{"id":287126,"date":"2019-06-23T22:43:41","date_gmt":"2019-06-24T01:43:41","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=287126"},"modified":"2019-06-24T15:42:05","modified_gmt":"2019-06-24T18:42:05","slug":"sebastiao-salgado-foi-dito-que-eu-fazia-estetica-da-miseria-ridiculo-fotografo-meu-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/sebastiao-salgado-foi-dito-que-eu-fazia-estetica-da-miseria-ridiculo-fotografo-meu-mundo\/","title":{"rendered":"Sebasti\u00e3o Salgado: \u201cFoi dito que eu fazia est\u00e9tica da mis\u00e9ria. Rid\u00edculo! Fotografo meu mundo\u201d"},"content":{"rendered":"<div class=\"cabecera__envoltorio\">\n<header id=\"cabecera\" class=\"cabecera\">\n<div id=\"cabecera__interior\" class=\"cabecera__interior\">\n<div class=\"cabecera-inferior\">\n<div class=\"cabecera-inferior__interior\">\n<div id=\"elpais\" class=\"elpais\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<\/div>\n<div class=\"articulo__envoltorio\">\n<article class=\"articulo articulo_entrevista\">\n<div id=\"articulo_interior\" class=\"articulo__interior\">\n<div class=\"articulo__apertura\">\n<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div class=\"articulo-encabezado-texto\">\n<div class=\"articulo-antetitulo \" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div class=\"firma \" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"autor\">\n<div class=\"autor-texto\"><span class=\"autor-nombre\"><a title=\"Ver todas as not\u00edcias de Manuel Morales\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/manuel_morales\/a\/\">Manuel Morales<\/a><\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"autor\">\n<div class=\"autor-texto\"><span class=\"autor-nombre\"><a title=\"Ver todas as not\u00edcias de Fotograf\u00eda de Gorka Lejarcegi\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/gorka_lejarcegi\/a\/\">Fotograf\u00eda de Gorka Lejarcegi<\/a><\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<figure class=\"foto superior foto_w980\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2019\/05\/20\/eps\/1558350781_612997_1560786241_noticia_normal.gif\" alt=\"Sebasti\u00e3o Salgado: \u201cFoi dito que eu fazia est\u00e9tica da mis\u00e9ria. Rid\u00edculo! Fotografo meu mundo\u201d\" width=\"980\" height=\"666\" \/><\/figure>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"articulo-apertura \" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"articulo-datos\"><\/div>\n<div id=\"articulo-introduccion\" class=\"articulo-introduccion\">\n<p dir=\"ltr\">\u00c9 uma lenda viva da imagem documental. Durante quatro d\u00e9cadas fotografou as maiores atrocidades do ser humano e as mais espl\u00eandidas paragens do planeta. Aos seus 75 anos, recheado de pr\u00eamios e reconhecimento, est\u00e1 na reta final de outro de seus herc\u00faleos projetos sobre as tribos da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/amazonia\">Amaz\u00f4nia<\/a>. Seu motor foi a curiosidade por conhecer as coisas do mundo e a vontade de transmiti-las; caminhando de lugar em lugar, diz, como \u201cum homem da Idade M\u00e9dia\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"roba_principal\" class=\"envoltorio_publi envoltorio_publi--fijo\" style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"elpais_gpt-MPU1\" class=\"publi_luto_horizontal\" data-google-query-id=\"CI-40aj9gOMCFURTwQodf44Iew\">\n<div id=\"google_ads_iframe_7811748\/elpais_web\/brasil\/eps\/mpu1_0__container__\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Com sua fotografia documental, de um preto e branco pur\u00edssimo,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/sebastiao_salgado\">Sebasti\u00e3o Salgado<\/a> fotografa h\u00e1 mais de quatro d\u00e9cadas os maiores horrores cometidos pela esp\u00e9cie humana e as grandes belezas naturais do planeta. Ap\u00f3s sair do Brasil fugindo da ditadura em 1969, ficou uma d\u00e9cada fora e, por