{"id":288674,"date":"2019-07-09T07:28:40","date_gmt":"2019-07-09T10:28:40","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=288674"},"modified":"2019-07-09T07:28:40","modified_gmt":"2019-07-09T10:28:40","slug":"o-feminismo-que-nasceu-com-simone-de-beauvoir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/o-feminismo-que-nasceu-com-simone-de-beauvoir\/","title":{"rendered":"O feminismo que nasceu com Simone de Beauvoir"},"content":{"rendered":"<div class=\"articulo__apertura\">\n<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div class=\"articulo-encabezado-texto\">\n<div id=\"articulo-titulares\" class=\"articulo-titulares\">\n<h1 id=\"articulo-titulo\" class=\"articulo-titulo \" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"articulo-subtitulos\" style=\"text-align: justify;\">\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\">Onde est\u00e1 a raiz da desigualdade entre homens e mulheres? O radical ponto de partida de \u2018O Segundo Sexo\u2019 continua v\u00e1lido 70 anos depois de seu surgimento<\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"articulo-apertura \" style=\"text-align: justify;\">\n<figure class=\"foto superior foto_w980\"><a class=\"enlace\" style=\"text-decoration: none; margin: 0px; padding: 0px; border: none; font: inherit; vertical-align: baseline; box-sizing: border-box; background-color: transparent; color: #016ca2; touch-action: manipulation; position: relative; display: block;\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/07\/05\/cultura\/1562337766_757567.html\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2019\/07\/05\/cultura\/1562337766_757567_1562528832_noticia_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2019\/07\/05\/cultura\/1562337766_757567_1562528832_noticia_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2019\/07\/05\/cultura\/1562337766_757567_1562528832_noticia_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2019\/07\/05\/cultura\/1562337766_757567_1562528832_noticia_normal.jpg 980w\" alt=\"Simone de Beauvoir em Paris em 1945.\" width=\"980\" height=\"578\" \/><span class=\"boton_ampliar\">Ampliar foto<\/span><\/a><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Simone de Beauvoir em Paris em 1945.<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">DENISE BELLON<\/span>\u00a0<span class=\"foto-agencia\">ALBUM<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"firma \">\n<div class=\"autor\">\n<div class=\"autor-texto\"><span class=\"autor-nombre\"><a title=\"Ver todas as not\u00edcias de M\u00e1riam Mart\u00ednez-Bascu\u00f1\u00e1n\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/mariam_martinez_bascunan\/a\/\">M\u00c1RIAM MART\u00cdNEZ-BASCU\u00d1\u00c1N<\/a><\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"articulo-datos\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Existem autores que simplesmente n\u00e3o t\u00eam predecessores ou sucessores: sua originalidade \u00e9 absoluta.\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/simone_de_beauvoir\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Simone de Beauvoir<\/a>\u00a0pertence a esse grupo porque seu pensamento foi um ponto de fuga que lhe permitiu chegar onde n\u00e3o se havia chegado. Embora muitos r\u00f3tulos tenham sido dados ao seu livro\u00a0<em>O Segundo Sexo<\/em>\u2013 definido, conforme o caso, como existencialista, humanista, ilustrado ou construtivista \u2013, o fato \u00e9 que 70 anos depois de sua publica\u00e7\u00e3o \u00e9 um cl\u00e1ssico absoluto, uma obra brilhantemente articulada atrav\u00e9s da qual continuamos contemplando e interpretando o mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa \u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o que se tem ao l\u00ea-lo porque esse livro elevou as experi\u00eancias de vergonha e autoculpabiliza\u00e7\u00e3o das mulheres a uma inteligente e sutil reflex\u00e3o filos\u00f3fica;\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2015\/11\/09\/opinion\/1447075142_888033.