{"id":291817,"date":"2019-08-11T11:02:57","date_gmt":"2019-08-11T14:02:57","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=291817"},"modified":"2019-08-11T11:02:57","modified_gmt":"2019-08-11T14:02:57","slug":"bolsonaro-sabe-a-importancia-de-negar-a-violencia-do-passado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/bolsonaro-sabe-a-importancia-de-negar-a-violencia-do-passado\/","title":{"rendered":"&#8220;Bolsonaro sabe a import\u00e2ncia de negar a viol\u00eancia do passado&#8221;"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<p class=\"intro\" style=\"text-align: justify;\">Em entrevista, historiador Lucas Pedretti destrincha atua\u00e7\u00e3o do presidente e grupos ligados \u00e0s For\u00e7as Armadas para consolidar vis\u00e3o positiva sobre a ditadura militar, possivelmente usando a estrutura do Estado.<\/p>\n<div id=\"sharing-bar\" class=\"min\" style=\"text-align: justify;\"><span dir=\"ltr\">\u00a0<\/span><span dir=\"ltr\">\u00a0<\/span><span dir=\"ltr\">\u00a0<\/span><span dir=\"ltr\">\u00a0<\/span><\/div>\n<div class=\"picBox full\" style=\"text-align: justify;\"><a class=\"overlayLink init\" href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/bolsonaro-sabe-a-import%C3%A2ncia-de-negar-a-viol%C3%AAncia-do-passado\/a-49973300#\" rel=\"nofollow\"><img decoding=\"async\" title=\"Rosto ensanguentado de mulher sobre asfalto\" src=\"https:\/\/www.dw.com\/image\/48136502_303.jpg\" alt=\"Rosto ensanguentado de mulher sobre asfalto\" \/><\/a><\/div>\n<div class=\"group\">\n<div class=\"longText\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O presidente Jair Bolsonaro se envolveu ativamente, nas \u00faltimas duas semanas, com uma agenda que dominou sua atua\u00e7\u00e3o como parlamentar durante 30 anos: a promo\u00e7\u00e3o de uma mem\u00f3ria apolog\u00e9tica da ditadura militar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s fazer declara\u00e7\u00f5es ir\u00f4nicas sobre as circunst\u00e2ncias em que o pai do atual presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) foi assassinado, o presidente substituiu, por militares e membros do PSL, quatro dos sete membros da Comiss\u00e3o de Mortos e Desaparecidos pol\u00edticos, incluindo a presidente Eugenia Gonzaga. Na \u00faltima quinta-feira (08\/08), Bolsonaro recebeu no Planalto a vi\u00fava do torturador condenado coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que classificou como &#8220;her\u00f3i nacional&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para o historiador Lucas Pedretti, ex-integrante da Comiss\u00e3o Estadual da Verdade do Rio e pesquisador das pol\u00edticas de repara\u00e7\u00e3o p\u00f3s-ditadura no Instituto de Estudos Sociais e Pol\u00edticos (Iesp\/Uerj), fica claro que o presidente utilizar\u00e1 a estrutura criada pela Justi\u00e7a de transi\u00e7\u00e3o para cristalizar uma vis\u00e3o positiva do regime.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Bolsonaro sabe que falar do passado n\u00e3o tem a ver com consolidar uma vers\u00e3o sobre o que aconteceu, mas com quais valores a gente quer afirmar no presente e qual futuro construir. Ele quer construir uma sociedade que aceita a tortura, o exterm\u00ednio, a viol\u00eancia de Estado e, para isso, sabe a import\u00e2ncia de negar que tenha existido escravid\u00e3o e a gente tenha vivido uma ditadura brutal&#8221;, avalia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DW: De que forma l\u00ea as ofensivas do presidente Bolsonaro sobre os mecanismos de repara\u00e7\u00e3o dos crimes de Estado cometidos pela ditadura militar? Qual seria a finalidade desse movimento?