{"id":292224,"date":"2019-08-15T08:17:39","date_gmt":"2019-08-15T11:17:39","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=292224"},"modified":"2019-08-15T08:17:39","modified_gmt":"2019-08-15T11:17:39","slug":"as-criancas-de-altamira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/as-criancas-de-altamira\/","title":{"rendered":"As crian\u00e7as de Altamira"},"content":{"rendered":"<header class=\"col desktop_12 tablet_8 mobile_4\">\n<div id=\"article_header\" class=\"article-header opinion | flex container_column align_items_center text_align_center padding_h_xxl\">\n<h1 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark italic\"><\/h1>\n<h2 class=\"font_secondary color_gray_dark normal\">O massacre dos inocentes nos denuncia na mais violenta cidade amaz\u00f4nica<\/h2>\n<\/div>\n<section class=\"share-bar | border_bottom border_5\">\n<div class=\"content | border_bottom border_1 padding_bottom flex\n              justify_space_between relative\"><\/p>\n<div class=\"\n      social-icons\n      flex container_row\n      horizontal\n\n    \"><\/div>\n<div class=\"\n      social-icons\n      flex container_row\n      horizontal\n\n      right-links\n    \"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<div class=\"article_byline | margin_bottom_lg  \">\n<div class=\"authors flex flex_wrap \"><span class=\"margin_bottom uppercase flex align_items_center \"><a class=\"color_black\" title=\"Ver todas as not\u00edcias de Eliane Brum \" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/eliane_brum\/a\/\">ELIANE BRUM<\/a><\/span><\/div>\n<div class=\"\">\n<div class=\"place_and_time | uppercase color_gray_medium_lighter\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<figure class=\"lead_art |  \"><img decoding=\"async\" class=\"width_full\" src=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/resizer\/-xqdk8NmvuJqldhwMFEUKVhlldk=\/1500x0\/smart\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/QNYGPGOCAK5H5C5JLRFOB3AEUQ.jpg\" alt=\"A menina com nome de rua e o menino com nome de jogador de futebol, no reservat\u00f3rio da usina de Belo Monte, em Altamira (PA).\" \/><figcaption class=\"color_gray_medium border_bottom border_1 border_gray padding_vertical text_align_right\">A menina com nome de rua e o menino com nome de jogador de futebol, no reservat\u00f3rio da usina de Belo Monte, em Altamira (PA).<span class=\"color_black margin_left uppercase light\">EL PA\u00cdS (EL PA\u00cdS)<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<\/header>\n<div class=\"article | col desktop_8 tablet_8 mobile_4\">\n<section class=\"article_body | color_gray_dark\">\n<p class=\"\">Quero contar essa hist\u00f3ria real porque percebo que muitos n\u00e3o compreendem a dimens\u00e3o \u2013 e as consequ\u00eancias \u2013 do que est\u00e1 acontecendo no Brasil. Parece j\u00e1 n\u00e3o bastar a imagem de cabe\u00e7as e bra\u00e7os e pernas decepados para que os brasileiros entendam o que est\u00e1 acontecendo no Brasil. Parece que j\u00e1 n\u00e3o nos impressionamos com cabe\u00e7as e bra\u00e7os e pernas decepados. Algo aconteceu dentro de n\u00f3s. E, se prestarmos aten\u00e7\u00e3o, talvez possamos sentir o cheiro de podre que desta vez n\u00e3o emana de fora.<\/p>\n<p class=\"\">\u00c9 essa a imagem que a mulher ainda jovem, cabelos pretos e tra\u00e7os que marcam uma ascend\u00eancia ind\u00edgena e tamb\u00e9m negra tem na cabe\u00e7a. Naquele momento, ela ainda n\u00e3o sabe se o seu irm\u00e3o, de 20 anos, tem todos os membros no lugar. Ela ainda n\u00e3o sabe se a cabe\u00e7a da pessoa que ama est\u00e1 no mesmo corpo que os bra\u00e7os. Tamb\u00e9m n\u00e3o sabe se os bra\u00e7os est\u00e3o perto das pernas. Ou se n\u00e3o \u00e9 nada disso. Se ele morreu queimado, se o corpo jovem do irm\u00e3o com quem cresceu \u00e9 uma massa carbonizada em meio a outros corpos de irm\u00e3os, pais, filhos. Gente.<\/p>\n<section class=\"more_info | border_1 border_top pull_right\">&nbsp;<\/p>\n<\/section>\n<p class=\"\">Ela grita. Junto com ela est\u00e1 sua m\u00e3e. A m\u00e3e do jovem de 20 anos. Ela gerou e carregou no \u00fatero por nove meses aquele que agora ela n\u00e3o sabe se ter\u00e1 que procurar a cabe\u00e7a ou adivinhar qual \u00e9 a carne da sua carne em meio \u00e0 massa de corpos incinerados. Ela \u00e9 m\u00e3e e n\u00e3o sabe se o \u00faltimo suspiro do filho foi dado na dor excruciante de ter a cabe\u00e7a decepada ou na dor excruciante de ser asfixiado enquanto o corpo incendiava. Ela n\u00e3o quer, mas n\u00e3o consegue evitar de pensar se ele demorou a morrer, e reza para que tenha sido r\u00e1pido. Essas eram as d\u00favidas da m\u00e3e naquele momento. E n\u00e3o s\u00f3 desta m\u00e3e, mas de todas.