{"id":288676,"date":"2019-07-09T07:32:00","date_gmt":"2019-07-09T10:32:00","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=288676"},"modified":"2019-07-09T07:32:00","modified_gmt":"2019-07-09T10:32:00","slug":"para-as-indigenas-da-amazonia-parir-e-um-ato-comunitario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/para-as-indigenas-da-amazonia-parir-e-um-ato-comunitario\/","title":{"rendered":"Para as ind\u00edgenas da Amaz\u00f4nia, parir \u00e9 um ato comunit\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<div class=\"articulo__apertura\">\n<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div class=\"articulo-encabezado-texto\">\n<div id=\"articulo-titulares\" class=\"articulo-titulares\">\n<h1 id=\"articulo-titulo\" class=\"articulo-titulo \" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"articulo-subtitulos\" style=\"text-align: justify;\">\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\">Nas aldeias de Tabatinga, no Amazonas, parteiras ticunas repetem tradi\u00e7\u00f5es ancestrais e aprofundam a cada gera\u00e7\u00e3o seu conhecimento sobre a melhor maneira de vir ao mundo<\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"articulo-apertura \" style=\"text-align: justify;\">\n<figure class=\"foto superior foto_w980\"><a class=\"enlace\" style=\"text-decoration: none; margin: 0px; padding: 0px; border: none; font: inherit; vertical-align: baseline; box-sizing: border-box; background-color: transparent; color: #016ca2; touch-action: manipulation; position: relative; display: block;\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/07\/06\/politica\/1562415606_609260.html\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2019\/07\/06\/politica\/1562415606_609260_1562437345_noticia_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2019\/07\/06\/politica\/1562415606_609260_1562437345_noticia_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2019\/07\/06\/politica\/1562415606_609260_1562437345_noticia_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2019\/07\/06\/politica\/1562415606_609260_1562437345_noticia_normal.jpg 980w\" alt=\"Francisca Tom\u00e9 visita Luciete do Carmo, 18 anos, e o beb\u00ea Alderson Luan, que ajudara a parir dois meses antes.\" width=\"980\" height=\"601\" \/><span class=\"boton_ampliar\">Ampliar foto<\/span><\/a><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Francisca Tom\u00e9 visita Luciete do Carmo, 18 anos, e o beb\u00ea Alderson Luan, que ajudara a parir dois meses antes.<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">RODRIGO PEDROSO (AG\u00caNCIA P\u00daBLICA)<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"firma \">\n<div class=\"autor\">\n<div class=\"autor-texto\"><span class=\"autor-nombre\"><a title=\"Ver todas as not\u00edcias de Rodrigo Pedroso (Ag\u00eancia P\u00fablica)\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/agencia_publica\/a\/\">RODRIGO PEDROSO (AG\u00caNCIA P\u00daBLICA)<\/a><\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cAqui morreram tr\u00eas filhos meus\u201d, comenta, econ\u00f4mica nas palavras, Lourdes Ara\u00fajo Firmino. Era de manh\u00e3 e acab\u00e1vamos de passar em frente ao hospital militar, na avenida principal da cidade de Tabatinga, no Amazonas. Os dois primeiros, Francisquinho e Francisco, nasceram com complica\u00e7\u00f5es e morreram ap\u00f3s o parto. Mas foi Maria, a \u00faltima, quem mais deixou marcas na sua vida. Lourdes, ent\u00e3o com 36 anos, obesa e diab\u00e9tica, tivera uma gravidez considerada de risco pelos m\u00e9dicos militares. Ainda assim, Maria chegou saud\u00e1vel ao final da gesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No dia em que a bolsa estourou, Lourdes, ticuna, parteira ind\u00edgena por profiss\u00e3o, decidiu que queria ter um\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/partos_naturales\">parto natural<\/a>. Os m\u00e9dicos n\u00e3o lhe deram ouvidos. \u201cEstava cedo para puxar ela. Eu falava, mas eles se faziam de surdos.\u201d Naquela \u00e9poca, no come\u00e7o dos anos 2000, era proibido \u00e0s parturientes levar acompanhantes para a sua hora em hospitais p\u00fablicos. O marido brigou: ficou do lado de fora do centro cir\u00fargico e foi impedido pelos funcion\u00e1rios de entrar na sala para acompanhar a mulher. Conseguiu v\u00ea-la s\u00f3 ap\u00f3s a constata\u00e7\u00e3o do \u00f3bito de Maria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pouco depois, na cozinha de sua casa de alvenaria com parte do teto por terminar, Lourdes, agora com 52 anos, mostra ao rep\u00f3rter as fotos que tirou da beb\u00ea ap\u00f3s o parto, com lacera\u00e7\u00f5es nos bra\u00e7os e no pesco\u00e7o. \u201cOlha ela toda machucadinha. Foram impacientes, puxaram muito ela\u201d, lamenta. E coloca as fotos em uma sacola rosa, estampada com um desenho de princesa. O marido ainda hoje n\u00e3o consegue olhar para as fotografias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nada mais distante do que ela tem como princ\u00edpio para a profiss\u00e3o que escolheu. \u201cUm bom parto tem que ser feito pela mulher, no tempo dela, com ela se descobrindo. N\u00e3o pode for\u00e7ar nada. A gente tem s\u00f3 que acompanhar e cuidar dela nessa travessia\u201d, diz.