{"id":288823,"date":"2019-07-10T14:55:55","date_gmt":"2019-07-10T17:55:55","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=288823"},"modified":"2019-07-10T14:55:55","modified_gmt":"2019-07-10T17:55:55","slug":"opiniao-professora-que-passou-a-infancia-trabalhando-tome-vergonha-bolsonaro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/opiniao-professora-que-passou-a-infancia-trabalhando-tome-vergonha-bolsonaro\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o &#8211; Professora que passou a inf\u00e2ncia trabalhando: Tome vergonha, Bolsonaro"},"content":{"rendered":"<div class=\"eltdf-grid\">\n<div class=\"eltdf-title eltdf-breadcrumbs-type eltdf-content-left-alignment\" data-height=\"0\">\n<div class=\"eltdf-title-holder\">\n<div class=\"eltdf-container clearfix\">\n<div class=\"eltdf-container-inner\">\n<div class=\"eltdf-title-subtitle-holder\">\n<div class=\"eltdf-title-subtitle-holder-inner\">\n<div class=\"eltdf-title-cat\">\n<div class=\"eltdf-post-info-category\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"eltdf-title-post-info\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"eltdf-pt-info-section clearfix\">\n<div class=\"eltdf-title-post-author-info single-custom\">\n<div class=\"eltdf-title-post-author\">\n<div class=\"eltdf-post-info-author\"><a class=\"author-link\" href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/author\/henrybugalho\/\">HENRY BUGALHO<\/a><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"eltdf-post-info-date entry-date updated\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"eltdf-container\">\n<div class=\"eltdf-container-inner\">\n<div class=\"eltdf-post-content-featured\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"eltdf-post-image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"attachment-readanddigest_post_feature_image size-readanddigest_post_feature_image wp-post-image\" src=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/professora-dirce-1200x720.jpg\" sizes=\"auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" srcset=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/professora-dirce.jpg 1200w, https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/professora-dirce-300x180.jpg 300w, https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/professora-dirce-768x461.jpg 768w, https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/professora-dirce-1024x614.jpg 1024w\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"720\" \/><\/p>\n<div id=\"D_interna_top\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/14147850\/D_interna_top_0__container__\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"eltdf-two-columns-66-33  eltdf-content-has-sidebar clearfix\">\n<div class=\"eltdf-column1 eltdf-content-left-from-sidebar\">\n<div class=\"eltdf-column-inner\">\n<div class=\"eltdf-blog-holder eltdf-blog-single\">\n<article id=\"post-84227\" class=\"post-84227 post type-post status-publish format-audio has-post-thumbnail hentry category-opiniao category-sociedade tag-dirce-pereira-da-silva tag-governo-bolsonaro tag-henry-bugalho tag-jair-bolsonaro tag-trabalho-infantil post_format-post-format-audio\">\n<div class=\"eltdf-post-content\">\n<div class=\"eltdf-post-text\">\n<div class=\"eltdf-post-text-inner clearfix\">\n<div class=\"vc_row wpb_row vc_row-fluid eltdf-section eltdf-content-aligment-left\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"clearfix eltdf-full-section-inner\">\n<div class=\"wpb_column vc_column_container vc_col-sm-12\">\n<div class=\"vc_column-inner\">\n<div class=\"wpb_wrapper\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"wpb_text_column wpb_content_element \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<h3><em>\u2018O sono e a dor em meus m\u00fasculos e em minhas m\u00e3os foram gritos sufocados em meu peito at\u00e9 1954\u2019, diz Dirce Pereira da Silva, de 84 anos<\/em><\/h3>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"vc_empty_space\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Sei