culpa da fotografia, deixou de lado um promissor trabalho como economista. Ainda que tenha come\u00e7ado \u201ctarde\u201d, como reconhece, hoje tem todos os pr\u00eamios e reconhecimentos poss\u00edveis da arte da imagem. Nascido em 1944 em Aimor\u00e9s, Minas Gerais, aos 75 anos, que nem de longe aparenta, esteve em mais de 130 pa\u00edses e est\u00e1 na reta final de outro de seus herc\u00faleos projetos, sobre tribos da Amaz\u00f4nia. Salgado fala com paix\u00e3o e convic\u00e7\u00e3o, suas ideias fluem em um espanhol com o caracter\u00edstico suave sotaque brasileiro. Do jovem comunista de cabelos compridos e barba frondosa resta uma cabe\u00e7a raspada e sobrancelhas espessas, brancas, que de vez em quando alisa como se procurasse nelas o fio de seus argumentos.<\/p>\n<div id=\"elpais_gpt-INTEXT\" style=\"text-align: justify;\" data-google-query-id=\"CPeAzaj9gOMCFURTwQodf44Iew\">\n<div id=\"google_ads_iframe_7811748\/elpais_web\/brasil\/eps\/intext_0__container__\"><\/div>\n<\/div>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Como est\u00e1 seu trabalho sobre a Amaz\u00f4nia?<\/strong>\u00a0Estou envolvido nele h\u00e1 v\u00e1rios anos e ainda restam tr\u00eas hist\u00f3rias por fazer. Ser\u00e3o no total 30 reportagens sobre 13 tribos, com muita fotografia a\u00e9rea, porque assim \u00e9 poss\u00edvel dar uma ideia da grande extens\u00e3o da floresta e dos rios. O maior volume de \u00e1gua no Amazonas vem pelas evapora\u00e7\u00f5es, aut\u00eanticas correntes a\u00e9reas de umidade que garantem a chuva em grande parte do planeta ao deslocarem-se como nuvens. Acho que nessa s\u00e9rie as fotografias do sistema montanhoso do Amazonas ir\u00e3o surpreender. Voc\u00ea tem a impress\u00e3o de que est\u00e1 nos Alpes, s\u00e3o colossais. A \u00faltima reportagem ser\u00e1 sobre\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/animales\">animais<\/a>.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Como s\u00e3o essas tribos com as quais conviveu?<\/strong>\u00a0H\u00e1 de tudo. Os korubos, no vale do Javari, foram contatados pelo homem branco em 2015, mas outras o foram no s\u00e9culo XIX. H\u00e1 uma tribo que \u00e9 herdeira da cultura inca, chegaram ao Brasil deslocados pelos espanh\u00f3is. T\u00eam uma agricultura sofisticada, criadouros de peixes e tartarugas&#8230;<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas o que te surpreendeu dos que vivem na floresta?<\/strong>O que mais me impressiona \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 surpresa, j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 muito a descobrir. Eu pensava que demoraria meses a me adaptar a eles e foram horas. Porque somos n\u00f3s mesmos. S\u00f3 h\u00e1 uma pequena diferen\u00e7a f\u00edsica, os p\u00e9s. Veja seus p\u00e9s, Manuel! S\u00e3o uma deforma\u00e7\u00e3o, est\u00e3o doentes porque est\u00e3o sempre em um sapato que os deforma. Os p\u00e9s dessas comunidades, entretanto, s\u00e3o triangulares, a parte de tr\u00e1s \u00e9 fina e a da frente \u00e9 larga; utilizam os dedos para se equilibrar, subir nas \u00e1rvores, e saltar de uma para outra.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Em 1982 voc\u00ea recebeu o Pr\u00eamio W. Eugene Smith de Fotografia Humanit\u00e1ria. Desde ent\u00e3o foi nomeado cavaleiro da Legi\u00e3o de Honra na Fran\u00e7a, ganhou um World Press Photo em 1985, o Hasselblad em 1989; Na Espanha foi o primeiro fot\u00f3grafo a receber o Pr\u00edncipe de Ast\u00farias das Artes. Agora ganhou em Madri um pr\u00eamio da Sociedade Geogr\u00e1fica Espanhola \u201cpela qualidade e esp\u00edrito de seu trabalho de viagens\u201d.