{"id":292975,"date":"2019-08-23T08:29:10","date_gmt":"2019-08-23T11:29:10","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=292975"},"modified":"2019-08-23T08:29:10","modified_gmt":"2019-08-23T11:29:10","slug":"como-a-atividade-dos-neuronios-produz-essa-sensacao-unica-de-estar-vivo-e-consciente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/como-a-atividade-dos-neuronios-produz-essa-sensacao-unica-de-estar-vivo-e-consciente\/","title":{"rendered":"Como a atividade dos neur\u00f4nios produz essa sensa\u00e7\u00e3o \u00fanica de estar vivo e consciente?"},"content":{"rendered":"<header class=\"col desktop_12 tablet_8 mobile_4\">\n<div id=\"article_header\" class=\"article-header basic | \">\n<h1 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark \"><\/h1>\n<h2 class=\"font_secondary color_gray_dark \"><em>Dados mostram teimosamente que todas as nossas peculiaridades \u2014linguagem, matem\u00e1tica, moralidade, artes e ci\u00eancias\u2014 est\u00e3o enraizadas nas profundezas da evolu\u00e7\u00e3o animal<\/em><\/h2>\n<\/div>\n<section class=\"share-bar | border_bottom border_5\">\n<div class=\"content | border_bottom border_1 padding_bottom flex\n              justify_space_between relative\"><\/p>\n<div class=\"\n      social-icons\n      flex container_row\n      horizontal\n\n    \"><\/div>\n<div class=\"\n      social-icons\n      flex container_row\n      horizontal\n\n      right-links\n    \"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<figure class=\"lead_art |  \"><img decoding=\"async\" class=\"width_full\" src=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/resizer\/D8hWmLZCs-9RVVr9TCnMVFFJM9I=\/1500x0\/smart\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/LAT5VIK4UYHRYILLK3TJZP7OLU.jpg\" alt=\"ilustra\u00e7\u00e3o de Pr\u00e0ctica.\" \/><figcaption class=\"color_gray_medium border_bottom border_1 border_gray padding_vertical text_align_right\">ilustra\u00e7\u00e3o de Pr\u00e0ctica.<\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"article_byline | margin_bottom_lg  \">\n<div class=\"authors flex flex_wrap \"><span class=\"margin_bottom uppercase flex align_items_center margin_right\"><a class=\"color_black\" title=\"Ver todas as not\u00edcias de Javier Sampedro\" href=\"https:\/\/elpais.com\/autor\/javier_sampedro\/a\/\">JAVIER SAMPEDRO<\/a><\/span><\/div>\n<div class=\"\">\n<div class=\"place_and_time | uppercase color_gray_medium_lighter\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"article | col desktop_8 tablet_8 mobile_4\">\n<section class=\"article_body | color_gray_dark\">\n<p class=\"\">H\u00e1 2.500 anos, enquanto os babil\u00f4nios tomavam Jerusal\u00e9m, o reino de Wu capitaneado por Sun Tzu esmagava as for\u00e7as de Chu e Tales de Mileto previa um eclipse, um jovem disc\u00edpulo de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/08\/24\/ciencia\/1503599508_412430.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Pit\u00e1goras\u00a0<\/a>chamado Alcme\u00e3o de Crotona prop\u00f4s pela primeira vez que o c\u00e9rebro era a sede da mente. A ideia esfriou mais tarde porque\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/04\/16\/eps\/1555434328_567480.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Arist\u00f3teles\u00a0<\/a>determinou que a sede da mente era o cora\u00e7\u00e3o, e que o c\u00e9rebro era um mero sistema para resfriar o sangue. Hoje sabemos que Alcme\u00e3o estava certo. Mas, como Arist\u00f3teles, continuamos ignorando como o c\u00e9rebro funciona e, portanto, em que consiste a natureza humana.