{"id":289273,"date":"2019-07-15T14:42:16","date_gmt":"2019-07-15T17:42:16","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=289273"},"modified":"2019-07-15T14:42:16","modified_gmt":"2019-07-15T17:42:16","slug":"como-ler-romances-pode-ser-uma-importante-ferramenta-de-autoanalise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/como-ler-romances-pode-ser-uma-importante-ferramenta-de-autoanalise\/","title":{"rendered":"Como ler romances pode ser uma importante ferramenta de autoan\u00e1lise"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\"><\/h1>\n<div class=\"byline\"><span class=\"byline__name\">Fiona Macdonald<\/span><\/div>\n<div class=\"with-extracted-share-icons\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share-row\">\n<div class=\"share-tools--no-event-tag\">\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-twite\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/1223C\/production\/_102400347_bcf0da00-a6ee-46c9-bfef-2bb4034f41a4.jpg\" alt=\"C\u00e9rebro\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Em certo n\u00edvel, \u00e9 a habilidade de espiar os pensamentos das pessoas que d\u00e1 \u00e0 literatura seu discernimento<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">Um homem conversando com uma caveira. Um mon\u00f3logo sobre suic\u00eddio na porosa fronteira entre sanidade e loucura. Uma menina se afoga em um riacho, em luto pelo seu pai. Se David Lunch tivesse feito a s\u00e9rie Twin Peaks 400 anos atr\u00e1s, ele poderia ter criado algo parecido. Mas esse foi William Shakespeare. Em 1596, seu filho Hamnet morreu com 11 anos de idade &#8211; 5 anos depois, enquanto o dramaturgo terminava sua trag\u00e9dia Hamlet, seu pai ficou doente. Ele morreu em setembro de 1601.<\/p>\n<p>&#8220;Algo deve ter acontecido com Shakespeare, algo poderoso o bastante para causar essa explos\u00e3o lingu\u00edstica&#8221;, escreve Stephen Greenblatt, professor de Harvard. &#8220;Como plateias e leitores entenderam h\u00e1 tempos, no centro da trag\u00e9dia de Shakespeare est\u00e3o um luto passional provocado pela morte de algu\u00e9m amado&#8221;. A morte de seu filho e a pendente morte de seu pai &#8220;poderiam ter causado uma perturba\u00e7\u00e3o ps\u00edquica que ajuda a explicar o poder explosivo e a interioriza\u00e7\u00e3o de Hamlet&#8221;. O que \u00e9 reverenciado como uma das melhores obras da literatura possivelmente veio de um sofrimento emocional muito intenso.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/14B4\/production\/_102400350_0ac4b2ec-f127-4970-aac2-629ff20741be.jpg\" alt=\"Hamlet\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Hamlet, considerada uma das melhores obras da literatura, possivelmente surgiu a partir de um sofrimento emocional muito intenso<\/figure>\n<p>As circunst\u00e2ncias em que Hamlet foi criada podem ajudar a explicar por que a trag\u00e9dia continua influente nos dias de hoje em todas as partes do mundo. A pe\u00e7a ficou em oitavo lugar na vota\u00e7\u00e3o\u00a0<i>Hist\u00f3rias que Mudaram o Mundo<\/i>, da BBC Culture, com participantes elogiando seu extraordin\u00e1rio olhar sobre a condi\u00e7\u00e3o humana. Hamlet &#8220;\u00e9 a pe\u00e7a que exemplifica o profundo entendimento de Shakespeare sobre a psiqu\u00ea humana com suas nuances e extremidades\u2026. Nossa mistura simult\u00e2nea de genialidade e autossabotagem, nossa capacidade para amar e odiar, criatividade e destrui\u00e7\u00e3o&#8221;, diz a poeta, novelista e cr\u00edtica Elizabeth Rosner. Segundo o escritor e