{"id":289723,"date":"2019-07-19T09:58:58","date_gmt":"2019-07-19T12:58:58","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=289723"},"modified":"2019-07-19T09:58:58","modified_gmt":"2019-07-19T12:58:58","slug":"achei-que-isso-nunca-aconteceria-comigo-o-que-leva-maes-a-matarem-seus-bebes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/achei-que-isso-nunca-aconteceria-comigo-o-que-leva-maes-a-matarem-seus-bebes\/","title":{"rendered":"&#8216;Achei que isso nunca aconteceria comigo&#8217;: o que leva m\u00e3es a matarem seus beb\u00eas"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\"><\/h1>\n<div class=\"byline\"><span class=\"byline__name\">Olesya Gerasimenko e Svetlana Reiter<\/span><\/div>\n<div class=\"with-extracted-share-icons\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share-row\">\n<div class=\"share-tools--no-event-tag\">\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-twite\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape no-caption full-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/976\/cpsprodpb\/0A03\/production\/_107836520_66411321_2370905189633216_5017159101860282368_n.jpg\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00e3o de mulher com m\u00e3os na cabe\u00e7a\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"976\" \/><\/span><\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">V\u00e1rias dezenas de mulheres s\u00e3o julgadas todos os anos na R\u00fassia acusadas de matarem seus pr\u00f3prios filhos. Elas t\u00eam perfis que \u200b\u200bvariam de donas de casa a gestoras de neg\u00f3cios de sucesso.<\/p>\n<p>Esse n\u00e3o \u00e9 um problema exclusivamente russo, \u00e9 claro. Nos Estados Unidos, pesquisadores na \u00e1rea de Psicologia estimam que 1 em cada 4 m\u00e3es tenha pensamentos ligados \u00e0 morte de seus beb\u00eas.<\/p>\n<p>Mas na R\u00fassia, como em muitos outros pa\u00edses, tem prevalecido a cultura de que voc\u00ea precisa ser firme para sobreviver e que \u00e9 melhor n\u00e3o falar sobre problemas de sa\u00fade mental &#8211; voc\u00ea deve apenas seguir em frente.<\/p>\n<p>Essas hist\u00f3rias mostram que a depress\u00e3o p\u00f3s-parto com frequ\u00eancia n\u00e3o \u00e9 diagnosticada ou n\u00e3o \u00e9 tratada a tempo, e por vezes nem mesmo parentes pr\u00f3ximos conseguem perceber ou entender o que est\u00e1 acontecendo at\u00e9 que, em alguns casos, seja tragicamente tarde demais.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Tabus<\/h2>\n<p>As jornalistas da BBC R\u00fassia Olesya Gerasimenko e Svetlana Reiter conversaram com mulheres na R\u00fassia para tentar descobrir por que m\u00e3es matam seus beb\u00eas.<\/p>\n<p>As investiga\u00e7\u00f5es delas revelam que, para aumentar a chance de evitar a trag\u00e9dia do infantic\u00eddio, precisamos desmantelar mitos sobre a maternidade e quebrar tabus para falar sobre as realidades da enorme tens\u00e3o que atinge a maioria das mulheres.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape no-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/DF0B\/production\/_107899075_barefoot_p.png\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00e3o de uma mulher com beb\u00ea no colo\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Alyona<\/h2>\n<p>A economista Alyona e seu marido Pyotr estavam animados por estarem esperando um beb\u00ea.<\/p>\n<p>Eles compraram roupas e um carrinho de beb\u00ea e Alyona foi para o curso de pr\u00e9-natal. Mas ningu\u00e9m mencionou os problemas psicol\u00f3gicos que uma nova m\u00e3e poderia ter.<\/p>\n<p>Depois que o beb\u00ea nasceu, a nova m\u00e3e desenvolveu ins\u00f4nia e disse que n\u00e3o conseguia lidar com isso.<\/p>\n<p>Como no passado havia passado por um epis\u00f3dio psic\u00f3tico, um psiquiatra lhe deu alguns rem\u00e9dios, que ajudaram um pouco.