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Cinco d\u00e9cadas e nenhum reconhecimento<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">No dia em que morreu a parteira mais antiga da aldeia Umaria\u00e7u, Lourdes fazia o parto de um beb\u00ea, mais um entre os \u201cmais de 200\u201d que ela lembra de mem\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00f3 p\u00f4de ir chorar a morte de Raimunda Coelho quando o vel\u00f3rio estava no final.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A amiga de d\u00e9cadas falecera aos 78 anos enquanto dormia. Foi enterrada no cemit\u00e9rio improvisado da aldeia onde vivem 8.400 ticunas, colada \u00e0 cidade de Tabatinga, a mais de mil quil\u00f4metros a leste de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/manaos\">Manaus<\/a>. Ao longo de todo o dia, crian\u00e7as, jovens, adultos e idosos entravam na casa de Raimunda, agachavam-se de costas para a parede e de frente para o caix\u00e3o aberto no ch\u00e3o da sala, acendiam uma vela e prestavam condol\u00eancias ao vi\u00favo. Conversavam em voz baixa: eram todos ticunas, a maior popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/amazonia\">Amaz\u00f4nia<\/a>\u00a0brasileira (45 mil, segundo o censo de 2010), que vive espalhada pela fronteira entre Brasil, Col\u00f4mbia e Peru.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lourdes chegou \u00e0s 13 horas, de m\u00e3os dadas com o filho adotado \u2014al\u00e9m dele, ela tem mais seis filhos naturais\u2014 relutante em ver o corpo. Passou pela porta da casa modesta, onde um mico-preto de estima\u00e7\u00e3o andava pela viga do teto, e acendeu tamb\u00e9m uma vela no p\u00e9 do caix\u00e3o. Do lado esquerdo encontravam-se amontoados um colch\u00e3o, um balde, shampoo, saia, porta-retrato, uma sacola da Natura com frase sobre empoderamento feminino e a rede na qual Raimunda costumava dormir depois do almo\u00e7o. Apesar de a maioria dos ticunas terem se tornado cat\u00f3licos ou evang\u00e9licos, acreditam que velar e enterrar os mortos com suas posses lhes pode ser \u00fatil no al\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lourdes det\u00e9m o olhar sobre a amiga, coberta dos p\u00e9s ao pesco\u00e7o por um len\u00e7ol branco, e se senta ao lado de outras tr\u00eas parteiras. Especulam sobre as causas do falecimento: se havia sido por causa do jambo, uma fruta leitosa, que comera na selva; se pela precariedade do hospital; se por causa do m\u00e9dico que ignorou a gravidade do caso e a mandou de volta \u00e0 aldeia ainda doente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas isso n\u00e3o era motivo de preocupa\u00e7\u00e3o. Vivenciar o come\u00e7o e o fim da vida \u00e9 uma experi\u00eancia recorrente para esse grupo de mulheres. A preocupa\u00e7\u00e3o maior das parteiras naquela sala era que Raimunda morrera sem ser reconhecida e gratificada pelo Estado brasileiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Afinal, foram mais de cinco d\u00e9cadas trazendo ao mundo os beb\u00eas de Umaria\u00e7u.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desconfiadas do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/sus_sistema_unico_saude\">sistema p\u00fablico de sa\u00fade<\/a>, as ind\u00edgenas da aldeia se fiam nas parteiras para passar pelas incertezas e dores da gesta\u00e7\u00e3o e do parto. S\u00e3o essas mulheres, em sua maioria idosas, analfabetas e que aprenderam o of\u00edcio com suas antepassadas, que conduzem o momento no qual, para elas, a menina morre para que a mulher, transformada em m\u00e3e, possa nascer.