<\/p>\n<p class=\"\">Ningu\u00e9m nega que entender o c\u00e9rebro \u00e9 um dos grandes desafios da ci\u00eancia e que a pesquisa tem sido intensa, brilhante e abundante. Sabemos hoje que a chave da nossa mente \u00e9 a conectividade entre os\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/09\/26\/internacional\/1537983930_127674.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">neur\u00f4nios<\/a>, a geometria de seus circuitos. Conhecemos os intrincados mecanismos pelos quais um neur\u00f4nio decide enviar, atrav\u00e9s de seu ax\u00f4nio (seu\u00a0<em>output<\/em>), o resultado de um complexo c\u00e1lculo que fez integrando as informa\u00e7\u00f5es de seus 10.000 dendritos (seu\u00a0<em>input<\/em>). Entendemos os refor\u00e7os dessas conex\u00f5es (sinapses) que est\u00e3o na base da nossa mem\u00f3ria e usamos as ondas de alto n\u00edvel, resultantes da atividade de milh\u00f5es de neur\u00f4nios, para diagnosticar doen\u00e7as mentais e pesquisar o grau de consci\u00eancia dos volunt\u00e1rios. Por\u00e9m, continuamos sem entender como o c\u00e9rebro gera a mente. Quem disser o contr\u00e1rio \u00e9 um ignorante ou faz parte de uma trama criminosa.<\/p>\n<p class=\"\">Apesar das repetidas e audaciosas tentativas de associar a especificidade humana a uma por\u00e7\u00e3o do c\u00e9rebro radicalmente nova, com uma arquitetura original e inusitada na hist\u00f3ria do planeta, os dados nos mostram teimosamente que todas as nossas peculiaridades \u2014linguagem, matem\u00e1tica, moralidade e justi\u00e7a,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/07\/29\/ciencia\/1564416477_280590.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">artes\u00a0<\/a>e ci\u00eancias\u2014 est\u00e3o enraizadas nas profundezas abissais da evolu\u00e7\u00e3o animal, um processo que come\u00e7ou h\u00e1 600 milh\u00f5es de anos com o surgimento das esponjas e \u00e1guas-vivas.<\/p>\n<p class=\"\">Foram as \u00e1guas-vivas, precisamente, que inventaram os olhos. Existe um gene chamado PAX6 que se ocupa de desenhar o olho primitivo desses cnid\u00e1rios e sua conex\u00e3o com os neur\u00f4nios primitivos deles. Esse mesmo gene (inicialmente descoberto na mosca), tamb\u00e9m \u00e9 respons\u00e1vel pelo desenho do olho humano e de suas leves muta\u00e7\u00f5es, que causam doen\u00e7as cong\u00eanitas, como a aniridia, ou aus\u00eancia de \u00edris; al\u00e9m de outra d\u00fazia de anomalias no desenvolvimento do olho e de seus neur\u00f4nios associados. Em um sentido gen\u00e9tico profundo, nossos olhos e nosso c\u00e9rebro visual tiveram origem nas \u00e1guas-vivas h\u00e1 600 milh\u00f5es de anos.<\/p>\n<p class=\"\">E isso \u00e9 apenas o come\u00e7o da longa, longa hist\u00f3ria da nossa conex\u00e3o com as origens da vida animal. A partir do lobo \u00f3ptico dos animais primitivos, que \u00e9 precisamente o dom\u00ednio de a\u00e7\u00e3o do PAX6, vem o nosso c\u00e9rebro m\u00e9dio (ou mesenc\u00e9falo), essencial para a vis\u00e3o, a audi\u00e7\u00e3o, a regula\u00e7\u00e3o da temperatura corporal, o controle dos movimentos e do ciclo de sono e vig\u00edlia.<\/p>\n<p class=\"\">Outro dos nossos sentidos, o olfato, tamb\u00e9m ancora suas origens na noite dos tempos da vida animal. Ele vem do nosso c\u00f3rtex, a camada mais externa do c\u00e9rebro, que nas esp\u00e9cies mais inteligentes \u2014n\u00f3s, os golfinhos, as baleias, os elefantes\u2014 cresceu tanto que n\u00e3o caberia no cr\u00e2nio se n\u00e3o tivesse se enrugado para produzir essa fealdade abjeta que, compreensivelmente, sentimos relut\u00e2ncia em aceitar como nossa mente. E, no entanto, ela o \u00e9.<\/p>\n<p class=\"\">Do c\u00f3rtex e seus associados, esses frutos evolutivos do ancestral do nosso c\u00e9rebro olfativo, emanam todas as assombrosas\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/07\/29\/tecnologia\/1564354846_969018.