<\/strong>\u00a0Se \u00e9 por isso, mere\u00e7o porque sou, provavelmente, uma das pessoas do planeta que mais caminharam [risos]. Quando estava no avi\u00e3o e via pela janela as montanhas, os rios&#8230; o planeta \u00e9 maravilhoso. Sempre pensei que, por\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/08\/10\/eps\/1533894534_470404.html\">meu tipo de fotografia<\/a>, sou como aqueles homens que na Idade M\u00e9dia, movidos pela curiosidade, iam de cidade em cidade para conhecer as coisas e transmiti-las. A vida dos fot\u00f3grafos \u00e9 assim: ir, descobrir, conhecer e transmitir. A fotografia que fa\u00e7o \u00e9 o espelho da sociedade. \u00c9 uma fun\u00e7\u00e3o que n\u00e3o existia h\u00e1 100 anos e que n\u00e3o acho que ir\u00e1 existir daqui a 20&#8230;<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Por qu\u00ea?<\/strong>\u00a0Hoje, com um celular s\u00e3o feitas imagens de uma qualidade incr\u00edvel, mesmo que isso n\u00e3o seja fotografia. \u00c9 uma linguagem de comunica\u00e7\u00e3o, mas a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/fotografia\">fotografia<\/a>\u00a0\u00e9 algo que voc\u00ea toca, guarda. As demandas, entretanto, est\u00e3o mudando.<\/p>\n<section id=\"sumario_2|html\" class=\"sumario_html derecha\"><a name=\"sumario_2\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">As imagens de um celular t\u00eam uma qualidade incr\u00edvel, mas n\u00e3o s\u00e3o fotografia. Fotografia \u00e9 algo que voc\u00ea toca, que guarda\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>S\u00f3 se interessou pela fotografia em 1973, quando tinha quase 30 anos. Em quem se fixou um autodidata como voc\u00ea?<\/strong>\u00a0Eu adorava a pintura, fotografava obras em preto e branco de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/rembrandt\">Rembrandt<\/a>. Comecei a ver que podia criar essas mesmas luzes e profundidades. O fot\u00f3grafo deve transmitir o que seu olho v\u00ea no momento de disparar, \u00e9 preciso romper os limites da c\u00e2mera. E ver o que os outros fazem n\u00e3o significa nada, cada um tem suas luzes interiores. A fotografia \u00e9 feita com o passado de cada um, com sua ideologia. Eu trabalhei na\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/agencia_magnum\">Magnum<\/a>\u00a0com grandes fot\u00f3grafos, mas as afinidades eram mais pessoas do que t\u00e9cnicas.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Sua trajet\u00f3ria se caracterizou por projetos que foram maratonas (Trabalhadores, \u00caxodos, G\u00eanesis). Por que sempre essa longa dura\u00e7\u00e3o?<\/strong>\u00a0No caso de \u00caxodos, eu sou um imigrante, vivo em um pa\u00eds estrangeiro [Fran\u00e7a] e queria fazer um trabalho sobre as grandes migra\u00e7\u00f5es porque tamb\u00e9m era minha hist\u00f3ria. Vivi sete anos na estrada procurando essas pessoas e passei v\u00e1rios meses em nove grandes cidades nas quais os imigrantes chegavam. Em Trabalhadores, como fui economista, senti que a grande revolu\u00e7\u00e3o industrial chegava a seu fim pelos computadores. A m\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o iria ser t\u00e3o importante na linha de produ\u00e7\u00e3o, de modo que tamb\u00e9m me identifiquei com eles.<\/p>\n<section id=\"sumario_5|foto\" class=\"sumario_foto centro\"><a name=\"sumario_5\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w980\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2019\/05\/20\/eps\/1558350781_612997_1558356227_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2019\/05\/20\/eps\/1558350781_612997_1558356227_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2019\/05\/20\/eps\/1558350781_612997_1558356227_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2019\/05\/20\/eps\/1558350781_612997_1558356227_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"Sebasti\u00e3o Salgado.\" width=\"980\" height=\"654\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Sebasti\u00e3o Salgado.<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">GORKA LEJARCEGI<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Fotografou os desfavorecidos, sua fotografia foi descrita como humanit\u00e1ria e social.