{"id":285119,"date":"2019-06-03T07:40:08","date_gmt":"2019-06-03T10:40:08","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=285119"},"modified":"2019-06-04T03:00:22","modified_gmt":"2019-06-04T06:00:22","slug":"como-descobri-que-meus-antepassados-participaram-do-trafico-de-negros-escravizados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/como-descobri-que-meus-antepassados-participaram-do-trafico-de-negros-escravizados\/","title":{"rendered":"\u2018Como descobri que meus antepassados participaram do tr\u00e1fico de negros escravizados\u2019"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\"><\/h1>\n<div class=\"byline\"><span class=\"byline__name\">Jaime Gonz\u00e1lez<\/span><\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/08A6\/production\/_107141220_gettyimages-802464822-1.jpg\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00e3o de negros escravizados\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span>O tema escravid\u00e3o ainda desperta calorosos debates em ambos os lados do Atl\u00e2ntico<\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">&#8220;\u00c0s vezes \u00e9 melhor n\u00e3o mexer no passado.&#8221;<\/p>\n<p>Durante semanas, fiquei pensando sobre essa frase que um amigo me disse, em tom s\u00e9rio, quando contei a ele detalhes da pesquisa que estava fazendo.<\/p>\n<p>Era um document\u00e1rio sobre a participa\u00e7\u00e3o catal\u00e3 no tr\u00e1fico de negros escravizados no s\u00e9culo 19, a partir da trajet\u00f3ria de dois antepassados meus que, de acordo com documentos hist\u00f3ricos, estariam envolvidos com esse tipo de transa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim que comecei a pesquisar sobre o tema, me dei conta sobre como \u00e9 dif\u00edcil falar hoje em dia sobre escravid\u00e3o, assunto que desperta calorosos debates dos dois lados do Atl\u00e2ntico e que em certos c\u00edrculos ainda \u00e9 um tabu.<\/p>\n<p>Por um lado, h\u00e1 aqueles que defendem que a verdade deve vir \u00e0 tona e que os pa\u00edses que se beneficiaram do tr\u00e1fico de negros escravizados t\u00eam uma d\u00edvida com os descendentes de milh\u00f5es de v\u00edtimas do com\u00e9rcio escravista.<\/p>\n<p>Por outro lado, h\u00e1 aqueles que, como meu amigo, acreditam que, 200 anos ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o, n\u00e3o vale a pena reabrir feridas do passado, e que devemos olhar para frente.<\/p>\n<p>No meu caso, apesar das d\u00favidas que surgiram no meio do caminho, desde o in\u00edcio estava claro que &#8211; n\u00e3o importa qu\u00e3o desconfort\u00e1vel seja esse passado &#8211; \u00e9 uma hist\u00f3ria que deve ser contada.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Uma est\u00e1tua pol\u00eamica<\/h2>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1F31\/production\/_107158970_gettyimages-926782996.jpg\" alt=\"Antonio L\u00f3pez\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Em 2018, a prefeitura de Barcelona decidiu remover a est\u00e1tua de Antonio L\u00f3pez do centro da cidade<\/figure>\n<p>O meu interesse pelo assunto come\u00e7ou no in\u00edcio de 2018 em Barcelona, cidade em que nasci e na qual mora grande parte da minha fam\u00edlia, quando surgiu uma forte pol\u00eamica em torno da figura de Antonio L\u00f3pez y L\u00f3pez, o primeiro marqu\u00eas de Comillas.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo 19, L\u00f3pez era um dos principais empres\u00e1rios e mecenas da capital catal\u00e3, gra\u00e7as \u00e0 enorme fortuna que conseguiu acumular com seus neg\u00f3cios na ilha de Cuba.<\/p>\n<p>H\u00e1 um ano, a prefeitura de Barcelona decidiu retirar sua est\u00e1tua do centro da cidade, atendendo ao pedido de v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es, dada a liga\u00e7\u00e3o que ele tinha, segundo alguns historiadores, com o tr\u00e1fico de negros escravizados.<\/p>\n<p>Aqueles que se opuseram \u00e0 medida argumentaram que L\u00f3pez estava sendo usado como &#8220;bode expiat\u00f3rio&#8221; e que n\u00e3o era poss\u00edvel afirmar com certeza absoluta que ele havia sido escravista.