{"id":291758,"date":"2019-08-10T06:49:07","date_gmt":"2019-08-10T09:49:07","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=291758"},"modified":"2019-08-10T06:49:07","modified_gmt":"2019-08-10T09:49:07","slug":"entrevista-as-supersticoes-mexem-com-a-saude-para-o-bem-e-para-o-mal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/entrevista-as-supersticoes-mexem-com-a-saude-para-o-bem-e-para-o-mal\/","title":{"rendered":"Entrevista: as supersti\u00e7\u00f5es mexem com a sa\u00fade (para o bem e para o mal)"},"content":{"rendered":"<header class=\"article-header\">\n<div class=\"article-category\"><\/div>\n<h2 class=\"article-subtitle\">Em visita ao Brasil, psic\u00f3logo americano explora o mundo das cren\u00e7as e dos rituais e a influ\u00eancia deles em nosso bem-estar<\/h2>\n<div class=\"article-author\">Por\u00a0Andr\u00e9 Biernath<\/div>\n<\/header>\n<section class=\"share\"><\/section>\n<section class=\"article-content\">\n<div class=\"featured-image\">\n<div class=\"image\"><img decoding=\"async\" class=\"abril-image optimized lazyloaded\" title=\"Entrevista: Stuart Vyse\" src=\"https:\/\/abrilsaude.files.wordpress.com\/2019\/08\/stuart-vyse.png\" sizes=\"(min-width: 991px) 680px, (max-width: 420px) 420px, (max-width: 360px) 360px, \" srcset=\"https:\/\/abrilsaude.files.wordpress.com\/2019\/08\/stuart-vyse.png?quality=85&amp;strip=info&amp;resize=680,453 680w, https:\/\/abrilsaude.files.wordpress.com\/2019\/08\/stuart-vyse.png?quality=70&amp;strip=all&amp;resize=420,280 420w, https:\/\/abrilsaude.files.wordpress.com\/2019\/08\/stuart-vyse.png?quality=70&amp;strip=all&amp;resize=360,240 360w, \" alt=\"supersti\u00e7\u00e3o e sa\u00fade\" \/><\/p>\n<div class=\"seedtag-gohan seedtag-adunit st-in-image\">\n<div class=\"st-container\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p class=\"caption\">J\u00e1 passou embaixo de uma escada hoje? Stuart Vyse estuda o efeito de supersti\u00e7\u00f5es no nosso comportamento.\u00a0(Foto: Divulga\u00e7\u00e3o\/The Daily Tar Hell\/SA\u00daDE \u00e9 Vital)<\/p>\n<\/div>\n<p>Voc\u00ea \u00e9 daqueles que bate tr\u00eas vezes na madeira para evitar not\u00edcias ruins? N\u00e3o deixa ou chinelo virado pra baixo para evitar que sua m\u00e3e morra? Tem um olho grego atr\u00e1s da porta para espantar o mau olhado? Sim, todos n\u00f3s adotamos supersti\u00e7\u00f5es que fazem parte da nossa cultura.\u00a0<strong>Mas<\/strong>\u00a0<strong>qual ser\u00e1 o efeito dela sobre nossas emo\u00e7\u00f5es?<\/strong>\u00a0Ser\u00e1 que elas afetam o comportamento?<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o assunto que fascina\u00a0<a href=\"https:\/\/stuartvyse.com\/\">o psic\u00f3logo americano Stuart Vyse<\/a>. Ex-professor da\u00a0<a href=\"https:\/\/www.uri.edu\/\">Universidade de Rhode Island, nos Estados Unidos,<\/a>\u00a0o especialista esteve no Brasil a convite do\u00a0<a href=\"https:\/\/iqc.org.br\/\">Instituto Quest\u00e3o de Ci\u00eancia<\/a>\u00a0para uma s\u00e9rie de palestras na cidade de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da carreira acad\u00eamica, o cientista tamb\u00e9m \u00e9 colunista da\u00a0<a href=\"https:\/\/skepticalinquirer.org\/\">revista\u00a0<em>Skeptical Inquirer<\/em><\/a>\u00a0e escreveu dois livros (sem tradu\u00e7\u00f5es para o portugu\u00eas):\u00a0<a href=\"https:\/\/amzn.to\/31v3oqU\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>Believing in Magic: The Psychology of Superstition<\/em><\/a>\u00a0(Acreditando em Magia: a Psicologia da Supersti\u00e7\u00e3o) e\u00a0<a href=\"https:\/\/amzn.to\/31zDNgx\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>Going Broke: Why Americans (Still) Can\u2019t Hold on To Their Money<\/em><\/a>(Indo \u00e0 Bancarrota: Porque os Americanos Ainda n\u00e3o Conseguem Segurar o Dinheiro).<\/p>\n<p>Entre um evento e outro, Vyse encontrou um espa\u00e7o na agenda para conversar com a Revista SA\u00daDE:<\/p>\n<p><strong>SA\u00daDE: Como as supersti\u00e7\u00f5es surgiram e como elas se tornaram praticamente eternas em nossas culturas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Stuart Vyse:\u00a0<\/strong>elas s\u00e3o realmente quase eternas . Supersti\u00e7\u00f5es s\u00e3o t\u00e3o antigas quanto as religi\u00f5es.\u00a0<strong>No come\u00e7o, as supersti\u00e7\u00f5es foram identificadas como \u201creligi\u00f5es ruins\u201d.<\/strong>\u00a0A palavra vem do latim\u00a0<em>superstitio<\/em>\u00a0e significa originalmente algo como \u201cter muito medo dos deuses\u201d, ainda na \u00e9poca do Imp\u00e9rio Romano. Algu\u00e9m que rezava muito, tomava muito banho, era excessivamente temeroso em rela\u00e7\u00e3o aos deuses\u2026 Isso era superstitio. Mas, com o passar do tempo, esse conceito mudou para classificar outras religi\u00f5es como ruins. Quando os romanos se deparavam com as religi\u00f5es do Oriente M\u00e9dio ou de outros lugares onde dominaram, eles as categorizavam como supersti\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Isso mudou de figura durante o Iluminismo.\u00a0<strong>A supersti\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a ser encarada n\u00e3o mais como \u201creligi\u00e3o ruim\u201d, mas como \u201cci\u00eancia ruim\u201d<\/strong>. N\u00f3s come\u00e7amos a chamar todos os credos m\u00e1gicos, que n\u00e3o faziam sentido racional, como supersti\u00e7\u00e3o. E assim continua at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Eu diria que a supersti\u00e7\u00e3o tem uma s\u00e9rie de defini\u00e7\u00f5es. Em geral, \u00e9 crer em algo incompat\u00edvel com a ci\u00eancia. Ela tamb\u00e9m possui algum objetivo secreto por tr\u00e1s de cada gesto. Como, por exemplo, bater tr\u00eas vezes na madeira para n\u00e3o ter azar. Por\u00e9m, ainda hoje essa palavra \u00e9 usada de modo descuidado. Da\u00ed qualquer ideia diferente que outro indiv\u00edduo tem pode ser encarada como uma simples supersti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>E como elas se relacionam com cada povo ou na\u00e7\u00e3o? H\u00e1 supersti\u00e7\u00f5es que s\u00e3o globais?<\/strong><\/p>\n<p>Eu acho que a ideia de supersti\u00e7\u00e3o \u00e9 global e universal, mas h\u00e1 varia\u00e7\u00f5es locais. Por exemplo, eu nasci num lugar no meio dos Estados Unidos no seio de uma fam\u00edlia protestante. E eu nunca ouvi falar da supersti\u00e7\u00e3o do mau olhado. Se eu fosse de uma fam\u00edlia italiana ou se tivesse nascido na Am\u00e9rica do Sul, teria algum contato com isso, pois \u00e9 um assunto muito popular nesses lugares.