que, assim como ocorre comigo, muita gente fica boquiaberta diante das afirma\u00e7\u00f5es ofensivas, desrespeitosas e completamente desconectadas da realidade deste senhor que agora se senta na cadeira presidencial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 algu\u00e9m que n\u00e3o respeita a dignidade do cargo que ocupa e que nos deixa sem rea\u00e7\u00e3o e, \u00e0s vezes, sem palavras diante do absurdo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Semana passada, Bolsonaro disparou mais uma das suas, desta vez glorificando o trabalho infantil e acabou tendo de se explicar (novamente). Ele diz, depois se desdiz, e passa dias tendo de se explicar. Talvez isto seja estrat\u00e9gico, um recurso intencional de desinforma\u00e7\u00e3o, ou talvez seja meramente despreparo mesmo. De qualquer modo, os estragos na consci\u00eancia coletiva s\u00e3o devastadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, nesta segunda-feira 8 de manh\u00e3, recebi esta emocionante mensagem da professora Dirce que, de maneira clara, l\u00facida e s\u00e1bia, explica-nos porque o trabalho infantil jamais deveria ser aceito. Sendo assim, quero compartilhar com voc\u00eas estas considera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cCaro Sr. Henry,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como vai? Espero que este email o encontre bem. Vejo seu canal na internet, ou\u00e7o e medito sobre seus coment\u00e1rios e os considero muito l\u00facidos, raz\u00e3o esta pela qual lhe escrevo para falar sobre um tema acerca do qual houve coment\u00e1rios recentes por parte do Sr. Jair Messias Bolsonaro: trabalho infantil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Espero que minhas letras cheguem at\u00e9 voc\u00ea a fim de que, por meio de sua voz, ecoe um brado:\u00a0<strong>o trabalho infantil n\u00e3o pode ser aceito no Brasil do s\u00e9culo 21 de maneira alguma<\/strong>. Creio ter autoridade para falar sobre o tema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Meu nome \u00e9 Dirce Pereira da Silva e sou de Pen\u00e1polis-SP, cidade em que nasci no dia 19 de dezembro de 1934. Diferentemente de voc\u00ea, portanto, n\u00e3o sou jovem: encontro-me a caminho dos 85 anos de idade e estou ciente de que cheguei ao rumo final de minha vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Justamente por me encontrar na etapa derradeira e \u00faltima de minha exist\u00eancia, desejo complementar sua fala aos nossos irm\u00e3os brasileiros porque\u00a0<strong>vivi o trabalho infantil na pele<\/strong>. Nunca mais terei cinco, dez ou quinze anos de idade \u2013 todo esse tempo foi perdido para vencer a fome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O presidente da Rep\u00fablica, nascido aqui na vizinha cidade de Glic\u00e9rio-SP, disse que \u201cdesde os oito anos\u201d fazia pequenos servi\u00e7os rurais como colher e quebrar milho, apanhar bananas e as colocar em caixa, etc. Em tom ir\u00f4nico, afirmou que o dono da fazenda quase n\u00e3o estava por l\u00e1 \u2013 seu \u201ccapataz\u201d (aquele que d\u00e1 ordens no lugar do patr\u00e3o) era Percy Geraldo Bolsonaro, ou seja, seu pai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aviso desde j\u00e1 que quem escreve esse texto \u00e9 uma preta, neta de um casal de escravos que s\u00f3 foram alforriados ap\u00f3s a Lei \u00c1urea pelo lado paterno.