<\/p>\n<p>Acompanhei de perto todo esse debate, o que me fez questionar pela primeira vez se era poss\u00edvel que meus antepassados, que, assim como L\u00f3pez faziam parte da elite econ\u00f4mica de Barcelona no s\u00e9culo 19, tivessem participado do tr\u00e1fico de negros escravizados.<\/p>\n<p>\u00c9 uma quest\u00e3o sobre a qual nenhum parente pr\u00f3ximo parecia ter certeza, apesar de ser uma possibilidade que n\u00e3o poderia ser descartada, dada a rela\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica que uma parte da burguesia catal\u00e3 tinha com a escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas bastaram algumas buscas na internet para encontrar v\u00e1rios livros e documentos que falavam sobre a conex\u00e3o de dois antepassados meus com o com\u00e9rcio transatl\u00e2ntico.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Um comerciante basco bem-sucedido<\/h2>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1C07\/production\/_107157170_baile.jpg\" alt=\"Baile\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Chopitea se tornou um dos homens de neg\u00f3cios mais importantes da capital chilena<\/figure>\n<p>O primeiro deles foi Pedro Nicol\u00e1s de Chopitea, tatarav\u00f4 do meu av\u00f4, de um pequeno povoado de Vizcaya, no Pa\u00eds Basco, e que migrou para Santiago do Chile na \u00faltima d\u00e9cada do s\u00e9culo 18.<\/p>\n<p>Chopitea se tornou um dos empres\u00e1rios mais importantes da capital chilena, negociando todos os tipos de mercadorias entre a Europa e a Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p>Em algumas ocasi\u00f5es, entre as remessas transportadas em seu nome, tamb\u00e9m havia escravos.<\/p>\n<p>A participa\u00e7\u00e3o de Chopitea no tr\u00e1fico escravista foi documentada pelo historiador chileno Francisco Betancourt Castillo, que h\u00e1 dez anos estuda o papel dos comerciantes bascos no Chile durante a \u00faltima fase da col\u00f4nia.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1413A\/production\/_107143228_firma.jpg\" alt=\"Assinatura\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>A participa\u00e7\u00e3o de Chopitea em opera\u00e7\u00f5es de traslado de escravos fica evidente &#8216;nas correspond\u00eancias que ele trocava com dois de seus s\u00f3cios&#8217;<\/figure>\n<p>Me encontrei com Betancourt na sede do Arquivo Nacional em Santiago, onde est\u00e1 guardada parte da correspond\u00eancia que meu antepassado trocou com seus parceiros comerciais, detalhando algumas opera\u00e7\u00f5es de traslado de negros escravizados de que havia participado.<\/p>\n<p>Segundo Betancourt, era comum naquela \u00e9poca, quando o tr\u00e1fico de negros escravizados ainda n\u00e3o era proibido, que grandes comerciantes do Cone Sul, como Chopitea, se dedicassem \u00e0s vezes a essa atividade &#8220;se houvesse uma conjuntura favor\u00e1vel, aproveitando suas redes de contatos&#8221;.<\/p>\n<p>Eram opera\u00e7\u00f5es mercantis triangulares. Por exemplo, transportavam produtos subtropicais do Peru para o Chile e Argentina, e negros escravizados de Buenos Aires para Valpara\u00edso e Lima.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;Caldeir\u00e3o de \u00f3leo fervendo&#8217;<\/h2>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/0CA2\/production\/_107143230_francisco.jpg\" alt=\"Francisco Betancourt\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Francisco Betancourt diz que era comum que grandes comerciantes do Cone Sul, como Chopitea, \u00e0s vezes se envolvessem com o tr\u00e1fico de negros escravizados<\/figure>\n<p>Betancourt ressalta que, embora o tr\u00e1fico de negros escravizados n\u00e3o tenha sido, de forma alguma, a principal atividade comercial de Chopitea, sua participa\u00e7\u00e3o nesse neg\u00f3cio \u00e9 evidente &#8220;nas correspond\u00eancias que trocou com dois de seus s\u00f3cios&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Chopitea era o v\u00ednculo entre eles dois, geograficamente. Ele estava encarregado de receber os escravos que chegavam ao Chile vindos do Rio da Prata. Era respons\u00e1vel pelo financiamento que essas opera\u00e7\u00f5es demandavam e depois pelo transporte dos negros escravizados, \u00e0s vezes em seus pr\u00f3prios barcos, at\u00e9 o Peru, para os mercados urbanos de Lima e Callao&#8221;.