{"id":289311,"date":"2019-07-16T00:47:10","date_gmt":"2019-07-16T03:47:10","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=289311"},"modified":"2019-07-15T17:51:55","modified_gmt":"2019-07-15T20:51:55","slug":"aids-no-brasil-do-primeiro-caso-a-estruturacao-das-politicas-de-saude","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/aids-no-brasil-do-primeiro-caso-a-estruturacao-das-politicas-de-saude\/","title":{"rendered":"Aids no Brasil: do primeiro caso \u00e0 estrutura\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas de sa\u00fade"},"content":{"rendered":"<div class=\"eltdf-grid\">\n<div class=\"eltdf-title eltdf-breadcrumbs-type eltdf-content-left-alignment\" data-height=\"0\">\n<div class=\"eltdf-title-holder\">\n<div class=\"eltdf-container clearfix\">\n<div class=\"eltdf-container-inner\">\n<div class=\"eltdf-title-subtitle-holder\">\n<div class=\"eltdf-title-subtitle-holder-inner\">\n<h1 class=\"eltdf-title-text\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"eltdf-title-post-info\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"eltdf-pt-info-section clearfix\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"eltdf-container\">\n<div class=\"eltdf-container-inner\">\n<div class=\"eltdf-post-content-featured\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"eltdf-post-image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"attachment-readanddigest_post_feature_image size-readanddigest_post_feature_image wp-post-image\" src=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/HIV-Pixabay-1200x720.jpg\" sizes=\"auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" srcset=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/HIV-Pixabay.jpg 1200w, https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/HIV-Pixabay-300x180.jpg 300w, https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/HIV-Pixabay-768x461.jpg 768w, https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/HIV-Pixabay-1024x614.jpg 1024w\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"720\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">PIXABAY<\/p>\n<div id=\"D_interna_top\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"eltdf-two-columns-66-33  eltdf-content-has-sidebar clearfix\">\n<div class=\"eltdf-column1 eltdf-content-left-from-sidebar\">\n<div class=\"eltdf-column-inner\">\n<div class=\"eltdf-blog-holder eltdf-blog-single\">\n<article id=\"post-84789\" class=\"post-84789 post type-post status-publish format-audio has-post-thumbnail hentry category-blogs category-saudelgbt tag-aids tag-hiv tag-ministerio-da-saude tag-programa-nacional-de-aids tag-saude-lgbt post_format-post-format-audio\">\n<div class=\"eltdf-post-content\">\n<div class=\"eltdf-post-text\">\n<div class=\"eltdf-post-text-inner clearfix\">\n<div class=\"vc_row wpb_row vc_row-fluid eltdf-section eltdf-content-aligment-left\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"clearfix eltdf-full-section-inner\">\n<div class=\"wpb_column vc_column_container vc_col-sm-12\">\n<div class=\"vc_column-inner\">\n<div class=\"wpb_wrapper\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"wpb_text_column wpb_content_element \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<h3><em>Falar sobre HIV\/Aids \u00e9 mergulhar num universo de hist\u00f3rias comoventes, de lutas importantes e de exclus\u00e3o e preconceito<\/em><\/h3>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"vc_empty_space\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>O ano \u00e9 1981. Nos Estados Unidos, h\u00e1 a primeira comunica\u00e7\u00e3o oficial de casos de Aids. Trata-se de homens com quadro de imunossupress\u00e3o grave e infec\u00e7\u00e3o por citomegalov\u00edrus, v\u00edrus da fam\u00edlia herpes que causa infec\u00e7\u00f5es em indiv\u00edduos com sistema imunol\u00f3gico comprometido. A \u00fanica semelhan\u00e7a encontrada em todos os casos era a homossexualidade de todos os rapazes. A doen\u00e7a foi ent\u00e3o divulgada com apelido de \u201c<em>gay compromise syndrome<\/em>\u201d. Um ano depois, o primeiro caso em hemof\u00edlicos \u2013 doentes que necessitam de m\u00faltiplas transfus\u00f5es de sangue durante a vida \u2013 foi relatado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Brasil, o primeiro caso data de 1983, com notifica\u00e7\u00e3o no Estado de S\u00e3o Paulo. Trata-se de um jovem homossexual com febre e perda de peso, bem como g\u00e2nglios pelo corpo, diagnosticado com tuberculose disseminada. Durante o 2\u00ba Congresso Brasileiro de Infectologia, no mesmo ano, esse e outros casos foram relatados. Nesse evento, Albert Sabin, ex\u00edmio pesquisador no campo de vacinas, pronunciou-se pela proibi\u00e7\u00e3o de doa\u00e7\u00e3o de sangue por homossexuais, sob risco de puni\u00e7\u00e3o em caso de infra\u00e7\u00e3o. Alguns especialistas ainda achavam que essa doen\u00e7a n\u00e3o seria epid\u00eamica em nosso Pa\u00eds, acreditando que esses eventos estariam restritos aos EUA. Apenas no segundo semestre de 1983 o v\u00edrus seria identificado como agente causal da Aids.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No in\u00edcio da epidemia, os movimentos sociais homossexuais encontravam-se em processo de ruptura. Em 1981 o famoso jornal da comunidade gay\u00a0<em>Lampi\u00e3o de Esquina<\/em>\u00a0foi extinto. Em 1982, uma crise pol\u00edtica acaba por fragmentar o\u00a0<em>Somos<\/em>, primeiro movimento social da comunidade homossexual de extrema import\u00e2ncia no eixo Rio-S\u00e3o Paulo. Num contexto em que uma epidemia que justamente atingiria a popula\u00e7\u00e3o homossexual, seria muito ruim a aus\u00eancia inicial desses movimentos para constru\u00e7\u00e3o conjunta de um plano de a\u00e7\u00e3o para o combate da epidemia. Todavia, grupos menores em alguns estados pressionaram desde o in\u00edcio o poder p\u00fablico para o debate em torno da Aids. Foi o caso de S\u00e3o Paulo e da Bahia, com o surgimento do Grupo Gay da Bahia (GGB).<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Um problema de sa\u00fade p\u00fablica<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde o primeiro caso, houve questionamentos e diverg\u00eancias entre os profissionais de sa\u00fade, no sentido de considerar ou n\u00e3o a Aids um problema de sa\u00fade p\u00fablica. Para o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, o n\u00famero de casos iniciais era pouco e havia outras doen\u00e7as com maior preocupa\u00e7\u00e3o por conta do minist\u00e9rio. Era o caso de mal\u00e1ria, leptospirose, desnutri\u00e7\u00e3o infantil e febre tifoide. Entretanto, outros profissionais de sa\u00fade alertavam para a experi\u00eancia norte-americana, com n\u00famero de casos crescendo de forma exponencial. Dessa forma, inicialmente o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade n\u00e3o adotou nenhuma medida espec\u00edfica para o controle e preven\u00e7\u00e3o da Aids.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em S\u00e3o Paulo, primeira cidade brasileira a diagnosticar um caso de Aids no Pa\u00eds, j\u00e1 em 1983, um grupo de homossexuais iniciou uma press\u00e3o para que se criasse um servi\u00e7o de atendimento para a s\u00edndrome na Escola Paulista de Medicina. Jo\u00e3o Yunes, secret\u00e1rio de Sa\u00fade na ocasi\u00e3o, acatou o pedido e o servi\u00e7o foi criado. Iniciou-se uma sistematiza\u00e7\u00e3o de investiga\u00e7\u00e3o de casos, com cria\u00e7\u00e3o de uma ficha de investiga\u00e7\u00e3o epidemiol\u00f3gica, programas de a\u00e7\u00e3o de vigil\u00e2ncia, grupos de apoio, locais para interna\u00e7\u00e3o de doentes e para assist\u00eancia ambulatorial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Divis\u00e3o de Dermatologia Sanit\u00e1ria da Secretaria de Sa\u00fade iniciou investiga\u00e7\u00e3o em \u00e2mbito estadual, bem como a coordena\u00e7\u00e3o de atividades por todo o Estado. A refer\u00eancia para atendimento de pacientes ambulatoriais foi o Servi\u00e7o de Elucida\u00e7\u00e3o Diagn\u00f3stica, contando com equipe multiprofissional. Para casos de interna\u00e7\u00f5es, o Instituto de Infectologia Em\u00edlio Ribas foi designado como refer\u00eancia de casos de Aids. A partir