cr\u00edtico brit\u00e2nico Adam Thorpe, \u00e9 uma hist\u00f3ria que &#8220;influenciou a forma como pensamos sobre nossos egos embaralhados. Entramos no n\u00facleo central de Hamlet e saimos despidos de ilus\u00e3o&#8221;. Hamlet revela o quanto as hist\u00f3rias podem nos ensinar sobre n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>Como disse certa vez o fil\u00f3sofo Noam Chomsky, &#8220;n\u00f3s sempre vamos aprender mais sobre a vida humana e sobre personalidades a partir dos romances do que pela psicologia cient\u00edfica&#8221; &#8211; algo que o escritor e cr\u00edtico David Lodge explorou em seu livro\u00a0<i>Consciousness and the Novel\u00a0<\/i>(&#8220;A Consci\u00eancia e o Romance&#8221;, em tradu\u00e7\u00e3o livre), de 2004. Lodge argumenta que &#8220;a literatura \u00e9 um registro da consci\u00eancia humana, o mais rico e mais extenso que temos\u2026 O romance \u00e9 sem d\u00favidas o esfor\u00e7o mais bem sucedido do homem de descrever a experi\u00eancia de seres humanos movidos atrav\u00e9s do tempo e espa\u00e7o&#8221;.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/62D4\/production\/_102400352_97494144-0462-4084-b0ef-0393d82d8647.jpg\" alt=\"C\u00e9rebros\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Lodge diz que &#8220;as crises s\u00e3o basicamente as mesmas: todos n\u00f3s temos os mesmos desejos e as mesmas esperan\u00e7as\u2026 na fic\u00e7\u00e3o, voc\u00ea tem modelos de como outras pessoas reagem&#8221;<\/figure>\n<p>Em certo n\u00edvel, \u00e9 a habilidade de espiar os pensamentos das pessoas que d\u00e1 \u00e0 literatura seu discernimento. &#8220;N\u00f3s n\u00e3o sabemos realmente o que o outro est\u00e1 pensando de verdade em momento algum &#8211; a consci\u00eancia \u00e9 algo muito privado &#8211; e em parte vamos para a literatura em suas diversas formas para compensar ou inventar os solipsismos necess\u00e1rios de nossas pr\u00f3prias vidas internas&#8221;, diz Lodge \u00e0 BBC Culture. &#8220;A principal raz\u00e3o pela qual lemos literatura \u00e9 porque ela n\u00f3s d\u00e1 a impress\u00e3o, se \u00e9 bem-sucedida, de fazer voc\u00ea entender como as pessoas pensam. N\u00f3s sabemos o que sentimos e o que pensamos e tamb\u00e9m o que esperamos e tememos, mas n\u00e3o sabemos muito bem como outras pessoas processam esses sentimentos e observa\u00e7\u00f5es&#8221;.<\/p>\n<p>Como diz Greenblatt, em Hamlet, Shakespeare &#8220;aperfei\u00e7oou as formas de representar a interioridade\u2026 logo ap\u00f3s a morte de Hamnet, expressou a percep\u00e7\u00e3o mais profunda de exist\u00eancia de Shakespeare, seu entendimento do que poderia ser dito e o que poderia ficar n\u00e3o dito, sua prefer\u00eancia pelas coisas bagun\u00e7adas, quebradas e n\u00e3o resolvidas sobre as coisas bem ordenadas, bem feitas e resolvidas&#8221;.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/BD74\/production\/_102400584_6f241813-7c00-4c34-9776-1e071ce543c0.jpg\" alt=\"Hamlet\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>&#8220;Ningu\u00e9m, antes ou desde Shakespeare, criou tantos egos separados&#8221;, diz Harold Bloom<\/figure>\n<p>O cr\u00edtico Harold Bloom chega a dizer que &#8220;Shakespeare continuar\u00e1 nos explicando em parte porque ele nos inventou&#8221;. Em seu livro\u00a0<i>Shakespeare: The Invention of the Human\u00a0<\/i>(&#8220;Shakespeare: A Inven\u00e7\u00e3o do Humano&#8221;, em tradu\u00e7\u00e3o livre), publicado em 1998, Bloom argumenta que os personagens da pe\u00e7a &#8220;s\u00e3o exemplos extraordin\u00e1rios n\u00e3o apenas de como os significados s\u00e3o iniciados e repetidos, mas tamb\u00e9m de como novos modos de consci\u00eancia surgem\u2026 Ningu\u00e9m, antes ou desde Shakespeare, nos dividiu em tantos egos&#8221;. Ele diz que sua pr\u00f3pria paix\u00e3o por livros vem do acesso que eles d\u00e3o \u00e0 mente dos outros: &#8220;Eu sou inocente o bastante para ler incessantemente porque eu n\u00e3o posso, por mim mesmo, conhecer as pessoas profundamente o bastante&#8221;.