<\/p>\n<p>Nas cartas que Betancourt me mostrou, datadas de 1803 a 1804, o caixeiro de Chopitea d\u00e1 detalhes de v\u00e1rias caravanas de escravos que meu antepassado tinha que receber no Chile.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/04D2\/production\/_107143210_docus.jpg\" alt=\"Arquivo\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>No Arquivo Nacional de Santiago est\u00e1 guardada a correspond\u00eancia de Pedro Nicol\u00e1s de Chopitea<\/figure>\n<p>O mais chocante de ler esta correspond\u00eancia \u00e9 a descri\u00e7\u00e3o sobre o estado em que os negros escravizados se encontravam, tanto psicologicamente como fisicamente, enquanto eram levados de um territ\u00f3rio para outro.<\/p>\n<p>Eram jornadas que poderiam durar dois meses em que, se n\u00e3o morriam v\u00edtimas das p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es da viagem ou de doen\u00e7as, os negros precisavam sobreviver em um territ\u00f3rio totalmente desconhecido.<\/p>\n<p>Em uma das cartas, o caixeiro de Chopitea conta como v\u00e1rios escravos escaparam depois que algu\u00e9m disse a eles &#8220;que estavam sendo levados para uma terra horr\u00edvel, onde as pessoas tinham quatro olhos e comiam gente &#8211; e que seriam devorados assim que chegassem, sendo jogados em caldeir\u00f5es de \u00f3leo fervendo&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Isso deixava eles t\u00e3o apavorados que esperavam a oportunidade de fugir, como de fato acontecia.&#8221;<\/p>\n<p>Em outra, explica como um dos l\u00edderes dos negros escravizados se jogou em um rio na Argentina, pensando que assim chegaria a Guin\u00e9, sua terra natal.<\/p>\n<p>&#8220;Talvez ele estivesse apenas se despedindo e, em seu esp\u00edrito, pensou que voltaria ao seu pa\u00eds&#8221;, diz Betancourt.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/52F2\/production\/_107143212_docus2.jpg\" alt=\"Documentos\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Esta correspond\u00eancia descreve a situa\u00e7\u00e3o em que os escravos se encontravam<\/figure>\n<p>Segundo o historiador, fica claro a partir dessas cartas que, para esses comerciantes, a participa\u00e7\u00e3o no tr\u00e1fico de escravos &#8220;era um tanto complexa&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Por um lado, h\u00e1 um incentivo econ\u00f4mico que faz com que considerem os negros escravizados como &#8216;pe\u00e7as&#8217;, como qualquer outra mercadoria. Mas \u00e9 poss\u00edvel perceber nas cartas que h\u00e1 uma certa preocupa\u00e7\u00e3o ou cuidado porque se trata de uma mercadoria que \u00e9 distinta das demais&#8221;.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Uma quest\u00e3o esquecida<\/h2>\n<p>Os historiadores destacam o pouco conhecimento que os chilenos t\u00eam atualmente sobre o papel que seu pa\u00eds desempenhou no tr\u00e1fico de negros escravizados.<\/p>\n<p>No Arquivo Nacional de Santiago, tamb\u00e9m me encontrei com Juan Jos\u00e9 Mart\u00ednez Barraza, historiador econ\u00f4mico da Universidade de Santiago do Chile, que passou anos pesquisando sobre o fen\u00f4meno da escravid\u00e3o no Cone Sul.<\/p>\n<p>Segundo ele, &#8220;o tema da escravid\u00e3o foi esquecido porque de uma maneira geral a \u00e9poca da col\u00f4nia foi deixada de lado como objeto de estudo no Chile&#8221;.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1396A\/production\/_107143208_cuadro.jpg\" alt=\"Quadro\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Os historiadores afirmam que os chilenos sabem pouco atualmente sobre o papel que seu pa\u00eds desempenhou no tr\u00e1fico de negros escravizados<\/figure>\n<p>&#8220;O que sabemos \u00e9 que, no total, durante todo o per\u00edodo colonial, cerca de 12 milh\u00f5es de escravos foram traficados de um continente para outro. Estes 70 mil negros escravizados que chegaram ao Cone Sul, principalmente ao Rio da Prata, correspondem a aproximadamente 1% do tr\u00e1fico total. Embora pare\u00e7a um percentual insignificante, n\u00e3o foi, se considerarmos o que representou em termos econ\u00f4micos para esses lugares&#8221;, diz o historiador.