<\/p>\n<div class=\"fluidvids\" style=\"text-align: justify;\"><iframe loading=\"lazy\" class=\"fluidvids-item\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/AV7QyACA7tU?feature=oembed\" width=\"1060\" height=\"795\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-fluidvids=\"loaded\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">O meu av\u00f4 Jo\u00e3o come\u00e7ou a vida sendo chamado de \u201cpreto Jo\u00e3o\u201d, sem nome ou sobrenome \u2013 simplesmente apelidado como um animal qualquer. Come\u00e7ou a trabalhar com 4 ou 5 anos de idade, assim como a totalidade de minha fam\u00edlia. Jamais soube quem eram os seus pais, pois negros existiam em senzalas apenas para que se reproduzissem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A minha av\u00f3 Rosa teve hist\u00f3ria bastante similar \u00e0 do meu av\u00f4. A diferen\u00e7a foi apenas a de saber o nome de seu pai e de sua m\u00e3e, que sobreviveram at\u00e9 depois de 13 de maio de 1888. Nenhum deles, por\u00e9m, teve inf\u00e2ncia, vida ou velhice. Ambos nasceram e morreram sem nunca ter aprendido a ler ou escrever, assim como jamais viram o mar. Meu pai, nascido em 1904, questionava-me se era verdadeiro o que ouvia falar\u201cDirce, aquela \u00e1gua toda \u00e9 salgada de verdade?\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi por pouco que n\u00e3o tivemos morte e vida severina \u2013 a vida foi longa para quase todos, exceto para meu av\u00f4 e minha av\u00f3 maternos, os quais morreram de fome bem antes dos 30. Minha av\u00f3 materna, ao que sei, chamava-se Vit\u00f3ria e faleceu durante o parto da minha m\u00e3e, aos 24. Cinco meses depois, por tuberculose, morreu o meu av\u00f4 Vicente, que \u00e0 \u00e9poca somava 27 anos de vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Meu pai\u00a0<\/strong>se chamava Marinho Aur\u00e9lio da Silva<strong>\u00a0e minha mam\u00e3e\u00a0<\/strong>era Maria Rita Pereira da Silva, os quais\u00a0<strong>nunca foram meus \u201ccapatazes\u201d.<\/strong>\u00a0Nunca possu\u00edram terra que fosse deles e tamb\u00e9m nunca deram ordem em nome de seus chefes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Meu av\u00f4, minha av\u00f3, meu pai, minha m\u00e3e, meus tios e meus primos trabalhavam sim, e muito, na colheita de caf\u00e9 e de algod\u00e3o nas fazendas aqui da regi\u00e3o noroeste paulista, onde eu e o presidente Jair Bolsonaro nascemos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim como toda minha fam\u00edlia,<strong>\u00a0eu fui tamb\u00e9m obrigada a trabalhar nisso desde meus 4 ou 5 anos<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desejo sublinhar que\u00a0<strong>o trabalho infantil n\u00e3o se tratava de uma escolha<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trabalhar desde a inf\u00e2ncia era, para minha fam\u00edlia, a \u00fanica possibilidade de lutar organizadamente contra a fome.\u00a0<strong>Meu trabalho<\/strong>\u00a0vinha dessa necessidade e e<strong>m nada me enobreceu<\/strong>, tal como jamais fez o mesmo com minha fam\u00edlia toda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez esta necessidade de trabalhar para n\u00e3o passar fome venha desde quando meus ancestrais africanos vieram para o Brasil. Dentro de minha fam\u00edlia e de tantas outras similares a ela jamais escutei que algu\u00e9m se sobressaiu. A hist\u00f3ria parecia infinita: todos nasciam para trabalhar, reproduzir-se e, em seguida, morrer.<\/p>\n<div class=\"fluidvids\" style=\"text-align: justify;\"><iframe loading=\"lazy\" class=\"fluidvids-item\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/9sErxQQ9Gz4?feature=oembed\" width=\"1060\" height=\"596\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-fluidvids=\"loaded\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Se n\u00e3o houvesse fatalidades excepcionais em minha fam\u00edlia, muito provavelmente eu mesma n\u00e3o conseguiria libertar-me desses grilh\u00f5es da escravid\u00e3o<\/strong>\u00a0porque, embora ela j\u00e1 n\u00e3o existisse formalmente desde 1888, ainda havia a fome\u2026 e esta, impiedosamente, sempre nos rondava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando o senhor presidente falou em \u201capanhar milhos\u201d, confesso que senti um imenso vazio.