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>O Segundo Sexo<\/em>\u00a0articula uma medita\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica<\/a>\u00a0sobre significados sociais para os quais nem sequer existiam palavras em 1949. Sua coragem foi colossal, pois muitas feministas de seu tempo ainda guardavam sil\u00eancio sobre as fantasias projetadas nos corpos das mulheres e a import\u00e2ncia disso em seu posicionamento social assim\u00e9trico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre outras coisas, a contribui\u00e7\u00e3o dessa pensadora genial, a mais ilustre moradora do Quartier Latin parisiense, foi situar a reflex\u00e3o sobre o corpo no centro do feminismo: se toda exist\u00eancia humana, segundo ela, \u00e9 definida por sua localiza\u00e7\u00e3o, a corporalidade da mulher e os significados sociais que se lhe atribuem condicionam sua exist\u00eancia. Essa m\u00e1xima t\u00e3o simples era revolucion\u00e1ria h\u00e1 70 anos e continua sendo hoje, porque a mulher ainda se realiza no mundo como um corpo submetido a tabus e estere\u00f3tipos que servem como desculpas para legitimar as mais evidentes discrimina\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">O pessoal \u00e9 pol\u00edtico<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>O Segundo Sexo<\/em>\u00a0\u00e9\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/feminismo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">feminista<\/a>, claro, e o \u00e9 porque, se existe alguma coisa que define o feminismo, \u00e9 a reivindica\u00e7\u00e3o para a pol\u00edtica de temas tabu ou esquecidos, de suma import\u00e2ncia para compreender a situa\u00e7\u00e3o de desigualdade e subordina\u00e7\u00e3o das mulheres. A biologia, os usos amorosos, a inicia\u00e7\u00e3o sexual,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/03\/01\/politica\/1551460732_315309.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">as implica\u00e7\u00f5es do casamento<\/a>\u00a0e inclusive da velhice para a mulher&#8230; s\u00e3o alguns dos temas, de aspecto mundano, mas de inquestion\u00e1vel import\u00e2ncia, que perfilam com exatid\u00e3o uma nova sensibilidade pol\u00edtica no tabuleiro de jogo com extremo brilhantismo e aud\u00e1cia. Porque Simone de Beauvoir come\u00e7ou sua grande obra a partir de espa\u00e7os filos\u00f3ficos praticamente desabitados e com temas que, at\u00e9 hoje, se desprezavam decididamente como alheios ao pol\u00edtico. Antecipou assim, ao fazer da reflex\u00e3o sobre o corpo um tema central, o famoso \u201co pessoal \u00e9 pol\u00edtico\u201d do feminismo da Segunda Onda nos anos sessenta. \u00c9 interessante afirmar isso hoje, quando tantos mal-entendidos pesam sobre ele, que colocam os defensores da ortodoxia na defensiva. Quase parece absurdo ter de lembrar: nenhuma feminista seria a favor de dinamitar a linha que separa a vida p\u00fablica da necessidade de um abrigo \u00edntimo para nos protegermos. N\u00e3o \u00e9 o feminismo, mas as redes sociais, que est\u00e3o borrando essas fronteiras.<\/p>\n<section id=\"sumario_3|html\" class=\"sumario_html izquierda\"><a name=\"sumario_3\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p class=\"texto_grande\">Come\u00e7ou sua obra com temas que at\u00e9 ent\u00e3o eram desprezados e vistos como n\u00e3o pol\u00edticos<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO pessoal \u00e9 pol\u00edtico\u201d significa simplesmente que qualquer pr\u00e1tica social \u00e9 suscet\u00edvel de se tornar um tema adequado para reflex\u00e3o, discuss\u00e3o e express\u00e3o p\u00fablicas. A desestabiliza\u00e7\u00e3o da f\u00e9rrea divis\u00e3o entre p\u00fablico