<\/p>\n<p>&#8220;Por exemplo, em 1777, havia 40 mil habitantes em Santiago e cerca de 50 mil em Lima. Portanto, a chegada de 70 mil pessoas, que tamb\u00e9m se reproduziram, foi significativa em termos econ\u00f4micos&#8221;, acrescenta.<\/p>\n<p>Segundo Mart\u00ednez Barraza, os negros escravizados desempenharam um papel importante na economia local do Chile colonial.<\/p>\n<p>Muitos ficaram nas cidades para realizar trabalhos dom\u00e9sticos e artesanais. Outros foram for\u00e7ados a trabalhar nos campos ou nas minas.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Uma expedi\u00e7\u00e3o escravista de Barcelona<\/h2>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/2951\/production\/_107177501_7d4d2ce1-8e08-4a8c-bcb3-ac3f20d9fe6e.jpg\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00e3o da independ\u00eancia do Chile\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Com a independ\u00eancia do Chile, Pedro Nicol\u00e1s de Chopitea e Mariano Serra retornaram \u00e0 Espanha.<\/figure>\n<p>Durante as batalhas pela independ\u00eancia do Chile no in\u00edcio do s\u00e9culo 19, meu antepassado Pedro Nicol\u00e1s de Chopitea, como muitos outros comerciantes radicados em Santiago, apoiou a ala monarquista que defendia os interesses da Coroa Espanhola.<\/p>\n<p>Isso fez com que todos os seus bens e propriedades fossem confiscados &#8211; e ele foi for\u00e7ado a deixar o Chile com a fam\u00edlia, indo viver na cidade de Barcelona em 1819.<\/p>\n<p>Um tempo antes, Mariano Serra, que tamb\u00e9m \u00e9 tatarav\u00f4 do meu av\u00f4, que havia sido contador de Chopitea em Santiago, havia chegado \u00e0 capital catal\u00e3 vindo do pa\u00eds sul-americano.<\/p>\n<p>Serra, nativo de uma pequena vila de pescadores na costa catal\u00e3, fundou com seu filho uma empresa comercial em Barcelona, que em poucos anos se tornou uma das mais importantes da cidade.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/14B95\/production\/_107158848_docus4.jpg\" alt=\"Documentos\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Documentos hist\u00f3ricos mostram que Mariano Serra financiou uma expedi\u00e7\u00e3o de escravos<\/figure>\n<p>Como outros membros importantes da burguesia de Barcelona, que na primeira metade do s\u00e9culo 19 havia regressado \u00e0 Espanha ap\u00f3s fazer fortuna nas &#8220;Am\u00e9ricas&#8221;, Serra tamb\u00e9m tinha alguma liga\u00e7\u00e3o com o tr\u00e1fico de negros escravizados.<\/p>\n<p>Documentos judiciais mostram que, em 1839, ele foi fiador de uma expedi\u00e7\u00e3o escravista que partiu do porto de Barcelona e foi interceptada por navios da marinha brit\u00e2nica que patrulhavam as \u00e1guas do Atl\u00e2ntico, numa \u00e9poca em que o tr\u00e1fico j\u00e1 estava proibido.<\/p>\n<p>Esta constata\u00e7\u00e3o foi feita pelo historiador Martin Rodrigo Alharilla, que detalhou a participa\u00e7\u00e3o catal\u00e3 no tr\u00e1fico de escravos no livro\u00a0<i>Negreros y esclavos: Barcelona y la esclavitud atl\u00e1ntica (siglos XVI-XIX)<\/i>, de sua autoria.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/709B\/production\/_107172882_a39039c5-dd75-49a1-84db-e68f92d9e2f1.jpg\" alt=\"Assinatura de Mariano Serra\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Serra fundou junto a seu filho em Barcelona uma empresa comercial que em poucos anos se tornou uma das mais importantes da cidade<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Uma expedi\u00e7\u00e3o ilegal<\/h2>\n<p>&#8220;Sabemos que essa expedi\u00e7\u00e3o era dedicada ao tr\u00e1fico de escravos, por isso era uma expedi\u00e7\u00e3o ilegal. Sabemos que o fiador estava envolvido no financiamento e na organiza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel saber quanto dinheiro ele investiu, tampouco podemos saber o papel que ele desempenhou na expedi\u00e7\u00e3o, embora possamos intuir que foi o principal respons\u00e1vel&#8221;, diz Rodrigo Alharilla.