{"id":289832,"date":"2019-07-20T15:14:47","date_gmt":"2019-07-20T18:14:47","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=289832"},"modified":"2019-07-20T15:14:47","modified_gmt":"2019-07-20T18:14:47","slug":"morre-agnes-heller-a-filosofa-da-vida-cotidiana-que-sobreviveu-ao-holocausto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/morre-agnes-heller-a-filosofa-da-vida-cotidiana-que-sobreviveu-ao-holocausto\/","title":{"rendered":"Morre Agnes Heller, a fil\u00f3sofa da vida cotidiana que sobreviveu ao Holocausto"},"content":{"rendered":"<div class=\"articulo__apertura\">\n<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div class=\"articulo-encabezado-texto\">\n<div id=\"articulo-titulares\" class=\"articulo-titulares\">\n<h1 id=\"articulo-titulo\" class=\"articulo-titulo \" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"articulo-subtitulos\" style=\"text-align: justify;\">\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\">Foi uma das pensadoras mais influentes do s\u00e9culo XX, autora de uma ampla obra que refletiu sobre a hist\u00f3ria e a raz\u00e3o<\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<figure class=\"foto centro foto_w980\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2019\/07\/20\/actualidad\/1563613892_827024_1563617154_noticia_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2019\/07\/20\/actualidad\/1563613892_827024_1563617154_noticia_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2019\/07\/20\/actualidad\/1563613892_827024_1563617154_noticia_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2019\/07\/20\/actualidad\/1563613892_827024_1563617154_noticia_normal.jpg 980w\" alt=\"agnes heller\" width=\"980\" height=\"551\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">\u00c1gnes Heller, em Budapeste em agosto de 2017.<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">ZS\u00d3FIA P\u00c1LYI<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Era chocante o contraste entre o f\u00edsico de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/agnes_heller\">Agnes Heller<\/a>, a fil\u00f3sofa h\u00fangara morta nesta sexta-feira aos 90 anos, e a for\u00e7a do seu pensamento e da sua biografia. Mi\u00fada e s\u00f3 aparentemente fr\u00e1gil, sobreviveu ao\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/holocausto\">Holocausto<\/a>\u00a0em Budapeste\u00a0\u2014 metade do milh\u00e3o de judeus assassinados em\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/auschwitz\">Auschwitz<\/a> era h\u00fangara \u2014 e \u00e0 repress\u00e3o stalinista posterior \u00e0 Segunda Guerra Mundial, que a obrigou a se exilar durante d\u00e9cadas. Nos Estados Unidos e na Austr\u00e1lia, por\u00e9m, ela elaborou um pensamento baseado num profundo conhecimento da hist\u00f3ria, mas tamb\u00e9m da vida cotidiana, situado entre a filosofia e a sociologia, que conseguiu atravessar fronteiras para torn\u00e1-la uma das pensadoras mais influentes da segunda metade do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Obras como\u00a0<em>O Cotidiano e a Hist\u00f3ria<\/em>\u00a0(Paz e Terra),\u00a0<em>Historia y futuro \u00bfsobrevivir\u00e1 la modernidad?<\/em>,\u00a0<em>El hombre del renacimiento<\/em>,\u00a0<em>Cr\u00edtica de la ilustraci\u00f3n<\/em>\u00a0e\u00a0<em>Para cambiar la vida<\/em>\u00a0s\u00e3o alguns dos t\u00edtulos editados na Espanha, onde seu pensamento encontrou uma ampla difus\u00e3o. Foi colaboradora habitual do EL PA\u00cdS desde os anos oitenta e publicou seu \u00faltimo artigo neste jornal em abril passado, sobre o tema que mais a preocupava no momento: a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/04\/18\/actualidad\/1555585620_542476.html\">guinada autorit\u00e1ria<\/a>\u00a0do primeiro-ministro h\u00fangaro Viktor Orban e o perigo que isso representava para a democracia na Europa. Como sobrevivente dos totalitarismos nazista e sovi\u00e9tico, ela sabia perfeitamente quais podiam ser as consequ\u00eancias de ficar de bra\u00e7os cruzados ante um ataque contra as liberdades.