de ent\u00e3o e durante toda a consolida\u00e7\u00e3o do programa nacional, o instituto foi sede de capacita\u00e7\u00f5es profissionais para todo o Pa\u00eds, acumulando um conhecimento inicial sobre a doen\u00e7a muito substancial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, uma linha telef\u00f4nica foi destinada para tirar d\u00favidas. Trata-se do Disque-Aids, projeto pioneiro e adotado posteriormente por outras cidades brasileiras. Estava, em 1983, estruturado o primeiro programa de Aids p\u00fablico do Brasil, que serviria de exemplo para outros estados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Rio Grande do Sul, a Divis\u00e3o de Dermatologia Sanit\u00e1ria, ao contr\u00e1rio dos outros estados, tinha bastante experi\u00eancia na \u00e1rea das Infec\u00e7\u00f5es Sexualmente Transmiss\u00edveis (ISTs), al\u00e9m da hansen\u00edase, principal foco de a\u00e7\u00e3o para controle na \u00e9poca. A Divis\u00e3o foi pioneira em projetos de educa\u00e7\u00e3o em ISTs. A partir do primeiro caso de Aids no estado, incorporou a doen\u00e7a em seus folhetos e materiais educativos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1984 inicia-se o programa no Rio Grande do Sul, com inspira\u00e7\u00e3o no modelo paulista, j\u00e1 com um ano de funcionamento e bons resultados. O Hospital das Cl\u00ednicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul destina, em 1985, uma ala para doentes de Aids. Os profissionais que os atendiam sofriam preconceito por parte de outros profissionais de sa\u00fade. O desconhecimento da etiologia da doen\u00e7a deixava muitos receosos, enquanto despertava interesse e curiosidade em outros.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Servi\u00e7o de Dermatologia Sanit\u00e1ria realiza em 1986 o \u201cI Congresso Brasileiro de DST\u201d em conjunto com o \u201cI Encontro Latino-americano de Aids\u201d, em Canela. Esse congresso estimula a forma\u00e7\u00e3o do Programa Nacional de Aids. Foi ministrado um curso de capacita\u00e7\u00e3o de gerentes de programas de IST. Na \u00e9poca, fizeram uma analogia com o slogan do ent\u00e3o presidente Jos\u00e9 Sarney, \u201ctudo pelo social\u201d e o tema do curso foi \u201ctudo pelo sexual\u201d. Com o sucesso da capacita\u00e7\u00e3o, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade passou a divulgar o material educativo inclusive fora no Pa\u00eds, no Panam\u00e1. As experi\u00eancias exitosas levaram o Rio Grande do Sul a se tornar uma nova refer\u00eancia para as pol\u00edticas p\u00fablicas de Aids.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Rio de Janeiro foi pioneiro em investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto em S\u00e3o Paulo e Rio Grande o Sul o in\u00edcio das a\u00e7\u00f5es estava voltado para investiga\u00e7\u00e3o de casos, assist\u00eancia e preven\u00e7\u00e3o, no Rio de Janeiro houve um predom\u00ednio de investimento no campo da investiga\u00e7\u00e3o laboratorial e ci\u00eancia. Em 1982, um projeto liderado por Bernardo Galv\u00e3o, pesquisador do centro de imunologia de doen\u00e7as parasit\u00e1rias da Fiocruz, iniciou a verifica\u00e7\u00e3o do padr\u00e3o de resposta imune da doen\u00e7a. N\u00e3o havia recursos institucionais na ocasi\u00e3o e muitas vezes reagentes destinados a outras pesquisas eram desviados pelo pesquisador, a fim de entender cada vez melhor essa nova doen\u00e7a que ainda n\u00e3o era vista como problema relevante pelas autoridades. Somente em 1985, com a Fiocruz presidida por S\u00e9rgio Arouca, que a Aids passou a ser prioridade de sa\u00fade p\u00fablica para a funda\u00e7\u00e3o. Foi ent\u00e3o criado o Programa Institucional da Fiocruz. Esse programa contemplaria assist\u00eancia, pesquisa e trabalhos de educa\u00e7\u00e3o e preven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um nome interessante na hist\u00f3ria da pesquisa de Bernardo Galv\u00e3o \u00e9 Peggy Pereira. Mulher inglesa e outrora chefe do Laborat\u00f3rio de Sa\u00fade P\u00fablica de Londres, Peggy recebeu do pesquisador Robert Gallo garrafas com c\u00e9lulas infectadas