{"id":285662,"date":"2019-06-08T16:09:39","date_gmt":"2019-06-08T19:09:39","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=285662"},"modified":"2019-06-08T16:09:39","modified_gmt":"2019-06-08T19:09:39","slug":"copa-do-mundo-de-futebol-feminino-a-trajetoria-de-pobreza-preconceito-e-descrenca-antes-de-formiga-e-marta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/copa-do-mundo-de-futebol-feminino-a-trajetoria-de-pobreza-preconceito-e-descrenca-antes-de-formiga-e-marta\/","title":{"rendered":"Copa do Mundo de Futebol Feminino: a trajet\u00f3ria de pobreza, preconceito e descren\u00e7a antes de Formiga e Marta"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"byline\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"byline__name\">Jardel Sebba<\/span><\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/D56F\/production\/_107293645_foto_araguari_x_fluminense_19_12_58-a.jpg\" alt=\"Jogo Araguari x Fluminense 58\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span>Decreto de 1941 determinava que &#8216;\u00e0s mulheres n\u00e3o se permitir\u00e1 a pr\u00e1tica de desportos incompat\u00edveis com as condi\u00e7\u00f5es de sua natureza&#8217;<\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\" style=\"text-align: justify;\">Quando a sele\u00e7\u00e3o brasileira feminina de futebol estrear nos pr\u00f3ximos dias pelo mundial da categoria, entrar\u00e1 em campo com ela a sombra das pioneiras do esporte no pa\u00eds, que enfrentaram pobreza, descren\u00e7a, machismo, ofensas e altas doses de amadorismo para pavimentar a estrada que Formiga e Marta podem trilhar hoje em terras francesas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mulheres que foram tachadas de criminosas a atra\u00e7\u00f5es circenses exclusivamente pelo desejo de algo t\u00e3o simples quanto jogar bola.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Mem\u00f3ria \u00e9 o que voc\u00ea escolhe esquecer, n\u00e3o necessariamente o que voc\u00ea enaltece e quer guardar. Por isso, desde 2015, com a explos\u00e3o do feminismo no mundo, a gente passou a olhar para essa hist\u00f3ria de outra forma&#8221;, diz Daniela Alfonsi, antrop\u00f3loga e diretora do Museu do Futebol, em S\u00e3o Paulo, que inaugurou em maio a exposi\u00e7\u00e3o CONTRA-ATAQUE! As Mulheres do Futebol, que re\u00fane material precioso dos primeiros anos e da evolu\u00e7\u00e3o do esporte no pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 registros da pr\u00e1tica do esporte entre mulheres desde o come\u00e7o do s\u00e9culo passado, mas foi na d\u00e9cada de 1940 que a pr\u00e1tica come\u00e7ou a se popularizar entre elas. Tanto que come\u00e7ou a incomodar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;E, neste crescendo, dentro de um ano \u00e9 prov\u00e1vel que em todo o Brasil estejam organizados uns 200 clubes femininos de futebol, ou seja, 200 n\u00facleos destro\u00e7adores de 2.200 futuras m\u00e3es&#8221;, escreveu o senhor Jos\u00e9 Fuzeira em carta endere\u00e7ada ao ent\u00e3o presidente Get\u00falio Vargas e publicada no jornal Di\u00e1rio da Noite em 7 de maio de 1940.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/7E53\/production\/_107293323_foto020.jpg\" alt=\"Eduardo Merege \/ Museu do Futebol\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Exposi\u00e7\u00e3o no Museu do Futebol mostra a evolu\u00e7\u00e3o do esporte no pa\u00eds<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Num tempo de eugenia e preconceito, ningu\u00e9m estranhou, em abril do ano seguinte, o Artigo 54 do Decreto-Lei 3.199, que determinava que &#8220;\u00e0s mulheres n\u00e3o se permitir\u00e1 a pr\u00e1tica de desportos incompat\u00edveis com as condi\u00e7\u00f5es de sua natureza&#8221;. Da mesma forma como tamb\u00e9m n\u00e3o pareceu estranho a ningu\u00e9m o fato de ele nunca ter sido efetivamente cumprido.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">As senhoras boleiras de Araguari<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parte fundamental dessa resist\u00eancia teve como sede uma cidade mineira quase na fronteira com Goi\u00e1s. Foi em Araguari que as mulheres futebolistas brilharam em 1958.