{"id":288717,"date":"2019-07-09T12:19:00","date_gmt":"2019-07-09T15:19:00","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=288717"},"modified":"2019-07-10T09:22:28","modified_gmt":"2019-07-10T12:22:28","slug":"filha-busca-justica-historica-para-pai-que-matou-euclides-da-cunha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/filha-busca-justica-historica-para-pai-que-matou-euclides-da-cunha\/","title":{"rendered":"Filha busca Justi\u00e7a hist\u00f3rica para pai, que matou Euclides da Cunha"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"byline\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"byline__name\">J\u00falia Dias Carneiro<\/span><\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/151B2\/production\/_107805468_8d5430f6-3d9d-4b30-a490-8aa113b3b65e.jpg\" alt=\"Mulher idosa vendo \u00e1lbum de fotos\" width=\"1243\" height=\"927\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span>&#8216;O que eu mais quero, todo o meu empenho, \u00e9 tirar essa palavra (assassino) de sua biografia, que \u00e9 t\u00e3o pesada, t\u00e3o feia&#8217;, diz Dirce<\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\" style=\"text-align: justify;\">Em 1998, depois de lan\u00e7ar um livro sobre seu pai, a escritora Dirce de Assis Cavalcanti deu de cara com uma frase pichada em sua porta ao chegar em casa: &#8220;Filha de assassino&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dirce ouviu a frase pela primeira vez quando tinha 11 anos, dita por uma colega no col\u00e9gio interno, e depois muitas outras vezes ao longo da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Aquela foi a \u00faltima vez que recebi essa pecha&#8221;, suspira ela aos 87 anos, em conversa com a BBC News Brasil, em seu apartamento no Flamengo, na zona sul do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pecha de assassino acompanhou toda a vida de seu pai, Dilermando de Assis &#8211; que entrou para a hist\u00f3ria como o homem que matou o escritor Euclides da Cunha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O c\u00e9lebre autor de\u00a0<i>Os Sert\u00f5es<\/i> \u00e9 o homenageado deste ano na 17\u00aa Festa Liter\u00e1ria Internacional de Paraty (Flip), de 10 a 14 de julho. A justa homenagem a um dos expoentes da literatura brasileira no evento \u00e9, para Dirce, motivo de &#8220;preocupa\u00e7\u00e3o, afli\u00e7\u00e3o e agonia&#8221;.<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption body-narrow-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/304\/cpsprodpb\/1D1A\/production\/_107805470_dillermando-3.jpg\" alt=\"Dilermando de Assis\" width=\"400\" height=\"770\" data-highest-encountered-width=\"304\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-portrait has-caption body-narrow-width\" style=\"text-align: justify;\">&#8216;Sei que v\u00e3o falar muito do papai&#8217; diz filha de Dilermando de Assis sobre a Flip deste ano, que homenageia Euclides da Cunha<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Porque sei que v\u00e3o falar muito no papai, e falar mal, certamente, porque muita gente n\u00e3o conhece a hist\u00f3ria como foi&#8221;, acredita ela. &#8220;Toda vez que se toca no Euclides da Cunha, o assassino dele vem \u00e0 tona.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dilermando foi amante de Ana Em\u00edlia Ribeiro da Cunha, a mulher de Euclides.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O caso come\u00e7ou em 1905, durante uma longa expedi\u00e7\u00e3o do escritor pela Amaz\u00f4nia, chefiando a comiss\u00e3o Mista Brasileiro-Peruana de Reconhecimento do Alto Purus, na fronteira entre os dois pa\u00edses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 m\u00e3e de tr\u00eas filhos de Euclides, Ana, de 33 anos, se apaixonou por Dilermando, um jovem cadete de 17 anos. Viveram quatro anos de romance proibido, e tiveram dois filhos fora do casamento.