismos [subcorticais] evolu\u00edram que as origens da religi\u00e3o podem ser descobertas.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar do neoc\u00f3rtex dos humanos ser tr\u00eas vezes o tamanho da dos macacos, o subc\u00f3rtex \u00e9 apenas duas vezes maior &#8211; o que leva Turner a acreditar que o aprimoramento das emo\u00e7\u00f5es dos homin\u00eddeos estava em curso antes que o neoc\u00f3rtex come\u00e7asse a crescer para o tamanho humano atual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como a natureza conseguiu isso? Voc\u00ea provavelmente j\u00e1 ouviu falar sobre as chamadas quatro emo\u00e7\u00f5es prim\u00e1rias: agress\u00e3o, medo, tristeza e felicidade. Qual sua primeira impress\u00e3o sobre essa lista? Tr\u00eas das emo\u00e7\u00f5es s\u00e3o negativas. Mas a promo\u00e7\u00e3o da solidariedade demanda emo\u00e7\u00f5es positivas &#8211; ent\u00e3o a sele\u00e7\u00e3o natural teve que encontrar uma maneira de &#8220;desligar&#8221; as emo\u00e7\u00f5es negativas e aumentar as positivas, diz Turner. As capacidades emocionais dos grandes macacos (principalmente os chimpanz\u00e9s) j\u00e1 eram mais elaboradas que as de muitos outros mam\u00edferos, ent\u00e3o a sele\u00e7\u00e3o natural j\u00e1 tinha uma boa base para come\u00e7ar o trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa altura de seu argumento, Turner introduz o conceito de elabora\u00e7\u00f5es de primeira e segunda ordem, que s\u00e3o emo\u00e7\u00f5es que resultam de combina\u00e7\u00f5es de duas ou mais emo\u00e7\u00f5es prim\u00e1rias. Ent\u00e3o, por exemplo, a combina\u00e7\u00e3o de felicidade e raiva gera vingan\u00e7a, enquanto a inveja \u00e9 resultado de raiva e medo. A rever\u00eancia, que est\u00e1 muito presente na religi\u00e3o, \u00e9 a combina\u00e7\u00e3o de medo e felicidade. Elabora\u00e7\u00f5es de segunda ordem s\u00e3o ainda mais complexas e ocorreram na evolu\u00e7\u00e3o do Homo erectus (1,8 milh\u00e3o de anos atr\u00e1s) para Homo sapiens (cerca de 200 mil anos atr\u00e1s). Culpa e vergonha, por exemplo, duas emo\u00e7\u00f5es cruciais para o desenvolvimento da religi\u00e3o &#8211; e s\u00e3o a combina\u00e7\u00e3o de tristeza, medo e raiva.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/10263\/production\/_106774166_e3b39607-3732-48fd-a9ef-9eff3c4619c9.jpg\" alt=\"Mu\u00e7ulmanos da Cashemira\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Mu\u00e7ulmanos da Cashemira celebram o Eid-e-Milad-un-Nabi, o anivers\u00e1rio do profeta<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 dif\u00edcil imaginar a religi\u00e3o sem a capacidade de experienciar essas elabora\u00e7\u00f5es emocionais pelo mesmo motivo que \u00e9 dif\u00edcil imaginar grupos sociais pr\u00f3ximos sem elas: essa paleta emocional nos une uns aos outros num n\u00edvel visceral. &#8220;As solidariedades humanas s\u00f3 s\u00e3o poss\u00edveis por excita\u00e7\u00f5es emocionais que est\u00e3o ligadas a emo\u00e7\u00f5es positivas &#8211; amor, felicidade, satisfa\u00e7\u00e3o, cuidado, lealdade &#8211; e a mitiga\u00e7\u00e3o do poder das emo\u00e7\u00f5es negativas, ou ao menos de algumas emo\u00e7\u00f5es negativas&#8221;, diz Turner. &#8220;E uma vez que essas novas val\u00eancias de emo\u00e7\u00f5es positivas s\u00e3o neurologicamente poss\u00edveis, elas podem se tornar interligadas com rituais ou outros comportamentos que geram emo\u00e7\u00f5es para aumentar as solidariedades e, eventualmente, produzir no\u00e7\u00f5es de deuses poderosos e for\u00e7as sobrenaturais.