<\/p>\n<p class=\"\">N\u00e3o \u00e9 apenas que o filho est\u00e1 morto, uma invers\u00e3o da ordem da vida cuja dor (quase) qualquer pessoa \u00e9 capaz de imaginar. \u00c9 ainda mais do que essa dor. \u00c9 a dor da forma de morte, da certeza de que o filho morreu no horror. Essa m\u00e3e ent\u00e3o grita e grita. Porque n\u00e3o h\u00e1 palavras para nomear o que vive. Essa irm\u00e3 grita e grita. Uma outra mulher, tamb\u00e9m com o rosto arado pelo sofrimento, abra\u00e7a o corpo da irm\u00e3, como se quisesse conter aquele grito que rasga o mundo. Um homem abra\u00e7a o corpo da m\u00e3e, mas ele parece se sentir fraco para conter o grito que emana dela.<\/p>\n<p class=\"\">H\u00e1 imagens documentando esse momento. Mas as fotos n\u00e3o podem ser publicadas. H\u00e1 ainda isso. Elas n\u00e3o podem ter rosto, elas n\u00e3o podem ter nome, elas n\u00e3o podem ter voz. Nem os detalhes da hist\u00f3ria do jovem assassinado sob a guarda do Estado, no Centro de Recupera\u00e7\u00e3o Regional de Altamira, pode ser contada. Se elas forem identificadas pelas fac\u00e7\u00f5es criminosas, poder\u00e3o tamb\u00e9m ter suas cabe\u00e7as rolando \u2013 literalmente \u2013 pelas ruas das periferias da cidade. S\u00e3o fantasmas. Fantasmas vivos.<\/p>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\">O presidente sem empatia nem responsabilidade<\/h3>\n<p class=\"\">O massacre de Altamira, na manh\u00e3 de 29 de julho, foi o segundo maior da hist\u00f3ria do sistema carcer\u00e1rio do Brasil: 58 homens, sob a guarda do Estado, foram assassinados. Dezesseis deles foram decapitados, e o restante foi incendiado. Em seguida, quatro homens foram estrangulados durante a transfer\u00eancia para outro pres\u00eddio. Estavam algemados, sob cust\u00f3dia do Estado. Total: 62 pessoas sob responsabilidade do Estado foram mortas dentro das depend\u00eancias primeiro de um pr\u00e9dio do Estado, depois dentro de um caminh\u00e3o-cela do Estado. Segundo\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/cotidiano\/2019\/08\/maioria-dos-presos-mortos-no-para-era-negra-tinha-ate-35-anos-e-cometeu-crime-violento.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">levantamento da\u00a0<em>Folha de S. Paulo<\/em><\/a>, quase metade deles n\u00e3o tinha condena\u00e7\u00e3o, a maioria era negro e tinha at\u00e9 35 anos. Quase nenhum havia terminado a escola.<\/p>\n<p class=\"\">O massacre \u00e9 atribu\u00eddo a uma guerra entre as fac\u00e7\u00f5es do crime organizado Comando Vermelho (CV) e Comando Classe A (CCA). O Conselho Nacional de Justi\u00e7a classificou as condi\u00e7\u00f5es do pres\u00eddio como \u201cp\u00e9ssimas\u201d: com vagas para 163 presos, mais de 300 estavam amontoados no local. O n\u00famero de agentes penitenci\u00e1rios era muito menor do que o necess\u00e1rio e armas haviam sido encontradas.<\/p>\n<p class=\"\">Ao ser questionado sobre o massacre, o antipresidente Jair Bolsonaro assim respondeu: \u201cPergunta para as v\u00edtimas dos que morreram l\u00e1 o que eles acham disso. Depois que eles responderem, eu respondo a voc\u00eas\u201d. O\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/cotidiano\/2019\/07\/nao-e-resposta-que-um-presidente-de-a-essas-familias-diz-bispo-de-altamira-sobre-bolsonaro.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">bispo em\u00e9rito do Xingu, Dom Erwin Kr\u00e4utler<\/a>, reagiu \u00e0quele que desgoverna o Brasil: \u201cLeio no jornal que o nosso presidente est\u00e1 falando que a gente deve perguntar \u00e0s v\u00edtimas dos que morreram. Isso n\u00e3o \u00e9 resposta, pelo amor de Deus, que um presidente d\u00ea a essas fam\u00edlias. Cada preso tem m\u00e3e, tem pai. As m\u00e3es est\u00e3o chorando l\u00e1\u201d. Quando quatro presos foram estrangulados durante a transfer\u00eancia, Bolsonaro declarou: \u201cProblemas acontecem\u201d.<\/p>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\">A menina com nome de rua<\/h3>\n<p class=\"\">\u00c9 isso que os familiares ouvem daquele que foi eleito para governar o Brasil. E tamb\u00e9m \u00e9 isso que escuta aquela m\u00e3e. E aquela irm\u00e3. E existe ainda a menina. Ela tem cinco anos e nome de uma rua de S\u00e3o Paulo. O morto por quem as duas mulheres gritam \u00e9 seu tio, irm\u00e3o de sua m\u00e3e. Ela quer saber o que aconteceu. Como explicar o que aconteceu? Como voc\u00ea explicaria a essa crian\u00e7a o que aconteceu?