e privado serviu para abrir esses espa\u00e7os de liberdade e igualdade para as mulheres, mas nosso pensamento continua formatado por uma velha presun\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica que sente como um ataque tudo aquilo que desnatura o que nunca deveria ter sido naturalizado. O fato de o mundo privado da necessidade e dos cuidados fosse nomeado no feminino n\u00e3o tinha nada de natural e continua sendo um problema em nossas sociedades: ainda hoje, na Espanha, onde existe uma grande consci\u00eancia feminista, apenas dois de cada 10 homens compartilham as tarefas dom\u00e9sticas com suas parceiras, de acordo com uma pesquisa do CIS realizada em 2017. O problema \u00e9 que essa divis\u00e3o pol\u00edtica que relegou as mulheres a uma esfera dom\u00e9stica como se fosse seu espa\u00e7o natural tamb\u00e9m promoveu sua invisibilidade como sujeitos pol\u00edticos. E ainda hoje a presen\u00e7a p\u00fablica das mulheres, seu reconhecimento e prest\u00edgio continuam sendo substancialmente inferiores ao dos homens.<\/p>\n<section id=\"sumario_2|foto\" class=\"sumario_foto centro\"><a name=\"sumario_2\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w980\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2019\/07\/05\/ideas\/1562337766_757567_1562344293_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2019\/07\/05\/ideas\/1562337766_757567_1562344293_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2019\/07\/05\/ideas\/1562337766_757567_1562344293_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2019\/07\/05\/ideas\/1562337766_757567_1562344293_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"Simone de Beauvoir em seu apartamento em Paris em 1976.\" width=\"980\" height=\"600\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Simone de Beauvoir em seu apartamento em Paris em 1976.<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">JACQUES PAVLOVSKY<\/span>\u00a0<span class=\"foto-agencia\">SYGMA \/ GETTY<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Corpos na esfera p\u00fablica<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa separa\u00e7\u00e3o entre os sexos que o feminismo tanto questionou repousa sobre a fragmenta\u00e7\u00e3o radical da experi\u00eancia humana. Por um lado, os homens exerciam a cidadania p\u00fablica e, por outro, as mulheres governavam no mundo privado o \u00e2mbito das necessidades, afetos e desejos. A renomada fil\u00f3sofa Carole Pateman o explicou no\u00a0<em>Contrato Sexual<\/em>: essa fic\u00e7\u00e3o se mant\u00e9m por uma poderosa ideia abstrata do cidad\u00e3o universal, \u201cque n\u00e3o tem corpo, porque \u00e9 raz\u00e3o desapaixonada\u201d. Mas esse processo de desencarna\u00e7\u00e3o dos homens ocorre em paralelo a outro menos amig\u00e1vel que define essencialmente as mulheres como corpos vulner\u00e1veis. Toda a nossa tradi\u00e7\u00e3o se baseia, de fato, nessa ilus\u00e3o metaf\u00edsica assentada \u2013nas palavras de Christine Battersby\u2013 sobre a fal\u00e1cia de que \u201cos sujeitos s\u00e3o independentes entre si, e seus cora\u00e7\u00f5es racionais permanecem separados das dores e dos sofrimentos que seus corpos vulner\u00e1veis provocam\u201d. Quando Simone de Beauvoir disse que \u201ca mulher, como o homem, \u00e9 o seu corpo\u201d deu uma guinada radical nessa tradi\u00e7\u00e3o para nos falar do corpo vivido e avan\u00e7ar para al\u00e9m da separa\u00e7\u00e3o cartesiana entre um sujeito que \u201cpensa, logo existe\u201d enquanto habita uma esp\u00e9cie de recipiente passivo que n\u00e3o faz parte do seu eu. Beauvoir reivindica o corpo, e a partir da\u00ed come\u00e7a uma frut\u00edfera produ\u00e7\u00e3o de literatura feminista e o que a cientista pol\u00edtica Seyla Benhabib descreveu com precis\u00e3o como \u201co surgimento do corpo na esfera p\u00fablica\u201d.