<\/p>\n<section id=\"sumario_2|foto\" class=\"sumario_foto centro\"><a name=\"sumario_2\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w980\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2019\/07\/06\/politica\/1562415606_609260_1562437730_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2019\/07\/06\/politica\/1562415606_609260_1562437730_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2019\/07\/06\/politica\/1562415606_609260_1562437730_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2019\/07\/06\/politica\/1562415606_609260_1562437730_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"Parteira Lourdes mostrando beb\u00ea, ainda sem nome, que acabara de ajudar a parir\" width=\"980\" height=\"1307\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Parteira Lourdes mostrando beb\u00ea, ainda sem nome, que acabara de ajudar a parir<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">R. P. (AG\u00caNCIA P\u00daBLICA)<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">No ano passado, metade dos 82 partos em Umaria\u00e7u foram feitos pelas parteiras na aldeia, de forma natural, segundo os c\u00e1lculos do Distrito Sanit\u00e1rio Especial Ind\u00edgena (DSEI) respons\u00e1vel pela regi\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde 2015, as profissionais de sa\u00fade do DSEI come\u00e7aram a pedir \u00e0s 14 parteiras cadastradas que anotem os partos, apesar de saberem que poucas conseguem escrever o pr\u00f3prio nome. Tamb\u00e9m deram kits para melhorar as condi\u00e7\u00f5es de higiene e pediram a elas que acompanhassem a equipe de sa\u00fade no exame pr\u00e9-natal realizado de porta em porta. Acenaram tamb\u00e9m com a possibilidade de uma remunera\u00e7\u00e3o. Criou-se a expectativa, mas n\u00e3o h\u00e1 previs\u00e3o de formaliza\u00e7\u00e3o da atividade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O esbo\u00e7o de inclus\u00e3o dessas mulheres na equipe de sa\u00fade contrasta com a l\u00f3gica do sistema de sa\u00fade brasileiro.\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/08\/09\/actualidad\/1502268381_004054.html\">56% dos partos no pa\u00eds em 2017 \u2014\u00faltimos dados dispon\u00edveis no Sistema de Informa\u00e7\u00f5es sobre Nascidos Vivos (Sinasc)\u2014 foram realizados com cirurgia cesariana<\/a>. Na rede privada de S\u00e3o Paulo, cidade mais rica do pa\u00eds, oito de cada dez paulistanos chegam ao mundo atrav\u00e9s da cesariana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Brasil \u00e9 o pa\u00eds do mundo que mais usa o procedimento e por isso figura na vanguarda de um p\u00e9ssimo fen\u00f4meno global.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O uso da ces\u00e1rea vem se disseminando rapidamente no mundo (duplicaram no s\u00e9culo 21), e a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) pede aos pa\u00edses que se esforcem para que seus sistemas de sa\u00fade fa\u00e7am mais partos normais, uma vez que, segundo a literatura m\u00e9dica, n\u00e3o mais de 15% dos nascimentos efetivamente requerem essa interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, um em cada tr\u00eas nascimentos no mundo ainda \u00e9 feito pelas parteiras, de acordo com o Fundo de Popula\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os pa\u00edses que conjugaram melhor tradi\u00e7\u00e3o e modernidade apresentam melhores resultados. Na Inglaterra,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2014\/12\/19\/internacional\/1419018235_801849.html\">um quarto dos partos de baixo risco \u00e9 feito em casa e supervisionado pelo sistema p\u00fablico de sa\u00fade<\/a>. A Holanda tem uma pol\u00edtica que dispensa anestesia e se apoia nas parteiras em vez de m\u00e9dicos. Contabiliza 65% dos partos como domiciliares e um \u00edndice de ces\u00e1reas abaixo dos 15%.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Brasil, as parteiras, mesmo quando o sistema se esfor\u00e7a para inclu\u00ed-las, s\u00e3o desconsideradas pelas equipes de sa\u00fade. Em sua tese de mestrado pela Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz-AM),\u00a0<em>O cuidado oferecido por parteiras tradicionais<\/em>, Ticiane Melo de Souza analisou estudos que tratavam dessa rela\u00e7\u00e3o e encontrou profissionais que tendem a discriminar essas mulheres e os seus conhecimentos sobre o antes, durante e depois do parto porque rejeitam sua vis\u00e3o de mundo.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">De gera\u00e7\u00e3o para gera\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<section id=\"sumario_4|foto\" class=\"sumario_foto izquierda\"><a name=\"sumario_4\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w360\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2019\/07\/06\/politica\/1562415606_609260_1562446474_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2019\/07\/06\/politica\/1562415606_609260_1562446474_sumario_normal_recorte1.