<\/p>\n<p class=\"\">A viol\u00eancia n\u00e3o \u00e9 estranha \u00e0 menina. Menos de dois anos atr\u00e1s, seu pai foi executado pela pol\u00edcia em um dos chamados \u201cReassentamentos Urbanos Coletivos\u201d(RUCs), os bairros distantes do centro da cidade constru\u00eddos pela Norte Energia SA, a empresa que materializou a Hidrel\u00e9trica de Belo Monte, no Rio Xingu. Foi nestas casas feitas para n\u00e3o durar que a empresa jogou as centenas de fam\u00edlias expulsas pela usina.<\/p>\n<p class=\"\">Antes de Belo Monte ser imposta aos povos do Xingu e aos habitantes de Altamira, num dos processos mais criminosos da hist\u00f3ria recente do Brasil (leia\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2015\/07\/06\/opinion\/1436195768_857181.html\" data-link-track-dtm=\"\">aqui<\/a>), os mais pobres viviam em situa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria, mas em comunidade. Na cidade, as rela\u00e7\u00f5es de solidariedade m\u00fatua amenizavam a aus\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas. Se n\u00e3o havia creches, as vizinhas se alternavam no cuidado das crian\u00e7as. Se uma fam\u00edlia n\u00e3o tinha feij\u00e3o, outras arranjavam um pouquinho. Quando foram espalhadas pelos RUCs, tudo isso foi rompido. E tamb\u00e9m os membros das fac\u00e7\u00f5es criminosas foram aleatoriamente misturados, multiplicando a viol\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"\">Entre 2000 e 2015, a taxa de assassinatos em Altamira aumentou 1.110%. A viol\u00eancia\u00a0<a href=\"https:\/\/www.uol\/noticias\/especiais\/vidas-barradas-de-belo-monte.htm#vidas-barradas-de-belo-monte\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">est\u00e1 diretamente relacionada \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de Belo Monte<\/a>. Em 2017, o Atlas da Viol\u00eancia, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea) e pelo F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica, apontou Altamira como a cidade com mais de 100 mil habitantes mais violenta do Brasil. Neste ano,\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/cotidiano\/2019\/08\/120-cidades-do-pais-concentram-metade-dos-homicidios.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Altamira \u201cperdeu\u201d o posto para Maracana\u00fa<\/a>, na regi\u00e3o metropolitana de Fortaleza, no Cear\u00e1.<\/p>\n<p class=\"\">A Altamira que foi palco do massacre de 62 pessoas \u00e9 hoje a segunda cidade mais violenta do Brasil: 133,7 mortes por 100 mil habitantes. Para que se compreenda o que isso significa, vale apontar que o Rio de Janeiro, s\u00edmbolo internacional de viol\u00eancia, tem 35,6 mortes por 100 mil habitantes. O Brasil \u00e9 hoje o campe\u00e3o mundial de letalidade: concentra 14% dos homic\u00eddios do planeta. E n\u00e3o \u00e9 armando a popula\u00e7\u00e3o que vai melhorar, como j\u00e1 est\u00e1 provado. Pelo contr\u00e1rio, como tamb\u00e9m j\u00e1 est\u00e1 provado.<\/p>\n<p class=\"\">O pai da menina com nome de rua era oleiro. Como tamb\u00e9m seu av\u00f4. Quando a barragem chegou, a \u00e1rea das olarias foi desapropriada, o que significa que foram expulsos do lugar. At\u00e9 ent\u00e3o, a fam\u00edlia vivia na pobreza, mas n\u00e3o passava fome. A pequena olaria familiar produzia tijolos suficientes para manter a todos com dignidade m\u00ednima. Com a perda do que lhes permitia sobreviver, a pobreza virou mis\u00e9ria.<\/p>\n<p class=\"\">O pai da menina procurou emprego, mas n\u00e3o tinha estudado. Antes de morrer, ele j\u00e1 havia sido preso por assaltar um posto de gasolina. Quando foi morto, segundo um policial, \u201cera a pessoa errada no lugar errado\u201d. Quem era para morrer, segundo este mesmo policial, era o amigo que estava com ele. A pol\u00edcia tinha executado o homem errado. E isso foi dito para a sua fam\u00edlia, como se a execu\u00e7\u00e3o fosse permitida ao Estado. A fam\u00edlia, por\u00e9m, tem medo de enfrentar o Estado. E deve ter. Se protestar, outros poder\u00e3o ser mortos. Ent\u00e3o ficou assim: \u201cDesculpa a\u00ed, matamos o seu filho por engano\u201d.<\/p>\n<p class=\"\">A menina sem pai hoje mora com a av\u00f3 paterna em um conjunto habitacional do programa Minha Casa Minha Vida. O transporte p\u00fablico \u00e9 escasso, a \u00fanica \u00e1rea de lazer est\u00e1 abandonada, o bairro s\u00e3o ru\u00ednas gerando mais ru\u00ednas. Nesta pequena casa vivem oito crian\u00e7as e quatro adultos. A maioria destas crian\u00e7as perdeu os pais de forma violenta e, por isso, est\u00e1 sendo criada pela av\u00f3, que trabalha como gari. No ano passado, essa av\u00f3 foi atropelada na cal\u00e7ada por um comerciante alcoolizado e perdeu parte do p\u00e9.