<\/p>\n<section id=\"sumario_4|html\" class=\"sumario_html derecha\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p class=\"texto_grande\">A partir de uma abordagem estrutural definiu o patriarcado, esse conceito que ainda provoca medo<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na verdade, o que Simone de Beauvoir queria nos dizer \u00e9 que existem inevit\u00e1veis depend\u00eancias entre nosso corpo e nossa mente, e que se a experi\u00eancia corporal condiciona a forma pela qual enfrentamos o mundo, no caso da mulher isso tem um efeito maior, pois s\u00e3o as significa\u00e7\u00f5es sociais dadas a essa forma de nos relacionarmos com nossos corpos e sua import\u00e2ncia para nos desenvolvermos como pessoas aquilo que estrutura uma sociedade profundamente desigual. Em suas pr\u00f3prias palavras, enquanto \u201co homem percebe seu corpo como uma rela\u00e7\u00e3o direta e normal com o mundo (&#8230;), a mulher tem ov\u00e1rios\u201d. Desde a mais tenra inf\u00e2ncia a mulher experimenta seu corpo como uma coisa que tem de proteger, sempre atenta a que seus movimentos n\u00e3o entrem em contradi\u00e7\u00e3o com a feminilidade que se espera que projete em todos os momentos. E isso \u00e9 comum a todas as mulheres, porque, independentemente de suas oportunidades e suas possibilidades de escolha, existe \u201cuma base comum subjacente a cada exist\u00eancia individual feminina no estado atual de educa\u00e7\u00e3o e costume\u201d. E assim, a partir dessa abordagem estrutural, Simone de Beauvoir define o\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/patriarcado\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">patriarcado<\/a>, esse conceito que continua produzindo muito medo absurdo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A palavra \u201cpatriarcado\u201d n\u00e3o implica nada mais (e nada menos) do que o reconhecimento de que, sob a pluralidade de suas vidas, da diversidade e da criatividade de cada mulher, existe uma unidade que pode ser identificada e narrada de forma intelig\u00edvel e clara, uma linha de experi\u00eancias compartilhadas subjacente para cada vida particular que nos torna um pouco mais desiguais em rela\u00e7\u00e3o aos homens. Essa forma t\u00e3o simples de definir o patriarcado significava, na verdade, um grande passo hist\u00f3rico para frente: fugir de essencialismos ao descrever as mulheres, mas tamb\u00e9m desse nominalismo est\u00e9ril que nega toda diferen\u00e7a. Por isso Simone de Beauvoir enfatizava que dizer que \u201csomos todos seres humanos\u201d \u00e9 algo t\u00e3o oco que carece de relev\u00e2ncia como ponto de partida para explicar qualquer coisa.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">A fal\u00e1cia da biologia<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Onde est\u00e1 a raiz dessa desigualdade? Por que a mulher n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o livre quanto deveria ser? S\u00e3o as perguntas de que parte a autora para escrever a obra m\u00e1xima e seminal do pensamento feminista. Mas, curiosamente,\u00a0<em>O Segundo Sexo<\/em>\u00a0come\u00e7a a introduzir sua proposta a partir de uma observa\u00e7\u00e3o um tanto peculiar: um homem n\u00e3o teria pensado em escrever um livro sobre sua situa\u00e7\u00e3o particular no mundo, porque naturalmente sua experi\u00eancia representava a experi\u00eancia universal de todo ser humano. Da\u00ed que Simone de Beauvoir defina a mulher como alteridade, como esse segundo sexo em situa\u00e7\u00e3o de subordina\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao primeiro.