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Lucas Pedretti<\/strong>: Desde que Michel Temer assumiu a Presid\u00eancia, em 2016, assistimos a um progressivo esvaziamento dessas pol\u00edticas p\u00fablicas. Mas, a partir de 2019, no governo Bolsonaro, n\u00e3o se trata mais de um desmonte das pol\u00edticas de mem\u00f3ria. \u00c9 muito pior do que isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Est\u00e1 muito claro que o objetivo do presidente \u00e9 utilizar a institucionalidade constru\u00edda a partir da luta dos movimentos sociais, organiza\u00e7\u00f5es de direitos humanos, familiares de mortos e desaparecidos e presos pol\u00edticos para promover uma mem\u00f3ria de apologia \u00e0 ditadura, tortura e graves viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos, al\u00e9m de desqualificar os que lutaram para construir essas pol\u00edticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O convite para a vi\u00fava do torturador Brilhante Ustra ir ao Planalto, tal como o tratamento como &#8220;her\u00f3i nacional&#8221;, s\u00e3o express\u00f5es claras de que esse tipo de homenagem p\u00fablica vai se tornar cada vez mais comum. O Bolsonaro vai assumir, com muita for\u00e7a e centralidade na sua atua\u00e7\u00e3o como presidente, uma milit\u00e2ncia pela promo\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria apolog\u00e9tica \u00e0 ditadura e \u00e0 tortura. N\u00e3o \u00e9 que ele n\u00e3o ligue para o tema: vai se engajar profundamente em promover essa mem\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A disputa da mem\u00f3ria sobre o que foi o golpe de 1964 e a ditadura \u00e9 um dos elementos centrais do seu governo. Quem conhecia sua trajet\u00f3ria n\u00e3o podia ter d\u00favidas de que este seria o tom do seu governo. Ele construiu sua carreira pol\u00edtica em torno da desqualifica\u00e7\u00e3o dessas pol\u00edticas p\u00fablicas de mem\u00f3ria, repara\u00e7\u00e3o, e em torno da promo\u00e7\u00e3o de uma mem\u00f3ria apolog\u00e9tica da ditadura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em seu doutorado, voc\u00ea se dedica a estudar a rea\u00e7\u00e3o das For\u00e7as Armadas \u00e0 demanda de pol\u00edticas p\u00fablicas de repara\u00e7\u00e3o por v\u00edtimas do per\u00edodo e seus familiares. Que tend\u00eancias se observam nesses \u00faltimos 30 anos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde que tiveram in\u00edcio as primeiras mobiliza\u00e7\u00f5es de den\u00fancias das graves viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos cometidas pela ditadura, os pr\u00f3prios militares come\u00e7aram a se mobilizar, principalmente os que estavam nos \u00f3rg\u00e3os da estrutura repressiva, para construir uma contranarrativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 nesse per\u00edodo que se localiza, em v\u00e1rios documentos das ag\u00eancias de informa\u00e7\u00e3o e repress\u00e3o, a caracteriza\u00e7\u00e3o das den\u00fancias de tortura e viola\u00e7\u00f5es como atos de revanchismo. \u00c9 de dentro dos \u00f3rg\u00e3os repressivos que se constr\u00f3i essa narrativa, a qual d\u00e1 origem, posteriormente, a uma s\u00e9rie de livros e publica\u00e7\u00f5es, como o Projeto ORVIL;\u00a0<em>A verdade sufocada<\/em>, do Ustra;\u00a0<em>Brasil sempre<\/em>, de um militar do DOI-Codi do Rio Grande do Sul, obras que tentam consolidar essa vis\u00e3o dos militares sobre o que foi o golpe de 64 e a ditadura que se seguiu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cada pequeno passo que se dava em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pol\u00edticas de mem\u00f3ria, repara\u00e7\u00e3o e verdade, esses grupos reagiam, seja organizados nos clubes militares, o que se mant\u00e9m, mas tamb\u00e9m em outras organiza\u00e7\u00f5es, como o Grupo Terrorismo Nunca Mais, influenciando tamb\u00e9m os militares da ativa. Eles sempre possu\u00edram no Congresso Nacional uma voz pronta para fazer a defesa dos seus interesses e da hist\u00f3ria de apologia da ditadura e tortura, que era o ent\u00e3o deputado federal Jair Bolsonaro.