<\/p>\n<p>Um dia Pyotr chegou em casa e encontrou seu beb\u00ea de sete meses morto na banheira. S\u00f3 mais tarde encontrou Alyona em um lago nos sub\u00farbios de Moscou. Depois de afogar o beb\u00ea, ela bebeu uma garrafa de vodca, com a inten\u00e7\u00e3o de se afogar, e perdeu a consci\u00eancia.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape no-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/10216\/production\/_107807066_66317658_349911512357881_1367896536305893376_n.jpg\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00e3o de mulher com as m\u00e3os no rosto\" width=\"1920\" height=\"360\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span><\/figure>\n<p>Agora ela est\u00e1 sendo julgada.<\/p>\n<p>Atormentado, Pyotr vai a cada audi\u00eancia do caso de Alyona e tenta confort\u00e1-la enquanto ela est\u00e1 sentada no banco dos r\u00e9us.<\/p>\n<p>Ele est\u00e1 convencido de que tudo isso poderia ter sido evitado se algu\u00e9m tivesse mencionado a depress\u00e3o p\u00f3s-parto para Alyona.<\/p>\n<p>&#8220;Ela n\u00e3o teve nenhuma m\u00e1 inten\u00e7\u00e3o. Teve um colapso psicol\u00f3gico&#8221;, diz ele. &#8220;Se ela tivesse sido atendida pelo m\u00e9dico certo, se eu a tivesse levado para o hospital quando ela me pediu, isso nunca teria acontecido.&#8221;<\/p>\n<p>Criminologistas russos relatam que 80% das mulheres foram ao m\u00e9dico antes de matar seus beb\u00eas, com queixas de dores de cabe\u00e7a, ins\u00f4nia ou menstrua\u00e7\u00e3o irregular.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape no-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/56B2\/production\/_107849122_women_thin3_p.png\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00e3o de um julgamento\" width=\"976\" height=\"183\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Quem s\u00e3o elas?<\/h2>\n<p>Na lei russa, o assassinato de uma crian\u00e7a por sua m\u00e3e \u00e9 chamado de filic\u00eddio &#8211; um crime que \u00e9 um tabu.<\/p>\n<p>Em 2018, 33 casos desse tipo foram julgados na R\u00fassia. E criminologistas estimam que h\u00e1 oito vezes mais ocorr\u00eancias desse tipo que nunca chegam aos tribunais.<\/p>\n<p>&#8220;Tr\u00eas ou quatro das 20 camas da ala das mulheres est\u00e3o ocupadas todos os meses por m\u00e3es que mataram seus filhos&#8221;, diz Margarita Kachaeva, psiquiatra forense e principal pesquisadora do Serbsky Institute of Psychiatry, em Moscou.<\/p>\n<p>Uma contadora, uma professora, uma mulher desempregada, uma assistente social, uma gar\u00e7onete, uma estudante de escola de design, a m\u00e3e de uma grande fam\u00edlia, uma assistente de loja: as cerca de 30 mulheres cujas hist\u00f3rias foram examinadas pela BBC russa eram todas diferentes.<\/p>\n<p>Apesar dos estere\u00f3tipos, a verdade \u00e9 que muitas mulheres que matam seus filhos t\u00eam maridos, lares, empregos e n\u00e3o t\u00eam v\u00edcios.<\/p>\n<p>Os m\u00e9dicos sabem que, ap\u00f3s o parto, doen\u00e7as mentais latentes podem subitamente acelerar.<\/p>\n<p>As mulheres podem ter uma condi\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica que n\u00e3o se manifesta na vida cotidiana, mas que pode ser despertada por qualquer um dos tr\u00eas eventos que sobrecarregam o organismo de uma mulher com maior intensidade &#8211; gravidez, ter um beb\u00ea ou menopausa.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape no-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/1061B\/production\/_107899076_window_p.png\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00e3o de uma mulher com crian\u00e7a no colo\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;Olha, parece que eu matei o beb\u00ea&#8217;<\/h2>\n<p>Anna, de 38 anos, \u00e9 professora e seus filhos de 18 e 10 anos estavam ansiosos pelo nascimento da beb\u00ea que seus pais tanto queriam.<\/p>\n<p>Depois, em 7 de julho de 2018, ela mesma telefonou para a ambul\u00e2ncia. Estava com dores terr\u00edveis &#8211; que vinham desde antes do nascimento &#8211; e as sensa\u00e7\u00f5es pioraram.