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a inten\u00e7\u00e3o de ajudar financeiramente o Grupo Escolar Visconde de Ouro Preto, que passava por dificuldades, o fundador do Araguari Futebol Clube, Ney Montes, convocou pelo r\u00e1dio meninas interessadas em montar um time de futebol local.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/C68D\/production\/_107292805__mg_0057.jpg\" alt=\"Exposi\u00e7\u00e3o Contra-Ataque! As mulheres no futebol, do Museu do Futebol\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>O uniforme foi durante d\u00e9cadas o que sobrava do material masculino<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre as aprovadas estava N\u00e1dima Nascimento, ent\u00e3o com 18 anos. &#8220;A mulher era educada para ser dona de casa e criar filhos, n\u00e3o tinha outra op\u00e7\u00e3o&#8221;, lembra a hoje costureira, aos 78 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O objetivo original de Ney Montes foi atingido logo no primeiro jogo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;J\u00e1 na estreia, a renda foi espetacular, encheu de gente para nos ver, e come\u00e7aram a aparecer convites para jogar em cidades vizinhas&#8221;, lembra a capit\u00e3 Zalfa Nader, hoje com 73 anos. N\u00e1dima nunca esqueceu dois momentos tensos da trajet\u00f3ria. &#8220;Em Goi\u00e2nia, as pessoas amea\u00e7aram invadir o campo e, em Varginha, o avi\u00e3o, daqueles pequenos, deu uma pane.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Zalfa prefere lembrar do jogo em Belo Horizonte, quando as equipes se apresentaram com as camisas do Atl\u00e9tico e do Am\u00e9rica da capital. &#8220;Quando o Atl\u00e9tico fez gol, as pessoas jogaram chap\u00e9us e palet\u00f3s no campo, de alegria.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O grupo das subversivas senhoras boleiras de Araguari durou cerca de um ano: no fim de 1959, tiveram convite para exibir seus talentos no M\u00e9xico mas, por press\u00f5es afins, a lei foi cumprida e os times, proibidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A proibi\u00e7\u00e3o acabou oficialmente em 1979, mas a regulamenta\u00e7\u00e3o do futebol feminino no Brasil s\u00f3 chegou em mar\u00e7o de 1983. Entre as regras, jogos de 70 minutos, sem cobran\u00e7a de ingressos e a inacredit\u00e1vel determina\u00e7\u00e3o de que as jogadoras n\u00e3o poderiam trocar de camisa com as advers\u00e1rias depois da partida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa regra nasceu no ano anterior, quando, em uma uma preliminar feminina no Morumbi antes de S\u00e3o Paulo e Corinthians, a atriz e produtora Ruth Escobar trocou de camisa com outra jogadora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m em 1982 entrou em campo o que seria o maior escrete da primeira fase da hist\u00f3ria do futebol feminino brasileiro. Das areias de Copacabana, a funda\u00e7\u00e3o do time do Esporte Clube Radar, fundado em 1981, trazia uma figura fundamental para a primeira d\u00e9cada do esporte, o advogado Eurico Lyra Filho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apaixonado pelo futebol feminino, Lyra ajudou a regulament\u00e1-lo e, ao mesmo tempo, formou um time imbat\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Radar ganhou todas as seis edi\u00e7\u00f5es da Ta\u00e7a Brasil, primeiro campeonato nacional da categoria, e outros seis campeonatos cariocas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas Eurico era um reflexo do amadorismo da \u00e9poca. Todos os feitos do Radar foram conquistados sem que o dinheiro dos patrocinadores chegasse \u00e0s jogadoras. Ele tinha fama de dar assist\u00eancia, se preocupar, ajudar as fam\u00edlias. Dinheiro, que era bom, nada.