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Modos de ver<\/h2>\n<p>Esse impulso pode ir muito al\u00e9m de entender quem somos: ler pode definir nosso entendimento sobre n\u00f3s mesmos. &#8220;Seja Dante quando eu tiver 60 anos ou Alice no Pa\u00eds das Maravilhas quando eu era adolescente, essas hist\u00f3rias para mim eram autobiogr\u00e1ficas&#8221;, diz Alberto Manguel, escritor e diretor da Biblioteca Nacional da Argentina. &#8220;Eu entendi perfeitamente o que Alice sentiu no mundo dos adultos absurdos, onde ela tenta da maneira mais educada que consegue fazer perguntas inteligentes, quando tudo em sua volta parece absurdo. Isso me ajudou a entender o mundo louco em que eu estava &#8211; e, mais tarde, quando eu descobri o mundo da pol\u00edtica e o Chapeleiro Maluco diz que n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o na mesa e Alice aponta que a mesa est\u00e1 feita para v\u00e1rias pessoas e h\u00e1 muito espa\u00e7o, eu senti que era exatamente isso que eu estava vendo na sociedade, na qual um grupo de pessoas como o Chapeleiro Maluco estavam dizendo \u00e0s outras que estava passando fome que n\u00e3o havia lugar na mesa&#8221;.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/10B94\/production\/_102400586_ee2531f6-ddab-4f3a-8320-575091bb0153.jpg\" alt=\"Alice na mesa do Chapeleiro Maluco\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>&#8220;As palavras revelam para Alice que o \u00fanico fato sem discuss\u00e3o sobre esse mundo \u00e9 que sob qualquer racionalidade aparente somos todos loucos&#8221;, escreve Alberto Manguel<\/figure>\n<p>Ele insiste que ler deu a ele sentido para suas experi\u00eancias de vida. &#8220;Eu tenho certeza de que se n\u00e3o tivesse lido Alice no Pa\u00eds das Maravilhas e Dante eu n\u00e3o entenderia tantos aspectos sobre mim&#8221;. Em seu livro Curiosity (&#8220;Curiosidade&#8221;), Manguel diz que ele poderia n\u00e3o ser capaz de identificar a si mesmo em um procedimento de identifica\u00e7\u00e3o de suspeito da pol\u00edcia: &#8220;eu n\u00e3o sei se isso \u00e9 porque meu rosto envelhece muito rapidamente e muito drasticamente ou porque meu pr\u00f3prio ego est\u00e1 menos embasado na minha mem\u00f3ria do que nas palavras escritas que decorei&#8221;.<\/p>\n<p>A identifica\u00e7\u00e3o com uma hist\u00f3ria pode sergir de maneiras inesperadas. O primeiro romance de Preti Taneja\u00a0<i>We That Are Young\u00a0<\/i>(&#8220;N\u00f3s que Somos Jovens&#8221;, em tradu\u00e7\u00e3o livre) reimagina o Rei Lear na Delhi de hoje. Estudando a pe\u00e7a na escola no Reino Unido, ela sentiu uma conex\u00e3o profunda que a surpreendeu. &#8220;Em Rei Lear, eu reconheci a fam\u00edlia indiana extendida que eu costumava visitar todo ver\u00e3o&#8221;, ela escreveu. &#8220;Shakespeare de alguma forma reconheceu a parte da minha vida que meus amigos ingleses nem imaginavam &#8211; a parte indiana, na \u00cdndia&#8221;.