<\/p>\n<div class=\"picBox full\nrechts\n\" style=\"text-align: justify;\"><a class=\"overlayLink init\" href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/bolsonaro-sabe-a-import%C3%A2ncia-de-negar-a-viol%C3%AAncia-do-passado\/a-49973300#\" rel=\"nofollow\"><img decoding=\"async\" title=\"Protesto contra a ditadura militar no Brasil, em 1968\" src=\"https:\/\/www.dw.com\/image\/45312919_401.jpg\" alt=\"Protesto contra a ditadura militar no Brasil, em 1968\" \/><\/a>Protesto contra a ditadura militar no Brasil, em 1968<\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Poderia citar exemplos dessa atua\u00e7\u00e3o do Bolsonaro no Congresso?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando a Comiss\u00e3o Especial de Mortos e Desaparecidos estava prestes a ser criada, em 1995, pela Lei 9.140, ele tenta, com outros deputados, emendar a lei para conferir indeniza\u00e7\u00f5es a familiares de supostas v\u00edtimas do que ele chamava de terrorismo. Ele vota contra a lei e a ataca, da tribuna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No contexto da cria\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o de Anistia, em 2002, desenvolve-se um segundo discurso muito forte, ao lado da ideia de revanchismo, que fomenta as cr\u00edticas \u00e0s pol\u00edticas de mem\u00f3ria e repara\u00e7\u00e3o pela ideia da &#8220;bolsa ditadura&#8221;, uma completa desqualifica\u00e7\u00e3o das indeniza\u00e7\u00f5es pagas a t\u00edtulo de repara\u00e7\u00e3o a quem foi perseguido pela ditadura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando surge o debate sobre a Comiss\u00e3o Nacional da Verdade (CNV), ele se coloca como a principal figura do Congresso Nacional contr\u00e1ria ao projeto de lei, intensificando a defesa dos interesses e perspectivas desses militares envolvidos na repress\u00e3o e viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos da ditadura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para se ter uma ideia, o deputado que mais fez discursos sobre a comiss\u00e3o foi o Bolsonaro. \u00c9 muito significativo o lugar que essa pauta ocupa na trajet\u00f3ria pol\u00edtica dele. Por isso, n\u00e3o d\u00e1 para esperar nenhuma postura diferente dele na Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. Ele anunciou, ao longo de toda a sua vida pol\u00edtica, o que faria se tivesse poder. Agora, est\u00e1 implementando exatamente isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O grupo pol\u00edtico de Bolsonaro insiste na tese de que os &#8220;dois lados&#8221; cometeram excessos. Como v\u00ea essa afirma\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O golpe de 64 \u00e9 dado para a implementa\u00e7\u00e3o de um projeto econ\u00f4mico e social no pa\u00eds, cujo fundamento central era a implementa\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de pol\u00edticas voltadas para garantir o benef\u00edcio das elites econ\u00f4micas, por meio do aprofundamento das desigualdades e aumento da exclus\u00e3o. Este \u00e9 o sentido fundamental da ditadura. A ideia de que foi um contragolpe, porque havia uma amea\u00e7a comunista, \u00e9 a ret\u00f3rica mobilizada para conferir alguma legitimidade ao golpe de Estado e ao regime, mas que n\u00e3o encontra qualquer lastro na realidade. Jo\u00e3o Goulart n\u00e3o era um comunista, e tampouco ia implementar um regime de vi\u00e9s socialista no pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pensando no momento posterior, com a ditadura j\u00e1 implantada no pa\u00eds, \u00e9 bom lembrar que o direito a resistir \u00e0 tirania de Estado \u00e9 consagrado nas teorias pol\u00edticas de car\u00e1ter liberal, inclusive a Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos Humanos. \u00c9 nessa chave que precisamos olhar os movimentos de resist\u00eancia \u00e0 ditadura. O que houve foi a estrutura\u00e7\u00e3o de um aparato estatal extremamente enraizado e capilarizado na sociedade, voltado para reprimir quaisquer manifesta\u00e7\u00f5es de resist\u00eancia ao regime ou contrariedade aos ditames dos militares, por meio de graves viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos. \u00c9 imposs\u00edvel conceber a repress\u00e3o do Estado e as for\u00e7as de resist\u00eancia, ainda