<\/p>\n<figure class=\"media-with-caption\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"player-with-placeholder\"><img decoding=\"async\" class=\"media-placeholder player-with-placeholder__image narrative-video-placeholder\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/images\/ic\/720x405\/p07gdthw.jpg\" \/><\/div><figcaption class=\"media-with-caption__caption\">Filha quer tirar palavra \u2018assassino\u2019 da biografia do pai, que matou Euclides da Cunha<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 15 de agosto de 1909, o escritor chegou armado \u00e0 casa de Dilermando para vingar sua honra. Travou-se um duelo, e Dilermando levou cinco tiros &#8211; mas era campe\u00e3o de tiro, revidou, e matou Euclides da Cunha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dilermando foi absolvido por leg\u00edtima defesa, mas foi condenado pela imprensa da \u00e9poca e pela opini\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O caso se desdobrou em novas trag\u00e9dias, com as mortes posteriores de Euclides da Cunha Filho e do irm\u00e3o de Dilermando, Dinorah de Assis.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Desagravo<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, Dirce &#8211; que \u00e9 a \u00fanica filha do segundo casamento do pai &#8211; tem lutado para tirar do nome do pai a alcunha de &#8220;assassino&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O que eu mais quero, todo o meu empenho, \u00e9 tirar essa palavra de sua biografia, que \u00e9 t\u00e3o pesada, t\u00e3o feia&#8221;, diz Dirce.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ele n\u00e3o \u00e9 o assassino. Ele matou por leg\u00edtima defesa. \u00c9 s\u00f3 isso que eu gostaria de deixar definido.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dirce \u00e9 escritora, poeta e artista pl\u00e1stica. A sala de seu apartamento \u00e9 povoada por suas pinturas e esculturas, al\u00e9m de um portarretrato do pai, ainda mo\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ele usava barba para parecer mais velho com a Ana, para n\u00e3o haver muita diferen\u00e7a de idade entre eles. Houve um amor muito grande da parte dos dois, para enfrentar inclusive tudo que eles enfrentaram vida afora, que n\u00e3o foi pouca brincadeira.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por ocasi\u00e3o da Flip &#8211; e das homenagens a Euclides -, seu livro\u00a0<i>O Pai<\/i>\u00a0ter\u00e1 uma nova edi\u00e7\u00e3o lan\u00e7ada nesta semana (Ateli\u00ea Editorial).<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/173D5\/production\/_107798159_754f65a9-4dcd-466b-a01e-d5ed04a3c2fa.jpg\" alt=\"Dirce de Assis Cavalcanti ao lado da m\u00e3e, Maria Antonieta Ara\u00fajo Jorge\" width=\"691\" height=\"924\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Dirce de Assis Cavalcanti ao lado da m\u00e3e, Maria Antonieta Ara\u00fajo Jorge, a Marieta, com quem Dilermando se uniu ao fim da rela\u00e7\u00e3o com Ana. Dirce \u00e9 a \u00fanica filha da segunda rela\u00e7\u00e3o de Dilermando<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Eu vinha escrevendo esse livro a vida inteira, aos pouquinhos&#8221;, afirma. &#8220;Eu sempre achei que eu tinha que defender o papai de alguma maneira.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na narrativa autobiogr\u00e1fica, Dirce conta a hist\u00f3ria de Dilermando a partir de seus olhos de filha, desvelando a trag\u00e9dia assim como ela a foi descobrindo, aos poucos, na inf\u00e2ncia, em uma casa cercada de segredos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na primeira inf\u00e2ncia, suas lembran\u00e7as s\u00e3o de um pai extremamente carinhoso, que a ensinou a escrever em seu colo aos 4 anos, e que a levava para passear, para museus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aos 11 anos, a frase que ouviu na escola imp\u00f4s uma ruptura ao universo que conhecia at\u00e9 ent\u00e3o &#8211; revelando o segredo que seus pais haviam conseguido ocultar:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ela n\u00e3o presta. O pai dela matou um homem&#8221;, disse sua colega. A frase lhe pareceu t\u00e3o ousada, t\u00e3o despropositada, que s\u00f3 podia ser verdade.