<\/p>\n<p>Rei Lear a ajudou a pensar sobre a Divis\u00e3o da \u00cdndia. &#8220;Ningu\u00e9m falava sobre isso na escola, mas havia essa sensa\u00e7\u00e3o definitiva que havia uma grande hist\u00f3ria que precisava ser trazida para este pa\u00eds, esta era a raz\u00e3o pela qual eu havia nascido aqui &#8211; e ent\u00e3o de repente estava ali, logo em Shakespeare&#8221;, diz Taneja \u00e0 BBC Culture. &#8220;Essa hist\u00f3ria da divis\u00e3o que leva \u00e0 guerra civil, essa hist\u00f3ria de filhas que s\u00e3o for\u00e7adas a se comportar bem para a honra da fam\u00edlia &#8211; que \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o que muitas imigrantes de segunda gera\u00e7\u00e3o enfrentam&#8221;.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/6D6C\/production\/_102521082_8e775b04-4daa-4f2b-8f12-3e8836573a98.jpg\" alt=\"Pe\u00e7a\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>&#8220;A literatura pode nos fazer pensar sobre como os padr\u00f5es s\u00e3o repetidos&#8230; preju\u00edzo geracional \u00e9 algo com o qual temos que trabalhar tanto para reverter&#8221;, diz Taneja<\/figure>\n<p>Ao transformar um rei em um pedinte, filhas obedientes em vil\u00e3s, uma filha leal em banida no ex\u00edlio, um filho leg\u00edtimo em exclu\u00eddo e um ileg\u00edtimo em um pertencente ao c\u00edrculo, o Rei Lear mexe com ideias sobre identidades fixas. &#8220;Quase todo personagem \u00e9 colocado em uma posi\u00e7\u00e3o oposta a si&#8221;, diz Taneja. &#8220;Todo mundo \u00e9 trocado. Essa pe\u00e7a realmente \u00e9 sobre aliena\u00e7\u00e3o de si e explora\u00e7\u00f5es com o outro dentro de si &#8211; como nos reconciliamos com esses dois lados e nos entendemos com o fato de que somos todos seres h\u00edbridos e que a sociedade n\u00e3o \u00e9 algo fixo&#8221;.<\/p>\n<p>Bloom falou sobre isso quando disse que &#8220;Shakespeare n\u00e3o nos tornar\u00e1 melhor nem pior, mas ele pode permitir que demos ouvidos a n\u00f3s mesmos quando falamos com n\u00f3s mesmos&#8230; ele pode nos ensinar a aceitar a mudan\u00e7a em n\u00f3s e nos outros e talvez at\u00e9 a forma final da mudan\u00e7a&#8221;. Com personagens que calibram sua imagem com as perspectivas dos outros e ent\u00e3o adaptam seu comportamento de acordo, ele acredita que as pe\u00e7as revelam o processo de autorevis\u00e3o &#8211; a habilidade &#8220;de mudar ou nos ouvir e ent\u00e3o pelo desejo de mudar'&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Luz no escuro<\/h2>\n<p>Mas al\u00e9m de se identificar com personagens, n\u00f3s lemos para descobrir como as pessoas profundamente diferente de n\u00f3s pensam. &#8220;O c\u00e2non a que fui apresentado na escola inclu\u00eda Philip Larkin, JM Coetzee &#8211; todos esses homens escrevendo sobre masculinidade e sobre a sociedade com um olhar muito particular&#8221;, diz Taneja. &#8220;Me pareceu que o que eu estava aprendendo era como eu era vista. Isso \u00e9 o que os personagens homens est\u00e3o falando \u00e9 o que pensam de mim, e sobre o mundo que eu perten\u00e7o. H\u00e1 muitas epifanias nisso &#8211; Coetzee \u00e9 um dos meus escritores prefereidos porque seu trabalho \u00e9 muito afiado &#8211; me ensinou sobre a forma que um certo tipo de masculinidade patriarcal me v\u00ea no mundo&#8221;.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/B998\/production\/_102521574_2876fe1b-181f-4492-9023-eff58b405030.jpg\" alt=\"Empatia\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>De acordo com Manguel, &#8220;a busca de descobrir quem somos \u00e9 respons\u00e1vel, em alguma medida, pelo nosso deleite nas hist\u00f3rias dos outros&#8221;<\/figure>\n<p>O storytelling tem um papel evolucion\u00e1rio em provocar empatia. Como Atticus Finch disse em\u00a0<i>O Sol \u00e9 Para Todos<\/i>, &#8220;voc\u00ea nunca realmente entende uma pessoa at\u00e9 que voc\u00ea considera as coisas a partir de seu ponto de vista &#8211; at\u00e9 que voc\u00ea veste sua pele e anda por a\u00ed com ela&#8221;.