{"id":287544,"date":"2019-06-28T05:01:46","date_gmt":"2019-06-28T08:01:46","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=287544"},"modified":"2019-06-28T05:01:46","modified_gmt":"2019-06-28T08:01:46","slug":"a-menina-que-contou-o-golpe-de-pinochet-em-seu-diario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/a-menina-que-contou-o-golpe-de-pinochet-em-seu-diario\/","title":{"rendered":"A menina que contou o golpe de Pinochet em seu di\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<div class=\"articulo__apertura\">\n<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div class=\"articulo-encabezado-texto\">\n<div id=\"articulo-titulares\" class=\"articulo-titulares\">\n<h1 id=\"articulo-titulo\" class=\"articulo-titulo \" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"articulo-subtitulos\" style=\"text-align: justify;\">\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\"><em>Francisca M\u00e1rquez tinha 12 anos em 11 de setembro de 1973. Quase meio s\u00e9culo depois \u00e9 publicado seu olhar infantil sobre o in\u00edcio da ditadura<\/em><\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"articulo-apertura \" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"firma \">\n<div class=\"autor\">\n<div class=\"autor-texto\"><span class=\"autor-nombre\"><a title=\"Ver todas as not\u00edcias de Roc\u00edo Montes\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/rocio_montes\/a\/\">ROC\u00cdO MONTES<\/a><\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<figure class=\"foto centro foto_w980\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2019\/06\/25\/internacional\/1561482460_479196_1561645956_noticia_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2019\/06\/25\/internacional\/1561482460_479196_1561645956_noticia_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2019\/06\/25\/internacional\/1561482460_479196_1561645956_noticia_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2019\/06\/25\/internacional\/1561482460_479196_1561645956_noticia_normal.jpg 980w\" alt=\"Francisca M\u00e1rquez, em Santiago, no Chile.\" width=\"980\" height=\"577\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Francisca M\u00e1rquez, em Santiago, no Chile.<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">SEBASTI\u00c1N UTRERAS<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Em agosto de 1973, a chilena Francisca M\u00e1rquez, de 12 anos, inicia seu sexto di\u00e1rio. Mais velha de quatro irm\u00e3s e admiradora de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/ana_frank\">Anne Frank<\/a>, os problemas de sa\u00fade a empurraram bem cedo para o caminho da observa\u00e7\u00e3o e da escrita. &#8220;Meu grande sonho \u00e9 fazer um livro, e que seja publicado e se torne famoso&#8221;, escreve ela na primeira p\u00e1gina. &#8220;Talvez um dia eu seja uma grande escritora ou, no m\u00e1ximo, apenas uma escritora. Ou nada.&#8221; Nas 40 p\u00e1ginas de um caderno escolar quadriculado, a menina descreve a vida de uma crian\u00e7a do in\u00edcio dos anos setenta no\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/chile\">Chile<\/a> e, acima de tudo, o cotidiano de um pa\u00eds inexistente \u2013com seus voc\u00e1bulos, modos de vida e a tens\u00e3o pol\u00edtica e social\u2013 que se quebrou com um golpe de Estado que irrompeu na vida de todos os cidad\u00e3os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Meu Deus, fiquei sabendo de uma coisa terr\u00edvel:\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/salvador_allende\">Allende<\/a>\u00a0se suicidou&#8221;, escreve \u00e0s 9h50 da noite de 11 de setembro de 1973, como se l\u00ea em\u00a0<em>O Di\u00e1rio de Francisca<\/em>, um