<\/p>\n<p>Anna sentiu que n\u00e3o conseguia aguentar a situa\u00e7\u00e3o e um psic\u00f3logo aconselhou-a a relaxar.<\/p>\n<p>Enquanto o marido ia trabalhar em Moscou, ela deixou as crian\u00e7as com uma amiga dizendo que ia comprar uma cama. Em vez disso, ela foi visitar o t\u00famulo de sua m\u00e3e.<\/p>\n<p>No dia seguinte, ela saiu descal\u00e7a com o beb\u00ea e n\u00e3o conseguiu explicar aos policiais que a pararam para onde ela estava indo.<\/p>\n<aside class=\"quote\">\n<div class=\"quote-inner\">\n<blockquote class=\"quote\"><p>Uma mulher que matou uma crian\u00e7a enquanto estava doente mentalmente pode ter vivido uma vida completamente normal antes do incidente.<\/p>\n<footer>Margarita Kachaeva, Psiquiatra forense<\/footer>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/aside>\n<p>A sogra de Anna a levou para casa e foi quando &#8211; como a corte est\u00e1 tentando confirmar &#8211; Anna teria tentado sufocar o beb\u00ea com um travesseiro.<\/p>\n<p>Quando a ambul\u00e2ncia chegou, no dia 7 de julho, Anna disse ao m\u00e9dico: &#8220;Olha, parece que eu matei o beb\u00ea&#8221;.<\/p>\n<p>Os m\u00e9dicos conseguiram reanimar o beb\u00ea e Anna foi hospitalizada.<\/p>\n<p>Ela foi diagnosticada com esquizofrenia cr\u00f4nica.<\/p>\n<p>&#8220;Voc\u00ea tem que entender que n\u00e3o \u00e9 uma insanidade total. Uma mulher que matou uma crian\u00e7a enquanto estava doente mentalmente pode ter vivido uma vida completamente normal antes do incidente&#8221;, explica a psiquiatra Kachaeva.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;\u00c9 melhor para ele. Eu sou uma m\u00e3e t\u00e3o ruim&#8217;<\/h2>\n<p>Arina, de 21 anos, pulou de seu apartamento no 9\u00ba andar com o beb\u00ea dela nos bra\u00e7os.<\/p>\n<p>O marido dela estava no servi\u00e7o militar quando o beb\u00ea nasceu e a tratou de forma grosseira depois que, em seu retorno, a encontrou em um estado depressivo.<\/p>\n<p>Ela morava com os pais havia um ano. Um dia antes de sua tentativa de suic\u00eddio e filic\u00eddio, ligou para a pol\u00edcia dizendo que o marido estava afiando uma faca para mat\u00e1-la.<\/p>\n<p>Milagrosamente, m\u00e3e e beb\u00ea sobreviveram \u00e0 queda e Arina foi levada para o hospital e, depois, foi detida pela pol\u00edcia.<\/p>\n<p>Psiquiatras deram o diagn\u00f3stico de esquizofrenia.<\/p>\n<p>M\u00e3es com esquizofrenia e m\u00e3es com depress\u00e3o muitas vezes apresentam as mesmas raz\u00f5es para matar seus filhos.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 melhor para ele. Eu sou uma m\u00e3e t\u00e3o ruim.&#8221; &#8220;\u00c9 um mundo t\u00e3o terr\u00edvel, \u00e9 melhor para a crian\u00e7a n\u00e3o viver nele.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Ap\u00f3s o crime, elas nunca conseguem ficar em paz e se matam na primeira, segunda ou terceira tentativa&#8221;, diz a psiquiatra Kachaeva.<\/p>\n<p>Ela explica que, quando algu\u00e9m da fam\u00edlia consegue intervir, as mulheres s\u00e3o frequentemente levadas ao instituto em que trabalha.<\/p>\n<p>Ao receberem o tratamento adequado, seis meses em geral s\u00e3o suficientes para a recupera\u00e7\u00e3o completa.<\/p>\n<p>Na R\u00fassia, os tribunais decidem o tipo de senten\u00e7a que ser\u00e1 dado \u00e0s m\u00e3es que mataram seus filhos.<\/p>\n<p>Se os psic\u00f3logos forenses n\u00e3o conclu\u00edrem que a m\u00e3e tem problemas graves de sa\u00fade mental, ela pode receber uma longa senten\u00e7a de pris\u00e3o.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape no-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/12D2B\/production\/_107899077_women_thin1_p.png\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00e3o\" width=\"976\" height=\"183\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span><\/figure>\n<p>A maioria dessas mulheres sofreu abusos quando crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Pesquisa feita por psiquiatras forenses russos mostra que 80% das mulheres que cometem infantic\u00eddio cresceram em fam\u00edlias pobres e, delas, 85% tiveram conflitos em seus casamentos.