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o podemos dizer que sua fortuna (de Serra) foi acumulada com base no tr\u00e1fico de escravos, porque seria impreciso, mas podemos dizer que parte de sua fortuna teve a ver com a participa\u00e7\u00e3o no com\u00e9rcio de escravos.&#8221;<\/p>\n<p>O historiador afirma que, se algu\u00e9m investigar alguns dos principais membros da burguesia de Barcelona no s\u00e9culo 19, vai descobrir que &#8220;estiveram envolvidos de uma forma ou de outra no tr\u00e1fico de escravos&#8221;. Ele cita como exemplo o Banco de Barcelona, a primeira institui\u00e7\u00e3o financeira privada da Espanha fundada em 1844.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/105A9\/production\/_107158966_gettyimages-815600782.jpg\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00e3o de negros escravizados\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Em Barcelona, as elites econ\u00f4micas do s\u00e9culo 19 defendiam a necessidade de trabalho escravo para planta\u00e7\u00f5es de cana de a\u00e7\u00facar em pa\u00edses como Cuba<\/figure>\n<p>&#8220;No conselho do governo havia participa\u00e7\u00e3o de destaque de personagens ligados ao com\u00e9rcio escravista, alguns que operavam a partir do porto de Barcelona e outros de Havana ou Matanzas (em Cuba) e que depois voltaram para Barcelona.&#8221;<\/p>\n<p>De acordo com Rodrigo Alharilla, pouco se sabe sobre a participa\u00e7\u00e3o catal\u00e3 no tr\u00e1fico de negros escravizados porque &#8220;os historiadores n\u00e3o t\u00eam estudado este assunto com intensidade suficiente&#8221;. Al\u00e9m disso, &#8220;\u00e9 um tema desconfort\u00e1vel que gera certa preocupa\u00e7\u00e3o e rejei\u00e7\u00e3o em alguns setores das elites atuais, que imaginam ou sabem que seus ancestrais poderiam estar envolvidos&#8221; nessas atividades.<\/p>\n<p>O historiador ressalta que Espanha e Portugal s\u00e3o os dois \u00fanicos pa\u00edses europeus em que n\u00e3o houve &#8220;debate sobre a mem\u00f3ria ligada ao tr\u00e1fico de negros escravizados&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Na Fran\u00e7a, na Holanda e na Inglaterra, que s\u00e3o pa\u00edses envolvidos no com\u00e9rcio de escravos, foi feito. Na Espanha e em Portugal n\u00e3o foi feito e, portanto, est\u00e1 pendente.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">A hist\u00f3ria de nossos antepassados<\/h2>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/A8E2\/production\/_107143234_madre.jpg\" alt=\"M\u00e3e de Jaime Gonz\u00e1lez\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>&#8216;Os historiadores e jornalistas t\u00eam a tarefa de trazer \u00e0 tona toda essa hist\u00f3ria&#8217;<\/figure>\n<p>Ap\u00f3s ter acesso a documentos que mostram que tanto Pedro Nicol\u00e1s de Chopitea, quanto Mariano Serra participaram de uma maneira ou de outra do tr\u00e1fico de negros escravizados, quis saber a opini\u00e3o da minha m\u00e3e sobre este assunto, uma vez que se tratava de seus antepassados.<\/p>\n<p>&#8220;Acho muito bom que este tema seja abordado com rigor m\u00e1ximo e que haja um estudo aprofundado sobre todas as circunst\u00e2ncias envolvidas. Sou historiadora de forma\u00e7\u00e3o e acredito que a verdade, dentro do poss\u00edvel, deve sempre ser revelada&#8221;, afirmou.<\/p>\n<p>&#8220;A hist\u00f3ria das fam\u00edlias \u00e9 cheia de pontos obscuros, e as pessoas s\u00e3o reticentes em criticar seus pr\u00f3prios antepassados. Mas acredito que os historiadores e jornalistas t\u00eam a tarefa de trazer \u00e0 tona toda essa hist\u00f3ria.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;A verdade \u00e9 que voc\u00ea n\u00e3o pode julgar as a\u00e7\u00f5es de 200 anos atr\u00e1s com os crit\u00e9rios que temos agora de moralidade e \u00e9tica.&#8221;<\/p>\n<p>O lugar que escolhi para encontrar com minha m\u00e3e em Barcelona, \u200b\u200bque agora \u00e9 um hotel, era a casa em que vivia outro antepassado nosso, a bisav\u00f3 do meu av\u00f4, Dorotea de Chopitea.