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">&#8216;Acontecimento terr\u00edvel da vida brasileira&#8217;<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Euclides da Cunha foi aclamado como escritor ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o de\u00a0<i>Os Sert\u00f5es<\/i>, em 1902, sobre a Guerra de Canudos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fora enviado como jornalista pelo O Estado de S. Paulo (\u00e0 \u00e9poca, A prov\u00edncia de S. Paulo) para acompanhar o primeiro conflito armado da rec\u00e9m-proclamada Rep\u00fablica, no arraial liderado pelo beato Ant\u00f4nio Conselheiro, no interior da Bahia. No livro, Euclides narrou o confronto entre os soldados e os sertanejos monarquistas, que acabaram dizimados pelas tropas republicanas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A obra lhe rendeu a consagra\u00e7\u00e3o no c\u00edrculo intelectual brasileiro, ingressando na Academia Brasileira de Letras e no Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico Brasileiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No pref\u00e1cio de\u00a0<i>O Pai<\/i>, o cr\u00edtico liter\u00e1rio Antonio Candido descreve a morte do escritor como &#8220;um dos acontecimentos mais terr\u00edveis da vida brasileira&#8221; no s\u00e9culo passado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sua morte completa 110 anos em agosto e j\u00e1 foi tema de livros, pe\u00e7as, uma \u00f3pera &#8211;\u00a0<i>Piedade<\/i>, composta por Jo\u00e3o Guilherme Ripper &#8211; e da miniss\u00e9rie\u00a0<i>Desejo<\/i>, da Rede Globo, que em 1990 estrelou Vera Fischer no papel de Ana, e Guilherme Fontes vivendo o jovem Dilermando.<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption body-narrow-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/304\/cpsprodpb\/1299D\/production\/_107798167_c4a43d22-f9bd-44f1-a566-6165fc0c8de9.jpg\" alt=\"revista &quot;O Malho&quot; de 1909 com a cobertura da morte de Euclides\" width=\"440\" height=\"603\" data-highest-encountered-width=\"304\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-portrait has-caption body-narrow-width\" style=\"text-align: justify;\">Revista &#8220;O Malho&#8221; de 1909 com a cobertura da morte de Euclides<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">A trag\u00e9dia da Piedade<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O epis\u00f3dio ficou conhecido como &#8220;a trag\u00e9dia de Piedade&#8221;, em refer\u00eancia ao bairro no sub\u00farbio do Rio onde Dilermando vivia com seu irm\u00e3o, Dinorah de Assis &#8211; e onde Euclides apareceu de surpresa em um domingo. Era 15 de agosto de 1909.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ana n\u00e3o aparecia em casa desde sexta-feira. Euclides sabia do romance, e o casamento j\u00e1 passara por crises ferozes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo os autos do processo, reunidos no livro\u00a0<i>Cr\u00f4nica de uma trag\u00e9dia inesquec\u00edvel<\/i>, organizado por Walnice Nogueira Galv\u00e3o, Dinorah abriu a porta da casa, e Euclides entrou com uma m\u00e3o no bolso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na sala, sacou o rev\u00f3lver que pegara emprestado de um parente, dizendo que precisava matar &#8220;um cachorro louco&#8221; que rondava sua casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ana se escondera na ed\u00edcula da casa com seu filho ca\u00e7ula Luiz, o Lulu &#8211; o segundo filho que teve com Dilermando, louro como o pai. Euclides se referia \u00e0 crian\u00e7a como &#8220;uma espiga de milho em meio a um cafezal&#8221;, no meio da fam\u00edlia morena.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do quarto, segundo relatou nos autos, Ana ouviu Euclides entrar na casa gritando &#8220;corja de bandidos&#8221; e &#8220;vim para matar ou morrer!&#8221;. Em seguida, ouviu os tiros.