{"id":290158,"date":"2019-07-24T14:46:42","date_gmt":"2019-07-24T17:46:42","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=290158"},"modified":"2019-07-24T14:46:42","modified_gmt":"2019-07-24T17:46:42","slug":"deixem-rosa-parks-em-paz-por-que-todos-tentam-capitalizar-seu-legado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/deixem-rosa-parks-em-paz-por-que-todos-tentam-capitalizar-seu-legado\/","title":{"rendered":"Deixem Rosa Parks em paz: por que todos tentam capitalizar seu legado?"},"content":{"rendered":"<div class=\"articulo__apertura\">\n<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div class=\"articulo-encabezado-texto\">\n<div id=\"articulo-titulares\" class=\"articulo-titulares\">\n<h1 id=\"articulo-titulo\" class=\"articulo-titulo \" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"articulo-subtitulos\" style=\"text-align: justify;\">\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\"><em>Pol\u00edticos e movimentos de protesto de todo o mundo tentam capitalizar o legado da ic\u00f4nica ativista que lutou pelos direitos civis<\/em><\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"articulo-apertura \" style=\"text-align: justify;\">\n<figure class=\"foto superior foto_w980\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2019\/07\/22\/ideas\/1563788910_778391_1563789152_noticia_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2019\/07\/22\/ideas\/1563788910_778391_1563789152_noticia_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2019\/07\/22\/ideas\/1563788910_778391_1563789152_noticia_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2019\/07\/22\/ideas\/1563788910_778391_1563789152_noticia_normal.jpg 980w\" alt=\"Rosa Parks \u00e9 identificada por um policial depois de ter se recusado a ceder seu lugar em um \u00f4nibus a um passageiro de pele branca.\" width=\"980\" height=\"776\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Rosa Parks \u00e9 identificada por um policial depois de ter se recusado a ceder seu lugar em um \u00f4nibus a um passageiro de pele branca.<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">UNDERWOOD ARCHIVES \/ GETTY IMAGES<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"firma \">\n<div class=\"autor\">\n<div class=\"autor-texto\"><span class=\"autor-nombre\"><a title=\"Ver todas as not\u00edcias de Amanda Mars\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/amanda_mars\/a\/\">AMANDA MARS<\/a><\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O soci\u00f3logo Mike Godwin determinou que \u00e0 medida que uma conversa se prolonga, as possibilidades de que algu\u00e9m fa\u00e7a uma compara\u00e7\u00e3o com\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/adolf_hitler\">Hitler<\/a>\u00a0ou com o\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/nazismo\">nazismo<\/a>\u00a0se aproximam de 1. Chega um momento da discuss\u00e3o em que algu\u00e9m menciona a Alemanha nazista e aquilo descarrila. \u00c9 a chamada lei de Godwin, e agora est\u00e1 come\u00e7ando a ser necess\u00e1rio que as probabilidades de que algu\u00e9m se compare com\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/rosa_parks\">Rosa Parks<\/a>\u00a0tamb\u00e9m sejam reconhecidas. Em 1\u00ba de dezembro de 1955, em Montgomery, capital do estado sulista do Alabama, esta mulher marcou o que \u00e9 considerado o in\u00edcio mais ou menos oficial do movimento pelos direitos civis dos negros, ao se recusar a ceder seu lugar a um passageiro branco em um \u00f4nibus urbano, desobedecendo assim \u00e0s normas. Atualmente a hist\u00f3rica ativista est\u00e1 cheia de sucessores, das mais inesperadas causas, que se veem perfeitamente refletidos nela.