\u00a0<strong>Nunca tive um \u00fanico brinquedo na vida que n\u00e3o fossem espigas de milho para que fossem as minhas filhas<\/strong>. Todas as minhas bonecas de milho tinham um nome, mas, j\u00e1 aos cinco anos de idade, eu era obrigada a acostumar-me com a ideia de ser a pior de todas as m\u00e3es, pois sequer conseguia garantir algum futuro breve para essas \u201cfilhas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ser\u00e1 que o presidente da Rep\u00fablica ou algu\u00e9m que jamais tenha passado fome conseguir\u00e1 imaginar uma crian\u00e7a com 4, 5 ou 6 anos de idade que tinha espigas como filhas, e sentia a dor mais profunda que existe quando a pr\u00f3pria m\u00e3e as arrancava das m\u00e3os de uma menina para cozinh\u00e1-las e as comer\u2026 e eu sequer podia lhes ofertar um vel\u00f3rio digno?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sentia-me canibalesca por ver que teria de comer minhas pr\u00f3prias \u201cfilhas\u201d ou permitir que meus pais, av\u00f3s ou tios as comessem. Enquanto isso, eu chorava. Muito. O senhor presidente n\u00e3o deve imaginar \u2013 e espero que jamais tenha de pensar \u2013 no quanto \u00e9 traum\u00e1tico para uma criancinha ter de mastigar seus brinquedos, amados como filhos, e se calar\u2026 porque a mesa era grande, a fam\u00edlia idem e a fome ainda maior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nasci no campo, mas durante o impulso da industrializa\u00e7\u00e3o brasileira. Os trabalhos come\u00e7avam a ficar cada vez mais escassos, e a\u00ed a fome come\u00e7ou a nos matar de forma literal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora esse fato tenha ocorrido em 1939, jamais conseguirei esquecer-me dele: muito de longe avistei meu pai chorando enquanto conversava com minha m\u00e3e, pois ele sempre foi ensinado a n\u00e3o demonstrar fraqueza perante sua fam\u00edlia, o que inclu\u00eda desde meu av\u00f4, seu pai, at\u00e9 mim, a filha.\u00a0<strong>Meu pai tinha medo, muito medo mesmo de que eu morresse, tal como as outras\u00a0<u>onze<\/u>\u00a0gravidezes que minha m\u00e3e perdeu<\/strong>.<\/p>\n<div id=\"D_interna_middle\" style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/14147850\/D_interna_middle_0__container__\"><\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu poderia ter onze irm\u00e3os, mas sou e fui filha \u00fanica de um casal em plena d\u00e9cada de 1930. Isso n\u00e3o era planejamento familiar \u2013 ningu\u00e9m da minha fam\u00edlia imaginava o que era isso. Muito ao contr\u00e1rio: faziam piadas sobre uma suposta aus\u00eancia de virilidade do meu pai, ou ent\u00e3o que a mam\u00e3e era amaldi\u00e7oada, pois \u201cmatou\u201d sua m\u00e3e justamente no momento em que nasceu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 eu tinha medo de morrer, porque se minha m\u00e3e n\u00e3o conseguiu levar adiante os meus poss\u00edveis onze irm\u00e3os\u2026 por qual raz\u00e3o eu seria a mais forte? Somente pudemos descobrir que minha m\u00e3e nunca teve outros filhos porque, em 1996, num exame de rotina, o m\u00e9dico constatou que ela teve\u00a0<strong>eritroblastose fetal<\/strong>. O problema \u00e9 que, em 1996, minha m\u00e3e j\u00e1 vivia em estado vegetativo por sofrer do mal de Alzheimer. Eu somente pus fim \u00e0quele pesadelo da minha inf\u00e2ncia aos quase 62 anos de idade; meu pai p\u00f4de saber de tudo cerca de tr\u00eas meses antes de sua morte, a qual se deu em 01.05.1996.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voltando ao passado, meu pai e minha m\u00e3e se mudaram para a cidade a fim de procurar trabalho: ele capinava terrenos, varria, carregava lixos, at\u00e9 que come\u00e7ou a trabalhar numa olaria. A mam\u00e3e n\u00e3o: era lavadeira e eu, ao seu lado, permitia-lhe ampliar o n\u00famero de \u201cfreguesas\u201d, como ela dizia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O v\u00f4 Jo\u00e3o ainda estava vivo quando entrei para a escola e aprendi a ler e escrever, gra\u00e7as a uma das \u201cfreguesas\u201d de minha m\u00e3e. Ela comprou cadernos e l\u00e1pis. Quando vi a professora, pensei que havia encontrado finalmente o que desejava ser mas, ao comentar isso em casa, minha av\u00f3 j\u00e1 aconselhou o papai a n\u00e3o permitir que eu sonhasse t\u00e3o alto assim, pois sofreria.