<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/3F3D\/production\/_107798161_7255df4d-cf9f-4518-8066-6ec3fa3b5a01.jpg\" alt=\"A morte de Euclides da Cunha Filho retratada na revista &quot;O Malho&quot;, em julho de 1916\" width=\"617\" height=\"873\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>A morte de Euclides da Cunha Filho retratada na revista &#8220;O Malho&#8221;, em julho de 1916<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">No livro\u00a0<i>Matar para n\u00e3o morrer: A morte de Euclides da Cunha e a noite sem fim de Dilermando de Assis<\/i>\u00a0(Objetiva, 2009), a historiadora Mary Del Priore resume os eventos que se sucederam:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Euclides foi atr\u00e1s de Dilermando no quarto, onde havia se fechado para vestir o d\u00f3lm\u00e3 militar e receber o escritor composto. Entrou atirando, e atingiu Dilermando na virilha e no peito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seu irm\u00e3o, Dinorah, tentou conter Euclides, mas levou dois tiros do escritor. Quando Dinorah se virou para ir atr\u00e1s de uma arma, Euclides o atingiu na espinha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Euclides voltou-se novamente para Dilermando, que nesse meio tempo alcan\u00e7ara sua Smith and Wesson. No duelo que se seguiu, Euclides deu mais tr\u00eas tiros em Dilermando, mas o jovem aspirante revidou com tr\u00eas tiros no escritor: no ombro, no bra\u00e7o e a bala fatal &#8211; do lado direito do peito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Uma hemorragia no pulm\u00e3o fez o resto. Euclides caiu na porta da frente, entre as escadas e o modesto jardim&#8221;, descreve Del Priore.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos autos do processo, Ana relatou &#8220;que depois disso ficou tudo em sil\u00eancio e Dinorah veio abrir-lhe a porta que foi trancada por fora, dizendo: &#8216;sinh&#8217;Aninha, estamos todos mortos, seu marido morreu, assim como Dilermando e eu tamb\u00e9m vou morrer.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dinorah e Dilermando sobreviveram. J\u00e1 Euclides teve o corpo velado na Academia Brasileira de Letras.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">&#8216;Doloroso drama de sangue&#8217;<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Hontem \u00e0 tarde, na cidade molhada de aguaceiros cont\u00ednuos estalou como um raio, na reda\u00e7\u00e3o dos jornaes, uma not\u00edcia atr\u00f3s: Euclydes da Cunha foi assassinado!&#8221;, noticiou o jornal Gazeta de Not\u00edcias no dia seguinte, conforme a grafia da \u00e9poca. E continuou:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Era poss\u00edvel prever tudo, menos que Euclydes da Cunha, homem de costumes austeros, de vida regular\u00edssima, sem lutas e sem inimigos, cercado de admira\u00e7\u00e3o ao seu formid\u00e1vel saber e ao seu excepcional talento, fosse assim assassinado.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tom de choque e perda irrepar\u00e1vel reverberou pelos jornais da \u00e9poca, trazendo manchetes como &#8220;O assassinato do ilustre escriptor&#8221; e &#8220;Um doloroso drama de sangue&#8221;.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/16CCD\/production\/_107798339_screenshot_2.png\" alt=\"Dilermando de Assis, \u00e0 esquerda, e o irm\u00e3o, Dinorah de Assis, \u00e0 direita\" width=\"929\" height=\"618\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Dilermando de Assis, \u00e0 esquerda, e o irm\u00e3o, Dinorah de Assis, \u00e0 direita<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com a historiadora Mary Del Priore, para al\u00e9m da revolta com a morte de um dos grandes literatos do Brasil naquela \u00e9poca, somou-se o julgamento &#8211; e a condena\u00e7\u00e3o p\u00fablica &#8211; do pol\u00eamico romance extraconjugal, e com 16 anos de diferen\u00e7a de idade, entre Ana e Dilermando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Quando a imprensa, que estava se multiplicando e tinha um papel important\u00edssimo, se abate sobre esse casal, \u00e9 para arrasar com essa mulher mais velha que se apaixonou por um jovem mais mo\u00e7o, enquanto ele, com sua juventude e ingenuidade, \u00e9 retratado como um aproveitador&#8221;, aponta a historiadora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O que a gente v\u00ea em cena, e n\u00e3o est\u00e1 dito, \u00e9 toda essa problem\u00e1tica da honra masculina, que num pa\u00eds machista n\u00e3o atinge s\u00f3 as mulheres, mas atinge os homens tamb\u00e9m, porque \u00e9 exigido deles um papel ideal&#8221;, diz Del Priore. &#8220;Marido corneado imediatamente tem que reagir e tem que matar. Ent\u00e3o a gente v\u00ea a\u00ed encenado j\u00e1 uma primeira trag\u00e9dia shakespeariana, em que voc\u00ea j\u00e1 tem tr\u00eas v\u00edtimas.