que na forma de guerrilha armada, como dois lados sim\u00e9tricos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando o Estado \u00e9 quem promove a viol\u00eancia e viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos, estamos falando de algo muito mais grave, pois supostamente o Estado deveria garantir as liberdades e a prote\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o promover a tortura, execu\u00e7\u00f5es e desaparecimentos, como pol\u00edticas de Estado. \u00c9 disso que se trata: um regime que tem como pol\u00edtica de Estado, emanada diretamente dos generais-ditadores, que as execu\u00e7\u00f5es sum\u00e1rias, torturas e desaparecimentos for\u00e7ados fossem mobilizados para garantir o sufocamento da oposi\u00e7\u00e3o e implementa\u00e7\u00e3o do projeto ditatorial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por fim, aqueles que o regime acusava de terrorismo, de terem participado de a\u00e7\u00f5es armadas, foram presos, julgados na forma das leis vigentes e, na maioria das vezes, punidos com medidas que n\u00e3o eram previstas nem mesmo na lei da ditadura, como a tortura, execu\u00e7\u00e3o sum\u00e1ria e o desaparecimento for\u00e7ado. Os militantes de esquerda j\u00e1 foram processados, julgados e punidos. O que a lei de Anistia de 79 garantiu \u00e9 que os torturadores, que violaram os direitos humanos em nome do Estado, pudessem andar tranquilamente nas ruas com a certeza de que jamais seriam responsabilizados pelos seus crimes. Nesse sentido, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel falar em dois lados equivalentes.<\/p>\n<div class=\"picBox full\nrechts\n\" style=\"text-align: justify;\"><a class=\"overlayLink init\" href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/bolsonaro-sabe-a-import%C3%A2ncia-de-negar-a-viol%C3%AAncia-do-passado\/a-49973300#\" rel=\"nofollow\"><img decoding=\"async\" title=\"Manifesta\u00e7\u00e3o contra tortura em 31\/03\/2019, 55\u00ba anivers\u00e1rio do golpe militar no Brasil\" src=\"https:\/\/www.dw.com\/image\/48136590_401.jpg\" alt=\"Manifesta\u00e7\u00e3o contra tortura em 31\/03\/2019, 55\u00ba anivers\u00e1rio do golpe militar no Brasil\" \/><\/a>Manifesta\u00e7\u00e3o contra tortura em 31\/03\/2019, 55\u00ba anivers\u00e1rio do golpe militar<\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O deputado federal Filipe Barros (PSL-SP), novo integrante da Comiss\u00e3o de Mortos e Desaparecidos, declarou recentemente que o \u00f3rg\u00e3o &#8220;agiu por ideologia&#8221;. As den\u00fancias de aparelhamento das comiss\u00f5es da verdade e outros instrumentos da justi\u00e7a de transi\u00e7\u00e3o s\u00e3o recorrentes entre esse grupo pol\u00edtico. Voc\u00ea discorda?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As tr\u00eas comiss\u00f5es que existiram sobre a tem\u00e1tica [Mortos e Desaparecidos, Anistia e Verdade] foram criadas por lei, aprovadas de maneira quase consensual no Congresso Nacional, e em processos de negocia\u00e7\u00e3o nos quais os diferentes governos que as propuseram sempre cederam em pontos considerados importantes, por exemplo, pelas v\u00edtimas e familiares. Logo, essas comiss\u00f5es que eles chamam de aparelhadas sempre foram vistas por parte da sociedade civil e das v\u00edtimas como mecanismos extremamente limitados, exatamente porque produzidas num contexto de negocia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Comiss\u00e3o Especial de Mortos e Desaparecidos Pol\u00edticos, por exemplo, tem uma representa\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Defesa na sua composi\u00e7\u00e3o prevista em lei. Quando houve a proposta de cria\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, no Terceiro Programa de Direitos Humanos, a proposta era a cria\u00e7\u00e3o de uma Comiss\u00e3o da Verdade e da Justi\u00e7a. Foi a press\u00e3o do ent\u00e3o ministro da Defesa Nelson Jobim, vocalizando a perspectiva das For\u00e7as Armadas, que criou um conflito dentro do