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">aptid\u00f5es da mente humana<\/a>, tudo o que nos torna t\u00e3o diferentes e de que tanto nos orgulhamos. Essa camada externa e antiest\u00e9tica do c\u00e9rebro gera \u2014ou, mais precisamente,\u00a0<em>encarna<\/em>\u2014 nossas sensa\u00e7\u00f5es do mundo exterior, nossas ordens volunt\u00e1rias para mexer a boca ou os bra\u00e7os e um enxame de \u201c\u00e1reas de associa\u00e7\u00e3o\u201d onde os sentidos, as lembran\u00e7as e os pensamentos s\u00e3o integrados para produzir uma cena consciente \u00fanica, o tecido do qual nossa experi\u00eancia \u00e9 feita.<\/p>\n<p class=\"\">Todo o c\u00e9rebro \u00e9 um enigma, mas se fosse preciso escolher um problema supremo nessa floresta, seria o mist\u00e9rio da consci\u00eancia. E h\u00e1 uma hist\u00f3ria cient\u00edfica que precisa ser contada aqui. Quando adolescente, um dos grandes cientistas do s\u00e9culo XX, Francis Crick, se preocupava com o fato de que, quando se tornasse adulto, tudo j\u00e1 teria sido descoberto. Quando cresceu, a primeira miss\u00e3o do jovem Crick foi projetar minas contra os submarinos alem\u00e3es. Depois da guerra, no entanto, Crick parou para pensar que havia grandes problemas a resolver na ci\u00eancia. Decidiu que os enigmas essenciais eram dois: a fronteira entre o vivo e o inerte e a fronteira entre o consciente e o inconsciente. Seu primeiro enigma foi resolvido satisfatoriamente com a dupla h\u00e9lice de DNA, que descobriu com James Watson em 1953. E o segundo nunca chegou a averiguar \u2014isso teria feito dele o maior cientista da hist\u00f3ria\u2014, mas foi capaz de estimular pesquisadores mais jovens e os gestores dos financiamentos da ci\u00eancia norte-americana para que se concentrassem nesse pin\u00e1culo pendente do conhecimento. O principal de seus colaboradores nessa explora\u00e7\u00e3o foi Christof Koch, atual diretor do Instituto Allen de Bioci\u00eancia, em Seattle.<\/p>\n<p class=\"\">Quinze anos ap\u00f3s a morte de Crick, Koch continua cativado pelo problema da consci\u00eancia. Como a atividade dos neur\u00f4nios individuais, e dos circuitos formado por milhares ou milh\u00f5es deles, produz a sensa\u00e7\u00e3o \u00fanica e global de ser consciente, de ter acordado, de estar vivo? Essa convic\u00e7\u00e3o de que somos diferentes de uma \u00e1gua-viva, de que somos uma entidade transcendente, capaz de compreender o mundo e distinta de todas as anteriores. Vejamos o estado atual dessa linha de pesquisa crucial. \u00c9 ci\u00eancia b\u00e1sica. As aplica\u00e7\u00f5es sempre v\u00eam depois de um profundo entendimento, como demonstra a hist\u00f3ria da ci\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"\">\u201cA consci\u00eancia \u00e9 tudo o que voc\u00ea experimenta\u201d, escreve Koch. \u201c\u00c9 a can\u00e7\u00e3o que se repete na sua cabe\u00e7a, a do\u00e7ura de uma mousse de chocolate, o latejar de uma dor de dente, o amor feroz por seu filho e o discernimento amargo de que, no final, todos esses sentimentos acabar\u00e3o\u201d. H\u00e1 dois campos cient\u00edficos que aspiram a competir com os poetas na interpreta\u00e7\u00e3o do mundo: a cosmologia e a neurologia. Tem toda a l\u00f3gica. Uma boa equa\u00e7\u00e3o sintetiza uma imensa quantidade de dados em um cent\u00edmetro quadrado de papel, assim como um bom verso.