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2019\/07\/06\/politica\/1562415606_609260_1562446474_sumario_normal.jpg 360w\" alt=\"As parteiras ticunas, da esquerda para a direita: Francisca, Arminda e Lourdes\" width=\"360\" height=\"288\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">As parteiras ticunas, da esquerda para a direita: Francisca, Arminda e Lourdes<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">As parteiras da Umaria\u00e7u aprenderam o of\u00edcio sem manual. Arminda Gomes diz que a pr\u00e1tica vem de gera\u00e7\u00f5es na fam\u00edlia e que come\u00e7ou ajudando as gr\u00e1vidas em Cuchillo Cocha, na margem peruana do rio Amazonas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estreou no of\u00edcio quando deu \u00e0 luz seu primeiro filho. O marido e os irm\u00e3os tinham ido pescar. \u00danica familiar presente na aldeia naquele dia, a sogra a abandonou. Tinha 16 anos e estava sozinha. \u201cMe apoiei, em p\u00e9, na rede, n\u00e3o sabia o que fazer e nem como fazer. Me senti muito sozinha. \u00c9 um rito de passagem para a mulher, por isso a gente [as parteiras] tem que estar com ela para guiar\u201d, afirma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 Nazar\u00e9 Gralindo credita a uma tia os ensinamentos recebidos. Teve 11 filhos, todos em casa. \u201cSempre com as comadres [parteiras] me ajudando. No hospital tratam mal, puxam a crian\u00e7a. Usam s\u00f3 a for\u00e7a do m\u00e9dico e deixam a mulher em segundo plano&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ticuna P\u00e1scoa Farias participou do primeiro parto aos 13 anos, levada pela m\u00e3e. \u201cDemora at\u00e9 se acostumar, h\u00e1 muito sangue, choro. Homem em geral n\u00e3o aguenta acompanhar tudo. Tem que ter paci\u00eancia e carinho. Um parto demora sete, nove, onze horas\u201d, diz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As parteiras ticunas em geral articulam pouco o portugu\u00eas, vivem em casas modestas e passam o tempo acompanhando gr\u00e1vidas, que \u00e0s vezes lhes d\u00e3o comida como forma de agradecimento. Para o governo, est\u00e3o oficialmente \u201cdesempregadas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os la\u00e7os de parentesco as aproximaram desse mundo, mas o diploma foi dado pela comunidade, que as procura quando h\u00e1 algum problema. Algumas falam em \u201cdom\u201d para ser parteira. Todas falam em tradi\u00e7\u00e3o. O certo \u00e9 que elas atuam em uma das profiss\u00f5es mais antigas da humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lourdes Firmino, que foi despedir-se da companheira Raimunda, \u00e9 a l\u00edder das parteiras do Umaria\u00e7u e as representa em encontros regionais sobre o tema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">M\u00e3e de sete ticunas, ela nasceu em uma oca no povoado de Santa Rosa, no lado peruano da fronteira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando tinha seis meses, sua m\u00e3e, Margarita Carneiro, suicidou-se tomando estricnina. O pai, Humberto Firmino, era alco\u00f3latra e batia na m\u00e3e, que se destacava pela beleza. Em dias de f\u00faria, a proibia de sair de casa temendo ser tra\u00eddo. Depois do suic\u00eddio da mulher, o pai de Lourdes conheceu outra ind\u00edgena, do rio Javari (um bra\u00e7o do rio Amazonas), e se mudou para l\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cria\u00e7\u00e3o de Lourdes ficou a cargo da av\u00f3 materna. \u201cEla tamb\u00e9m cuidou dos filhos das minhas tias e duas crian\u00e7as \u00f3rf\u00e3s. Era aceitou e criou todo mundo. Acabei puxando a ela\u201d, diz a ind\u00edgena, que se perde ao datar os acontecimentos da sua vida, mas declama com facilidade o nome das \u00e1rvores e folhas que encontra pelo caminho na aldeia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fam\u00edlia vivia naquela \u00e9poca como os antepassados: sem roupas de algod\u00e3o para vestir ou panelas de metal para cozinhar ou casa de madeira para morar. Subsistiam do ro\u00e7ado e do que conseguiam pescar nos igarap\u00e9s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lourdes, de cabelos negros ondulados, mais alta que o marido e de mand\u00edbula sobressalente, destaca-se das outras parteiras ticunas, mi\u00fadas e de cabelos lisos. Seus tra\u00e7os traem a afirma\u00e7\u00e3o de que ela seria dessa etnia, apesar de desconversar sobre o tema. Nem a tia revela qual a sua etnia original.