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/C5F7\/production\/_107297605_bd38c66b-00f2-43e8-b17f-121b8c8c198f.jpg\" alt=\"Bangu x Radar, final do primeiro campeonato carioca feminino em 1983\" width=\"628\" height=\"375\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\">Bangu x Radar, final do primeiro Campeonato Carioca feminino em 1983<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ele ajudava muito as meninas, mas, ao mesmo tempo, era uma pr\u00e1tica comum na \u00e9poca elas jogarem por uma caixa de cerveja&#8221;, lembra Suzana Cavalheiro, ex-lateral-direita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;N\u00e3o existia para n\u00f3s a perspectiva de ganhar um sal\u00e1rio para jogar futebol naquela \u00e9poca&#8221;, resume a ex-jogadora do Juventus, que recusou o convite do Radar para terminar a faculdade de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;\u00c0s jogadoras sempre foi atribu\u00eddo um discurso de &#8216;paix\u00e3o pelo futebol&#8217;, que contribuiu para manter a falta de profissionaliza\u00e7\u00e3o e de uma devida valoriza\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria&#8221;, pontua Cl\u00e1udia Kessler, professora da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e doutora em Antropologia Social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Quando elas recebiam algo, eram lanches, passagens ou alguma quantia m\u00ednima, chamada de &#8216;ajuda de custo'&#8221;, completa.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Pela paz nos est\u00e1dios<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Radar entrou para a hist\u00f3ria pela bola e pelas confus\u00f5es. S\u00f3 em 1983, primeiro ano da regulamenta\u00e7\u00e3o, foram duas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em julho, na decis\u00e3o da Ta\u00e7a Brasil, ganhava de cinco a zero no time do Goi\u00e1s. A tr\u00eas minutos do fim do jogo, um grupo expressivo de jogadoras do time goiano n\u00e3o concordou com uma marca\u00e7\u00e3o e agrediu o \u00e1rbitro, que expulsou o time inteiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tr\u00eas meses mais tarde, a equipe de Copacabana decidiu o primeiro Campeonato Carioca feminino contra o Bangu. Depois de uma vit\u00f3ria pela contagem m\u00ednima para cada lado, a decis\u00e3o foi para um terceiro jogo no est\u00e1dio Mo\u00e7a Bonita, casa do Bangu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Radar abriu a contagem logo no come\u00e7o, mas, aos 35 minutos do segundo tempo, s\u00f3 o juiz Ricardo Dur\u00e3es n\u00e3o viu a bola bater na m\u00e3o da zagueira do time de Copacabana dentro da \u00e1rea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As jogadoras do Bangu partiram para cima dele. Alguns torcedores invadiram o campo e fizeram o mesmo. O falecido patrono do time (e banqueiro do jogo do bicho) Castor de Andrade tamb\u00e9m correu para cima do \u00e1rbitro. Sem fun\u00e7\u00e3o originalmente na briga, as jogadoras do Radar partiram para cima das advers\u00e1rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O Castor de Andrade liberou os seguran\u00e7as para espancarem o \u00e1rbitro. Tinha tanto le\u00e3o-de-ch\u00e1cara naquele dia que os jornais da \u00e9poca brincaram que o est\u00e1dio do Bangu ia passar a se chamar Coliseu ou Simba Saf\u00e1ri&#8221;, conta Carlos Molinari, jornalista e historiador do Bangu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;No fim, o Radar venceu por um a zero, o jogo n\u00e3o terminou, todas as jogadoras do Bangu, que ajudaram a surrar o \u00e1rbitro, foram suspensas e o time se desfez&#8221;, conclui.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/171AF\/production\/_107293649_time_futebol_feminino_59_revelar.jpg\" alt=\"Foto de 04 de junho de 1959, jogo em Uberl\u00e2ndia, time do Araguari\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>A proibi\u00e7\u00e3o acabou oficialmente em 1979, mas a regulamenta\u00e7\u00e3o do futebol feminino no Brasil s\u00f3 chegou em mar\u00e7o de 1983<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Logo, aquele que foi o primeiro escrete feminino do suburbano carioca a disputar um campeonato oficial foi tamb\u00e9m seu \u00faltimo. Se n\u00e3o durou muito, o time do Bangu rendeu um mito do esporte: Maria Lucia Lima, a Fia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Queridinha de Castor de Andrade, que dizem ter ficado impressionado ao v\u00ea-la jogar, s\u00f3 n\u00e3o conseguiu uma coisa dele, como revelou em entrevista para o jornal O Globo este ano: jogar descal\u00e7a, j\u00e1 que n\u00e3o havia chuteira feminina e ela n\u00e3o se adaptava ao cal\u00e7ado tipo Kichute usado pelo time feminino. Com o fim do time do Bangu, Fia foi para o Vasco e esteve nos grupos da sele\u00e7\u00e3o em 1988 e 1991.