<\/strong>\u00a0N\u00e3o quis retratar os desfavorecidos, eu nunca fui um militante, \u00e9 somente minha forma de vida e o que eu pensava. Houve quem disse [como\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/susan_sontag\">Susan Sontag<\/a>] que Salgado fazia est\u00e9tica da mis\u00e9ria&#8230; Meu cu! Eu fotografo meu mundo, sou uma pessoa do Terceiro Mundo. Conhe\u00e7o a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/africa\">\u00c1frica<\/a>\u00a0como a palma de minha m\u00e3o porque h\u00e1 somente 150 milh\u00f5es de anos a \u00c1frica e a Am\u00e9rica eram o mesmo continente.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Tamb\u00e9m sempre teve claro que sua obra de peso seria em preto e branco?<\/strong>\u00a0Claro, em cores era para as encomendas&#8230; Olhe ali! [Salgado mostra um lado do vest\u00edbulo do hotel em que ocorre a entrevista, decorado com sof\u00e1s violetas e vermelhos]. L\u00e1, um retratado se perderia entre essas cores. A fotografia colorida acentua as cores, e isso me distra\u00eda. Com o preto, o branco e o cinza isso n\u00e3o ocorria. Sabe outra coisa que me desconcentrava? Quando, na \u00e9poca em que se utilizava filme, tinha que parar, tirar o rolo e troc\u00e1-lo por outro.<\/p>\n<section id=\"sumario_3|html\" class=\"sumario_html derecha\"><a name=\"sumario_3\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p dir=\"ltr\">Foi dito que eu fazia est\u00e9tica da mis\u00e9ria. Meu cu! Eu fotografo meu mundo, sou uma pessoa do Terceiro Mundo\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>E o que fazia?<\/strong>\u00a0Cantava. Como conseguia trocar o filme de olhos fechados, cantava MPB e assim n\u00e3o perdia a concentra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Em algumas de suas c\u00e9lebres fotografias, como a de um garimpeiro em Serra Pelada, apoiado em uma estrutura de madeira, se v\u00ea refer\u00eancias da iconografia crist\u00e3. Isso lhe serviu de inspira\u00e7\u00e3o?<\/strong>\u00a0\u00c9 poss\u00edvel, eu sou de Minas Gerais, o Estado mais barroco do Brasil. Quando fotografo, sempre h\u00e1 um pequeno rastro de algo que me influenciou. Certamente quando fiz essa foto eu via S\u00e3o Sebasti\u00e3o com as flechas, mas minhas fotografias n\u00e3o s\u00e3o modernas e p\u00f3s-modernas, s\u00e3o barrocas porque v\u00eam desse mundo.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea foi fotojornalista, mas ap\u00f3s o genoc\u00eddio de Ruanda, em 1994, perdeu por um tempo a f\u00e9 na fotografia e se refugiou na geografia de sua inf\u00e2ncia, na fazenda de seu pai, seca e arrasada pela cria\u00e7\u00e3o de gado. Foi a\u00ed que nasceu sua preocupa\u00e7\u00e3o pela natureza?<\/strong>\u00a0N\u00e3o, eu nasci e cresci na natureza. Meu pai tinha fazendas e eu passava o dia a cavalo e caminhando. Aos domingos, eu e v\u00e1rios amigos acord\u00e1vamos \u00e0s quatro da madrugada para ca\u00e7ar; volt\u00e1vamos de tarde, exaustos, e \u00edamos nadar. A parte principal de meu trabalho foi a fotografia da natureza, n\u00e3o as pessoas&#8230;<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea sempre elogiou as organiza\u00e7\u00f5es humanit\u00e1rias com as quais trabalhou e se mostrou cr\u00edtico com os Governos. Mant\u00e9m essa ideia?<\/strong>\u00a0N\u00e3o fui t\u00e3o cr\u00edtico. Fui de esquerda, quando jovem acreditava que era preciso tomar o poder pela for\u00e7a&#8230;, mas precisamos trabalhar juntos. \u00c9 mentira isso de que uma foto pode mudar o mundo; o que pode mud\u00e1-lo \u00e9 o trabalho conjunto das ONGs, a imprensa, os Governos&#8230;<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Falando de Governo, como v\u00ea o Brasil, com o ultradireitista\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/jair_messias_bolsonaro\">Jair Bolsonaro<\/a>\u00a0na presid\u00eancia?