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">&#8216;Segundo ato&#8217; da trag\u00e9dia<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois da morte de Euclides, Ana, vi\u00fava, se casou oficialmente com Dilermando, e o casal teve mais cinco filhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sete anos depois, a trag\u00e9dia da Piedade fez mais uma v\u00edtima.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 4 de julho de 1916, Euclides da Cunha Filho, conhecido como Quidinho, decidiu vingar o pai. Aos 21 anos, o aspirante da Marinha foi atr\u00e1s de Dilermando em um cart\u00f3rio, onde o encontrou debru\u00e7ado sobre um processo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atirou em Dilermando pelas costas, dando in\u00edcio &#8220;a um emocionante e verdadeiro duelo&#8221; ao fim do qual &#8220;os dois contendores tombam ensanguentados no ch\u00e3o&#8221;, conforme descreveu o jornal &#8220;A noite&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Euclides Filho acertou quatro tiros em Dilermando, que andava armado, conseguiu alcan\u00e7ar sua arma e revidou, matando Euclides Filho &#8211; seu enteado, um dos tr\u00eas filhos de Ana com Euclides.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de gravemente ferido, Dilermando novamente sobreviveu. E novamente foi condenado pela imprensa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O jornal &#8220;O Paiz&#8221; noticiou: &#8220;Assassino do pai, matou tamb\u00e9m o filho&#8221;, no &#8220;2\u00ba acto de uma trag\u00e9dia emocionante&#8221;, cometido por ningu\u00e9m menos que Dilermando &#8211; &#8220;o nome de criminoso jamais esquecido pelo povo&#8221;.<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/B95A\/production\/_107805474_dillermando-2.jpg\" alt=\"Dilermando de Assis\" width=\"3024\" height=\"4032\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Dilermando sobreviveu a dois atentados a tiros; em 1951, escreveu um livro em que traz sua vers\u00e3o da &#8216;Trag\u00e9dia de Piedade&#8217;<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">O escrut\u00ednio p\u00fablico sobre Ana n\u00e3o foi mais generoso, atribuindo-lhe a pecha de m\u00e3e ad\u00faltera, m\u00e3e culpada, c\u00famplice do padrasto assassino.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">A v\u00edtima de quem &#8216;ningu\u00e9m lembra&#8217;<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Irm\u00e3o mais mo\u00e7o de Dilermando, Dinorah de Assis era aspirante da Marinha e trilhava uma promissora carreira no futebol &#8211; ou &#8220;foot-ball&#8221;, como o esporte rec\u00e9m-importado da Inglaterra era tratado no notici\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a bala que ficou cravada na espinha ap\u00f3s os tiros de Euclides foram lhe tirando os movimentos pouco a pouco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No ano seguinte \u00e0 trag\u00e9dia da Piedade, ainda conseguiu competir pelo Botafogo, e se tornou campe\u00e3o carioca &#8211; no t\u00edtulo de 1910 que deu ao time a alcunha de &#8220;glorioso&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dinorah acabou ficando paral\u00edtico e enfrentou a depress\u00e3o, o alcoolismo e a mendic\u00e2ncia. Ap\u00f3s outras tentativas, conseguiu se suicidar em 1921.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ele (Euclides) praticamente matou meu tio, que n\u00e3o tinha nada com a hist\u00f3ria&#8221;, diz Dirce. &#8220;Ele ficou um trapo humano e se suicidou, se jogou no rio Gua\u00edba e se afogou aos 32 anos. Essa \u00e9 uma historinha que ningu\u00e9m conta.