<\/p>\n<p class=\"\">Para fil\u00f3sofos como Daniel Dennett, o problema da consci\u00eancia \u00e9 insepar\u00e1vel do enigma dos\u00a0<em>qualia<\/em>: o que sentimos como a vermelhid\u00e3o da cor vermelha, a do\u00e7ura de um doce, a sensa\u00e7\u00e3o de dor que nos causa uma dor de dente. Esses fil\u00f3sofos acreditam que o enigma dos\u00a0<em>qualia<\/em>\u00a0n\u00e3o pode ser resolvido, nem sequer abordado, pela ci\u00eancia, porque esses sentimentos s\u00e3o particulares e n\u00e3o podem ser comparados, aprendidos ou medidos por refer\u00eancias externas. Essa ideia, no entanto, contradiz o princ\u00edpio geral de que a mente equivale ao c\u00e9rebro, como Alcme\u00e3o de Crotona adiantou h\u00e1 2.500 anos.<\/p>\n<p class=\"\">Se tudo o que acontece em nossa mente \u00e9 produto de \u2014ou melhor, \u00e9 id\u00eantico \u00e0\u2014 atividade de certos circuitos neurais, a consci\u00eancia n\u00e3o pode ser uma exce\u00e7\u00e3o, ou ent\u00e3o retornar\u00edamos ao animismo irracional, \u00e0 cren\u00e7a em uma alma separada do corpo, aos fantasmas e ectoplasmas. Crick e Koch decidiram pular o suposto enigma dos\u00a0<em>qualia<\/em>\u00a0para se concentrar em procurar os \u201ccorrelatos neurais da consci\u00eancia\u201d, isto \u00e9, os circuitos m\u00ednimos suficientes para que se produza uma experi\u00eancia consciente. A estrat\u00e9gia deu frutos.<\/p>\n<p class=\"\">Tomemos o efeito bem conhecido da rivalidade binocular. Com uma montagem simples, voc\u00ea pode apresentar uma imagem ao olho esquerdo de um volunt\u00e1rio (um retrato de Maria, por exemplo) e outra ao olho direito (um retrato de Jo\u00e3o). Voc\u00ea poderia pensar que o volunt\u00e1rio veria uma mistura chocante dos dois rostos, mas se voc\u00ea perguntar a ele, ver\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 assim. Ele v\u00ea Maria durante um momento, ent\u00e3o de repente v\u00ea Jo\u00e3o, depois outra vez Maria e assim por diante. Os dois olhos rivalizam para fazer chegar suas informa\u00e7\u00f5es \u00e0 consci\u00eancia (da\u00ed \u201crivalidade binocular\u201d). O que muda no c\u00e9rebro quando a consci\u00eancia passa de um rosto ao outro?<\/p>\n<p class=\"\">Experimentos desse tipo, combinados com modernas t\u00e9cnicas de imagem cerebral, como a resson\u00e2ncia magn\u00e9tica funcional (fMRI), apontam repetidas vezes para a \u201czona quente posterior\u201d. \u00c9 composta por circuitos de tr\u00eas lobos (partes do c\u00f3rtex cerebral): o temporal (acima das orelhas), o parietal (logo acima do temporal, em todo o alto da cabe\u00e7a) e o occipital (um pouco acima da nuca). Isso \u00e9 em si uma surpresa, porque a maioria dos neurocientistas teria esperado encontrar consci\u00eancia nos lobos frontais, a parte mais anterior do c\u00f3rtex cerebral e a que mais cresceu durante a evolu\u00e7\u00e3o humana. Mas n\u00e3o \u00e9 assim. A consci\u00eancia reside em \u00e1reas posteriores do c\u00e9rebro que compartilhamos com os mam\u00edferos em geral.<\/p>\n<p class=\"\">Outra descoberta recente \u00e9 que as \u00e1reas envolvidas na consci\u00eancia \u2014a zona quente posterior\u2014 n\u00e3o s\u00e3o as que recebem os sinais diretos dos olhos e dos demais sentidos. O que acontece nessas \u00e1reas prim\u00e1rias\u00a0<em>n\u00e3o \u00e9<\/em>\u00a0o que o sujeito v\u00ea, ou est\u00e1 consciente de ver. A consci\u00eancia est\u00e1 em \u00e1reas que recebem, elaboram e interconectam essa informa\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, tanto na vista como nos outros sentidos.<\/p>\n<p class=\"\">Uma pr\u00e1tica cir\u00fargica tradicional nos oferece mais pistas valiosas. Quando os neurocirurgi\u00f5es t\u00eam de remover um tumor cerebral, ou os tecidos que causam ataques epil\u00e9pticos muito graves, tomam uma precau\u00e7\u00e3o l\u00f3gica: com o cr\u00e2nio aberto, estimulam as \u00e1reas vizinhas com eletrodos para ver exatamente onde est\u00e3o no mapa do c\u00f3rtex, e at\u00e9 onde conv\u00e9m chegar (ou n\u00e3o chegar) com o bisturi. Foi assim, de fato, que foi mapeado o\u00a0<em>hom\u00fanculo motor<\/em>, essa figura humana disforme que temos acima da orelha e que controla todos os nossos movimentos volunt\u00e1rios. Estimule aqui e o paciente move uma perna; estimule ali e mover\u00e1 o dedo m\u00e9dio da m\u00e3o esquerda, ou a l\u00edngua e os l\u00e1bios.