{"id":29080,"date":"2013-11-18T08:24:27","date_gmt":"2013-11-18T11:24:27","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=29080"},"modified":"2013-11-18T08:24:27","modified_gmt":"2013-11-18T11:24:27","slug":"a-teologia-feita-por-mulheres-a-partir-de-sua-feminilidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/a-teologia-feita-por-mulheres-a-partir-de-sua-feminilidade\/","title":{"rendered":"A teologia feita por mulheres a partir de sua feminilidade"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-29088\" alt=\"cotidi\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/cotidi-216x300.jpg\" width=\"216\" height=\"300\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O papa Francisco tem dito que precisamos de uma teologia mais profunda acerca da mulher e de sua miss\u00e3o no mundo e na Igreja. \u00c9 certo, mas ele n\u00e3o pode desconhecer que hoje existe vasta literatura teol\u00f3gica feita por mulheres na perspectiva das mulheres da melhor qualidade. Eu mesmo tenho me dedicado intensamente ao tema, culminando com os livros \u201cO Rosto Materno de Deus\u201d (1989) e \u201cFeminino-Masculino\u201d (2010), junto com a feminista Rosemarie Muraro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre tantas atuais, resolvi trazer ao presente duas grandes te\u00f3logas do passado: santa Hildegarda de Bingen (1098-1179) e santa Juliana de Norwich (1342-1416). Hildegarda vem sendo considerada, qui\u00e7\u00e1, a primeira feminista dentro da Igreja. Foi uma mulher genial e extraordin\u00e1ria para o seu tempo e para todos os tempos. Monja beneditina, exerceu a fun\u00e7\u00e3o de mestra (abadessa) de seu convento de Rupertsberg de Bingen, no Reno; foi profetisa (profetessa germanica), m\u00edstica, te\u00f3loga, inflamada pregadora, compositora, poetisa, naturalista, m\u00e9dica informal e escritora. Seus bi\u00f3grafos e estudiosos consideram um mist\u00e9rio o fato de essa mulher, no estreito e machista mundo medieval, ter sido o que foi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hildegarda foi, acima de tudo, uma mulher dotada de vis\u00f5es divinas. Num relato autobiogr\u00e1fico diz: \u201cQuando tinha 42 anos e 7 meses, os c\u00e9us se abriram e uma luz ofuscante de excepcional fulgor fluiu para dentro de meu c\u00e9rebro. E ent\u00e3o ela incendiou todo o meu cora\u00e7\u00e3o e peito como uma chama, n\u00e3o queimando, mas aquecendo\u2026 e subitamente entendi o significado das exposi\u00e7\u00f5es dos livros, ou seja, dos Salmos, dos Evangelhos e dos outros livros cat\u00f3licos do Velho e Novo Testamentos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 um mist\u00e9rio como tinha conhecimentos de cosmologia, de plantas medicinais, da f\u00edsica dos corpos e da hist\u00f3ria da humanidade. A monja desenvolveu uma imagem humanizadora de Deus, pois Ele rege o universo com poder e suavidade (mit Macht und Milde), acompanhando todos os seres com sua m\u00e3o cuidadosa e seu olhar amoroso. Hildegarda ficou especialmente conhecida pelos m\u00e9todos medicinais seguidos na \u00c1ustria e na Alemanha por m\u00e9dicos at\u00e9 os dias de hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra not\u00e1vel mulher foi Juliana de Norwich (1342-1416), da Inglaterra. Pouco se sabe sobre sua vida. O certo \u00e9 que viveu todo o tempo reclusa numa parte murada da Igreja de S\u00e3o Juli\u00e3o. Ao completar 30 anos, teve uma grave enfermidade que quase a levou \u00e0 morte. Em dado momento, durante cinco horas, teve 20 vis\u00f5es de Jesus Cristo. Escreveu imediatamente um resumo de suas vis\u00f5es. Depois de 20 anos, tendo refletido longamente sobre seu significado, escreveu uma vers\u00e3o longa e definitiva sob o t\u00edtulo \u201cRevelations of Divine Love\u201d (\u201cRevela\u00e7\u00f5es do Amor Divino\u201d, Londres, 1952).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Suas revela\u00e7\u00f5es s\u00e3o surpreendentes, pois v\u00eam perpassadas por um inarred\u00e1vel otimismo, nascido do amor de Deus. Para ela, o amor \u00e9 sobretudo alegria e compaix\u00e3o. N\u00e3o entende as doen\u00e7as, como era cren\u00e7a popular na \u00e9poca, e ainda hoje, em alguns grupos, como castigos de Deus. Para ela, as doen\u00e7as e pestes s\u00e3o, sim, oportunidades para encontrar Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pecado \u00e9 visto como uma esp\u00e9cie de pedagogia pela qual Deus nos obriga a conhecer a n\u00f3s mesmos e a buscar Sua miseric\u00f3rdia. Diz mais: atr\u00e1s daquilo que falamos de inferno, existe uma realidade maior, sempre vitoriosa, que \u00e9 o amor e a miseric\u00f3rdia de Deus. Pelo fato de Jesus ser misericordioso e compassivo, ele \u00e9 nossa querida M\u00e3e. Deus mesmo \u00e9 Pai misericordioso e M\u00e3e de infinita bondade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Somente uma mulher poderia usar essa linguagem de amorosidade e compaix\u00e3o e chamar Deus de M\u00e3e de infinita bondade. Assim, vemos uma vez mais como a voz feminina \u00e9 importante para haver uma concep\u00e7\u00e3o n\u00e3o patriarcal e por isso mais completa de Deus e do Esp\u00edrito que perpassa toda a vida e o universo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O papa Francisco tem dito que precisamos de uma teologia mais profunda acerca da mulher e de sua miss\u00e3o no mundo e na Igreja. \u00c9 certo, mas ele n\u00e3o pode desconhecer que hoje existe vasta literatura teol\u00f3gica feita por mulheres na perspectiva das mulheres da melhor qualidade. 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