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando Lourdes tinha 13 anos, sua av\u00f3 procurou um marido ticuna para ela. Conversou com uma conhecida, que indicou o neto como par compat\u00edvel. Chamava-se Jo\u00e3o Coelho Ara\u00fajo, tinha 17 anos e viria a ser o homem com quem at\u00e9 hoje ela divide a vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nem Lourdes nem Jo\u00e3o sabiam do arranjo at\u00e9 serem apresentados um para o outro, em 1980. \u201cPrecisava de algu\u00e9m para me proteger, ensinar a criar um lar, me sustentar. Minha av\u00f3 j\u00e1 tinha feito o trabalho dela, agora era com ele\u201d, diz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jo\u00e3o narra que havia ido pescar no dia em que a conheceu e que, quando regressou, as duas fam\u00edlias estavam na sala de sua casa: explicaram-lhe que eles, os mais velhos, tinham feito um acordo e que a decis\u00e3o estava tomada. \u201cEu rejeitava a ideia, porque era uma estranha. Mas antes a tradi\u00e7\u00e3o era assim: a m\u00e3e falou, tem que obedecer. No come\u00e7o ela s\u00f3 chorava e me xingava. Parece hist\u00f3ria de novela\u201d, conta rindo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De um dia para outro Lourdes passou a morar em outro pa\u00eds, com outro idioma e a ter marido e sogros. \u201cEla s\u00f3 sabia espanhol, demorou um ano at\u00e9 come\u00e7ar a falar com a gente\u201d, lembra Jo\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rec\u00e9m sa\u00edda da inf\u00e2ncia, Lourdes foi introduzida ao mundo dos nascimentos como observadora, por uma tia av\u00f3 parteira, para ir aprendendo. Quando tinha 19 anos, j\u00e1 mulher de Jo\u00e3o e vivendo em Umaria\u00e7u, uma cunhada entrou em trabalho de parto e, como que n\u00e3o havia outras parteiras mais experientes dispon\u00edveis, precisou intervir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda que as mulheres mais velhas da sua vida lhe houvessem ensinado t\u00e9cnicas, Lourdes lembra que naquele dia atuou comandada sobretudo pelo instinto. \u201cA cabe\u00e7a do beb\u00ea tinha sa\u00eddo, foi mais rodar para puxar o ombro. Na hora n\u00e3o sabia, mas depois fui percebendo que voc\u00ea poder estar ali ajudando em um momento de vida ou morte. Poder n\u00e3o deixar as outras sozinhas \u00e9 o que me faz gostar desse trabalho\u201d, diz.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Concep\u00e7\u00f5es de mundo se chocam no hospital<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Umaria\u00e7u hoje \u00e9 uma extens\u00e3o da \u00e1rea urbana da cidade de Tabatinga, que, fundada como posto militar para resguardar o lado brasileiro da fronteira ante o Peru e a Col\u00f4mbia, se emancipou como munic\u00edpio nos anos 1980.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A aldeia experimenta na atualidade o choque entre tradi\u00e7\u00e3o e modernidade como em talvez nenhum outro lugar da Amaz\u00f4nia. Homologada como terra ind\u00edgena em 1998, a \u00e1rea passa por intensa urbaniza\u00e7\u00e3o a reboque das transforma\u00e7\u00f5es de Tabatinga, que duplicou de popula\u00e7\u00e3o neste s\u00e9culo e agora \u00e9 lar de 62 mil pessoas, segundo o IBGE.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O aeroporto marca o fim da cidade e o come\u00e7o da aldeia, que, por ter se transformado em for\u00e7a eleitoral no munic\u00edpio, ganhou ruas esburacadas com algo de cimento, eletricidade, casas de madeira e alvenaria. Com os benef\u00edcios sociais introduzidos pelos governos do PT nos anos 2000, chegaram a televis\u00e3o de tela plana por sat\u00e9lite, os mercadinhos e os motores para as canoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No final do ano passado, a prefeitura asfaltou a estrada que liga a comunidade \u00e0 avenida da Amizade, a principal de Tabatinga. Isso possibilitou a entrada do transporte p\u00fablico \u2014esqueletos do que um dia foram Kombis e que andam na base da \u201cgambiarra\u201d\u2014 e assim a \u00e1rea pode ser considerada um bairro perif\u00e9rico de uma cidade perif\u00e9rica em um estado perif\u00e9rico do Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquele mesmo dia em que passamos pelo Hospital Militar, Lourdes foi \u00e0 maternidade da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Tabatinga visitar uma gestante ticuna que deu \u00e0 luz. Aproveitou para conhecer o novo coordenador do lugar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O enfermeiro Sanderson Lima foi enviado de Manaus a Tabatinga para assumir a UPA no final do ano passado. Sua miss\u00e3o \u00e9 mudar a imagem negativa do lugar ap\u00f3s duas investiga\u00e7\u00f5es do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal por desvios de verbas p\u00fablicas nos anos anteriores. Quatro de cada dez partos no pronto-socorro s\u00e3o de ind\u00edgenas, segundo estimativa dele. Mas as mulheres do Umaria\u00e7u t\u00eam receio de como ser\u00e3o tratadas pela equipe m\u00e9dica \u2014sobretudo porque acreditam que ser\u00e3o submetidas a uma cesariana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA mulher vem aqui, muitas vezes nunca foi para uma cidade, fala pouco o portugu\u00eas, fica dois dias em uma sala toda branca, fechada. \u00c9 como no filme do Capit\u00e3o Am\u00e9rica, quando ele acorda pensando estar na \u00e9poca da Segunda Guerra Mundial, abre a porta e v\u00ea a Nova York atual. Deve ser assim que elas se sentem quando abrem a porta da maternidade\u201d, descreve.