governo, especialmente com o ent\u00e3o ministro da Secretaria Especial de Direitos Humanos Paulo Vanucchi, fazendo com que a dimens\u00e3o da justi\u00e7a fosse afastada da iniciativa, retirando esse car\u00e1ter jurisdicional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o comiss\u00f5es estruturadas a partir das normativas do Direito Internacional, dos direitos humanos e da justi\u00e7a de transi\u00e7\u00e3o. A CNV foi muito elogiada por organismos multilaterais, pesquisadores da \u00e1rea, acad\u00eamicos e organiza\u00e7\u00f5es internacionais pelo fato de trazer um texto legal dos mais modernos e ancorados nessas perspectivas. Logo, n\u00e3o h\u00e1 que se falar em aparelhamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fato \u00e9 que essas comiss\u00f5es foram criadas, sim, para investigar viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos e crimes contra a humanidade promovidos por agentes do Estado. O Brasil n\u00e3o inventou comiss\u00f5es da verdade ou justi\u00e7a de transi\u00e7\u00e3o. Mundo afora, a perspectiva fundamental \u00e9 investigar os crimes promovidos pelo Estado. Seria inconceb\u00edvel se algu\u00e9m propusesse, na Alemanha, que fossem investigados de forma equivalente a viol\u00eancia do nazismo e o levante do Gueto de Vars\u00f3via, por exemplo. S\u00e3o duas dimens\u00f5es incompar\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A composi\u00e7\u00e3o e atua\u00e7\u00e3o desses mecanismos n\u00e3o seguiu crit\u00e9rios pol\u00edticos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem est\u00e1 aparelhando essas comiss\u00f5es, na verdade, \u00e9 o Bolsonaro. Ele \u00e9 que n\u00e3o est\u00e1 cumprindo o que \u00e9 previsto na lei ao nomear pessoas que n\u00e3o tem capacidade t\u00e9cnica, rela\u00e7\u00e3o com o tema e s\u00e3o claramente parciais para assumir essas posi\u00e7\u00f5es. Essas nomea\u00e7\u00f5es, que s\u00e3o ileg\u00edtimas e ilegais, contrariam o esp\u00edrito dessas leis aprovadas com ampla maioria ou quase consenso no Congresso Nacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao longo do processo, foi constru\u00eddo um corpo t\u00e9cnico extremamente qualificado para lidar com essas quest\u00f5es, que trabalhava nessas comiss\u00f5es. A CNV contou com os principais historiadores do Brasil atuando e apoiando a comiss\u00e3o; advogados especialistas no Direito Internacional e direitos humanos compuseram essas comiss\u00f5es; o pr\u00f3prio perfil dos membros da CNV era insuspeito, com pessoas das mais diversas perspectivas pol\u00edticas e filia\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias, que afastam qualquer possibilidade de acusar as comiss\u00f5es de serem revanchistas ou parciais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recentemente, a Comiss\u00e3o de Mortos e Desaparecidos vinha implementando, por meio do grupo de trabalho Perus, um processo de an\u00e1lise das ossadas da Vala de Perus ancorado nas principais e mais atualizadas t\u00e9cnicas e normas da antropologia e arqueologia forense. A equipe contava com apoio de cientistas de v\u00e1rios pa\u00edses e quem fazia as an\u00e1lises periciais era um laborat\u00f3rio na B\u00f3snia. Tratava-se de um trabalho de uma capacidade t\u00e9cnica muito profunda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma parcela da popula\u00e7\u00e3o manifesta incompreens\u00e3o com a necessidade de &#8220;remexer o passado&#8221;. Por que a investiga\u00e7\u00e3o de crimes ocorridos h\u00e1 d\u00e9cadas \u00e9 importante?