<\/p>\n<p class=\"\">A amputa\u00e7\u00e3o dos membros por acidentes de tr\u00e2nsito \u2013 ou abusos de tr\u00e2nsito \u2013 \u00e9 mais uma viol\u00eancia persistente na cidade. Nas ruas esburacadas h\u00e1 caminhonetes 4X4 com vidros escurecidos, conduzidas por motoristas que agem como se fossem donos da cidade. E uma legi\u00e3o de motocicletas de baixa cilindrada usadas pelos mais pobres, fam\u00edlias inteiras sobre elas, para compensar o transporte p\u00fablico deficiente. Em Altamira, os mais pobres v\u00e3o perdendo peda\u00e7os do corpo por viol\u00eancias que podem come\u00e7ar com acidentes de tr\u00e2nsito, em geral envolvendo motos, e terminar na falta de assist\u00eancia de sa\u00fade.<\/p>\n<p class=\"\">\u00c0s vezes, as crian\u00e7as ficam sozinhas em casa. Antes de julgar os adultos, entenda a vida. \u00c9 preciso trabalhar para arranjar comida. Essa av\u00f3 se vira e desvira. Semanas atr\u00e1s foi levar um neto para a m\u00e3e, que havia sido atacada por uma fac\u00e7\u00e3o do crime organizado e teve que deixar a cidade \u00e0s pressas para n\u00e3o morrer. No ataque, uma pessoa levou um tiro na cabe\u00e7a e entrou em coma. Ela levou um tiro no dedo. S\u00f3 se salvou porque largou a crian\u00e7a de quatro anos no ch\u00e3o e lutou. Essa crian\u00e7a de quatro anos, primo da menina, testemunhou toda a viol\u00eancia. Ser pobre e fugir, sem poder contar com ningu\u00e9m al\u00e9m de outros pobres, \u00e9 da ordem do pavor. Outra filha tamb\u00e9m est\u00e1 fugida, desta vez porque foi amea\u00e7ada de morte por um ex-namorado.<\/p>\n<p class=\"\">A viol\u00eancia dom\u00e9stica \u00e9 parte naturalizada da vida de muitas das mulheres das periferias de Altamira, quase t\u00e3o certa como o nascimento do sol a cada dia. Nas casas apertadas, as crian\u00e7as testemunham as m\u00e3es, tias e irm\u00e3s serem espancadas, \u00e0s vezes cotidianamente. Uma adolescente me disse: \u201c\u00c9 da natureza dos homens n\u00e3o se controlar. Por isso n\u00e3o sei se quero casar.\u201d<\/p>\n<p class=\"\">No enterro do pai, a menina com nome de rua explicava para todos que chegavam ao vel\u00f3rio: \u201cA pol\u00edcia matou meu pai. A pol\u00edcia matou meu pai\u201d. De repente, a imagem do corpo ensanguentado e furado \u00e0 bala do pai chegou no whatsapp de uma tia. Em seguida, um v\u00eddeo onde seu corpo era arrastado pelos policiais. \u00c9 comum que os corpos sejam fotografados e filmados pela pol\u00edcia e por grupos que acompanham a pol\u00edcia, e a imagem distribu\u00edda. Corpos s\u00e3o coisas quando as pessoas se desumanizam ao desumanizar outras. Para a menina com nome de rua, aquela \u201ccoisa\u201d cheia de sangue era pai. E ela explicava a todos que chegavam: \u201cA pol\u00edcia matou meu pai\u201d.<\/p>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\">O menino que j\u00e1 tem rugas<\/h3>\n<p class=\"\">O irm\u00e3o da menina n\u00e3o dizia isso. Ele tem 9 anos. Parece ter desenvolvido uma maneira de lidar com uma realidade que \u00e9 quase toda ela viol\u00eancia. Ele repetia: \u201cVou ficar aqui (ao lado do caix\u00e3o) at\u00e9 o pai acordar\u201d. Ele tem nome de jogador de futebol e ainda espera o pai acordar. N\u00e3o tem nenhuma defici\u00eancia, sabe que o pai jamais acordar\u00e1, mas diz isso. Para sobreviver, conta uma outra hist\u00f3ria para si mesmo. E esta, possivelmente, \u00e9 a escolha mais inteligente para quem n\u00e3o tem nenhuma escolha e quer desesperadamente viver. \u00c9 isso ou: a barragem roubou o ganha-p\u00e3o da minha fam\u00edlia, meu pai foi assassinado por quem deveria proteg\u00ea-lo, minha av\u00f3 foi atropelada por um b\u00eabado e perdeu parte do p\u00e9, minha tia est\u00e1 escondida para n\u00e3o ser executada por uma fac\u00e7\u00e3o criminosa, outra tia teve que fugir para n\u00e3o ser morta pelo ex-marido, o tio da minha irm\u00e3 virou carv\u00e3o na cadeia.<\/p>\n<p class=\"\">Olho para ele e sei que ele sabe de tudo isso. Mas salva uma pequena parte de si quando est\u00e1 olhando para lugar nenhum, o que faz com frequ\u00eancia. \u00c0 noite, ele tem pesadelos. Muitos. Pesadelos que n\u00e3o quer contar. Segredos, ele diz. Depois, tem longas tristezas.<\/p>\n<p class=\"\">Preciso dizer algo sobre este menino. Ao longo da minha vida de rep\u00f3rter, vi muitas crian\u00e7as com olhos de velho. J\u00e1 escrevi sobre isso. S\u00e3o crian\u00e7as que convivem com a morte todos os dias, s\u00e3o crian\u00e7as que temem morrer e que correm o risco real de morrer a qualquer momento. Crian\u00e7as para as quais a morte \u00e9 mais certa do que a vida.