<\/p>\n<p>Na \u00c1sia, h\u00e1 muitas supersti\u00e7\u00f5es ligadas a n\u00fameros e cores que n\u00e3o se aplicam em outros pa\u00edses. As supersti\u00e7\u00f5es est\u00e3o totalmente ligadas \u00e0 cultura e n\u00f3s as aprendemos conforme crescemos, muitas vezes sem saber de onde vieram \u2014 como o receio de gatos pretos e a regra de n\u00e3o pisar em rachaduras no ch\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>O que acontece no nosso c\u00e9rebro, comportamento e emo\u00e7\u00f5es quando a gente obedece ou desobedece uma supersti\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>As supersti\u00e7\u00f5es nascem numa situa\u00e7\u00e3o onde o resultado \u00e9 incerto. Se voc\u00ea souber fazer algo e at\u00e9 onde aquilo vai te levar, a supersti\u00e7\u00e3o \u00e9 in\u00fatil.\u00a0<strong>Em circunst\u00e2ncias incertas, se voc\u00ea se engaja num ritual, pode se sentir melhor ou aliviado.<\/strong>\u00a0H\u00e1 um conceito na psicologia chamado \u201cilus\u00e3o do controle\u201d. Quando voc\u00ea joga dados ou faz coisas que s\u00e3o completamente aleat\u00f3rias, a supersti\u00e7\u00e3o d\u00e1 a no\u00e7\u00e3o estar realizando algo a mais para conseguir alcan\u00e7ar aquilo que \u00e9 desejado.<\/p>\n<p>Mas e quando a gente se recusa a fazer certa supersti\u00e7\u00e3o? Geralmente isso ocorre no caso daquelas relacionadas com o medo e o azar, como o n\u00famero 13 ou o medo de gatos pretos.\u00a0<strong>A verdade \u00e9 que seria melhor se ningu\u00e9m tivesse nos contado isso.<\/strong>\u00a0Infelizmente, n\u00f3s precisamos sempre encontrar explica\u00e7\u00f5es para as coisas ruins que nos acontecem.<\/p>\n<p>Quando voc\u00ea n\u00e3o faz determinado ritual ou costume que est\u00e1 engendrado na sua cultura, invariavelmente ter\u00e1 que confrontar alguma ansiedade ou preocupa\u00e7\u00e3o. N\u00f3s n\u00e3o acreditamos racionalmente naquilo. Mas, para n\u00e3o ter que lidar com esses sentimentos ruins, simplesmente fazemos.<\/p>\n<p><strong>Vamos pensar na situa\u00e7\u00e3o de um boxeador, que realiza uma s\u00e9rie de rituais ou mandingas antes de entrar no ringue. Esses atos servem para que ele controle o estresse?<\/strong><\/p>\n<p>Sim. Seu exemplo do lutador \u00e9 \u00f3timo, porque o esportista pratica todo dia, faz exerc\u00edcios com aquela finalidade. Por\u00e9m, na hora da luta, n\u00e3o h\u00e1 nada mais que ele possa realizar para se preparar para o que est\u00e1 por vir. E tem aqueles minutos que ele precisa esperar antes de iniciar a luta. Deve ser um momento de muita ansiedade mesmo.<\/p>\n<p>Aqui, a supersti\u00e7\u00e3o seria como qualquer ritual que preenche o tempo e d\u00e1 o foco naquilo que ele far\u00e1 daqui a pouco.\u00a0<strong>N\u00e3o temos boas evid\u00eancias quanto a isso, mas a supersti\u00e7\u00e3o pode at\u00e9 melhorar a performance no ringue.<\/strong>\u00a0N\u00e3o porque ela \u00e9 m\u00e1gica, mas por ter esse benef\u00edcio psicol\u00f3gico durante a prepara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Na contram\u00e3o, as supersti\u00e7\u00f5es poderiam ser ruins para nossa sa\u00fade? Elas podem se tornar, por exemplo, um gatilho para o\u00a0<a href=\"https:\/\/saude.abril.com.br\/mente-saudavel\/toc-nao-e-brincadeira-entenda-como-funciona-o-transtorno\/\">transtorno obsessivo-compulsivo (TOC)<\/a>?