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Segundo casamento<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois da morte de Quidinho, Ana e Dilermando ainda ficaram juntos cerca de dez anos. Separaram-se quando ela tinha 50 anos, e Dilermando se apaixonou por uma mulher mais jovem, Maria Antonieta de Ara\u00fajo Jorge, a Marieta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A uni\u00e3o foi rejeitada pela fam\u00edlia de Marieta, inicialmente mantida em segredo e cercada de vergonha. &#8220;A fam\u00edlia toda era muito dura com ela&#8221;, conta Dirce. &#8220;Ficar com o Dilermando &#8211; imagina!&#8221; Nos primeiros anos morando juntos, a m\u00e3e mal sa\u00eda de casa, e nunca o fazia acompanhada de Dilermando. N\u00e3o queriam que soubessem que estavam juntos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dirce de Assis Cavalcanti \u00e9 a filha \u00fanica desta segunda uni\u00e3o. &#8220;Eles n\u00e3o queriam ter filhos. A minha m\u00e3e n\u00e3o queria. Fez uns sete ou oito abortos. Quando engravidou de novo, o m\u00e9dico n\u00e3o deixou que ela fizesse outro, e eu nasci por isso. Estou aqui por acaso&#8221;, diz. A m\u00e3e vivia chorando, lembra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 menina, ela percebeu que sua casa &#8220;n\u00e3o era como a das outras pessoas&#8221;. Nunca recebiam visitas. O pai se fechava no escrit\u00f3rio para atender a telefonemas. &#8220;Sempre havia aquele segredo, aquele mist\u00e9rio, e ningu\u00e9m me dizia nada.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 ent\u00e3o, Dirce tinha paix\u00e3o pelo pai. Quando ele chegava para busc\u00e1-la no internato, orgulhava-se por ser mais forte e mais alto que os pais das outras meninas.<\/p>\n<figure class=\"media-portrait no-caption body-narrow-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/304\/cpsprodpb\/3835\/production\/_107798341_66ca8e0b-84d3-4f95-9b10-081628d7be28.jpg\" alt=\"revista &quot;O Malho&quot; de 1909 com a cobertura da morte de Euclides\" width=\"378\" height=\"576\" data-highest-encountered-width=\"304\" \/><\/span><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas tudo mudou depois da frase que ouviu aos 11 anos. &#8220;Ela n\u00e3o presta. O pai dela matou um homem&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aos 13 anos, quando Dilermando esqueceu a chave de sua escrivaninha em casa, Dirce destrancou o arm\u00e1rio e descobriu pilhas de pastas com documentos e recortes. &#8220;Os jornais diziam &#8216;o assassino de fulano de tal&#8217;, e a foto do papai&#8221;. S\u00f3 depois foi tempo foi entender quem era o Euclides da Cunha&#8221;, conta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 medida que foi descobrindo o seu segredo, a menina se fechou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A vida inteira eu fui saber de uma maneira tremendamente dolorosa&#8221;, lembra Dirce.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Fui ficando muito desligada do meu pai. N\u00e3o porque ele tivesse feito aquilo, n\u00e3o porque tivesse se defendido, como se defendeu. Mas porque nunca tinha me contado&#8221;, afirma. &#8220;Hoje sinto muita culpa.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marieta e Dilermando s\u00f3 se casaram oficialmente no fim da vida, em 1951, quando ele j\u00e1 parecia \u00e0 beira da morte. Ana, com quem era casado no papel at\u00e9 ent\u00e3o, falecera meses antes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Foi o casamento mais triste que eu j\u00e1 vi&#8221;, diz Dirce, lembrando que, enquanto a m\u00e3e assinou a certid\u00e3o, o pai, acamado, apenas p\u00f4de registrar sua impress\u00e3o digital no documento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dirce conta que Dilermando &#8220;foi sendo promovido a duras penas&#8221; na carreira militar, &#8220;sempre o \u00faltimo de sua turma&#8221;. No fim da vida, conseguiu chegar a general.