<\/p>\n<div id=\"elpais_gpt-INTEXT\" style=\"text-align: justify;\" data-google-query-id=\"CLDLx9mNzuMCFQ13wQod6bsHCA\">\n<div id=\"google_ads_iframe_7811748\/elpais_web\/brasil\/internacional\/intext_0__container__\"><\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria de Parks \u00e9 bem conhecida: os \u00f4nibus reservavam as primeiras filas de assentos para os brancos e as \u00faltimas para os negros. No centro, qualquer um podia se sentar, mas se um branco ficasse de p\u00e9, tinha prefer\u00eancia. Parks estava em um desses assentos, e quando em um ponto pr\u00f3ximo de um teatro um bom n\u00famero de brancos subiu ao \u00f4nibus, o motorista pediu que ela se levantasse. Ela respondeu: \u201cN\u00e3o\u201d. \u201cBem, ent\u00e3o vou fazer com que a prendam\u201d, disse o motorista, James Blake. \u201cPode fazer isso\u201d, ela acrescentou, e acabou na cadeia. A\u00ed come\u00e7ou o famoso boicote dos negros aos \u00f4nibus da cidade, um grande problema financeiro, porque eram os principais usu\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na verdade, alguns meses antes, outra afro-americana, uma adolescente chamada Claudette Colvin, fez a mesma coisa que Parks, mas Rosa era uma ativista conhecida e foi capaz de mobilizar a comunidade, com\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/martin_luther_king\">Martin Luther King<\/a>\u00e0 frente. A pol\u00eamica chegou \u00e0 Suprema Corte, que anulou as portarias de segrega\u00e7\u00e3o nos transportes p\u00fablicos. Naqueles anos ainda aconteciam linchamentos de negros, \u00e0s vezes por algo como uma acusa\u00e7\u00e3o de flerte com uma mulher branca, como aconteceu com Emmett Till, de 14 anos, assassinado naquele ano de 1955 no Mississippi. E a segrega\u00e7\u00e3o duraria mais anos em outras \u00e1reas, p\u00fablicas e privadas, como a educa\u00e7\u00e3o, ou como aqueles letreiros que indicavam os banheiros que as pessoas \u201cde cor\u201d podiam usar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 dif\u00edcil imaginar um contexto em que o senador republicano\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/rafael_edward_cruz\">Ted Cruz<\/a>, do Texas, pudesse se sentir identificado com a luta de Rosa Parks, mas isso aconteceu e muito recentemente. Cruz est\u00e1 imerso em um processo pelo financiamento de sua campanha de novembro, na qual foi reeleito: emprestou 260.000 d\u00f3lares (cerca de 961.000 reais) de seu bolso para a campanha, dos quais foram recuperados 250.000, que \u00e9 o limite que um doador pode receber depois das elei\u00e7\u00f5es segundo a Comiss\u00e3o Eleitoral Federal, por isso pleiteia na Justi\u00e7a os 10.000 restantes. A Comiss\u00e3o alega que poderia ter recuperado o dinheiro com fundos pr\u00e9-eleitorais. O advogado do senador respondeu em um escrito ao tribunal: \u201cSim, e Rosa Parks poderia ter sentado na parte de tr\u00e1s do \u00f4nibus\u201d. Recebeu uma chuva de cr\u00edticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Espanha tamb\u00e9m tem seus casos. O pol\u00edtico nacionalista Artur Mas, quintess\u00eancia do\u00a0<em>establishment<\/em>\u00a0catal\u00e3o, advertiu em fevereiro de 2017, em uma entrevista \u00e0 rede de televis\u00e3o TV3, compilada pela Europa Press, que\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/dui_declaracion_unilateral_independencia_cataluna\/a\/\">o movimento de independ\u00eancia<\/a>\u00a0poderia acabar em momentos de \u201cdesobedi\u00eancia\u201d e o comparou com Rosa Parks. Aquele gesto, disse, mudou as coisas, apesar do fato de que a mulher \u201cera magra e pouca coisa do ponto de vista f\u00edsico\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 algumas semanas, um senador do partido Cidad\u00e3os, Carlos P\u00e9rez, tamb\u00e9m encontrou paralelos entre os incidentes da manifesta\u00e7\u00e3o do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/orgullo_gay\">Orgulho LGBT<\/a>\u00a0em Madri e a luta dos negros do Alabama. \u201cEm 1955, Rosa Parks se recusou a ceder seu lugar a um branco. Em 2019, n\u00f3s do Cidad\u00e3os nos recusamos a ceder o Orgulho aos totalit\u00e1rios. A luta pelos direitos civis est\u00e1 no nosso DNA\u201d, escreveu P\u00e9rez em sua conta no Twitter. Pouco depois o apagou e pediu desculpas. Os organizadores da manifesta\u00e7\u00e3o tinham proibido o partido de participar com seu pr\u00f3prio carro de som por causa de seus contatos pol\u00edticos com o grupo ultraconservador Vox. A comitiva do Cidad\u00e3os compareceu para participar a p\u00e9 e foi vaiada por parte dos manifestantes, que insultaram e jogaram \u00e1gua em seus integrantes. Os pol\u00edticos dizem que tamb\u00e9m sofreram agress\u00f5es f\u00edsicas. A pol\u00edcia o nega.