pelo v\u00edrus. Em sua volta ao Brasil com o marido H\u00e9lio Gelli Pereira, virologista, trouxe para Bernardo Galv\u00e3o tais amostras escondidas em sua bagagem. A partir da\u00ed o pesquisador pode entender melhor as c\u00e9lulas infectadas e conseguiu fabricar l\u00e2mpadas de imunofluoresc\u00eancia, m\u00e9todo diagn\u00f3stico da doen\u00e7a. Tal teste diagn\u00f3stico passou a ser utilizado na triagem sangu\u00ednea dos bancos de sangue brasileiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao contr\u00e1rio de S\u00e3o Paulo, onde o movimento homossexual exigiu do poder p\u00fablico medidas de controle da Aids, no Rio de Janeiro os profissionais de sa\u00fade foram em busca dessa popula\u00e7\u00e3o. Procuraram em locais de encontros gays, como bares e saunas, para realizar a\u00e7\u00f5es educativas e preventivas. A comunidade gay teve boa aceita\u00e7\u00e3o e logo se formou um elo entre o Departamento de Epidemiologia da Secretaria de Sa\u00fade e a comunidade. Reuni\u00f5es noturnas eram realizadas para orientar a comunidade sobre formas de preven\u00e7\u00e3o e assist\u00eancia. Nesse contexto, tamb\u00e9m se destaca o movimento de hemof\u00edlicos, com Betinho e sua luta pelo controle de qualidade nos bancos de sangue. Betinho, irm\u00e3o de Henfil, infectado devido a transfus\u00f5es de sangue, foi expressivo nas lutas contra Aids e, posteriormente, contra a fome no Brasil.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">A epidemia de Aids se espalha pelo Pa\u00eds<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante os anos de 1983 e 1985, os casos come\u00e7aram a ser notados em praticamente todas as capitais. Ap\u00f3s S\u00e3o Paulo, Rio e Rio Grande do Sul terem suas experi\u00eancias iniciais, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Cear\u00e1 e Par\u00e1 come\u00e7aram a buscar fontes para o atendimento de Aids.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Minas, cria-se em 1984 a Comiss\u00e3o Institucional de Aids para controlar a epidemia no Estado. Na Universidade Federal de Minas Gerais, a UFMG, criou uma ala de interna\u00e7\u00e3o destinada aos doentes de Aids, o Servi\u00e7o de Imunodefici\u00eancia, contra a vontade da diretoria, que n\u00e3o acreditava que seus profissionais estivessem preparados para atender esses casos. Apenas em 1987 um programa estadual veio a consolidar-se, com a experi\u00eancia obtida com os ga\u00fachos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Bahia, desde o in\u00edcio das primeiras pol\u00edticas p\u00fablicas, houve uma articula\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais com a secretaria. A parceria com o GGB foi fundamental para o desenvolvimento de a\u00e7\u00f5es educativas, campanhas e preven\u00e7\u00e3o e contato com a comunidade gay baiana. No Par\u00e1, uma press\u00e3o de respons\u00e1veis por hemocentros fez press\u00e3o no governo, que criou um servi\u00e7o espec\u00edfico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em outros estados, especialmente do Nordeste, programas estaduais v\u00e3o sendo desenhados com base nas experi\u00eancias j\u00e1 realizadas. Al\u00e9m disso, inicia-se o interc\u00e2mbio de profissionais para capacita\u00e7\u00e3o em centros considerados de refer\u00eancia, como o Instituto de Infectologia Em\u00edlio Ribas. Na maior parte desses estados os movimentos da comunidade homossexual n\u00e3o teve participa\u00e7\u00e3o expressiva inicialmente.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Os primeiros passos do Programa Nacional de Aids<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s a morte de Tancredo Neves em 21 de abril de 1985, Jos\u00e9 Sarney assume a presid\u00eancia da Rep\u00fablica. Designa para o cargo de Ministro da Sa\u00fade o m\u00e9dico Carlos Santana. Carlos concedeu \u00e0 sanitarista Fab\u00edola Nunes Aguiar a Secretaria Nacional de Programas Especiais, na qual estava a Divis\u00e3o de Dermatologia Sanit\u00e1ria \u2013 divis\u00e3o que na \u00e9poca cuidava de assuntos pertinentes a hansen\u00edase e ISTs. \u00c9 ela quem realiza a primeira reuni\u00e3o de Aids do minist\u00e9rio, com a presen\u00e7a do professor titular da Faculdade de Medina da USP Ricardo Veronesi, o coordenador do Programa de Aids de S\u00e3o Paulo, Paulo Teixeira, e Aguinaldo Gon\u00e7alves, chefe da Divis\u00e3o de Dermatologia Sanit\u00e1ria. Nessa reuni\u00e3o, criou-se uma ficha de notifica\u00e7\u00e3o de investiga\u00e7\u00e3o epidemiol\u00f3gica. Na TV, vai ao ar uma campanha tendo o jogador e m\u00e9dico S\u00f3crates como porta-voz, que ficou conhecida como \u201ccampanha do S\u00f3crates\u201d.