<\/p>\n<p class=\"\">Quando encontramos crian\u00e7as com olhos de velho sabemos que um crime ocorreu ali, porque crian\u00e7as n\u00e3o podem ter olhos de velho. Mas sempre que contei delas eu me referi ao olhar, aquele olhar de quem j\u00e1 viveu v\u00e1rias vidas em apenas um punhado de anos, o olhar de quem viu mortes demais antes de sequer poder elaborar o que \u00e9 a morte, o olhar de quem vive com medo de morrer enquanto o corpo ainda sequer se desenvolveu. O que vi no menino com nome de jogador de futebol \u00e9 diferente. O menino tem rugas embaixo dos olhos. Eu nunca tinha visto uma crian\u00e7a com rugas.<\/p>\n<p class=\"\">Ele \u00e9 irm\u00e3o da menina apenas por parte de pai. De pai executado com menos de 30 anos. A m\u00e3e do menino foi assassinada por um cunhado quando ele tinha menos de um ano. A fam\u00edlia estava reunida na frente da casa quando apareceu o cunhado. Ele estava b\u00eabado. E revoltado. Policiais militares tinham jogado spray de pimenta no seu rosto. A m\u00e3e do menino ria de outra coisa, mas ao ouvir seu riso ele achou que ela estava rindo dele, da sua humilha\u00e7\u00e3o. A humilha\u00e7\u00e3o virou raiva, ele queria que algu\u00e9m pagasse. E ela era a mais fr\u00e1gil. Pegou a arma e atirou nela. A mulher estava amamentando o menino. A bala acertou o peito, quase rente ao beb\u00ea. Ela n\u00e3o largou o menino. Protegeu o filho e morreu quatro dias depois no hospital.<\/p>\n<p class=\"\">O menino \u00e9 \u00f3rf\u00e3o de pai e de m\u00e3e. Quando eu o conheci, ele estava feliz. Foi no m\u00eas de junho. E as pupilas acima das rugas cintilavam. Havia uma prociss\u00e3o fluvial e, pela primeira vez, ele navegava no rio Xingu. Eu n\u00e3o conseguia acreditar. O menino nasceu numa cidade \u00e0 beira do rio Xingu e nunca tinha navegado no rio Xingu. Ele nasceu no rio, apartado do rio.<\/p>\n<p class=\"\">Desde ent\u00e3o, comecei a incluir essa pergunta nas minhas entrevistas. E descobri que muitas das crian\u00e7as das periferias de Altamira desconhecem o rio, que est\u00e1 a apenas algumas dezenas de metros do centro comercial da cidade. Muitas delas n\u00e3o saem da periferia, pela dificuldade do transporte p\u00fablico, pela dificuldade de um adulto poder traz\u00ea-las \u00e0 orla, pela mis\u00e9ria de tudo. Sem que o transporte p\u00fablico funcione e a tarifa seja acess\u00edvel, o que \u00e9 perto fica longe, o que \u00e9 perto se torna nunca. Todo o mundo que essas crian\u00e7as conhecem s\u00e3o casas em que falta tudo e ruas esburacadas em que falta tudo. E essa \u00e9 outra viol\u00eancia da ordem do inomin\u00e1vel. Essa \u00e9 uma pris\u00e3o sem que elas tenham cometido crime algum. E por serem os sem nada muitas destas crian\u00e7as passam desta pris\u00e3o para a pris\u00e3o oficial. E morrem antes dos 20 anos.<\/p>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\">Qual \u00e9 o seu pa\u00eds?<\/h3>\n<p class=\"\">O menino est\u00e1 na quarta s\u00e9rie. Pergunta-se ao menino. O que \u00e9 a Amaz\u00f4nia? Ele n\u00e3o sabe. Aos 9 anos, ele \u00e9 informado que mora numa cidade na floresta amaz\u00f4nica. Ele nunca esteve na floresta, como nunca tinha estado no rio. Pergunta-se ao menino: qual \u00e9 o seu pa\u00eds? Ele responde com o nome do bairro onde vive.<\/p>\n<p class=\"\">Esta n\u00e3o \u00e9 uma resposta \u201cerrada\u201d. \u00c9 a resposta mais precisa que o menino pode dar. O seu bairro \u00e9 o seu pa\u00eds. E seu pa\u00eds o circunscreve \u2013 e determina. Mostra-se ent\u00e3o um mapa. E o menino se extasia, quase como quando esteve navegando no rio. V\u00ea o Brasil ali, e v\u00ea a Amaz\u00f4nia, e de repente h\u00e1 um planeta que n\u00e3o \u00e9 plano.<\/p>\n<p class=\"\">J\u00e1 perdi a conta dos adultos e crian\u00e7as para quem fui a primeira a mostrar um mapa do Brasil e do mundo. E explicar onde est\u00e1vamos com rela\u00e7\u00e3o ao mundo. As crian\u00e7as das periferias de Altamira me lembram adolescentes que entrevistei numa favela do Rio de Janeiro. Uma favela sem vista nem glamour. Eles nunca tinham ido \u00e0 praia. Adolescentes cariocas que n\u00e3o conheciam o mar. E, naquele momento, tamb\u00e9m n\u00e3o poderiam ir, porque se sa\u00edssem do territ\u00f3rio, seriam mortos pela fac\u00e7\u00e3o rival. Nenhum deles tinha 20 anos. E sabiam que seu futuro seria o cemit\u00e9rio ou a pris\u00e3o. Em Altamira, as crian\u00e7as est\u00e3o amputadas do rio. O Xingu, ao qual o menino deveria pertencer, \u00e9 um dos mais m\u00edticos da Amaz\u00f4nia. E foi roubado dele.