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas uma das recupera\u00e7\u00f5es da figura de Parks mais desconcertantes dos \u00faltimos tempos talvez seja a de um grupo de mulheres mu\u00e7ulmanas de Grenoble, na Fran\u00e7a, que realizaram v\u00e1rios atos de \u201cdesobedi\u00eancia civil\u201d e pularam na \u00e1gua de piscinas p\u00fablicas de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/burkini\">burkini<\/a>. Trata-se do traje de banho que cobre todo o corpo e toma o nome da burca, o v\u00e9u isl\u00e2mico integral que tamb\u00e9m cobre o rosto e permite que a mulher veja atrav\u00e9s de uma fenda no tecido. As ativistas desse grupo em defesa do direito ao burkini chamam a si mesmas de as \u201cRosas Parks mu\u00e7ulmanas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Poucos meses antes que seu movimento se popularizasse na imprensa, a primeira boxeadora do Ir\u00e3 a vencer uma luta profissional, Sadef Khadem, cancelou seu voo de volta a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/teheran\">Teer\u00e3<\/a>\u00a0por medo de ser presa ao chegar por ter lutado com a cabe\u00e7a descoberta e de shorts, algo contr\u00e1rio \u00e0 lei da Rep\u00fablica Isl\u00e2mica. O combate que disputou descoberta aconteceu, curiosamente, na Fran\u00e7a. Mas Khadem n\u00e3o se comparou com Rosa Parks. Quase ningu\u00e9m pode fazer isso e, na realidade, n\u00e3o \u00e9 preciso. Normalmente, os grupos oprimidos n\u00e3o precisam lan\u00e7ar m\u00e3o dos cap\u00edtulos sinistros do sul dos EUA para mostrar sua trag\u00e9dia, eles s\u00e3o sua pr\u00f3pria met\u00e1fora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Passear por Montgomery ajuda a entender a profundidade do horror. A cidade foi um dos principais\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/06\/25\/cultura\/1529917947_118147.html\">mercados de escravos<\/a>, com 164\u00a0<em>brokers<\/em>\u00a0registrados e cerca de 35.000 seres humanos comprados e vendidos. A cada passo h\u00e1 uma placa que lembra aquele passado e tamb\u00e9m, \u00e9 claro, o in\u00edcio do boicote aos \u00f4nibus. Em abril de 2018 veio se juntar \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria o Memorial pela Paz e Justi\u00e7a, o primeiro dos Estados Unidos dedicado aos linchamentos. A Equal Justice Initiative, a entidade por tr\u00e1s do projeto, documentou mais de 4.000 linchamentos entre 1877 e 1950, 800 a mais do que os calculados at\u00e9 agora. Acorrentadas e suplicantes, as esculturas de homens e mulheres que sofreram o terror racista se erguem em uma esplanada de seis acres. No centro, uma estrutura coberta abriga 800 colunas de a\u00e7o penduradas no teto, uma para cada condado do pa\u00eds onde aconteceram os linchamentos, com nomes e datas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podem-se tirar fotos do que se v\u00ea, mas n\u00e3o \u00e9 permitido posar ou gravar-se em v\u00eddeo entre as esculturas. Em outras palavras: \u00e9 proibido fazer papel de est\u00fapido entre as figuras dos negros linchados. Mas com Rosa Parks h\u00e1 quem n\u00e3o deixe de fazer\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/autofoto\"><em>selfies<\/em><\/a>.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pol\u00edticos e movimentos de protesto de todo o mundo tentam capitalizar o legado da ic\u00f4nica ativista que lutou pelos direitos civis<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":290159,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-290158","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/rosa-parker.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/290158","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=290158"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/290158\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/290159"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=290158"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=290158"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=290158"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}