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Brasil tem uma hist\u00f3ria marcada por uma viol\u00eancia muito profunda, em todos os momentos da sua hist\u00f3ria. Mas a gente preferiu construir a narrativa de que somos um pa\u00eds pac\u00edfico. Fomos o pa\u00eds que por mais tempo conviveu com a escraviza\u00e7\u00e3o de mulheres e homens sequestrados do continente africano e trazidos para c\u00e1, mas preferimos construir a narrativa de que somos o pa\u00eds da democracia racial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00f3s convivemos por 21 anos com a ditadura, a tortura institucionalizada, execu\u00e7\u00f5es sum\u00e1rias e desaparecimentos for\u00e7ados, mas preferimos construir a narrativa de que uma anistia supostamente rec\u00edproca seria capaz de deixar isso de lado, porque teria sido um momento de radicalismo de ambos os lados. Essa ideia de remexer o passado como algo ruim \u00e9 muito forte, n\u00e3o s\u00f3 com rela\u00e7\u00e3o ao passado da ditadura de 64.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acontece que essa op\u00e7\u00e3o por n\u00e3o falar, n\u00e3o lembrar, claramente n\u00e3o tem dado resultados positivos. N\u00f3s continuamos convivendo com a viol\u00eancia, o racismo, o exterm\u00ednio de jovens negros e moradores de favelas. O sil\u00eancio sobre o passado certamente nos ajudou a chegar a essa situa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica. Se tem setores da sociedade que preferiram apostar no esquecimento, o fato \u00e9 que algumas figuras, na verdade, nunca deixaram de disputar a mem\u00f3ria do que foi a ditadura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Falo explicitamente do Bolsonaro. Ele sabe muito bem a import\u00e2ncia de disputar a mem\u00f3ria. Sabe que falar do passado n\u00e3o tem a ver com consolidar uma vers\u00e3o sobre o que aconteceu, mas com quais valores a gente quer afirmar no presente e qual futuro construir. Ele quer construir uma sociedade que aceita a tortura, o exterm\u00ednio, a viol\u00eancia de Estado e, para isso, sabe a import\u00e2ncia de negar que tenha existido escravid\u00e3o e a gente tenha vivido uma ditadura brutal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Portanto, os setores ligados a essa mem\u00f3ria apolog\u00e9tica da ditadura, que sempre tiveram no Bolsonaro a figura que vocalizava essa perspectiva no parlamento, jamais deixaram de disputar a mem\u00f3ria. Isso \u00e9 um alerta para quem, agora, v\u00ea a situa\u00e7\u00e3o a que chegamos e achando inadmiss\u00edvel que a gente conviva com um presidente que faz homenagem p\u00fablica a um torturador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para reverter esse quadro, \u00e9 fundamental que a gente assuma com cada vez mais for\u00e7a e profundidade a bandeira da mem\u00f3ria, em um lugar de cr\u00edtica radical ao que foi, \u00e0 ditadura, \u00e0 escravid\u00e3o e ao nosso passado de viol\u00eancia, para que a gente possa superar essas vis\u00f5es que atenuam nossos passados traum\u00e1ticos, para finalmente criar condi\u00e7\u00f5es para uma sociedade que aponte para um presente e futuro mais democr\u00e1ticos.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Bolsonaro sabe que falar do passado n\u00e3o tem a ver com consolidar uma vers\u00e3o sobre o que aconteceu, mas com quais valores a gente quer afirmar no presente e qual futuro construir. Ele quer construir uma sociedade que aceita a tortura, o exterm\u00ednio, a viol\u00eancia de Estado e, para isso, sabe a import\u00e2ncia de negar que tenha existido escravid\u00e3o e a gente tenha vivido uma ditadura brutal&#8221;, avalia.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":291818,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[6,11],"tags":[],"class_list":["post-291817","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-municipios","category-regional"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/protesto-contra-ditadura.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/291817","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=291817"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/291817\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/291818"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=291817"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=291817"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=291817"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}