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem querer pular muito para frente, \u00e9 importante entender como alguns sentimentos cruciais est\u00e3o presentes na evolu\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o. N\u00e3o havia qualquer diferen\u00e7a entre sentimentos religiosos e outros sentimentos. &#8220;\u00c9 um argumento para o materialismo&#8221;, escreveu ele em um artigo, &#8220;aquela \u00e1gua fria na cabe\u00e7a de repente, um estado de esp\u00edrito an\u00e1logo a esses sentimentos, que podem ser considerados realmente espirituais. Se isso \u00e9 verdade, ent\u00e3o isso significa que as causas dos sentimentos religiosos podem ser identificadas e estudadas assim como qualquer outro sentimento&#8221;.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Ritual<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como a sele\u00e7\u00e3o trabalhou em estruturas cerebrais existentes, aumentando capacidades emocionais e interpessoais, algumas propens\u00f5es a comportamentos de primatas come\u00e7aram a evoluir. Entre elas est\u00e3o: a habilidade de ler olhares e rostos e imitar gestos faciais, v\u00e1rias capacidades para sentir empatia, a habilidade de ficar emocionalmente excitado em contextos sociais, a capacidade de fazer rituais, um sentimento de reciprocidade e justi\u00e7a e a habilidade de se enxergar como parte de um ambiente. Um aumento na paleta emocional dispon\u00edvel para os macacos resultaria em um aumento de todas essas capacidades comportamentais, segundo Turner.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de muitos, se n\u00e3o todos, desses comportamentos terem sido documentados em macacos, eu quero concentrar em dois deles &#8211; ritual e empatia &#8211; sem os quais a religi\u00e3o seria impens\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em uma grava\u00e7\u00e3o de arquivo, a primatologista e antrop\u00f3loga Jane Goodal descreve a dan\u00e7a da cachoeira que foi observada em chimpanz\u00e9s. Vale a pena citar seus coment\u00e1rios aqui:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Quando os chimpanz\u00e9s se aproximam, eles ouvem esse som estrondoso e voc\u00ea v\u00ea que seus cabelos ficam um pouco em p\u00e9 e eles se movimentam com maior rapidez. Quando chegam l\u00e1, eles ficam se balan\u00e7ando ritmicamente, geralmente em p\u00e9, pegando pedras grandes e as jogando por uns 10 minutos. \u00c0s vezes, agarram cip\u00f3s e se balan\u00e7am at\u00e9 onde h\u00e1 borrifadas de \u00e1gua e eles ficam na \u00e1gua, que geralmente evitam. Depois, voc\u00ea os ver\u00e1 sentados em uma pedra que realmente fica na correnteza, olhando para cima, observando a \u00e1gua conforme ela cai e ent\u00e3o assistindo a ela correr e desaparecer&#8221;. Eu n\u00e3o consigo evitar a sensa\u00e7\u00e3o de que essa dan\u00e7a \u00e9 provocada pelo sentimento de rever\u00eancia e espanto que sentimos.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O c\u00e9rebro do chimpanz\u00e9 \u00e9 como o nosso: eles t\u00eam emo\u00e7\u00f5es que s\u00e3o claramente similares ou as mesmas que as que chamamos de felicidade, tristeza, medo, desespero e assim por diante &#8211; suas habilidades intelectuais incr\u00edveis que costumamos pensar que s\u00e3o \u00fanicas a n\u00f3s. Ent\u00e3o por que eles n\u00e3o teriam sentimentos de algum tipo de espiritualidade, que \u00e9 se sentir impressionado por coisas maiores que voc\u00ea mesmo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Goodall observou um fen\u00f4meno parecido acontecer durante uma chuva pesada. Essas observa\u00e7\u00f5es levaram a pesquisadora a concluir que os chimpanz\u00e9s s\u00e3o t\u00e3o espirituais quanto n\u00f3s. &#8220;Eles n\u00e3o conseguem analisar, n\u00e3o falam sobre, n\u00e3o podem descrever o que sentem. Mas voc\u00ea sente que est\u00e1 tudo trancado dentro deles e a \u00fanica maneira de expressar isso \u00e9 atrav\u00e9s dessa fant\u00e1stica dan\u00e7a r\u00edtmica.