<\/p>\n<p class=\"\">Altamira \u00e9 um retrato do Brasil, mas com cores ainda mais dram\u00e1ticas e calor extremado, como s\u00e3o as cidades infiltradas nos tr\u00f3picos. Em 2000, tinha 77 mil habitantes. Hoje, por obra de Belo Monte, inchou para 111 mil. No auge da obra, teve ainda mais gente. \u00c9 tamb\u00e9m\u00a0<a href=\"https:\/\/www.metropoles.com\/brasil\/meio-ambiente-brasil\/altamira-pa-e-a-cidade-que-mais-sofre-desmate-na-amazonia-diz-inpe\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">o munic\u00edpio que mais desmata na Amaz\u00f4nia<\/a>, expondo a rela\u00e7\u00e3o direta entre viol\u00eancia e destrui\u00e7\u00e3o da floresta.<\/p>\n<p class=\"\">Uma minoria das crian\u00e7as vive em boas casas, filhas ou de fazendeiros ou de comerciantes ou de funcion\u00e1rios p\u00fablicos ou de profissionais liberais. Em geral, s\u00e3o casas com muito vidro blindex, um gosto que chegou junto com a barragem. Essas crian\u00e7as estudam em escolas privadas e moram com vista para o rio ou pelo menos passeiam na orla. Nas f\u00e9rias, muitas delas v\u00e3o para a Disney com os pais, com uma parada em Miami, um destino muito apreciado tamb\u00e9m pelas elites de Altamira. E h\u00e1 uma maioria de crian\u00e7as abandonada \u00e0 extrema viol\u00eancia, come\u00e7ando pela falta de acesso a pol\u00edticas p\u00fablicas. Se h\u00e1 falta evidente de pol\u00edticas p\u00fablicas nas periferias das capitais do Sul e do Sudeste, imagine numa cidade do interior amaz\u00f4nico. \u00c9 comum crian\u00e7as alcan\u00e7arem s\u00e9ries avan\u00e7adas do ensino fundamental sem ainda estarem totalmente alfabetizadas.<\/p>\n<p class=\"\">Se a trajet\u00f3ria das fam\u00edlias destas crian\u00e7as \u00e9 investigada, o que aparece na maioria dos casos \u00e9 a perda da rela\u00e7\u00e3o com o rio e com a floresta ou com a regi\u00e3o de origem. Ou os pais ou av\u00f3s vieram de algum outro lugar do pa\u00eds, muitas vezes do Nordeste, em busca de uma vida melhor por meio de um emprego numa das obras megal\u00f4manas ou foram expulsos do rio e da floresta por uma das obras megal\u00f4manas. Entre a Transamaz\u00f4nica, nos anos 70, e Belo Monte, nesta d\u00e9cada, milhares de vidas foram destru\u00eddas. E crian\u00e7as condenadas.<\/p>\n<p class=\"\">A mais recente convers\u00e3o de povos da floresta, ricos, em popula\u00e7\u00e3o urbana perif\u00e9rica, pobre, foi provocada por Belo Monte, com consequ\u00eancias devastadoras, como os n\u00fameros de homic\u00eddios mostram. As crian\u00e7as dos povos da floresta, sejam elas ind\u00edgenas, ribeirinhas ou quilombolas, t\u00eam um enorme conhecimento transmitido pelos pais e av\u00f3s. Ainda pequenas, e j\u00e1 conhecem em profundidade o territ\u00f3rio. Sabem pescar e navegar, conhecem as \u00e1rvores e as plantas que podem comer, aprendem a fazer o que precisam com as m\u00e3os, s\u00e3o povoadas por hist\u00f3rias que dizem quem elas s\u00e3o e de onde vieram.<\/p>\n<p class=\"\">As crian\u00e7as cujos pais e av\u00f3s foram expulsos da floresta, foram roubadas de tudo. Quando o menino n\u00e3o sabe o que \u00e9 a Amaz\u00f4nia e acredita que seu pa\u00eds \u00e9 o seu bairro, o que ele mostra \u00e9 a radicalidade da experi\u00eancia de desterritorializa\u00e7\u00e3o. Ele est\u00e1 perdido, da forma mais profunda que algu\u00e9m pode estar perdido. Sem norte, mas tamb\u00e9m sem sul, leste e oeste. S\u00e3o crian\u00e7as sem passado nem futuro, cujo presente \u00e9 viol\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"\">Essas crian\u00e7as t\u00eam sido tratadas como restos. J\u00e1 est\u00e3o aprisionadas em guetos, por falta de pol\u00edticas p\u00fablicas e porque seus pais perderam o modo de vida. Enquanto elas nascem para morrer, os perversos abrigados no governo e no Congresso querem jog\u00e1-las nas pris\u00f5es formais ainda na inf\u00e2ncia, em vez de cumprirem a obriga\u00e7\u00e3o constitucional de lhes garantir a vida. \u00c9 urgente que o crime real e os criminosos de fato sejam chamados pelo nome. E responsabilizados pelo que fazem. O que testemunhamos \u2013 muitos de n\u00f3s sem ver ou querer ver \u2013 \u00e9 genoc\u00eddio.