<\/p>\n<p class=\"\">Quando a zona quente posterior \u00e9 estimulada, o paciente experimenta todo um leque de sensa\u00e7\u00f5es e sentimentos. Pode ver luzes brilhantes, rostos deformados e formas geom\u00e9tricas, ou sentir alucina\u00e7\u00f5es em qualquer modalidade sensorial, ou vontade de mexer um bra\u00e7o (mas desta vez sem chegar a mov\u00ea-lo). Em sua forma normal, esse parece ser o material com o qual nossa consci\u00eancia \u00e9 tecida. Quando parte da zona quente \u00e9 danificada por uma doen\u00e7a ou acidente, ou removida pelos cirurgi\u00f5es, o paciente perde conte\u00fados da consci\u00eancia. Torna-se incapaz de reconhecer o movimento de qualquer objeto ou pessoa, ou a cor das coisas, ou se lembrar de rostos que antes lhe eram familiares.<\/p>\n<p class=\"\">A neuroci\u00eancia, portanto, n\u00e3o apenas demonstrou a hip\u00f3tese de Alcme\u00e3o de Crotona \u2013que o c\u00e9rebro \u00e9 a sede da mente\u2013 mas tamb\u00e9m encontrou o lugar exato em que reside a consci\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"\">Entender como essa por\u00e7\u00e3o do c\u00e9rebro funciona \u00e9 uma quest\u00e3o muito mais dif\u00edcil, que algum dia merecer\u00e1 um Pr\u00eamio Nobel. Mas a mera localiza\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia na parte posterior do c\u00f3rtex cerebral tem uma clara implica\u00e7\u00e3o. A marca distintiva da evolu\u00e7\u00e3o humana \u00e9 o crescimento explosivo do c\u00f3rtex frontal. O c\u00f3rtex posterior, inclu\u00edda a zona quente, n\u00f3s herdamos dos nossos ancestrais mam\u00edferos e al\u00e9m.<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/01\/26\/ciencia\/1548516480_501246.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">\u00a0Muitos animais, portanto, devem ser conscientes<\/a>: eles t\u00eam uma mente no sentido de Alcme\u00e3o. \u00c9 uma ideia perturbadora, mas teremos de aprender a viver com ela e a administrar suas implica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"\">Compreender o c\u00e9rebro \u00e9, sem d\u00favida, um dos maiores desafios que a ci\u00eancia atual enfrenta. Trata-se do objeto mais complexo de que temos not\u00edcia no universo, e a tarefa \u00e9 formid\u00e1vel. Mas a recompensa ser\u00e1 grande para a pesquisa e o pensamento. Talvez n\u00e3o falte tanto para isso.<\/p>\n<\/section>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dados mostram teimosamente que todas as nossas peculiaridades \u2014linguagem, matem\u00e1tica, moralidade, artes e ci\u00eancias\u2014 est\u00e3o enraizadas nas profundezas da evolu\u00e7\u00e3o animal<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":271163,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[6,11],"tags":[],"class_list":["post-292975","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-municipios","category-regional"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/desenho-neuronio.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/292975","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=292975"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/292975\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/271163"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=292975"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=292975"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=292975"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}