&#8221; Al\u00e9m dessas demonstra\u00e7\u00f5es que Goodall descreve, outros observaram demonstra\u00e7\u00f5es carnavalescas, sess\u00f5es de bateria e v\u00e1rios rituais de gritos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As origens do ritual est\u00e3o no que Bellah chama de &#8220;brincadeira s\u00e9ria&#8221; &#8211; atividades feitas sem uma raz\u00e3o, que podem n\u00e3o servir imediatamente \u00e0 sobreviv\u00eancia, mas que t\u00eam &#8220;uma potencialidade muito grande de desenvolver mais capacidades&#8221;. Esse ponto de vista se encaixa com v\u00e1rias teorias da ci\u00eancia do desenvolvimento, que mostram que atividades de lazer s\u00e3o muitas vezes cruciais para o desenvolvimento de habilidades importantes como teoria da mente ou an\u00e1lise contrafactual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A brincadeira, nesse sentido evolucion\u00e1rio, tem muitas caracter\u00edsticas \u00fanicas: precisa ser perfomada &#8220;em um lugar relaxado&#8221; &#8211; quando o animal est\u00e1 alimentado e saud\u00e1vel e n\u00e3o estressado (por isso que \u00e9 mais comum em esp\u00e9cies com maior cuidado parental). A brincadeira tamb\u00e9m acontece em saltos: tem um come\u00e7o e um fim claros. Entre cachorros, por exemplo, a brincadeira \u00e9 iniciada com uma rever\u00eancia. A brincadeira envolve um senso de justi\u00e7a, ou ao menos igualdade: animais grandes precisam se colocar em desvantagem para n\u00e3o machucar animais menores. Al\u00e9m disso, a brincadeira envolve o corpo.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/15083\/production\/_106774168_6c29ab61-dee7-4cca-a868-59759acf7a93.jpg\" alt=\"Judeus ultraortodoxos\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Judeus ultraortodoxos participam de um ritual Tashlich, durante o qual os pecados s\u00e3o jogados na \u00e1gua para os peixes<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora compare isso ao ritual, que \u00e9 performado e que envolve o corpo. Rituais come\u00e7am e terminam. Eles envolvem inten\u00e7\u00f5es e aten\u00e7\u00f5es compartilhadas. H\u00e1 regras envolvidas. Eles acontecem em um hor\u00e1rio durante um certo tempo &#8211; al\u00e9m do tempo do cotidiano. (Pense, por exemplo, em um jogo de futebol no qual a bola n\u00e3o pode ser pega al\u00e9m dos limites e o tempo pode ser pausado. N\u00f3s regularmente participamos de modos de realidade nos quais conscientemente &#8220;sa\u00edmos do mundo real&#8221;. A brincadeira tamb\u00e9m permite que fa\u00e7amos isso). O mais importante de tudo, diz Bellah, \u00e9 que a brincadeira \u00e9 uma pr\u00e1tica em si mesma e &#8220;n\u00e3o algo com um fim externo&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bellah chama o ritual de &#8220;forma primordial de brincadeira s\u00e9ria na hist\u00f3ria da evolu\u00e7\u00e3o humana&#8221;, o que significa que o ritual \u00e9 o um aprimoramento das capacidades que tornam a brincadeira poss\u00edvel na linha mam\u00edfera. H\u00e1 uma continuidade entre as duas. E, por mais que Turner reconhe\u00e7a que pode ser um pouco for\u00e7ado se referir a uma dan\u00e7a da cachoeira de chimpanz\u00e9s como um ritual com R mai\u00fasculo, \u00e9 poss\u00edvel afirmar que &#8220;essas propens\u00f5es comportamentais ritual\u00edsticas sugerem que parte do que \u00e9 necess\u00e1rio para o comportamento religioso faz parte do genoma dos chimpanz\u00e9s e, portanto, dos homin\u00eddeos&#8221;.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Empatia<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O segundo tra\u00e7o que consideramos \u00e9 empatia, que n\u00e3o est\u00e1 primariamente na cabe\u00e7a. Est\u00e1 no corpo &#8211; ao menos \u00e9 onde ela \u00e9 iniciada. Segundo Waal, come\u00e7a &#8220;com a sincroniza\u00e7\u00e3o de corpos, correr quando outros correm, rir quando outros riem, chorar quando outros choram ou bocejar quando outros bocejam&#8221;.