<\/p>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\">Belo Monte e a Norte Energia SA ampliam seu campo de destrui\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<p class=\"\">A usina de Belo Monte foi liberada no final de 2015 sem cumprir as condicionantes b\u00e1sicas, aquelas obriga\u00e7\u00f5es que condicionavam\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/04\/11\/opinion\/1460390361_909016.html\" data-link-track-dtm=\"\">a libera\u00e7\u00e3o da hidrel\u00e9trica<\/a>. O que era condi\u00e7\u00e3o, portanto, deixou de condicionar, algo que desafia qualquer ordem l\u00f3gica. O governo de Dilma Rousseff liberou a usina sem que a empresa tivesse cumprido a totalidade de seus deveres. Apenas mais uma das escandalosas viola\u00e7\u00f5es que envolveram a constru\u00e7\u00e3o de Belo Monte. Uma das obriga\u00e7\u00f5es da Norte Energia SA era construir o Complexo Penitenci\u00e1rio de Vit\u00f3ria do Xingu, cidade a 48 quil\u00f4metros de Altamira, com o objetivo de desafogar as cadeias da regi\u00e3o e dar condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas de dignidade aos presos. Agora, depois do massacre, a empresa corre a dizer que entregar\u00e1 o empreendimento nos pr\u00f3ximos meses. E, como de h\u00e1bito, afirma que tamb\u00e9m n\u00e3o tem responsabilidade nenhuma sobre a morte de 62 seres humanos.<\/p>\n<p class=\"\">Foi massacre, vale repetir. N\u00e3o foi uma rebeli\u00e3o. Teria sido uma rebeli\u00e3o se os presos tivessem se unido para reivindicar que o Estado cumprisse a Constitui\u00e7\u00e3o. O que aconteceu no Centro de Recupera\u00e7\u00e3o Regional de Altamira foi presos matando outros presos porque o Estado permitiu, por a\u00e7\u00e3o ou omiss\u00e3o. E depois permitiu, por a\u00e7\u00e3o ou omiss\u00e3o, que outros quatro fossem executados quando estavam algemados a caminho de outro pres\u00eddio. A barb\u00e1rie j\u00e1 est\u00e1 anunciada quando se permite que mais de 300 presos sejam encarcerados num pr\u00e9dio que tem espa\u00e7o para menos da metade deste n\u00famero. A barb\u00e1rie j\u00e1 \u00e9. Havia dezenas de presos amontoados em cont\u00eaineres. Tente imaginar o que \u00e9 estar preso num cont\u00eainer, com outros presos, numa cidade em que a temperatura seguidamente passa dos 30 graus e onde a sensa\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica pode chegar a 40 graus. Se isso n\u00e3o \u00e9 tortura, precisamos rediscutir o que somos n\u00f3s.<\/p>\n<p class=\"\">Quando a m\u00e3e da menina com nome de rua soube que seu irm\u00e3o n\u00e3o estava entre os decapitados, mas entre os carbonizados, ela recebeu a not\u00edcia como uma nova morte. Ela ainda n\u00e3o conseguiu sepultar aquele que amava. N\u00e3o h\u00e1 como reconhecer os corpos deformados pelo fogo. \u00c9 preciso esperar o exame de DNA. \u00c9 assim que a vida segue. Os familiares aguardam um corpo para chorar, dia ap\u00f3s dia, enquanto a vida de mis\u00e9rias segue. E enquanto a cidade, mais uma vez, se esquece deles. Ou sequer lembrou, porque n\u00e3o os reconhece como habitantes do mesmo mundo.<\/p>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\">Como n\u00f3s, os b\u00e1rbaros, recuperamos a humanidade perdida?<\/h3>\n<p class=\"\">A forma como quase todos n\u00f3s olhamos para aqueles que est\u00e3o presos exp\u00f5e a deforma\u00e7\u00e3o de nossas almas. N\u00e3o h\u00e1 como viver num pa\u00eds com esse n\u00edvel de viol\u00eancia, em todas as \u00e1reas, acirrada agora por um perverso no poder, sem ser tamb\u00e9m contaminado e transformado. Se 62 pessoas brancas, de classe m\u00e9dia, tivessem sido decapitadas ou carbonizadas ou estranguladas, as rea\u00e7\u00f5es seriam imensamente maiores. A press\u00e3o por mudan\u00e7as e a eloqu\u00eancia tamb\u00e9m. Se 62 ind\u00edgenas tivessem sido decapitados ou carbonizados ou estrangulados, as rea\u00e7\u00f5es seriam menores. Mas, especialmente pela repercuss\u00e3o internacional, ainda haveria grande visibilidade e press\u00e3o. Mas, quando 62 pessoas presas s\u00e3o decapitadas ou carbonizadas ou estranguladas, a rea\u00e7\u00e3o, a press\u00e3o e as provid\u00eancias s\u00e3o muito menores e o clamor se extingue rapidamente. Aqueles que s\u00e3o encarcerados s\u00e3o vistos como restos at\u00e9 por muitos que defendem os direitos humanos. N\u00e3o no discurso formal, nem na racionalidade do pensamento, mas na forma como a indigna\u00e7\u00e3o \u00e9 menos incorporada na a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"\">\u00c0s v\u00e9speras do final de semana ap\u00f3s o massacre, circulou pelas redes de whatsapp uma carta-amea\u00e7a de uma das fac\u00e7\u00f5es, dizendo que haveria retalia\u00e7\u00e3o se houvesse festas na cidade depois das mortes. A carta possivelmente era falsa. Mas, falsa ou n\u00e3o, escrita ou n\u00e3o para provocar p\u00e2nico, havia algo que nos denunciava quando se pensa que \u00e9 preciso amea\u00e7ar os vivos para que respeitem os mortos e respeitem a dor dos que choram os mortos. A quest\u00e3o \u00e9: que tipo de gente somos n\u00f3s se achamos que podemos voltar \u00e0 rotina sem reconhecer e fazer marca da barb\u00e1rie, depois que 62 seres humanos foram decapitados, carbonizados ou estrangulados e enquanto suas fam\u00edlias choram os mortos em absoluto desespero? Se f\u00f4ssemos dignos, n\u00e3o haver\u00edamos de fechar todas as portas, colocar a faixa preta do luto e nos unirmos aos parentes?