<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 tantas pessoas no mundo que s\u00e3o supersticiosas. E mesmo assim, o TOC \u00e9 uma doen\u00e7a relativamente rara. N\u00e3o sabemos se uma coisa causa a outra mesmo e n\u00e3o existe evid\u00eancia cient\u00edfica em rela\u00e7\u00e3o a isso.<\/p>\n<p><strong>Mas existem circunst\u00e2ncias em que as supersti\u00e7\u00f5es podem ser bem ruins, claro.<\/strong>\u00a0Na maioria das vezes, elas s\u00e3o benignas e n\u00e3o fazem mal. Mas nos apostadores compulsivos, que acreditam na sorte e em maneiras de ficar mais sortudo, isso \u00e9 perigoso. Esses indiv\u00edduos acabam perdendo dinheiro e se endividando.<\/p>\n<p>Em termos de sa\u00fade, algumas pessoas usam t\u00e9cnicas de medicina alternativa e outras sa\u00eddas supersticiosas para tratar doen\u00e7as quando deveriam ir a um m\u00e9dico. O limiar est\u00e1 no preju\u00edzo ao bem-estar e o desperd\u00edcio de dinheiro.<\/p>\n<p><strong>E quando devemos quebrar esse ciclo e dizer para uma pessoa que determinada supersti\u00e7\u00e3o n\u00e3o faz sentido?<\/strong><\/p>\n<p>Eu faria isso com base em cada situa\u00e7\u00e3o. Pessoalmente, penso que \u00e9 ok fazer certas supersti\u00e7\u00f5es. Desde, claro, que saibamos que elas n\u00e3o fazem sentido. Se voc\u00ea cresce com essas coisas e elas fazem parte do seu contexto, \u00e9 dif\u00edcil descartar.<\/p>\n<p>Devemos ter a no\u00e7\u00e3o de que elas n\u00e3o possuem l\u00f3gica, mas, mesmo assim, fazemos para nos sentirmos melhores. Isso j\u00e1 \u00e9 um grande passo. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s supersti\u00e7\u00f5es que provocam algum mal, vai depender de cada um e do dano que est\u00e1 provocando.<\/p>\n<p><strong>E que an\u00e1lise voc\u00ea faz sobre o mundo e a rela\u00e7\u00e3o das pessoas com a supersti\u00e7\u00e3o? Parece que as pessoas ficam cada vez mais interessadas em astrologia, por exemplo.<\/strong><\/p>\n<p>Tenho a impress\u00e3o de que a for\u00e7a das supersti\u00e7\u00f5es est\u00e1 crescendo no mundo todo. Isso, em parte, tem a ver com a atmosfera pol\u00edtica. Al\u00e9m disso, nos Estados Unidos, as pessoas est\u00e3o ficando menos religiosas. Elas ent\u00e3o n\u00e3o recorrem mais \u00e0s igrejas e templos, mas v\u00e3o para a astrologia ou outra cren\u00e7a.<\/p>\n<p>Parece ser um fen\u00f4meno que est\u00e1 acontecendo em outras partes do planeta.\u00a0<strong>Vivemos um per\u00edodo em que a ci\u00eancia est\u00e1 sendo atacada, em alguns casos at\u00e9 por motivos pol\u00edticos.<\/strong>\u00a0E isso afeta a forma como as pessoas olham para o conhecimento e para o transcendental\/espiritual. N\u00e3o \u00e9 uma vis\u00e3o otimista. Mas espero que sua revista e o jornalismo de ci\u00eancia ajudem a nos resgatar disso\u00a0<em>[risos]<\/em>.<\/p>\n<\/section>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea \u00e9 daqueles que bate tr\u00eas vezes na madeira para evitar not\u00edcias ruins? N\u00e3o deixa ou chinelo virado pra baixo para evitar que sua m\u00e3e morra? Tem um olho grego atr\u00e1s da porta para espantar o mau olhado? 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