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1BEB\/production\/_106774170_2533d795-1923-4ccb-ace3-4ad3924691b9.jpg\" alt=\"Monges budistas\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Monges budistas lan\u00e7am lanternas ao c\u00e9u durante o festival Yee Peng em Chiang Mai. O ritual simboliza a libera\u00e7\u00e3o de bondade e benevol\u00eancia<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">A empatia \u00e9 absolutamente central para o que chamamos de moralidade, diz Waal. &#8220;Sem empatia, voc\u00ea n\u00e3o tem moralidade humana. Ela nos torna interessados nos outros. Nos faz ter participa\u00e7\u00e3o emocional.&#8221; Se a religi\u00e3o, segundo nossa defini\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma maneira de estar junto, ent\u00e3o a moralidade, que nos instrui sobre as melhores maneiras de estar junto, \u00e9 uma parte intr\u00ednseca disso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De Waal foi criticado ao longo dos anos por oferecer uma interpreta\u00e7\u00e3o cor de rosa de um comportamento animal. Em vez de ver o comportamento animal como altru\u00edsta e, portanto, advindo de um senso de empatia, n\u00f3s dever\u00edamos, segundo esses cientistas, ver esse comportamento como ele \u00e9: ego\u00edsmo. Os animais querem sobreviver, ponto. Qualquer a\u00e7\u00e3o que eles tomem precisa ser interpretada nesse ponto de vista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pesquisador, no entanto, acredita que essa \u00e9 uma maneira enganosa de falar sobre altru\u00edsmo. &#8220;N\u00f3s vemos que os animais querem dividir a comida mesmo que isso tenha um custo. N\u00f3s fazemos experimentos e a conclus\u00e3o geral \u00e9 que a primeira rea\u00e7\u00e3o dos animais \u00e9 ser altru\u00edsta e cooperativo. Tend\u00eancias altru\u00edsticas s\u00e3o muito naturais para muitos mam\u00edferos.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas n\u00e3o seria isso autopreserva\u00e7\u00e3o? Os animais n\u00e3o estariam agindo de acordo com seus interesses pr\u00f3prios? Se eles se comportam de uma maneira que pare\u00e7a altru\u00edsta, n\u00e3o estariam eles apenas se preparando para um momento em que precisar\u00e3o de ajuda? &#8220;Chamar isso de ego\u00edsta porque no final essas tend\u00eancias sociais t\u00eam benef\u00edcios?&#8221;. Para de Waal, isso \u00e9 esvaziar o sentido da palavra ego\u00edsta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sim, \u00e9 claro que h\u00e1 sensa\u00e7\u00f5es prazerosas associadas com a a\u00e7\u00e3o de dar algo ao outro. Mas a evolu\u00e7\u00e3o produziu sensa\u00e7\u00f5es prazerosas para comportamentos que precisamos performar, como fazer sexo e comer. O mesmo \u00e9 verdade para o altru\u00edsmo, diz Waal. Isso n\u00e3o altera fundamentalmente o que o comportamento \u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Manter uma linha t\u00e3o dura entre altru\u00edsmo e ego\u00edsmo, portanto, \u00e9 na melhor da hip\u00f3teses ing\u00eanuo e, na pior, mentiroso. E n\u00f3s podemos ver o mesmo com discuss\u00f5es de normas sociais. Fil\u00f3sofos como David Hume distinguiram o que um comportamento &#8220;\u00e9&#8221; e o que &#8220;deve ser&#8221;, o que virou a base para a delibera\u00e7\u00e3o \u00e9tica. Um animal pode performar o comportamento x, mas ele faz isso porque ele sente que deveria &#8211; por causa de uma norma?