\u00a0<strong>Nem meu pai acreditava nisso<\/strong>:\u00a0<strong>\u201cuma professora preta? Acho que nem pode ter algu\u00e9m assim\u201d<\/strong>. Meu pai disse isto n\u00e3o por ser racista, mas por ser um preto analfabeto que nasceu em 1904 e que tinha, como \u00fanica vis\u00e3o de mundo, a necessidade de trabalhar e sobreviver. O que se poderia esperar de um dos filhos de um casal de escravos supostamente libertos em 13.05.1888?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>S\u00f3 que houve<\/strong>,\u00a0<strong>sim<\/strong>,\u00a0<strong>a primeira professora preta<\/strong>: eu. Meu pai teve muito orgulho disso at\u00e9 a \u00faltima frase de sua vida, quando disse \u201cobrigado por existir, minha filha\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, enfim, naqueles tempos a escola p\u00fablica era direcionada apenas \u00e0 elite e, por isso, o ensino era bom e os professores, todos eles, recebiam bons sal\u00e1rios. Dedicavam-se e eram existentes, tanto que com eles aprendi a aprender sempre. Se sou capaz de enviar um e-mail, algo impens\u00e1vel na d\u00e9cada de 1940, \u00e9 porque aprendi as li\u00e7\u00f5es primeiras e indispens\u00e1veis de qualquer aluno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Havia um \u00fanico problema: os cursos eram diurnos, todos eles, porque eram destinados a quem n\u00e3o trabalhava. S\u00f3 vi cursos noturnos a partir da d\u00e9cada de 1970 e, ainda assim, com reservas. Meus pais s\u00f3 me permitiram estudar se eu, pela manh\u00e3, frequentasse as aulas, mas, durante a tarde e o come\u00e7o da noite, lavasse e passasse roupas junto com minha m\u00e3e\u2026\u00a0<strong>e ent\u00e3o, madrugada adentro, fazia minhas li\u00e7\u00f5es e estudava \u00e0 luz de lamparina<\/strong>. Minha m\u00e9dia de sono era de aproximadamente tr\u00eas horas por dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sono e a dor em meus m\u00fasculos e em minhas m\u00e3os foram gritos sufocados em meu peito at\u00e9 dezembro de 1954, quando me tornei professora normalista (que lecionava para primeira a quarto anos do ensino prim\u00e1rio). Meu av\u00f4 n\u00e3o p\u00f4de ter o orgulho de me ver sendo respeitada pelas mesmas pessoas que sempre desrespeitaram a ele e \u00e0 minha fam\u00edlia toda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto meu pai trabalhou na olaria, seu patr\u00e3o mandava-nos as roupas de sua casa para que lav\u00e1ssemos. Acho que n\u00e3o chegava a somar 15 anos de idade quando aquele velho perguntou ao papai por quanto ele me \u201cvenderia\u201d. Muita gente pensa que pobre n\u00e3o \u00e9 honesto, mas a minha fam\u00edlia toda sempre foi. O motivo era simples: a \u00fanica coisa que possu\u00edamos em nossas vidas era honra. Por isso mesmo o papai disse ao patr\u00e3o que, se ele repetisse aquela pergunta novamente, seria morto\u2026 e quase foi: houve a demiss\u00e3o. Foi inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trabalhei como professora efetiva da rede p\u00fablica do estado de S\u00e3o Paulo por 49 anos e 08 meses, do in\u00edcio de 1955 at\u00e9 2004, poucos antes da minha aposentadoria compuls\u00f3ria (que se daria quando completasse 70 anos de idade, em 19.12.2004). Nunca faltei ou cheguei atrasada a uma \u00fanica aula durante todo esse per\u00edodo. Jamais deixei de estar dentro de uma sala de aula, em contato direto com meus alunos, e at\u00e9 negligenciei minha pr\u00f3pria sa\u00fade para jamais me ausentar. Sabe por qu\u00ea? Porque, como dizia minha m\u00e3e, se eu quisesse ser respeitada por meus colegas de trabalho, todos brancos, eu deveria ser dez vezes mais correta e proba que eles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Meu sal\u00e1rio de professora permitiu-me cuidar melhor do papai e da mam\u00e3e, a fim de que eles pudessem ter uma velhice tranquila. Consegui faz\u00ea-lo, mas ningu\u00e9m