<\/p>\n<p>Ler nos encoraja a n\u00e3o reduzir os outros a caricaturas. &#8220;Inconscientemente, come\u00e7amos a aceitar que o outro \u00e9 sempre um mist\u00e9rio e que caracteriza\u00e7\u00f5es f\u00e1ceis nos levam a lugar nenhum&#8221;, diz a escritora grega Amanda Michalopoulou. &#8220;A literatura transforma medo amorfo em pena em individualidades. Ela nos diz: o outro n\u00e3o \u00e9 o que parece&#8221;.<\/p>\n<p>A fic\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m pode nos colocar em posi\u00e7\u00f5es desconfort\u00e1veis. No evento da BBC Culture\u00a0<i>Hist\u00f3rias que Mudaram o Mundo<\/i>, o escritor Colm T\u00f3ib\u00edn disse que ela deveria &#8220;mostrar o diabo para que voc\u00ea o conhe\u00e7a&#8221;. No caso de Clytemnestra na Oresteia, ele disse &#8220;eu preciso lhe mostrar algu\u00e9m que j\u00e1 foi bom&#8230; qu\u00e3o facilmente ela poderia ser corrompida, que mostro ela poderia se tornar &#8211; quando voc\u00ea est\u00e1 praticamente a seguindo quando ela chega para assassinar seu marido Agamemnon, pensando &#8216;eu quero que voc\u00ea fa\u00e7a isso&#8217; &#8211; voc\u00ea est\u00e1 empurrando a imagina\u00e7\u00e3o do leitor em \u00e1reas em que ele pode n\u00e3o querer ir.<\/p>\n<p>E assim como as hist\u00f3rias demonstram que humanos n\u00e3o s\u00e3o exatamente &#8216;bons&#8217; nem &#8216;ruins&#8217;, elas tamb\u00e9m nos lembram qu\u00e3o rapidamente mudamos. &#8220;Nossas leituras nunca s\u00e3o absolutas: a literatura n\u00e3o permite tend\u00eancias dogm\u00e1ticas&#8221;, escreve Manguel. &#8220;Em vez disso, mudamos de alian\u00e7as&#8230; se nos reconhemos em Cordelia hoje, podemos chamar Goneril de nossa irm\u00e3 amanh\u00e3 e no futuro, um parentesco com Lear, um homem bobo e bondoso. Essa transmigra\u00e7\u00e3o de almas \u00e9 o milagre mais discreto da literatura&#8221;.<\/p>\n<p>Talvez o mais importante seja que ler pode reafirmar um sentimento que todos temos &#8211; que nos diz que quem somos como humanos varia de momento a momento. Em resposta \u00e0 pergunta feita pela lagarta &#8211; &#8220;quem \u00e9 voc\u00ea?&#8221; &#8211; Alice diz &#8220;E-eu mal sei, senhor, no momento. Ao menos eu sei quem eu era quando acordei esta manh\u00e3, mas acho que devo ter mudado v\u00e1rias vezes desde ent\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;A literatura pode nos fazer pensar sobre como os padr\u00f5es s\u00e3o repetidos&#8230; preju\u00edzo geracional \u00e9 algo com o qual temos que trabalhar tanto para rev<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":289274,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-289273","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/literatura.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/289273","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=289273"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/289273\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/289274"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=289273"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=289273"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=289273"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}