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/EB4A\/production\/_107143206_arbol.jpg\" alt=\"\u00c1rvore geneal\u00f3gica\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Dorotea de Chopitea se casou com Jos\u00e9 Mar\u00eda Serra aos 16 anos<\/figure>\n<p>Nascida no Chile, ela era filha de Pedro Nicol\u00e1s de Chopitea e chegou com seus pais e irm\u00e3os em Barcelona em 1819, quando tinha tr\u00eas anos. Com apenas 16 anos, se casou com Jos\u00e9 Mar\u00eda Serra, filho de Mariano Serra.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as ao vasto trabalho social que realizou, Dorotea se tornou uma das figuras mais respeitadas de Barcelona na segunda metade do s\u00e9culo 19.<\/p>\n<p>Ela investiu toda a fortuna que o marido deixou para ela quando morreu na constru\u00e7\u00e3o de diversas creches, escolas e hospitais para a popula\u00e7\u00e3o carente.<\/p>\n<p>Em 1983, o Papa Jo\u00e3o Paulo 2\u00b0 abriu caminho para a beatifica\u00e7\u00e3o de Dorotea de Chopitea, ao nome\u00e1-la Vener\u00e1vel.<\/p>\n<p>&#8220;Ap\u00f3s a morte do marido, que a deixou como herdeira de todos os seus bens, ela viu que poderia realizar um trabalho social quase ilimitado com os recursos que tinha&#8221;, contou minha m\u00e3e.<\/p>\n<p>&#8220;Ela fez um voto de pobreza em que tudo o que possu\u00eda era para os pobres. No fim de seus dias, alcan\u00e7ou seu objetivo. Se voc\u00ea olhar todos os projetos e empresas que existem em Barcelona, muitas das quais ainda sobrevivem, vai perceber que ela efetivamente conseguiu.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Um templo expiat\u00f3rio<\/h2>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1472\/production\/_107143250_tibi1.jpg\" alt=\"Tibidabo\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Um dos \u00faltimos projetos de Dorotea de Chopitea foi o financiamento da constru\u00e7\u00e3o de uma capela no topo da montanha Tibidabo, em Barcelona<\/figure>\n<p>A verdade \u00e9 que n\u00e3o sabemos por que Dorotea, uma mulher que pertencia a uma das elites econ\u00f4micas de Barcelona que se beneficiaram do com\u00e9rcio de negros escravizados, decidiu se desfazer de todos os seus bens.<\/p>\n<p>O que sabemos \u00e9 que um de seus \u00faltimos projetos foi o financiamento da constru\u00e7\u00e3o de uma capela no alto do Monte Tibidabo, em um dos terrenos que cedeu aos salesianos de Don Bosco, com quem manteve um relacionamento pr\u00f3ximo em seus \u00faltimos anos de vida.<\/p>\n<p>Com o tempo, esta capela se tornou o Templo do Sagrado Cora\u00e7\u00e3o, que se ergue imponentemente sobre Barcelona.<\/p>\n<p>Talvez este templo &#8211; em cujas colunas est\u00e3o gravados os nomes de algumas das maiores fortunas catal\u00e3s do s\u00e9culo 19 &#8211; pode ser visto como s\u00edmbolo de uma cidade que, como muitas outras ao redor do mundo, ainda est\u00e1 debatendo como lidar com seu passado colonial.<\/p>\n<p>Quando comecei a pesquisar a hist\u00f3ria dos meus antepassados, n\u00e3o imaginava qu\u00e3o complicado pode ser \u00e0s vezes falar sobre onde viemos.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/F766\/production\/_107143336_gettyimages-89453194-1.jpg\" alt=\"Tibidabo\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>O Templo do Sagrado Cora\u00e7\u00e3o, imponente sobre Barcelona, \u00e9 dedicado \u00e0 expia\u00e7\u00e3o dos pecados<\/figure>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dorotea, uma mulher que pertencia a uma das elites econ\u00f4micas de Barcelona que se beneficiaram do com\u00e9rcio de negros escravizados, decidiu se desfazer de todos os seus bens.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":285120,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-285119","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/escravos.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/285119","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=285119"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/285119\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/285120"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=285119"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=285119"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=285119"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}