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para o coordenador Sanderson, a dificuldade de comunica\u00e7\u00e3o e a vis\u00e3o dos ind\u00edgenas sobre a sa\u00fade e o parto s\u00e3o inconcili\u00e1veis com o servi\u00e7o do posto. Ele advoga que deveriam ser constru\u00eddos centros cir\u00fargicos dentro das aldeias: \u201cSeria melhor para todos\u201d, diz. \u201cOs \u00f3rg\u00e3os ind\u00edgenas [do governo federal] jogam para a gente uma responsabilidade que \u00e9 deles.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A maternidade da UPA recebe pacientes de aldeias a cinco, seis horas de barco, gestantes de Peru e Col\u00f4mbia, al\u00e9m das tabatinguenses. O obstetra Adolfo Ara\u00fajo diz que a maioria das gestantes s\u00e3o adolescentes pobres e que as n\u00e3o ind\u00edgenas preferem a ces\u00e1rea, pensando que v\u00e3o sofrer menos. Enquanto um parto normal pode durar 12 horas, Adolfo realiza uma ces\u00e1rea em 30 minutos. Naquele plant\u00e3o \u2014que durou duas semanas\u2014 fez 32 procedimentos cir\u00fargicos. Tr\u00eas beb\u00eas morreram.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Para as ticunas, parir \u00e9 um ato comunit\u00e1rio<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo quando sabem que o parto ser\u00e1 complicado, as ticunas preferem confiar nas ind\u00edgenas mais velhas. Cada vez que a bolsa de uma gr\u00e1vida estoura, um parente vai at\u00e9 a casa de uma parteira para que ela guie o nascimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dependendo do estado da m\u00e3e e do beb\u00ea, outras v\u00e3o sendo acionadas, muitas vezes em ordem de idade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dona Francisca Tom\u00e9, que se tornou a parteira mais antiga da comunidade com a morte de Raimunda, aprendeu o of\u00edcio muito antes de saber o que era um hospital. Nascida em um bra\u00e7o do lado brasileiro do rio Amazonas, foi uma das primeiras ind\u00edgenas a ocupar, no come\u00e7o dos anos 1960, o territ\u00f3rio que viria a se chamar Umaria\u00e7u. Casou-se aos 15 anos e teve 12 filhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No primeiro parto que assistiu, a gestante e o beb\u00ea quase morreram. Ela ainda estava entrando na adolesc\u00eancia, mas conservou essa imagem para sempre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se lhe perguntam o que deve ser feito para que o nen\u00ea fique em posi\u00e7\u00e3o para nascer ou como agir quando o cord\u00e3o umbilical enrola no pesco\u00e7o, Francisca, arranhando o portugu\u00eas, diz: \u201cVai sentindo na m\u00e3o como est\u00e1 o beb\u00ea dentro da barriga, ajeitando ele com massagens, vendo onde est\u00e1 o cord\u00e3o. \u00c9 assim que faz\u201d, afirma. Cada situa\u00e7\u00e3o \u00e9 avaliada no momento, e a resposta vem de viv\u00eancias acumuladas em mais de cinco d\u00e9cadas no of\u00edcio. \u201cMeu pensamento \u00e9 s\u00f3 salvar gente. Sempre assim\u201d, diz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na vis\u00e3o pr\u00e1tica dessas senhoras, o que \u00e9 indispens\u00e1vel para que as coisas corram bem s\u00e3o mais qualidades humanas como aten\u00e7\u00e3o e paci\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pode ser por isso que Raimunda \u00e9 segura, mesmo quando a morte aparece. \u201cEu fico triste s\u00f3, porque tento fazer tudo o que posso. \u00c0s vezes voc\u00ea n\u00e3o sabe o porqu\u00ea. Ningu\u00e9m sabe o que acontece quando a gente morre. N\u00e3o \u00e9 bom nem ruim\u201d, reflete, aos seus 70 anos, tocando o crucifixo de madeira que leva no peito.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Novas botas e tesouras<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cDona Lourdes, chegaram botas e tesouras para voc\u00eas. Vamos entreg\u00e1-las no pr\u00f3ximo m\u00eas, em uma cerim\u00f4nia, t\u00e1 bom?