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">A primeira sele\u00e7\u00e3o do Brasil<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muito por press\u00e3o de Eurico Lyra, a primeira sele\u00e7\u00e3o brasileira de futebol feminino foi formada para disputar um torneio experimental na China, em 1988, que serviu de teste para a organiza\u00e7\u00e3o do primeiro mundial da categoria, tr\u00eas anos mais tarde, no mesmo pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com doze pa\u00edses na disputa, o Brasil voltou com um honroso terceiro lugar e a certeza de que o amadorismo, no futebol feminino, era mesmo regra.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/147D9\/production\/_107292938_emily2.jpg\" alt=\"Emily Lima\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>&#8216;Como havia poucas equipes femininas, eu comecei jogando com os meninos&#8217;, lembra Emily Lima<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">A campe\u00e3 foi a Noruega, de quem o nosso selecionado ganhou na fase de grupos e para quem perdeu na semifinal. Se, dentro de campo, o futebol era algo equivalente, fora as coisas n\u00e3o poderiam ser mais diferentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;As norueguesas tinham um kit de primeiros socorros que era fant\u00e1stico, a gente n\u00e3o tinha nem um comprimido para cuidar do f\u00edgado&#8221;, lembra Suzana Cavalheiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As dificuldades apareceram na prepara\u00e7\u00e3o, no Rio. &#8220;A gente comia numa instala\u00e7\u00e3o militar, e a comida era insuficiente em termos de nutrientes para atletas&#8221;, recorda Suzana, que fez parte do grupo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A gente treinava em dois per\u00edodos e ainda lavava a pr\u00f3pria roupa, porque cada uma s\u00f3 tinha dois jogos de uniforme.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O uniforme, por sinal era (e foi durante d\u00e9cadas) o que sobrava do material masculino. Quando foi marcada uma apresenta\u00e7\u00e3o da sele\u00e7\u00e3o feminina no Maracan\u00e3 antes de um Fla-Flu, em 1988, a vaidade falou mais alto.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/C88B\/production\/_107293315_suzana232.jpg\" alt=\"Equipe brasileira confraternizando com as holandesas antes de partida do Torneio Internacional da China em 1988\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Equipe brasileira confraternizando com as holandesas antes de partida do Torneio Internacional da China em 1988<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Eles deram um agasalho com uma boca de sino deste tamanho, horr\u00edvel, a gente n\u00e3o queria entrar com aquilo. A\u00ed a Cebola ensinou um pontinho simples e todo mundo fez&#8221;, conta Suzana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e0 toa, uma das pe\u00e7as em exposi\u00e7\u00e3o no Museu do Futebol \u00e9 a camisa da sele\u00e7\u00e3o que Marcia Hon\u00f3rio usou em 1988, ao lado de outros tr\u00eas uniformes, entre eles o do Mundial de 2019 &#8211; o primeiro a ser vendido no varejo e a ser feito sob medida para elas, por incr\u00edvel que pare\u00e7a.