imagina o pre\u00e7o que tive de pagar. Meus parentes e amigos pobres afastaram-se de mim porque se sentiam envergonhados em falar com uma professora, ao passo que colegas de trabalho n\u00e3o aceitavam a cor da minha pele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa hist\u00f3ria poderia ser interessante caso consider\u00e1ssemos que\u00a0<strong>minha conduta permitiu me transformar na professora que por maior tempo continuado lecionou na rede p\u00fablica em toda a hist\u00f3ria do Estado de S\u00e3o Paulo<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fui homenageada pelo governador do Estado em pessoa, durante um almo\u00e7o especialmente dirigido a mim, mas\u2026 trocaria aquele almo\u00e7o, aquela homenagem e qualquer outra coisa para n\u00e3o sofrer o que sofri.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sou tola. Sei que minha hist\u00f3ria \u00e9 bonita e pode ser tocante. Tenho ci\u00eancia at\u00e9 mesmo de que minha trajet\u00f3ria poderia ser utilizada como exemplo de algu\u00e9m que veio da mis\u00e9ria extrema, superou tudo e encerrou sua carreira com muita dignidade, mas somente eu sei o pre\u00e7o que paguei por isto. Infelizmente s\u00f3 me apaixonei uma vez na vida e fui correspondida, mas ele era branco e eu n\u00e3o. A m\u00e3e dele foi contr\u00e1ria ao casamento e, sem for\u00e7as para mais lutar, eu o vi partir para a cidade de S\u00e3o Paulo, onde morreu anos depois.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o tive amores, n\u00e3o tive filhos, fui ignorada durante meus primeiros vinte anos de trabalho como professora e, \u00e0s v\u00e9speras de completar 70 anos de idade, conquistei o que me negaram ao longo de toda a vida: respeito.<\/p>\n<div id=\"D_interna_middle2\" style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/14147850\/D_interna_middle2_0__container__\"><\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">A solid\u00e3o maltrata demais. Quantas pessoas deixaram de ser meus amigos por medo? Durante minha inf\u00e2ncia, todos, sem exce\u00e7\u00e3o. Se minha trajet\u00f3ria pode ser vista como um belo romance, asseguro: viv\u00ea-la na minha pele negra fez a carne que h\u00e1 por debaixo dela sentir muita, muita dor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nenhuma crian\u00e7a possui voca\u00e7\u00e3o para o crime: em 84 anos de vida posso testemunhar que nunca tive um \u00fanico cheque devolvido. Se algum dia praticasse crimes, minha m\u00e3e e meu pai morreriam de desgosto, pois viveram honestamente\u2026 t\u00e3o honestamente que, em nove d\u00e9cadas de vida, jamais viram o mar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sou tola para pensar que a realidade cultural, social e pol\u00edtica \u00e9, hoje, similar \u00e0quela de minha \u00e9poca. J\u00e1 n\u00e3o estamos em 1934. O que isto significa? Que o senhor presidente e muitos outros j\u00e1 deveriam ter solucionado essa quest\u00e3o h\u00e1 muitos anos, at\u00e9 mesmo para \u201cenobrecer\u201d seres humanos, mas na\u00a0<strong>\u00e9poca correta<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lugar de crian\u00e7a n\u00e3o \u00e9 no trabalho, nem no crime, nem em qualquer coisa diferente de escola e forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esforce-se para que o Estado ofere\u00e7a estudo de boa qualidade, universidade para quem assim desejar, cursos t\u00e9cnicos, etc. O senhor, ao naturalizar sem pudor algum a necessidade de trabalho infantil, dizendo que ele \u201cn\u00e3o faz mal a ningu\u00e9m\u201d, oferece \u00e0s crian\u00e7as e aos jovens deste pa\u00eds somente a\u00a0<strong>servid\u00e3o<\/strong>!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que pensar sobre isso? Gostaria que o presidente Jair Bolsonaro me oferecesse uma \u00fanica resposta:\u00a0<strong>se uma crian\u00e7a com 8, 10, 12 ou 14 anos de idade perguntar-me se vale a pena trabalhar para receber UM SAL\u00c1RIO M\u00cdNIMO<\/strong>\u00a0<strong>(ou menos) como retribui\u00e7\u00e3o de seu trabalho<\/strong>, mas ao mesmo tempo um traficante garantir e provar a essas mesmas crian\u00e7as que,\u00a0<strong>no mundo do crime<\/strong>,\u00a0<strong>elas receber\u00e3o 10 MIL REAIS MENSAIS<\/strong>\u2026 o que elas optariam?