<\/p>\n<div id=\"D_interna_middle\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir de ent\u00e3o, no mesmo ano, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade formulou suas diretrizes gerais sobre Aids. S\u00e3o Paulo foi escolhido como refer\u00eancia nacional, dada sua experi\u00eancia pioneira no manejo dos casos e medidas de controle. Normas relativas \u00e0 vigil\u00e2ncia epidemiol\u00f3gica, manejo cl\u00ednico e biosseguran\u00e7a foram desenvolvidos pela primeira vez.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">O papel das mulheres<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1896, Maria Leide Van Del Rey, dermatologista carioca com participa\u00e7\u00e3o inicial ativa no Rio de Janeiro, assumiu a Divis\u00e3o de Dermatologia Sanit\u00e1ria no lugar de Aguinaldo Gon\u00e7alves. Foi criado um n\u00facleo para hansen\u00edase, que no momento tinha uma demanda de controle e o advento da poliquimioterapia para seu tratamento necessitava esfor\u00e7os focados. Havia necessidade de um setor apenas para se tratar de Aids.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lair Guerra era bi\u00f3loga e havia retornado dos Estados Unidos em 1982, onde havia trabalhado com pesquisas envolvendo clam\u00eddias no CDC em Atlanta. Em 1984 realizou a\u00e7\u00f5es de controle de ISTs ainda no Programa de Assist\u00eancia Integral \u00e0 Sa\u00fade da Mulher. Durante esse per\u00edodo, confeccionou em parceria com a Divis\u00e3o de Dermatologia Sanit\u00e1ria materiais sobre IST, quando em 1985 realizaram um espa\u00e7o destinado a Aids.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1985, Lair Guerra \u00e9 convidada por Maria Leide a integrar o n\u00facleo destinado a Aids. Lair Guerra, no mesmo ano, iniciou trabalhos de capacita\u00e7\u00e3o pelo Pa\u00eds. Al\u00e9m disso, representou o Brasil na Primeira Confer\u00eancia Internacional sobre Aids em Atlanta, onde reivindicou ajuda financeira aos pa\u00edses de baixa renda para o combate a Aids. A partir de ent\u00e3o tornou-se uma mulher fundamental pra a consolida\u00e7\u00e3o do Programa Nacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A bi\u00f3loga exerceu por duas vezes o cargo da chefia do Programa Nacional de Aids. Embora seja lembrada tamb\u00e9m pela dificuldade de di\u00e1logo com ONGs e movimentos sociais, bem como por um modo conservador de pensar a Aids, ela \u00e9 sem d\u00favida uma pessoa que se doou para a consolida\u00e7\u00e3o de um programa de excel\u00eancia no Pa\u00eds.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">A consolida\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas federais<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir da cria\u00e7\u00e3o de um setor exclusivo para Aids, foi poss\u00edvel estruturar um programa nacional. Ap\u00f3s o Congresso de Canela, nasceu a Comiss\u00e3o Nacional de DST\/Aids e Hepatites Virais. Essa comiss\u00e3o era integrada pelo movimento social homossexual e de Aids, universidades, membros das secretarias estaduais de sa\u00fade, membros das Igrejas presbiteriana e cat\u00f3lica e pessoas de diversos minist\u00e9rios. Apenas de poder consultivo, podia ajudar o minist\u00e9rio a definir estrat\u00e9gias e exercer o que viria a ser o controle social na forma\u00e7\u00e3o do SUS.