<\/strong>\u00a0\u00c9 um personagem conflitivo e que gera desequil\u00edbrios por propostas como a destrui\u00e7\u00e3o da floresta e das comunidades ind\u00edgenas. S\u00e3o ideias de extrema direita, mas a sociedade brasileira \u00e9 capaz de oferecer-lhe resist\u00eancia. Ele foi eleito democraticamente por uma importante maioria, de modo que \u00e9 preciso trabalhar para que essas pessoas n\u00e3o apoiem novamente essas ideias retr\u00f3gradas. O que aconteceu \u00e9 ruim, mas ao mesmo tempo \u00e9 bom porque criou um sistema de milit\u00e2ncias, com pessoas que querem defender seus direitos.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>E o que o incomoda no restante da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/latinoamerica\">Am\u00e9rica Latina<\/a>?<\/strong>Eu fico muito preocupado com o que\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/06\/13\/economia\/1560448585_642664.html\">acontece atualmente na Venezuela<\/a>, \u00e9 um crime. Mas \u00e9 preciso compreender a hist\u00f3ria desse pa\u00eds. Eu trabalhei l\u00e1 antes de Hugo Ch\u00e1vez e era um Estado dirigido por uma burguesia que lhe roubou tudo. Ch\u00e1vez chegou ao poder com apoio popular, mas depois cometeu erros brutais e abusou de seu poder. Com Maduro a economia foi destru\u00edda, e \u00e9 preciso mudar isso, mas n\u00e3o com uma interven\u00e7\u00e3o militar estrangeira. Somos democracias jovens e \u00e9 preciso olhar a hist\u00f3ria da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/europa\">Europa<\/a>\u00a0para entender o que acontece na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Justamente, a carta do presidente do M\u00e9xico pedindo ao rei Felipe VI que pe\u00e7a perd\u00e3o pela conquista causou um reboli\u00e7o.<\/strong>\u00a0A\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/espana\">Espanha<\/a>\u00a0n\u00e3o deve se desculpar. Foi uma proposta oportunista de um pol\u00edtico, n\u00e3o de um povo. Mas n\u00e3o \u00e9 um problema que isso seja discutido, e os primeiros a o fazer, os mexicanos, que em 90% s\u00e3o ind\u00edgenas. Voc\u00ea vai em uma festa da burguesia no M\u00e9xico e todos os gar\u00e7ons s\u00e3o \u00edndios. A conquista foi uma aventura total, 30% dos espanh\u00f3is que foram n\u00e3o voltaram, morreram. Quando Cort\u00e9s diz a Montezuma que seus soldados est\u00e3o doentes e que o \u00fanico rem\u00e9dio \u00e9 o ouro&#8230; \u00e9 a hist\u00f3ria da humanidade.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Em 2014, sua vida e obra inspirou o premiado document\u00e1rio \u2018<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2014\/09\/25\/cultura\/1411667657_690348.html\">O Sal da Terra<\/a>\u2019, dirigido por seu filho Juliano e Wim Wenders. Como foi a experi\u00eancia?<\/strong>Muito dif\u00edcil, porque o fot\u00f3grafo precisa se relacionar com o que fotografa e quando voc\u00ea se transforma em intermedi\u00e1rio \u00e9 um produto de quem est\u00e1 filmando. Meu filho j\u00e1 havia me filmado&#8230; e eu brigava com ele, mas era meu filho, era mais simples. Na filmagem com ele e Wim existiam tr\u00eas c\u00e2meras, uma equipe de som&#8230;, um carnaval! Eu o fiz por Juliano.<\/p>\n<section id=\"sumario_6|foto\" class=\"sumario_foto centro\"><a name=\"sumario_6\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w980\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2019\/05\/20\/eps\/1558350781_612997_1558356382_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2019\/05\/20\/eps\/1558350781_612997_1558356382_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2019\/05\/20\/eps\/1558350781_612997_1558356382_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2019\/05\/20\/eps\/1558350781_612997_1558356382_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"Sebasti\u00e3o Salgado, retratado por sua esposa tirando uma fotografia de membros de uma tribo da Indon\u00e9sia.