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">&#8216;Remember the time&#8217;<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos anos 90, o Radar havia encerrado as atividades. Ainda assim, a vida das mulheres que jogavam futebol melhorou um pouco. Mas s\u00f3 um pouco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Como havia poucas equipes femininas, eu comecei jogando com os meninos. S\u00f3 aos 14 anos que fui fazer uma avalia\u00e7\u00e3o no Saad, que foi o que me direcionou para o que me tornei hoje&#8221;, lembra Emily Lima, ex-jogadora e atual treinadora das Sereias da Vila, time de futebol feminino do Santos, que come\u00e7ou a carreira quando o esporte j\u00e1 tinha uma d\u00e9cada de regulamenta\u00e7\u00e3o no pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Saad era um clube origin\u00e1rio de S\u00e3o Caetano (SP) que montou seu time de futebol feminino em 1985 e teve destaque na categoria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Houve dificuldades, claro, mas s\u00f3 fui viver uma situa\u00e7\u00e3o negativa que me marcou de fato na sele\u00e7\u00e3o, quando tive resultados que n\u00e3o eram t\u00e3o ruins quanto os de hoje e fui mandada embora por ser mulher&#8221;, diz a primeira (e \u00fanica) mulher a dirigir o time nacional feminino, que permaneceu dez meses no cargo, entre 2016 e 2017.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como jogadora, ela saiu do Saad para o S\u00e3o Paulo em 1997, onde encontrou uma estrutura que j\u00e1 apontava novos caminhos.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/164CB\/production\/_107293319_suzana366.jpg\" alt=\"Suzana Cavalheiro em 1991\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>&#8216;A gente treinava em dois per\u00edodos e ainda lavava a pr\u00f3pria roupa, porque cada uma s\u00f3 tinha dois jogos de uniforme&#8217;, recorda Suzana<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;No S\u00e3o Paulo a gente tinha uma casa como alojamento, um centro de treinamento s\u00f3 para a gente, eu nunca tinha vivido aquilo como atleta&#8221;, conta a treinadora, que lembra, entre outras, de Sissi como uma das jogadoras que a inspiraram no come\u00e7o da carreira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ela poderia ter sido melhor do mundo, com toda certeza.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parece exagero, mas s\u00f3 parece. Sissi foi a primeira camisa 10 da sele\u00e7\u00e3o feminina, de fato e de direito. Ela j\u00e1 estava naquele time de 1988, mas brilhou mesmo na d\u00e9cada seguinte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A menina do interior da Bahia, que arrancava a cabe\u00e7a das bonecas para usar como bola, fez um dos gols mais bonitos da hist\u00f3ria dos mundiais, em 1999 nos Estados Unidos. Bonito e \u00fatil: foi o &#8220;gol de ouro&#8221; contra a Nig\u00e9ria que levou o Brasil \u00e0s semifinais da competi\u00e7\u00e3o, da qual o pa\u00eds sairia com o bronze e ela, como uma das artilheiras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Depois da Era Tel\u00ea (Santana), o S\u00e3o Paulo estava vivendo uma seca de t\u00edtulos quando, em 1997, montou uma equipe feminina e contratou a Sissi&#8221;, recorda Arnaldo Ribeiro, chefe de reda\u00e7\u00e3o dos canais ESPN.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Como o time masculino passou a colecionar vexames, era comum a torcida gritar &#8216;Sissi, Sissi&#8217; durante os jogos, pedindo a camisa 10 para o lugar de Souza, Dod\u00f4 e companhia&#8221;, conta o jornalista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aquele momento ainda apresentou ao pa\u00eds o talento de Maril\u00e9ia dos Santos, a mulher que fez mais gols que Pel\u00e9 (1.574) e brilhou sob a alcunha de um apelido dado pelo falecido locutor (e entusiasta do futebol feminino) Luciano do Valle: Michael Jackson. A nossa &#8220;rainha do pop&#8221; brilhou no Saad e no Torino, da It\u00e1lia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Marcar a Michael Jackson era triste, em meio metro ela fazia mis\u00e9ria&#8221;, lembra Suzana Cavalheiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Michael estava no grupo que disputou as primeiras Olimp\u00edadas da modalidade, em 1996, e viveu uma situa\u00e7\u00e3o bizarra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Uma coisa que me chamou a aten\u00e7\u00e3o na pesquisa para a exposi\u00e7\u00e3o foi o fato de que a CBF mandou a sele\u00e7\u00e3o feminina para Atenas com as passagens de volta compradas para o fim da primeira fase&#8221;, conta Daniela Alfonsi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;As meninas seguiram na competi\u00e7\u00e3o, chegaram at\u00e9 as semifinais e o pr\u00eamio delas foi poder voltar no avi\u00e3o exclusivo do time masculino.