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro n\u00facleo do Programa Nacional de Aids foi ent\u00e3o formado por Lair Guerra, o epidemiologista Euclides de Castilho, o sanitarista Pedro Chequer e a bi\u00f3loga da dermatologia sanit\u00e1ria Miriam Franchini. A partir de ent\u00e3o iniciou uma tentativa de parceria com os estados para adquirir mais experi\u00eancias, como S\u00e3o Paulo e Rio Grande do Sul. Al\u00e9m disso, viagens a todos os cantos do Pa\u00eds para capacitar profissionais e ajudar a estruturar programas. Em 1986, o antigo Programa Mundial de Aids da OMS libera uma verba de 500 mil d\u00f3lares anuais para o enfrentamento da epidemia no Pa\u00eds. A equipe tem mais recursos e come\u00e7a a crescer. Em 1989, o Programa Previna foi criado, por\u00e9m criticado por n\u00e3o fazer uma abordagem adequada de redu\u00e7\u00e3o de danos em usu\u00e1rios de drogas injet\u00e1veis, bem como n\u00e3o ser assertivo sobre o uso de preservativos.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Tratamento e financiamento<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir do in\u00edcio de 1988, a zidovudina, primeiro antirretroviral, estava dispon\u00edvel para compra. O Minist\u00e9rio da Sa\u00fade n\u00e3o quis comprar a droga, por entender que recursos destinados ao tratamento deveriam vir do Minist\u00e9rio da Previd\u00eancia. Em contrapartida, os estados iniciaram processos de compra independentes. Apenas em 1991 a primeira compra dos antirretrovirais foi realizada, atrav\u00e9s do Minist\u00e9rio da Previd\u00eancia. Al\u00e9m do AZT, comprou-se didanosina e medica\u00e7\u00f5es para tratar as infec\u00e7\u00f5es oportunistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1992 o Banco Mundial liberou um empr\u00e9stimo para o Brasil combater a Aids. Um dos pilares necess\u00e1rios era a descentraliza\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es entre estados e munic\u00edpios, o que foi muito importante para a consolida\u00e7\u00e3o dos programas localmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-71506 size-large\" src=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/HIV-plus-orange-biz-1024x614.jpg\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/HIV-plus-orange-biz-1024x614.jpg 1024w, https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/HIV-plus-orange-biz-300x180.jpg 300w, https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/HIV-plus-orange-biz-768x461.jpg 768w, https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/HIV-plus-orange-biz.jpg 1200w\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"614\" \/><\/p>\n<div id=\"D_interna_middle2\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s a segunda gest\u00e3o de Lair Gomes, em 1996 Pedro Chequer assume o Programa, com sua gest\u00e3o marcada pela efici\u00eancia de comunica\u00e7\u00e3o com a sociedade civil, imprensa e movimentos sociais. Em sua gest\u00e3o houve uma press\u00e3o de ONGs para a produ\u00e7\u00e3o nacional de medica\u00e7\u00f5es, ap\u00f3s a Confer\u00eancia Internacional de Aids em Vancouver ter divulgado o \u00eaxito da associa\u00e7\u00e3o de tr\u00eas medica\u00e7\u00f5es no controle da replica\u00e7\u00e3o viral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pedro Chequer ent\u00e3o autoriza a produ\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da Farmanguinhos das medica\u00e7\u00f5es para Aids cujas patentes j\u00e1 haviam sido quebradas. Inicia-se um dos maiores programas de assist\u00eancia farmac\u00eautica de Aids do mundo, com disponibiliza\u00e7\u00e3o de medica\u00e7\u00f5es de ponta at\u00e9 hoje para os pacientes atrav\u00e9s do Sistema \u00danico de Sa\u00fade.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Discurso moral e preconceituoso persiste<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde o primeiro relato oficial da doen\u00e7a pelos Estados Unidos, j\u00e1 se apelida a Aids de \u201c<em>gay compromisse syndrome<\/em>\u201d. A partir desse momento, toda uma constru\u00e7\u00e3o de um discurso moral e preconceituoso pairou e ainda paira sobre a comunidade gay. A Aids fez a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade definir promiscuidade. A homossexualidade estava na lista de Classifica\u00e7\u00e3o Internacional de Doen\u00e7as. Imprensa, poder p\u00fablico e at\u00e9 mesmo profissionais de sa\u00fade passaram a lidar com moralismo e estigmas frente \u00e0 popula\u00e7\u00e3o gay.