<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/574B\/production\/_106774322_fbc518f8-0c87-41c4-86dd-7ccbbc1f6cf5.jpg\" alt=\"Evento natalino de caridade\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Mulheres preparam comida para pessoas sem-teto durante um evento natalino de caridade<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa \u00e9 uma distin\u00e7\u00e3o que Waal encontrou ao falar com fil\u00f3sofos segundo os quais nenhuma dessas observa\u00e7\u00f5es de empatia ou moralidade nos animais podem determinar se eles t\u00eam ou n\u00e3o regras. De Waal discorda, argumentando que os animais reconhecem normas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 exemplos simples, como uma teia de aranha ou um ninho. Se voc\u00ea causar algum dano a eles, o animal vai reparar rapidamente porque eles t\u00eam regras sobre como ninhos e teias devem funcionar e que apar\u00eancia devem te. Ou eles abandonam o objeto ou come\u00e7am de novo e consertam. Os animais s\u00e3o capazes de ter objetivos e de se esfor\u00e7ar para realiz\u00e1-los. No mundo social, se eles brigam, em seguida se re\u00fanem e tentam reparar o preju\u00edzo. Eles tentam voltar a um estado. Eles t\u00eam normas sobre como essa distribui\u00e7\u00e3o deve ser. A ideia de que normatividade \u00e9 restrita aos humanos n\u00e3o \u00e9 correta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No livro\u00a0<i>O Bonobo e o Ateu<\/i>, Waal diz que os animais parecem possuir um mecanismo para repara\u00e7\u00e3o social. &#8220;Cerca de 30 diferentes esp\u00e9cies de primatas se reconciliam ap\u00f3s brigas e essa reconcilia\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 limitada aos primatas. H\u00e1 evid\u00eancias desse mecanismo em hienas, golfinhos, lobos e cabras dom\u00e9sticas.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele tamb\u00e9m achou evid\u00eancias de que os animais &#8220;ativamente tentam preservar a harmonia em sua rede social ao se reconciliar ap\u00f3s o conflito, protestando contra divis\u00f5es desiguais e acabando com brigas entre si. Eles se comportam normativamente no sentido de corre\u00e7\u00e3o, ou tentativa de corre\u00e7\u00e3o de desvios de um estado ideal. Eles tamb\u00e9m demonstram autocontrole emocional e antecipa\u00e7\u00e3o de resolu\u00e7\u00e3o de conflito para evitar esse tipo de desvio. Isso faz com que a diferen\u00e7a entre o comportamento primata e a moral humana n\u00e3o seja t\u00e3o grande como pensado anteriormente&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Obviamente existe uma diferen\u00e7a entre repara\u00e7\u00e3o social primata e a institucionaliza\u00e7\u00e3o de c\u00f3digos morais centrais no cora\u00e7\u00e3o das sociedades modernas humanas. Mesmo assim, diz de Waal, todos esses &#8220;sistemas morais humanos usam tend\u00eancias primatas&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Qu\u00e3o longe essas tend\u00eancias v\u00e3o? Provavelmente, assim como as capacidades que permitiram a brincadeira (e consequentemente o ritual), at\u00e9 o surgimento do cuidado parental. &#8220;Durante 200 milh\u00f5es de anos de evolu\u00e7\u00e3o mam\u00edfera, f\u00eameas preocupadas com suas crias se reproduziram mais do que as frias e distantes&#8221;, diz de Waal. \u00c9 claro que o cuidado com a cria \u00e9 um comportamento visto em esp\u00e9cies de peixes, crocodilos e cobras, mas as capacidades de cuidado dos mam\u00edferos representam um salto gigante na hist\u00f3ria da evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">O come\u00e7o da religi\u00e3o<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">As religi\u00f5es de hoje podem parecer muito distantes da brincadeira entre mam\u00edferos e da empatia que surgiram no nosso passado distante, e, de fato, a religi\u00e3o institucionalizada \u00e9 muito mais avan\u00e7ada que uma dan\u00e7a da cachoeira. Mas a evolu\u00e7\u00e3o nos ensina que fen\u00f4menos complexos e avan\u00e7ados se desenvolvem a partir de come\u00e7os simples. Como Bellah nos lembra, n\u00f3s n\u00e3o viemos de lugar nenhum. &#8220;N\u00f3s estamos imersos em uma profunda hist\u00f3ria biol\u00f3gica e cosmol\u00f3gica&#8221;.