livro-objeto recentemente publicado no Chile, que cont\u00e9m escritos de quase meio s\u00e9culo atr\u00e1s, envoltos em uma dezena de ensaios acad\u00eamicos que o contextualizam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Quando nos deparamos com o di\u00e1rio em 2014, eu o achei maravilhoso. Primeiro, porque est\u00e1 lindamente escrito&#8221;, diz a psicanalista Patricia Castillo, uma das editoras do livro, com a assistente social e poeta Alejandra Gonz\u00e1lez. Pesquisadora da experi\u00eancia das crian\u00e7as na repress\u00e3o \u2013tem uma p\u00e1gina no Facebook chamada\u00a0<em>Inf\u00e2ncia na Ditadura<\/em>\u2013, Castillo afirma que &#8220;como nenhum outro objeto, o di\u00e1rio de Francisca nos permite observar a reflex\u00e3o \u00e9tico-pol\u00edtica de uma menina e os fatos que marcam sua ambival\u00eancia com as avalia\u00e7\u00f5es do per\u00edodo &#8220;. O livro, da editora Hueders, \u00e9 composto por quatro livretos: junto com a reprodu\u00e7\u00e3o exata do di\u00e1rio, um outro livreto apresenta a transcri\u00e7\u00e3o textual, para facilitar a leitura. Os ensaios de diferentes disciplinas s\u00e3o organizados em dois facs\u00edmiles,\u00a0<em>Prel\u00fadio<\/em>\u00a0e\u00a0<em>Fuga<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Francisca M\u00e1rquez, a garota de 1973, se tornou depois uma antrop\u00f3loga de destaque. &#8220;Escrevia porque eu era muito doente&#8221;, lembra-se hoje de seus textos \u00edntimos. &#8220;Meus di\u00e1rios se explicam por minha permanente prostra\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m por uma fam\u00edlia de alto capital cultural.&#8221; Ela conta que foi sua m\u00e3e que durante d\u00e9cadas guardou os 17 di\u00e1rios que escreveu desde que aos 7 anos teve um rim operado at\u00e9 os 27, quando se casou. N\u00e3o tinha se dado conta do que suas p\u00e1ginas continham at\u00e9 que, em 2003, nos 30 anos do golpe, pela primeira falou de sua exist\u00eancia fora de seu c\u00edrculo familiar e lhe pediram para publicar um trecho em uma edi\u00e7\u00e3o especial de uma revista. Seus di\u00e1rios de inf\u00e2ncia apareceram depois em um document\u00e1rio de televis\u00e3o nos 40 anos do golpe, em 2013, at\u00e9 que decidiu do\u00e1-los ao Museu da Mem\u00f3ria, que narra o golpe de Estado e a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/augusto_pinochet\">ditadura de Pinochet<\/a>\u00a0com base na experi\u00eancia das v\u00edtimas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas nem Francisca nem sua fam\u00edlia foram v\u00edtimas da ditadura, o que \u00e9 parte do valor dos documentos que agora s\u00e3o publicados: &#8220;Quase n\u00e3o h\u00e1 obras sobre essa parte da sociedade que estava sob o regime ditatorial e teve que tomar uma posi\u00e7\u00e3o, mesmo que n\u00e3o tivesse participado da resist\u00eancia e at\u00e9 mesmo tenha sido pr\u00f3-regime&#8221;, diz o editor Castillo. Seus pais, profissionais de classe m\u00e9dia, menos preocupados com a pol\u00edtica do que com a cultura, decidiram com um grupo de amigos enviar as filhas para uma escola distante de onde moravam, mas de excel\u00eancia: o estabelecimento da elite santiaguina Santa \u00darsula, majoritariamente conservador. Francisca, portanto, n\u00e3o pertencia ao mesmo mundo que seus colegas de classe, o que lhe permitiu escrever com certo distanciamento o que observava ao seu redor. Porque seu di\u00e1rio, embora revele epis\u00f3dios t\u00edpicos de uma menina de 12 anos \u2013&#8221;Ang\u00e9lica e Paula n\u00e3o s\u00e3o muito minhas amigas&#8221;\u2013, mostra o modo como a sociedade chilena se transformou em uma na\u00e7\u00e3o de inimigos. &#8220;A briga foi por causa de uma menina que \u00e9 minha amiga. Ela se chama Francisca Sotomayor. Seus pais s\u00e3o da U.P. [apoiadores do Governo Allende da Unidade Popular].