\u201d, diz uma enfermeira do DSEI de Umaria\u00e7u. Fazia duas semanas do vel\u00f3rio, e Lourdes e Francisca estavam no posto da aldeia para apresentar a filha de Raimunda como substituta da falecida no cadastro na semana seguinte ao vel\u00f3rio. A grande not\u00edcia, no entanto, foi o cal\u00e7ado novo, j\u00e1 que as parteiras t\u00eam que andar quil\u00f4metros no escuro e na chuva para chegar \u00e0s casas das parturientes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O problema, diz Lourdes, n\u00e3o \u00e9 andar tanto, e sim os resfriados e as dores nos p\u00e9s resultantes dos atendimentos e partos. Mas, quando o marido, Jo\u00e3o, a pressiona para largar o of\u00edcio de parteira, com o argumento de que n\u00e3o gera renda para a casa, ela responde que ningu\u00e9m deve perder pais ou filhos nessa vida, e que a mulher precisa de apoio na situa\u00e7\u00e3o-limite que \u00e9 dar \u00e0 luz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Lourdes, a cesariana rompe com a ideia de que o nascimento, um momento radical, tem a ver com paci\u00eancia e com o contato com nossa animalidade. \u00c9 isso o que ela recobra com seu trabalho. \u201cA mulher fica deitada esperando algu\u00e9m dizer o que e como tem que ser feito. O homem, que acompanha, muitas vezes n\u00e3o consegue nem assistir ao parto. O m\u00e9dico quer ir embora porque tem mais trabalho para fazer&#8221;.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">&#8220;A gente nasce \u00e9 pela for\u00e7a da m\u00e3e&#8221;<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parteira, no latim, era a\u00a0<em>cum matre<\/em>, a m\u00e3e que acompanha o transe da maternidade. No franc\u00eas, \u00e9 a\u00a0<em>sage-femme<\/em>, e no alem\u00e3o, a\u00a0<em>Wisefrau<\/em>, as mulheres s\u00e1bias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em ticuna, \u00e9 a\u00a0<em>iraak\u00fcteeruu<\/em>, pessoa para dar \u00e0 luz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquela madrugada, a\u00a0<em>iraak\u00fcteeruu<\/em>\u00a0era Vilmara. A m\u00e3e dela correu para a casa de Lourdes, que acordou no meio da madrugada para atend\u00ea-la.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lourdes levou casca de huacapuruna para a dor, que funciona como anest\u00e9sico, erva-de-santa-maria para colocar na cabe\u00e7a do beb\u00ea quando nascesse e folha de bananeira para forrar o ch\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No seu quarto de tijolos nus, sem janela ou m\u00f3veis, Vilmara, sentada no ch\u00e3o, era segurada pela m\u00e3e enquanto tinha contra\u00e7\u00f5es e recebia orienta\u00e7\u00f5es da parteira. O parto correu bem e a crian\u00e7a, ainda sem nome, nasceu saud\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lourdes voltou para casa para descansar. Pouco depois, avisaram da morte da amiga. Antes de dirigir-se ao vel\u00f3rio, retornou para ver Vilmara e dar mais instru\u00e7\u00f5es. A m\u00e3e estreante estava deitada no ch\u00e3o forrado com uma manta rosa e, cercada por um mosquiteiro, tentava dar de mamar, mas o leite n\u00e3o queria sair. O filho chorava e ela o embalava sem muito jeito, o que aumentava o berreiro. A parteira receitou mais um ch\u00e1 e saiu, para velar Raimunda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No caminho, Lourdes confessou ao rep\u00f3rter que estava cansada do of\u00edcio, assim como outras parteiras. Que dona Francisca, a mais velha, havia-lhe confidenciado que deixaria o of\u00edcio at\u00e9 o final do ano. Que ajuda essas mulheres porque elas est\u00e3o sozinhas e que logo a morte a levar\u00e1, assim como fez com Raimunda. \u201cEu estou preparada. Um dia v\u00e3o me procurar e cad\u00ea eu? J\u00e1 n\u00e3o estarei&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parir, n\u00e3o morrer, \u00e9 a prova de dor dessa vida, segundo ela. \u201cS\u00f3 quem pariu \u00e9 que sabe o que \u00e9: m\u00e9dico n\u00e3o sabe, marido n\u00e3o sabe. A gente nasce \u00e9 da for\u00e7a da m\u00e3e&#8221;.<\/p>\n<p class=\"nota_pie\" style=\"text-align: justify;\">Reportagem originalmente\u00a0<a href=\"https:\/\/apublica.org\/2019\/07\/para-as-parteiras-indigenas-da-amazonia-o-parto-natural-e-um-ato-comunitario\/\">publicada no site da\u00a0<strong>Ag\u00eancia P\u00fablica<\/strong><\/a>.