<\/p>\n<section id=\"sumario_5|html\" class=\"sumario_html izquierda\"><a name=\"sumario_5\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p class=\"texto_grande\">Sua famosa frase \u201cN\u00e3o se nasce mulher: torna-se mulher\u201d \u00e9 uma das mais revolucion\u00e1rias<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje \u00e9 quase intrigante que ningu\u00e9m jamais tivesse perguntado com essa clareza sobre a evidente injusti\u00e7a de que \u201chomem\u201d seja a palavra que designa tanto a parte masculina da humanidade e a humanidade inteira como g\u00eanero. Enquanto isso, a experi\u00eancia feminina sempre foi declinada no singular. A mulher representa a mulher (ou as mulheres), mas nunca a humanidade inteira. Beauvoir nos lembra: \u201cEle \u00e9 o Sujeito, \u00e9 o Absoluto: ela \u00e9 a Alteridade\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A diferen\u00e7a entre o Absoluto e a Outra \u00e9 definida em\u00a0<em>O Segundo Sexo<\/em>\u00a0a partir de uma abordagem existencialista centrada, como n\u00e3o poderia ser de outra forma, na liberdade. Simone de Beauvoir nos mostra uma masculinidade educada na ideia de um sujeito livre que se move pelo mundo, com iniciativa e aud\u00e1cia, criando e narrando sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria. Como na\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/07\/11\/cultura\/1531301394_545353.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u00e9pica legend\u00e1ria da\u00a0<em>Odisseia<\/em><\/a>, Ulisses alcan\u00e7a essa transcend\u00eancia baseada no valor da separa\u00e7\u00e3o, da independ\u00eancia e da autonomia diante de uma Pen\u00e9lope encerrada em um destino que j\u00e1 est\u00e1 escrito para ela: a esposa que espera, que deseja servir e se entregar a um ator forte em vez de ela o ser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso a mulher \u00e9 \u201ciman\u00eancia\u201d. Confinada em uma natureza particular, existe como objeto antes que como sujeito, como algu\u00e9m com uma natureza biol\u00f3gica que a restringe, que a encerra nessa ess\u00eancia inapreens\u00edvel que define as lentes pelas quais \u00e9 vista e avaliada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEu gosto que a mulher seja mulher, mulher\u201d, respondeu uma vez um pol\u00edtico espanhol, e n\u00e3o foi o \u00fanico. Esse modelo ideal se conecta diretamente com as expectativas geradas em torno das mulheres, com os clich\u00eas sobre sua predisposi\u00e7\u00e3o para cuidar dos outros e agradar, sobre seu gosto ao se vestir, sua capacidade de sedu\u00e7\u00e3o e seu sorriso&#8230; \u201cPor que voc\u00ea est\u00e1 sempre t\u00e3o s\u00e9ria?\u201d, perguntava uma conhecida figura da imprensa espanhola \u00e0 deputada Tania S\u00e1nchez. \u00c9 que a primeira voca\u00e7\u00e3o da mulher ser\u00e1 sempre a de agradar, disse-nos Simone de Beauvoir, o que reduzir\u00e1 substancialmente o mundo de sua autorrealiza\u00e7\u00e3o individual. Ela aprender\u00e1 ent\u00e3o a crescer desejando um homem, ou um sujeito externo a ela mesma, mas n\u00e3o exercendo sua liberdade. Sua confian\u00e7a ser\u00e1, pois, sempre menor. E sentir\u00e1 d\u00favidas, medos e inseguran\u00e7as quando seu sucesso entrar em contradi\u00e7\u00e3o com o que dela se espera como mulher, mulher. Da\u00ed a famosa senten\u00e7a de Beauvoir: \u201cN\u00e3o se nasce mulher: chega-se a s\u00ea-lo.\u201d Assim ela oferecia ao feminismo, e a toda a humanidade, uma das formula\u00e7\u00f5es mais revolucion\u00e1rias de todos os tempos. Tanto que tudo o que veio depois \u00e9 quase uma nota de rodap\u00e9 do seu pensamento. \u00c9 intrigante como ningu\u00e9m tinha se perguntado por que \u201chomem\u201d designa a humanidade inteira.