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O presidente acredita, de fato, que trabalhar por 998 reais ou at\u00e9 menos que isso \u201cenobrece\u201d alguma crian\u00e7a ou jovem?\u00a0<strong>N\u00e3o estou falando aqui de adultos<\/strong>, porque esses \u2013 na maioria dos casos \u2013 j\u00e1 t\u00eam discernimento sobre as consequ\u00eancias de se envolver no mundo do crime. Provavelmente, ali\u00e1s, envolveram-se com o crime porque\u00a0<strong>jamais mostraram a essas pessoas<\/strong>,\u00a0<strong>quando ainda eram crian\u00e7as<\/strong>,\u00a0<strong>uma outra forma de mundo<\/strong>\u00a0que n\u00e3o fosse a barb\u00e1rie.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Crian\u00e7as e jovens ainda est\u00e3o em processo de forma\u00e7\u00e3o de valores e car\u00e1ter. A escola, garanto, \u00e9 o \u00fanico local em que aprender\u00e3o valores mais \u201cnobres\u201d. Ao propor trabalho \u00e0s crian\u00e7as e aos jovens, o Presidente da Rep\u00fablica incentiva a maior chaga desse pa\u00eds, que \u00e9 a \u201c<strong>op\u00e7\u00e3o<\/strong>\u201d entre\u00a0<strong><u>perpetuar-se na mis\u00e9ria f\u00edsica<\/u><\/strong>\u00a0ou na\u00a0<strong><u>mis\u00e9ria moral<\/u><\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pe\u00e7o ao senhor presidente que tome vergonha na cara!<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perdoe-me, jovem Henry, por considera\u00e7\u00f5es t\u00e3o extensas, mas\u2026\u00a0<strong>n\u00e3o cheguei aos 84 anos de idade para ser covarde<\/strong>. Demorei muitas horas para escrever tudo isso porque tive de contar com a ajuda de terceiros para digitar. Est\u00e1 frio e, por tal raz\u00e3o, minhas m\u00e3os est\u00e3o mais tr\u00eamulas que de costume, tenho mal de Parkinson, mas estou viva, sou cidad\u00e3 e nunca compactuei com regimes ditatoriais como esses que o presidente idolatra \u2013 incluindo a\u00a0<strong>ditadura militar deste pa\u00eds<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vale lembrar que\u00a0<strong>eu j\u00e1 era professora<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>tinha 30 anos de idade em 1964<\/strong>, quando depuseram Jo\u00e3o Goulart e implementaram uma ditadura civil-militar no pa\u00eds. Um dia, se voc\u00ea quiser, contarei em detalhes o qu\u00e3o horr\u00edvel foi aquele per\u00edodo \u2013 chegaram a amea\u00e7ar de MORTE minha m\u00e3e, meu pai e minha velha av\u00f3 Rosa caso eu n\u00e3o denunciasse meus colegas \u201csubversivos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Abra\u00e7os,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dirce Pereira da Silva\u201d<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/article>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2018O sono e a dor em meus m\u00fasculos e em minhas m\u00e3os foram gritos sufocados em meu peito at\u00e9 1954\u2019, diz Dirce Pereira da Silva, de 84 anos<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":288824,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1175,6],"tags":[],"class_list":["post-288823","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-educacao","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/professora-dirce-768x461.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/288823","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=288823"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/288823\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/288824"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=288823"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=288823"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=288823"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}