<\/p>\n<p>Relacionamentos dif\u00edceis com os pais podem estar na raiz da agress\u00e3o a um beb\u00ea, que as m\u00e3es infanticidas mascaram com amor excessivo.<\/p>\n<p>&#8220;Ser v\u00edtima de viol\u00eancia dom\u00e9stica \u00e9 um fator muito significativo para esses tipos de crimes no futuro&#8221;, diz Kachaeva.<\/p>\n<p>&#8220;A maioria dessas mulheres foi abusada quando crian\u00e7a &#8211; emocionalmente, sexualmente ou fisicamente&#8221;.<\/p>\n<p>Muitos advogados se recusam a defender mulheres que mataram seus beb\u00eas.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape no-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/1543B\/production\/_107899078_fire_p.png\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00e3o de uma mulher olhando uma fogueira\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;Achei que isso nunca aconteceria comigo&#8217;<\/h2>\n<p>&#8220;Os administradores das pris\u00f5es costumam manter em sigilo quem s\u00e3o os assassinos de beb\u00eas que cumprem penas entre seus prisioneiros&#8221;, diz Marina Kleshcheva, atriz condenada por um crime diferente.<\/p>\n<p>&#8220;Eu me deparei com eles, \u00e9 claro, mas a menos que algu\u00e9m de sua cidade natal espalhe a not\u00edcia, ningu\u00e9m sabe por que eles est\u00e3o l\u00e1. Eles n\u00e3o t\u00eam nenhum amigo no pres\u00eddio, ficam muito quietos e cuidam de si mesmos porque, se se envolverem em qualquer discuss\u00e3o, algu\u00e9m pode acabar com eles.&#8221;<\/p>\n<p>Yakov Kochetov, psic\u00f3logo cl\u00ednico em Moscou, diz que as mulheres rejeitam seus pr\u00f3prios pensamentos assassinos e projetam sua raiva nos outros como um mecanismo de defesa.<\/p>\n<p>&#8220;Se voc\u00ea tentar entender uma mulher e sentir compaix\u00e3o por ela, voc\u00ea precisa conhecer os sentimentos que ela tem. E ningu\u00e9m quer conhecer esses sentimentos.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape no-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/17B4B\/production\/_107899079_pram_p.png\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00e3o de mulher com carrinho de beb\u00ea\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span><\/figure>\n<p>&#8220;Eu costumava condenar esses tipos de m\u00e3es. Achei que isso nunca aconteceria comigo&#8221;, diz Tatiana, de 33 anos, especialista que trabalha com clientes corporativos em uma grande empresa de telecomunica\u00e7\u00f5es. &#8220;Vendas, viagens de neg\u00f3cios, amigos, e eu realmente queria um beb\u00ea. Senti que est\u00e1vamos t\u00e3o bem preparados quanto era poss\u00edvel, mas acabou sendo diferente.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;O parto foi realmente dif\u00edcil, e as parteiras foram duras. Depois comecei a ter &#8216;flashbacks&#8217; do nascimento, sonhos v\u00edvidos e dolorosos, e eu acordava com o cora\u00e7\u00e3o batendo forte. Depois tive mastite, engordei, tive \u00falceras, meu cabelo caindo&#8230; Tudo me fez sentir uma raiva crescente em rela\u00e7\u00e3o ao meu beb\u00ea &#8211; como se ele tivesse roubado minha vida.&#8221;<\/p>\n<p>Quando o beb\u00ea n\u00e3o dormia \u00e0 noite ou chorava, Tatiana desmoronava. &#8220;Esse choro faz sua cabe\u00e7a explodir e traz de volta todos os problemas da sua pr\u00f3pria inf\u00e2ncia&#8221;, lembra Tatiana.<\/p>\n<p>&#8220;Eu tinha essa ideia de que tinha que lidar com tudo. Eu estava hist\u00e9rica e sacudi o beb\u00ea com for\u00e7a quando o estava balan\u00e7ando para dormir. Ele ficou assustado e come\u00e7ou a chorar mais. Ent\u00e3o, com todas as minhas for\u00e7as, eu joguei ele cama e gritei: &#8216;Seria melhor se voc\u00ea estivesse morto!&#8217;, e algo ainda mais duro. E ent\u00e3o eu estava super envergonhada e sentido culpa por n\u00e3o poder desfrutar da maternidade.