<\/p>\n<section id=\"sumario_6|html\" class=\"sumario_html derecha\"><a name=\"sumario_6\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p class=\"texto_grande\">\u00c9 intrigante como ningu\u00e9m havia se perguntado por que \u201chomem\u201d se refere \u00e0 humanidade inteira<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nasceria nesse momento a ideia do g\u00eanero como categoria anal\u00edtica, como base para explicar por que essa diferen\u00e7a entre homens e mulheres n\u00e3o \u00e9 natural, mas acidental. Aparece ent\u00e3o a famosa distin\u00e7\u00e3o sexo\/g\u00eanero, essa dicotomia entre o determinismo biol\u00f3gico que, desde Arist\u00f3teles, afirmava que \u201ca f\u00eamea \u00e9 f\u00eamea em virtude de uma determinada car\u00eancia de qualidades\u201d, e o outro lado da moeda: a constru\u00e7\u00e3o do feminino como um fato cultural, um atrevimento audaz e genial que frisava a import\u00e2ncia da tradi\u00e7\u00e3o no condicionamento da mulher, for\u00e7ada pelo costume a adotar pap\u00e9is considerados socialmente inferiores. O feminismo de Beauvoir reivindicava-se, assim, como humanismo, reclamando para as mulheres a energia criativa e as capacidades que lhes haviam sido negadas historicamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir da\u00ed, todo o feminismo contempor\u00e2neo foi e \u00e9 um di\u00e1logo com seu livro inaugural: do feminismo da diferen\u00e7a de Carol Gilligan at\u00e9 a implos\u00e3o do pensamento\u00a0<em>queer<\/em>\u00a0auspiciado por\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/judith_butler\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Judith Butler,<\/a>\u00a0passando pelo feminismo radical de Kate Miller, os feminismos p\u00f3s-coloniais e multiculturais e o feminismo negro. Seria preciso um longo percurso por essa grande conversa\u00e7\u00e3o para entender a evolu\u00e7\u00e3o e a riqueza de todos os enfoques te\u00f3ricos que, com grade capacidade cr\u00edtica, foram dissecando a obra de Beauvoir desde o reconhecimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O feminismo da diferen\u00e7a seguiria a esteira do construtivismo de Beauvoir para salientar que a educa\u00e7\u00e3o importa, claro, mas que uma educa\u00e7\u00e3o baseada no cuidado e na empatia n\u00e3o deveria se concentrar unicamente nas meninas; poderia ser proveitosa para fazer o mundo melhor se fosse estendida a todos os seres humanos, sem distin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais adiante, o projeto de tornar positivo o significado hist\u00f3rico da\u00a0<em>cultura da mulher<\/em>\u00a0apareceria por meio de propostas art\u00edsticas como as de Judy Chicago (e sua instala\u00e7\u00e3o\u00a0<em>The Dinner Party<\/em>) e dos textos subversivos de Julia Kristeva e Luce Irigaray. Elas tentam imprimir outra perspectiva aos ensinamentos de uma Beauvoir vista j\u00e1 como a m\u00e3e do pensamento feminista contempor\u00e2neo. Finalmente, esse di\u00e1logo para o qual Beauvoir tinha aberto a porta e que mantinha inalter\u00e1vel a distin\u00e7\u00e3o sexo\/g\u00eanero explodiria com a fabulosa entrada do paradigma da corporalidade com outra grande expoente do feminismo e do pensamento: a formid\u00e1vel Judith Butler.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando um autor \u00e9 poderoso demais, pode chegar a funcionar como uma algema mental. No caso de Simone de Beauvoir, contudo, a recep\u00e7\u00e3o de sua obra foi na verdade um gigantesco primeiro degrau que nos elevou rumo a uma consci\u00eancia cr\u00edtica. Muitas daquelas primeiras reflex\u00f5es sobre a dignidade humana, a criatividade e a autonomia da mulher s\u00e3o consideradas ainda hoje uma aut\u00eantica mina para o feminismo.\u00a0<em>O Segundo Sexo<\/em>\u00a0aos 70 continua sendo um brilhante buraco sem fundo repleto de perguntas que abrem o mundo das mulheres, mas tamb\u00e9m dos homens, a novas possibilidades e horizontes de liberdade.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cEu gosto que a mulher seja mulher, mulher\u201d, respondeu uma vez um pol\u00edtico espanhol, e n\u00e3o foi o \u00fanico. 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