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1951, o ano de sua morte, Dilermando publicou\u00a0<i>A Trag\u00e9dia da Piedade &#8211; Mentiras e cal\u00fanias da &#8216;Vida dram\u00e1tica de Euclides da Cunha&#8217;<\/i>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro \u00e9 seu manifesto final de autodefesa, analisando as provas periciais das mortes de Euclides pai e Euclides Filho e trazendo a p\u00fablico a sua vers\u00e3o dos fatos &#8211; a come\u00e7ar por seu &#8220;erro dos 17 anos&#8221;, quando se apaixonou por uma mulher casada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A conviv\u00eancia acarretando a intimidade; a falta de experi\u00eancia ou mal\u00edcia permitindo a aproxima\u00e7\u00e3o mais \u00edntima (&#8230;); tudo concorreu para o despertar de novos sentimentos&#8221;, descreveu Dilermando sobre sua aproxima\u00e7\u00e3o de Ana Em\u00edlia Ribeiro da Cunha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;E assim, nessa ebriez incont\u00edvel, imperceptivelmente se consumou o meu crime. Porque \u00e9 s\u00f3 onde vejo a transgress\u00e3o \u00e0 lei: no ter amado, aos 17 anos, uma mulher casada cujo marido n\u00e3o conhecia e se achava ausente, em paragens long\u00ednquas, sem ser lembrado sequer por inanimada fotografia.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/8D5D\/production\/_107798163_b3ba747a-c514-4ad9-b24e-76ce3241b849.jpg\" alt=\"Capa de &quot;O Pais&quot; de 16 de agosto de 1916\" width=\"587\" height=\"900\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\">No dia seguinte \u00e0 morte de Euclides da Cunha, a imprensa da \u00e9poca noticiou &#8216;o doloroso drama de sangue&#8217; e o choque com a perda do c\u00e9lebre escritor. Capa de &#8220;O Paiz&#8221; de 16 de agosto de 1916<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Euclides na Flip<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de o foco da Flip ser sobre a obra liter\u00e1ria de Euclides, o medo de que Dilermando apare\u00e7a nos c\u00edrculos de debate como &#8220;o assassino de Euclides&#8221; tem preocupado Dirce.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O medo de que Dilermando apare\u00e7a nos c\u00edrculos de debate na Flip, em Paraty, como &#8220;o assassino de Euclides&#8221;, tem preocupado Dirce.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Eu gostaria de ir, mas j\u00e1 estou muito velha. E tamb\u00e9m, como vou saber onde estar\u00e3o falando mal dele para ir defend\u00ea-lo?&#8221;, pondera.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Eu realmente me emociono toda vez que falo dessa hist\u00f3ria. Fico muito angustiada&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela acredita, que aos poucos, a compreens\u00e3o sobre a morte de Euclides e a hist\u00f3ria de seu pai estejam mudando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Em determinados c\u00edrculos, as pessoas j\u00e1 n\u00e3o falam no assassino, mas no homem que matou. E a\u00ed vai uma grande diferen\u00e7a.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para a historiadora Mary Del Priore, a hist\u00f3ria da morte do Euclides da Cunha deve ser compreendida sob nova luz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A desconstru\u00e7\u00e3o do Euclides n\u00e3o significa a destrui\u00e7\u00e3o do Euclides, mas uma compreens\u00e3o nova de um ator hist\u00f3rico importante, mas que esteve enredado em um drama terr\u00edvel, cujas hist\u00f3ria tem que ser revista. E nela o Dilermando foi v\u00edtima como foi v\u00edtima o Euclides, como foi v\u00edtima o Dinorah e como foi v\u00edtima o Euclides Filho&#8221;, considera a historiadora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Nos dois casos, o papai foi atacado. E mesmo cheio de balas ele conseguiu reagir&#8221;, diz Dirce. &#8220;S\u00f3 que naquela \u00e9poca, a honra dos maridos era lavada com sangue. E assim foi feito por parte do Euclides da Cunha&#8221;, diz Dirce.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ele sempre dizia que ele preferia que tivesse ele morrido&#8221;, conta Dirce. &#8220;A vida toda ele teve que pagar.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Nos dois casos, o papai foi atacado. E mesmo cheio de balas ele conseguiu reagir&#8221;, diz Dirce. &#8220;S\u00f3 que naquela \u00e9poca, a honra dos maridos era lavada com sangue. 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