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape no-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/1B6C\/production\/_107902070_hearingvoices_p.png\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00e3o de mulher com m\u00e3os na cabe\u00e7a\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span><\/figure>\n<p>Tatiana conta que seu marido disse que ela estava causando danos psicol\u00f3gicos \u00e0 crian\u00e7a. Ele ignorou as queixas dela dizendo: &#8220;Voc\u00ea \u00e9 uma m\u00e3e, n\u00e3o \u00e9? Por que os outros podem fazer isso e voc\u00ea n\u00e3o pode? Em primeiro lugar, por que voc\u00ea teve esse beb\u00ea?&#8221;<\/p>\n<p>Um ano se passou e as coisas s\u00f3 pioraram. Considerando o suic\u00eddio, Tatiana procurou um psic\u00f3logo. &#8220;Eu pensei que uma m\u00e3e t\u00e3o horr\u00edvel e desprez\u00edvel como eu deveria ser eliminada da Terra e que meu beb\u00ea merecia uma m\u00e3e melhor. Seria mais f\u00e1cil eu me matar do que suportar a dor psicol\u00f3gica. Eu tinha muitas crises assim. O psic\u00f3logo respondeu imediatamente e me ajudou.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Preven\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>Quando surge a quest\u00e3o da preven\u00e7\u00e3o do filic\u00eddio, tendemos a falar sobre o incentivo ao uso de contraceptivos. Mas m\u00e9dicos russos e ocidentais tamb\u00e9m mencionam a import\u00e2ncia de estar alerta para problemas psicol\u00f3gicos nas m\u00e3es, particularmente a depress\u00e3o p\u00f3s-parto.<\/p>\n<p>&#8220;Idealmente, antes do nascimento, voc\u00ea considerar\u00e1 todos os cen\u00e1rios poss\u00edveis, discutir\u00e1 suas rela\u00e7\u00f5es com sua pr\u00f3pria m\u00e3e, como se sente em rela\u00e7\u00e3o a si mesmo e a seu parceiro e pensar\u00e1 em como isso afetar\u00e1 seu estado ap\u00f3s o nascimento&#8221;, diz a psic\u00f3loga Marina Bilobram. &#8220;N\u00e3o deveria haver s\u00f3 cartazes de m\u00e3es sorridentes com beb\u00eas angelicais, mas tamb\u00e9m explica\u00e7\u00f5es de como esse processo pode ser de outra forma.&#8221;<\/p>\n<p>Margarita Kachaeva diz: &#8220;Temos em Moscou centros para mulheres em crise e eles est\u00e3o abertos a v\u00edtimas de viol\u00eancia dom\u00e9stica e a mulheres que sofrem de depress\u00e3o. Mas esses centros est\u00e3o meio vazios porque as mulheres t\u00eam medo de ir falar sobre seus problemas, de ter seus filhos levados para longe delas, e elas t\u00eam receio, pelo mesmo motivo, de ir ao psiquiatra local e t\u00eam medo de dizer a seus maridos e familiares por medo de serem mandadas calar a boca.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Os nomes das pessoas citadas neste artigo foram alterados para proteger os direitos das crian\u00e7as que foram afetadas.<\/strong><\/p>\n<p><i>Ilustra<\/i><i>\u00e7\u00f5es de<\/i><i>\u00a0Tatiana Ospennikova<\/i><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Idealmente, antes do nascimento, voc\u00ea considerar\u00e1 todos os cen\u00e1rios poss\u00edveis, discutir\u00e1 suas rela\u00e7\u00f5es com sua pr\u00f3pria m\u00e3e, como se sente em rela\u00e7\u00e3o a si mesmo e a seu parceiro e pensar\u00e1 em como isso afetar\u00e1 seu estado ap\u00f3s o nascimento&#8221;, diz a psic\u00f3<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":289725,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[6,11],"tags":[],"class_list":["post-289723","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-municipios","category-regional"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/mae-desesperada-1.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/289723","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=289723"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/289723\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/289725"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=289723"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=289723"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=289723"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}