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou seja, as coisas haviam melhorado, mas s\u00f3 um pouco.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Abrindo novos caminhos<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aos 52 anos, Sisleide do Amor Lima, a Sissi, hoje trabalha como t\u00e9cnica de um time de base nos Estados Unidos. Ela integrou o time profissional do Vasco e chegou a enfrentar uma certa Marta quando jogava contra meninas das categorias de base. Aquela mesma que esquentou o banco do cruz-maltino para Fia, a jogadora que encantou Castor de Andrade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Michael Jackson, quando parou de jogar, foi coordenar o futebol feminino no Minist\u00e9rio dos Esportes, hoje rebaixado a secretaria, para ajudar a pavimentar o caminho das meninas que cresceram j\u00e1 inspiradas pelo protagonismo de Marta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando entrar em campo na Fran\u00e7a este m\u00eas, no mundial da categoria, a jogadora eleita cinco vezes melhor do mundo, que levou o futebol feminino brasileiro a um outro patamar quando apareceu, em 2000, vai carregar o peso do legado das ex-colegas, que abriram o caminho com muito sacrif\u00edcio.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/162CD\/production\/_107292809__mg_0094-1.jpg\" alt=\"Exposi\u00e7\u00e3o Contra-Ataque! As mulheres no futebol, do Museu do Futebol\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>&#8216;A sele\u00e7\u00e3o feminina talvez abra a possibilidade de olhar para um outro pa\u00eds, que n\u00e3o \u00e9 o que a gente est\u00e1 acostumado a ver&#8217;, diz antrop\u00f3loga<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Em grande medida, as adversidades vividas por essas jogadoras foram tanto de ordem material como cultural. Algumas deixaram de estudar para se dedicar ao futebol e agora est\u00e3o no mercado informal de trabalho, com vidas prec\u00e1rias&#8221;, avalia Cl\u00e1udia Kessler.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Nas crises, a gente se sobressai. No meio de tantas dificuldades, aquelas meninas tinham mais bola&#8221;, compara Lu Castro, jornalista especializada em futebol de mulheres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Al\u00e9m disso, estamos h\u00e1 treze anos falando de Marta. Precisamos colocar outros nomes na boca do povo, enaltecer as jogadoras que est\u00e3o chegando, fazer com que outras se sobressaiam como ela&#8221;, ressalta. De qualquer forma, o futebol praticado pelas mulheres caminhou para que hoje possa oferecer uma outra vis\u00e3o de pa\u00eds. Ou seja, a saga das pioneiras valeu a pena.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A ideia de que o time masculino brasileiro representa a na\u00e7\u00e3o surge com o primeiro t\u00edtulo sul-americano, em 1919. H\u00e1 uma constru\u00e7\u00e3o de que a sele\u00e7\u00e3o brasileira \u00e9 o pa\u00eds e ela est\u00e1 toda baseada no futebol masculino&#8221;, analisa Daniela Alfonsi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A sele\u00e7\u00e3o feminina talvez abra a possibilidade de olhar para um outro pa\u00eds, que n\u00e3o \u00e9 o que a gente est\u00e1 acostumado a ver, do oba-oba, dos noventa milh\u00f5es em a\u00e7\u00e3o, mas que tamb\u00e9m \u00e9 o Brasil.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Al\u00e9m disso, estamos h\u00e1 treze anos falando de Marta. Precisamos colocar outros nomes na boca do povo, enaltecer as jogadoras que est\u00e3o chegando, fazer com que outras se sobressaiam como ela&#8221;, ressalta. De qualquer forma, o futebol praticado pelas mulheres caminhou para que hoje possa oferecer uma outra vis\u00e3o de pa\u00eds. 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