<\/p>\n<section id=\"sumario_1|despiece\" class=\"sumario_despiece centro\"><a name=\"sumario_1\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<header class=\"sumario-encabezado\">\n<h4 class=\"sumario-titulo\"><span class=\"sin_enlace\">AS PARTEIRAS VISTAS PELO ESTADO<\/span><\/h4>\n<\/header>\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Um estudo da Funda\u00e7\u00e3o Perseu Abramo constatou que em um em cada quatro partos no Brasil ocorre algum tipo de viol\u00eancia obst\u00e9trica, seja f\u00edsica ou verbal. O uso da ocitocina, o horm\u00f4nio do amor, a escolha de colocar a mulher deitada na cama, sem poder caminhar, o corte chamado episiotomia e o uso do ultrassom s\u00e3o t\u00e9cnicas modernas que aumentaram o poder do obstetra sobre quando e como o trabalho ser\u00e1 feito, da resposta da m\u00e3e e do beb\u00ea, os protagonistas da situa\u00e7\u00e3o. \u00c9 da\u00ed que vem o termo \u201cviol\u00eancia obst\u00e9trica\u201d \u2014um termo que chegou a ser banido pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade em maio deste ano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O crescimento paulatino de cesarianas no pa\u00eds a partir dos anos 1970 levou o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade a estimular o parto humanizado no SUS e, na esteira dessa tentativa, redescobriu-se a fun\u00e7\u00e3o da parteira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o governo federal ignora quantas delas existem no pa\u00eds e tamb\u00e9m quantos cidad\u00e3os vieram ao mundo por suas m\u00e3os. Se a gestante pare fora do hospital, o Sistema de Informa\u00e7\u00f5es de Nascidos Vivos registra o parto como domiciliar, sem discrimina\u00e7\u00e3o dos respons\u00e1veis. O m\u00e9rito fica para a equipe de sa\u00fade respons\u00e1vel pela \u00e1rea, mesmo que um parto normal, que a parteira hoje faz de gra\u00e7a, custe R$ 443 para o SUS quando feito dentro do sistema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A figura da parteira existe em todo o pa\u00eds, mas \u00e9 nas regi\u00f5es empobrecidas que elas se organizam mais em associa\u00e7\u00f5es, como em Pernambuco, no Maranh\u00e3o e, mais recentemente, no Amazonas, lar de um em cada cinco ind\u00edgenas brasileiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A secretaria estadual de Sa\u00fade amazonense contratou h\u00e1 dois anos a Fiocruz para fazer o cadastro dessas mulheres e fomentar oficinas de capacita\u00e7\u00e3o, chamadas de encontros de troca de saberes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pesquisador ga\u00facho Julio Schweickardt trabalha para decifrar como tirar o of\u00edcio do limbo burocr\u00e1tico, uma vez que as parteiras est\u00e3o sozinhas ante a legisla\u00e7\u00e3o. Como s\u00e3o analfabetas, n\u00e3o fabricam dados; como n\u00e3o h\u00e1 dados, o Estado n\u00e3o dimensiona sua import\u00e2ncia; como n\u00e3o h\u00e1 forma de quantificar sua import\u00e2ncia, n\u00e3o h\u00e1 argumentos para coloc\u00e1-las como agentes de sa\u00fade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Schweickardt afirma que o cadastro est\u00e1 trazendo uma \u201cvaloriza\u00e7\u00e3o moral\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA situa\u00e7\u00e3o hoje est\u00e1 indefinida. H\u00e1 a\u00e7\u00f5es locais de valoriza\u00e7\u00e3o, mas a n\u00edvel nacional o tema est\u00e1 engessado. Reconhec\u00ea-las como agentes de sa\u00fade comunit\u00e1rio requer mudar a legisla\u00e7\u00e3o nacional b\u00e1sica e remuner\u00e1-las. E h\u00e1 muita resist\u00eancia a isso\u201d, diz ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que existe atualmente s\u00e3o estimativas da realidade. O Minist\u00e9rio da Sa\u00fade acredita que devam existir cerca de 60 mil parteiras no Brasil, sendo que 40 mil delas est\u00e3o na regi\u00e3o Norte. \u201cO saber tem que receber o selo de uma profiss\u00e3o para ser incorporado pelo Estado. At\u00e9 para agente de sa\u00fade o requisito m\u00ednimo \u00e9 o ensino m\u00e9dio. Transformar-se em parteira ocorre fora da sala de aula. \u00c9 uma fun\u00e7\u00e3o reconhecida pela comunidade que em geral tem a ideia de dom por tr\u00e1s. O n\u00f3 est\u00e1 a\u00ed\u201d, diz Schweickardt.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para Lourdes, a cesariana rompe com a ideia de que o nascimento, um momento radical, tem a ver com paci\u00eancia e com o contato com nossa animalidade. \u00c9 isso o que ela recobra com seu trabalho. \u201cA mulher fica deitada esperando algu\u00e9m d<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":288677,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1175,6],"tags":[],"class_list":["post-288676","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-educacao","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/zefinha.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/288676","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=288676"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/288676\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/288677"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=288676"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=288676"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=288676"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}