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/A56B\/production\/_106774324_87a64870-3074-497c-9877-c15ec6f8919d.jpg\" alt=\"Igreja\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>As religi\u00f5es de hoje podem parecer muito distantes de suas origens antigas, mas assim como todos os comportamentos, est\u00e3o profundamente imersas na hist\u00f3ria da evolu\u00e7\u00e3o<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conforme a linha do macaco evoluiu do nosso \u00faltimo ancestral comum em ambientes mais abertos, foi necess\u00e1rio pressionar macacos, que preferem viver sozinhos, a formar estruturas sociais mais permanentes. A sele\u00e7\u00e3o natural foi capaz de realizar essa impressionante proeza ao aprimorar as paletas emocionais que h\u00e1 muito tempo estavam dispon\u00edveis aos nossos ancestrais. Com um leque mais amplo de emo\u00e7\u00f5es, o c\u00e9rebro do homin\u00eddeo foi capaz de aprimorar suas capacidades, algumas das quais naturalmente os levaram a uma maneira religiosa de existir no mundo. Como essas capacidades s\u00e3o mais desenvolvidas com o crescimento do c\u00e9rebro humano e o desenvolvimento do neocortex, comportamentos como brincadeira e rituais entraram uma nova fase no desenvolvimento homin\u00eddeo, transformando a mat\u00e9ria bruta a partir da qual a evolu\u00e7\u00e3o come\u00e7aria a institucionalizar a religi\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar dessa hist\u00f3ria n\u00e3o determinar quem somos &#8211; para cada nova fase na hist\u00f3ria da vida h\u00e1 um poder maior de ag\u00eancia &#8211; essa hist\u00f3ria biocosmol\u00f3gica influencia tudo que fazemos e como somos. At\u00e9 a mais aparentemente aut\u00f4noma decis\u00e3o humana \u00e9 tomada dentro de uma hist\u00f3ria. Essa \u00e9 a ideia por tr\u00e1s disso tudo. \u00c9 isso o que temos mantido em mente conforme voltamos para as sementes evolucion\u00e1rias que floresceriam &#8211; de maneira muito devagar &#8211; na religi\u00e3o humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de interpretar teologicamente as palavras &#8220;este \u00e9 meu corpo&#8221;, eu n\u00e3o deveria ignorar o fato de que a comunh\u00e3o \u00e9 sobre corpos &#8211; o meu, o seu, o nosso. A religi\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno corporal porque a maneira religiosa de exist\u00eancia evoluiu por milh\u00f5es de anos conforme os corpos de nossos ancestrais interagiam com outros corpos ao seu redor. Se algu\u00e9m toma a comunh\u00e3o ou se considera religioso, n\u00f3s estamos navegando nossos mundos sociais com nossas capacidades evolu\u00eddas de brincar, empatizar e celebrar rituais entre n\u00f3s.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As religi\u00f5es de hoje podem parecer muito distantes de suas origens antigas, mas assim como todos os comportamentos, est\u00e3o profundamente imersas na hist\u00f3ria da ev<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":285043,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1175,6],"tags":[],"class_list":["post-285042","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-educacao","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/judeus-no-mar.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/285042","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=285042"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/285042\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/285043"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=285042"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=285042"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=285042"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}