<\/p>\n<p class=\"\">Mesmo quem denuncia a desumaniza\u00e7\u00e3o est\u00e1 se desumanizando. E digo isso olhando tamb\u00e9m para mim mesma. Num pa\u00eds mergulhado no cotidiano de exce\u00e7\u00e3o, precisamos ser mais atentos e exigentes com n\u00f3s mesmos para n\u00e3o nos tornarmos tamb\u00e9m violentos sem perceber.<\/p>\n<p class=\"\">Em Altamira, as periferias est\u00e3o povoadas por expulsos da floresta. Expulsos recentes, expulsos de longa data. H\u00e1 gente lutando para que os povos da floresta permane\u00e7am na floresta, o que tamb\u00e9m significa a melhor chance de a floresta ficar em p\u00e9. E lutar pela floresta e pelos povos da floresta hoje significa lutar contra a for\u00e7a de destrui\u00e7\u00e3o do bolsonarismo. Mas h\u00e1 poucos lutando por aqueles que j\u00e1 foram convertidos em pobres urbanos. Nesse movimento de luta, eles s\u00e3o restos tamb\u00e9m, s\u00e3o considerados aqueles que j\u00e1 est\u00e3o perdidos, os al\u00e9m de qualquer salva\u00e7\u00e3o. Isso precisa mudar se quisermos recuperar o pa\u00eds. Os la\u00e7os que foram rompidos pela viol\u00eancia das grandes obras e da grilagem de terras precisam ser reconectados, amarrados como mem\u00f3ria e pertencimento. Ter acesso ao rio e a floresta \u00e9 ter acesso \u00e0 hist\u00f3ria. \u00c9 preciso devolver a mem\u00f3ria \u00e0s crian\u00e7as de Altamira.<\/p>\n<p class=\"\">A menina com nome de rua e o menino com nome de jogador de futebol colocaram suas melhores roupas para serem fotografados para essa coluna, com a devida autoriza\u00e7\u00e3o dos respons\u00e1veis. Eles est\u00e3o aqui, num artigo sobre cabe\u00e7as decepadas, em trajes de domingo. Para eles, foi um raro momento feliz. Depois da foto, era a primeira vez em sua vida inteira que se banhavam no rio. Brincaram muito, como fazem as crian\u00e7as. \u201cO Xingu \u00e9 o meu rio preferido\u201d, repetia a menina. E repetia. Este \u00e9 o Xingu. Esta \u00e9 a Amaz\u00f4nia. Se pudessem virar o rosto para voc\u00eas, veriam que o menino tinha olhos brilhantes. Acima das rugas.<\/p>\n<p class=\"\">Depois, o menino e a menina voltaram para o Brasil.<\/p>\n<figure class=\"article_image | margin_top\"><img decoding=\"async\" class=\"width_full\" src=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/resizer\/tqMEBQ4x4CIkP92Hs7VL1rUaPR0=\/1500x0\/smart\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/RBTMKQWIA6WSCKPH72B7CNZ4PE.jpg\" alt=\"A menina com nome de rua e o menino com nome de jogador de futebol na periferia de Altamira.\" \/><figcaption class=\"caption | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right margin_vertical color_gray_medium\">A menina com nome de rua e o menino com nome de jogador de futebol na periferia de Altamira.<span class=\"color_black margin_left uppercase light\">EL PA\u00cdS (EL PA\u00cdS)<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"raw_html\">\n<div>\n<p class=\"nota_pie\"><strong>Eliane Brum<\/strong>\u00a0\u00e9 escritora, rep\u00f3rter e documentarista. Autora dos livros de n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o\u00a0<em>Coluna Prestes &#8211; o Avesso da Lenda, A Vida Que Ningu\u00e9m v\u00ea, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos,<\/em>\u00a0e do romance\u00a0<em>Uma Duas<\/em>. Site:\u00a0<strong>desacontecimentos.com<\/strong>\u00a0Email:\u00a0<strong>elianebrum.coluna@gmail.com<\/strong>Twitter:\u00a0<strong>@brumelianebrum\/ Facebook:\u00a0<\/strong>@brumelianebrum<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<div class=\"trust_project\">\n<div class=\"content | flex container_column_mobile justify_space_between\">\n<div class=\"claim | flex align_items_center justify_center\">Adere a<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0s v\u00e9speras do final de semana ap\u00f3s o massacre, circulou pelas redes de whatsapp uma carta-amea\u00e7a de uma das fac\u00e7\u00f5es, dizendo que haveria retalia\u00e7\u00e3o se houvesse festas na cidade depois das mortes. A carta possivelmente era falsa. 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