\" width=\"980\" height=\"657\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Sebasti\u00e3o Salgado, retratado por sua esposa tirando uma fotografia de membros de uma tribo da Indon\u00e9sia.<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">L\u00c9LIA DELUIZ WANICK<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Sua esposa, L\u00e9lia Wanick, planeja e produz seus livros. Como \u00e9 sua rela\u00e7\u00e3o profissional em um casal que est\u00e1 casado h\u00e1 meio s\u00e9culo?<\/strong>\u00a0N\u00e3o \u00e9 complicado, amo profundamente minha mulher, tem um gosto excepcional, uma capacidade de organiza\u00e7\u00e3o que eu n\u00e3o tenho, se ocupa das exposi\u00e7\u00f5es que temos por todo o planeta e adoro os livros que ela produz para mim. E assim vamos, lutando&#8230; Comecei com ela h\u00e1 55 anos. Desde o come\u00e7o me apoiou porque as coisas que eu procurava n\u00e3o estavam na porta de casa, precisava ficar tempos fora e ela cuidou de nossos filhos [al\u00e9m de Juliano, t\u00eam outro, Rodrigo, com\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/sindrome_down\">s\u00edndrome de Down<\/a>].<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Em uma entrevista em 2007 ao EL PA\u00cdS, jornal em que publicou seus principais trabalhos, disse que nunca utilizaria o digital, mas acabou por faz\u00ea-lo.<\/strong>\u00a0A qualidade do digital no come\u00e7o n\u00e3o era t\u00e3o grande e depois foi uma facilidade porque permitia usar uma c\u00e2mera leve, r\u00e1pida. Al\u00e9m disso, a qualidade em filme caiu porque era muito caro&#8230; Em minhas viagens, levava 600 rolos de filme, pesavam 35 quilos, brigava nos aeroportos&#8230; Hoje, com uma caixa do tamanho de um celular levo esses 600 filmes.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>As\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/redes_sociales\">redes sociais<\/a>\u00a0lhe interessam? H\u00e1 uma conta em seu nome no Instagram&#8230;<\/strong>\u00a0N\u00e3o \u00e9 minha! E no Facebook h\u00e1 outras duas que tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o&#8230;, s\u00e3o falsas. Uma vez briguei por meses para que retirassem uma conta e apareceram cinco. N\u00e3o me interessa, o que \u00e9 exposto ali \u00e9&#8230; como se voc\u00ea abaixasse as cal\u00e7as e mostrasse a bunda pela janela. N\u00e3o \u00e9 da minha gera\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 o meu mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Teve tempo para fazer um balan\u00e7o?<\/strong>\u00a0Acho que contribu\u00ed \u00e0 consci\u00eancia do cuidado do planeta. Tive sucesso e cheguei com meu trabalho \u00e0s pessoas gra\u00e7as a organiza\u00e7\u00f5es como a Unicef, Save the Children, M\u00e9dicos Sem Fronteiras&#8230;, mas eu sozinho com minhas imagens n\u00e3o teria feito nada, seria como o p\u00f3.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/article>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tive sucesso e cheguei com meu trabalho \u00e0s pessoas gra\u00e7as a organiza\u00e7\u00f5es como a Unicef, Save the Children, M\u00e9dicos Sem Fronteiras&#8230;, mas eu sozinho com minhas imagens n\u00e3o teria feito nada, seria como o p\u00f3.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":287127,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[6,8],"tags":[],"class_list":["post-287126","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-municipios","category-noalvo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/SEBASTIAO-SALGADO.gif","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/287126","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=287126"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/287126\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/287127"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=287126"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=287126"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=287126"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}