&#8221;<\/p>\n<section id=\"sumario_1|foto\" class=\"sumario_foto izquierda\"><a name=\"sumario_1\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w360\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/internacional\/imagenes\/2019\/06\/25\/actualidad\/1561482460_479196_1561483447_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/internacional\/imagenes\/2019\/06\/25\/actualidad\/1561482460_479196_1561483447_sumario_normal_recorte1.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/internacional\/imagenes\/2019\/06\/25\/actualidad\/1561482460_479196_1561483447_sumario_normal.jpg 360w\" alt=\"Francisca M\u00e1rquez em 1973.\" width=\"360\" height=\"266\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Francisca M\u00e1rquez em 1973.<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">As filas para comprar p\u00e3o em tempos de escassez. Os problemas sociais e as disputas, que a menina descreve usando uma palavra que praticamente n\u00e3o se usa mais no Chile:\u00a0<em>boche<\/em>. O 11 de setembro de 1973: &#8220;S\u00e3o 11h45. O ex\u00e9rcito, a marinha e a avia\u00e7\u00e3o decidiram tirar Allende e seus ministros, Allende est\u00e1 em La Moneda, E o ex\u00e9rcito, a marinha e a avia\u00e7\u00e3o disseram a Allende que se rendesse porque se ele n\u00e3o se rendesse eles atacariam por terra e ar. Resultado: Allende n\u00e3o desistiu e bombardearam La Moneda. E come\u00e7ou a pegar fogo\u201d. A atmosfera naquele dia em seu bairro, no munic\u00edpio de \u00d1u\u00f1oa: &#8220;Na minha rua todas as casas puseram uma bandeira chilena na janela. E algumas pessoas ainda levaram uma mesa para a rua. E come\u00e7aram a dar caf\u00e9&#8221;. Seus pr\u00f3prios sentimentos sobre o que acontecia no pa\u00eds: &#8220;Sinto pena se matam ou desterram Allende&#8221;. A empatia de uma menina de 12 anos: &#8220;N\u00e3o achei que para fazer os U.P. se renderem tivessem que sacrificar tantas vidas&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com a editora, Patricia Castillo, os filhos das fam\u00edlias de direita e esquerda come\u00e7aram, ent\u00e3o, a sofrer com a pr\u00f3pria inseguran\u00e7a dos pais: &#8220;As crian\u00e7as sentem que os pais n\u00e3o sabem o que vai acontecer e h\u00e1 poucas coisas que desestruturem mais uma crian\u00e7a do que a falta de estabilidade e proje\u00e7\u00e3o&#8221;. Francisca lembra que sua pr\u00f3pria casa era um lugar de passagem para os adultos que partiam para o ex\u00edlio e deixavam seus filhos por alguns dias hospedados em sua casa: &#8220;Eu me lembro daquele entra-e-sai permanente&#8221;. Enquanto isso, as freiras de sua escola arrecadavam dinheiro para entregar \u00e0 Junta do Governo Militar: &#8220;Desde setembro, todas as classes est\u00e3o juntando dinheiro para a restaura\u00e7\u00e3o do Chile. E hoje, como \u00e9 o dia da escola, uma freira foi dar dinheiro para a junta&#8221;, escreveu Francisca em 23 de outubro de 1973. Mas a autora parecia ter mais simpatia pelo lado derrotado e come\u00e7a a ficar evidente as mudan\u00e7as de seu pensamento pol\u00edtico: &#8221; &#8230; \u00e9 dos mais UP\u201d, dizia sobre uma amiga. &#8220;Ela me falou. E em quase todas as coisas lhe dei raz\u00e3o. N\u00e3o que eu seja uma socialista, mas que compreendo os pobres. E que a U.P. os ajudava&#8221;, escreveu na \u00faltima p\u00e1gina desse di\u00e1rio.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Francisca M\u00e1rquez tinha 12 anos em 11 de setembro de 1973. 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