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Heller considerava que a hist\u00f3ria n\u00e3o se repetiria e pensava que est\u00e1vamos muito longe dos anos trinta. Ao mesmo tempo, por\u00e9m, estava convencida de que a democracia corria perigo em alguns pa\u00edses da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/europa\">Europa<\/a>, lembrando que o Estado de direito n\u00e3o se baseia apenas no voto. Tamb\u00e9m se preocupava com o ataque contra a raz\u00e3o por parte do extremismo isl\u00e2mico e a amea\u00e7a que o nacionalismo representa para a Uni\u00e3o Europeia. Foi uma importante pensadora feminista. \u201c\u00c9 a \u00fanica revolu\u00e7\u00e3o que n\u00e3o considero problem\u00e1tica e \u00e9 a maior do nosso tempo, porque n\u00e3o \u00e9 uma mobiliza\u00e7\u00e3o contra um per\u00edodo hist\u00f3rico, e sim contra todos os per\u00edodos. A \u00fanica totalmente positiva, talvez junto com o desenvolvimento dos\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/derechos_humanos\">direitos humanos<\/a>.\u201d<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Este jornal a entrevistou em Budapeste no ver\u00e3o de 2017. Vivia num luminoso e desarrumado apartamento com uma vista impressionante para o Dan\u00fabio, repleto de livros e revistas sobre temas de todo tipo, que mostravam que sua enorme curiosidade intelectual nunca se apagou. A Academia H\u00fangara de Ci\u00eancias anunciou sua morte na noite desta sexta-feira, sem especificar a causa. Segundo o site h\u00fangaro 444.hu, ela faleceu enquanto nadava no lado Balaton, onde muitos cidad\u00e3os da Europa comunista passavam as f\u00e9rias. Curiosamente, foi ali que come\u00e7ou a ruir a Cortina de Ferro quando milhares de cidad\u00e3os da Alemanha Oriental que estavam na Hungria tiveram permiss\u00e3o para abandonar o pa\u00eds rumo ao Ocidente.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Heller n\u00e3o tinha problema algum para responder a perguntas sobre todo tipo de assunto, nem para recordar o Holocausto. Narrava a forma como sobreviveu \u00e0 Sho\u00e1, quando os nazistas, apoiados pelos fascistas h\u00fangaros do Partido da Cruz Flechada, organizaram a deporta\u00e7\u00e3o dos judeus de Budapeste a Auschwitz e depois o seu assassinato em massa na pr\u00f3pria cidade, quando, ante a imin\u00eancia da chegada dos sovi\u00e9ticos, os trens deixaram de sair. \u201cComo todas as pessoas que conseguiram sair vivas daquilo, foi por acidente. Meu pai foi assassinado em Auschwitz, minha m\u00e3e e eu estivemos a ponto de morrer, mas de alguma forma nos livramos. Os fascistas h\u00fangaros mataram muitos judeus junto ao Dan\u00fabio, mas pararam antes de chegar \u00e0 nossa casa. Tamb\u00e9m dispararam contra mim, mas, como sou baixa, o tiro passou por cima da minha cabe\u00e7a. Em outro momento, nos colocaram numa fila. Soube que n\u00e3o dev\u00edamos ficar ali porque nos matariam, e conseguimos fugir. Mas tudo isso n\u00e3o foi sorte, e sim instinto.\u201d<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/segunda_guerra_mundial\">Segunda Guerra Mundial<\/a>, Agnes estudou e depois ensinou filosofia na chamada Escola de Budapeste, encabe\u00e7ada pelo fil\u00f3sofo marxista Georg Luk\u00e1cs. Depois da invas\u00e3o sovi\u00e9tica de 1956, que reprimiu uma tentativa de liberta\u00e7\u00e3o do regime comunista h\u00fangaro, Heller se tornou dissidente e acabou se exilando, primeiro como professora em Melbourne (Austr\u00e1lia) e depois na New School for Social Research de Nova York. At\u00e9 o fim de seus dias, deu palestras e semin\u00e1rios pelo mundo todo.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Como outros fil\u00f3sofos pegos no turbilh\u00e3o do s\u00e9culo XX, Agnes Heller refletiu sobre o Iluminismo e sobre como se poderia ter passado da esperan\u00e7a despertada pela raz\u00e3o\u00a0\u2014 no\u00e7\u00e3o que devia a pensadores da modernidade como Spinoza e Kant\u00a0\u2014 aos horrores do totalitarismo. Foi marxista no in\u00edcio, mas logo se desvinculou de qualquer marco te\u00f3rico que cerceasse sua vontade de buscar respostas.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Heller perdeu a confian\u00e7a na raz\u00e3o, porque sem ela n\u00e3o poderiam ter constru\u00eddo os campos nazistas e sovi\u00e9ticos nem organizar a deporta\u00e7\u00e3o de milh\u00f5es de pessoas. Mas nunca perdeu a confian\u00e7a no ser humano. Questionada sobre suas cren\u00e7as, ela respondeu naquela entrevista: \u201cTenho que acreditar em algo? Talvez possa responder \u00e0 sua pergunta. Acredito numa coisa: as pessoas boas existem, sempre existiram e sempre existir\u00e3o. E sei quem s\u00e3o as boas pessoas.\u201d<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Heller n\u00e3o tinha problema algum para responder a perguntas sobre todo tipo de assunto, nem para recordar o Holocausto. 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