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Inicialmente, a imprensa fez uma forte campanha de estigmatiza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o homossexual. A partir da publica\u00e7\u00e3o dos casos iniciais, as revistas come\u00e7aram a atribuir \u00fanica e exclusivamente a infec\u00e7\u00e3o a gays. A revista\u00a0<em>Isto\u00c9<\/em>, na ocasi\u00e3o, ficou negativamente marcada pela popula\u00e7\u00e3o homossexual, ao definir a Aids como \u201cpeste gay\u201d e \u201cpraga gay\u201d. Al\u00e9m disso, in\u00fameros ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o atestavam a Aids como \u201cc\u00e2ncer gay\u201d, reafirmando atrav\u00e9s da doen\u00e7a uma premissa de costumes e valores morais na sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos hospitais que iniciaram o atendimento da doen\u00e7a, na maioria das vezes os profissionais de sa\u00fade eram os primeiros a recusar o atendimento, por n\u00e3o saber do que a doen\u00e7a se tratava. As iniciativas de alas para Aids em muitos centros foram criticadas por m\u00e9dicos e diretores hospitalares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Abordar Aids, na d\u00e9cada de 1980, era abordar o preconceito, a exclus\u00e3o de um segmento populacional e a moraliza\u00e7\u00e3o de valores e costumes. Estar em contato com isso era lidar diariamente com perguntas e a\u00e7\u00f5es ofensivas e preconceituosas. S\u00f3 com a confirma\u00e7\u00e3o de adoecimento por Aids ap\u00f3s transfus\u00f5es de sangue fez com que essa marca diminu\u00edsse. Entretanto, at\u00e9 hoje a popula\u00e7\u00e3o gay \u00e9 associada a Aids e sofre preconceito e estigma por conta disso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Falar e entender a hist\u00f3ria das pol\u00edticas p\u00fablicas de HIV\/Aids \u00e9 mergulhar num universo de hist\u00f3rias comoventes, de lutas importantes e de exclus\u00e3o e preconceito. Ao longo desses quase 40 anos, o Brasil, atrav\u00e9s de mulheres e homens com coragem e dedica\u00e7\u00e3o, de movimentos sociais com a autenticidade da fala e do acontecimento, das ONGs e suas cr\u00edticas radicais \u00e0s vis\u00f5es moralizantes na constru\u00e7\u00e3o do enfrentamento da epidemia, teceu uma aten\u00e7\u00e3o ao indiv\u00edduo com HIV\/Aids refer\u00eancia mundialmente. Nosso programa \u00e9 exitoso, apesar de ainda insuficiente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Precisamos lutar ainda mais por esse olhar individualizado da epidemia, que n\u00e3o para de crescer, especialmente entre segmentos mais pobres e entre mulheres transexuais e gays. A luta contra o sucateamento do Programa Nacional de Aids deve ser cont\u00ednua. Falar sobre Aids \u00e9 falar sobre sa\u00fade, \u00e9 informar sem estigmatizar e entender os diversos olhares sobre o mundo. Lutar contra a Aids \u00e9, antes de mais nada, uma luta por direitos humanos.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/article>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Falar sobre HIV\/Aids \u00e9 mergulhar num universo de hist\u00f3rias comoventes, de lutas importantes e de exclus\u00e3o e preconceito<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":289312,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[6,12],"tags":[],"class_list":["post-289311","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-municipios","category-saude"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/HIV-Pixabay-768x461.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/289311","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=289311"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/289311\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/289312"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=289311"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=289311"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=289311"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}