{"id":293709,"date":"2019-08-30T06:30:52","date_gmt":"2019-08-30T09:30:52","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=293709"},"modified":"2019-08-30T06:30:52","modified_gmt":"2019-08-30T09:30:52","slug":"como-o-tempo-mudou-nossas-nocoes-de-tristeza-timidez-e-ate-beleza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/como-o-tempo-mudou-nossas-nocoes-de-tristeza-timidez-e-ate-beleza\/","title":{"rendered":"Como o tempo mudou nossas no\u00e7\u00f5es de tristeza, timidez e at\u00e9 beleza"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\"><\/h1>\n<div class=\"byline\"><span class=\"byline__name\">Mariana Alvim <\/span><\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/308C\/production\/_108482421_gettyimages-164451358.jpg\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00e3o com estilo retr\u00f4 mostra mulher sentada lendo revista e outra mexendo em seu cabelo\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span>&#8216;Beleza&#8217; se escreve no feminino, lembra Bernuzzi, mas ao longo do tempo homens tamb\u00e9m foram moldados por diferentes padr\u00f5es est\u00e9ticos<\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">Esportes n\u00e3o s\u00e3o recomend\u00e1veis a senhoras que passaram dos 30 por serem um risco \u00e0\u00a0<a class=\"story-body__link\" href=\"https:\/\/www.bbc.co.uk\/portuguese\/topics\/c4794229-7f87-43ce-ac0a-6cfcd6d3cef2\">sa\u00fade<\/a>\u00a0e uma &#8220;indec\u00eancia&#8221;. Leques s\u00e3o itens essenciais ao flerte. A tristeza pode ter origem no f\u00edgado.<\/p>\n<p>Estas afirma\u00e7\u00f5es podem soar absurdas para voc\u00ea, internauta do s\u00e9culo 21, mas representam cren\u00e7as sociais sobre a beleza e as emo\u00e7\u00f5es comuns no in\u00edcio do s\u00e9culo passado.<\/p>\n<p>Entender como atributos aparentemente inquestion\u00e1veis como feio, bonito, alegre, triste, gordo e magro foram constru\u00eddos no \u00faltimo s\u00e9culo faz parte do trabalho de Denise Bernuzzi de Sant&#8217;Anna, uma &#8220;historiadora das emo\u00e7\u00f5es&#8221; que d\u00e1 aulas na Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo (PUC-SP) e se prepara para lan\u00e7ar um novo livro, dessa vez sobre sentimentos tristes e depress\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;No passado, as experi\u00eancias tristes tinham nomes diversos e podiam ser males da alma, do esp\u00edrito ou \u00e0s vezes at\u00e9 do pr\u00f3prio corpo, como a ideia de uma bile (fluido produzido pelo f\u00edgado) amarga&#8221;, explicou a historiadora em entrevista \u00e0 BBC News Brasil por telefone.<\/p>\n<p>&#8220;Nos anos 1910, 1920, havia rem\u00e9dios, como o veronal, que buscavam tratar de sentimentos tristes que teriam origem em um problema f\u00edsico, como no f\u00edgado ou est\u00f4mago, uma tradi\u00e7\u00e3o que remonta \u00e0 Gr\u00e9cia Antiga.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Ou, no Brasil, at\u00e9 um problema de nutri\u00e7\u00e3o, como raquitismo ou anemia. O Jeca Tatu, personagem de Monteiro Lobato, uma figura magra, desnutrida, ap\u00e1tica, representa isso. Com isso, vem toda a propaganda da \u00e9poca de fortificantes, como o Biot\u00f4nico Fontoura. E, com Get\u00falio Vargas, a constru\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o \u00e9 atrelada a produ\u00e7\u00e3o de um brasileiro \u2013 especialmente crian\u00e7as \u2013 forte, robusto e, sobretudo, alegre.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/CCCC\/production\/_108482425_gettyimages-839476912.jpg\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00e3o mostra diversos \u00f3rg\u00e3os do corpo humano animados\" width=\"549\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">Tradi\u00e7\u00f5es antigas ligavam humor a um fundo fisi\u00f3logico, como os \u00f3rg\u00e3os, conta historiadora<\/figure>\n<p>As coisas come\u00e7am a mudar, no Brasil e no mundo, ap\u00f3s a Segunda Guerra, quando come\u00e7am a surgir medicamentos antidepressivos e manuais de psiquiatria.<\/p>\n<p>Estes manuais tiveram como marco inicial uma publica\u00e7\u00e3o de 1952 da Associa\u00e7\u00e3o Americana de Psiquiatria (APA), que desde ent\u00e3o ganhou diversas vers\u00f5es. Elas trazem classifica\u00e7\u00f5es de dist\u00farbios mentais e seus sintomas, e sua influ\u00eancia foi desde estat\u00edsticas governamentais a planos de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Mas estas publica\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m s\u00e3o cercadas de cr\u00edticas: em 2013, quando a quinta e mais recente vers\u00e3o da APA foi lan\u00e7ada, e\u00a0<a class=\"story-body__link\" href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/noticias\/2013\/05\/130515_manual_psiquiatria_ny_fl\">alguns psiquiatras denunciaram que os manuais estaria transformando em doen\u00e7as comportamentos at\u00e9 agora considerados comuns<\/a>.<\/p>\n<p>Bernuzzi diz que historicamente os textos passaram a tratar de como estados emocionais como t\u00e9dio, timidez, mal estar, luto ou desilus\u00f5es amorosas podem eventualmente ser classificadas como transtornos, medicalizados e relacionados a um fundo fisiol\u00f3gico.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;Males do esp\u00edrito&#8217; em baixa<\/h2>\n<p>S\u00f3 que agora, vinculados a uma outra parte do corpo.<\/p>\n<p>&#8220;O c\u00e9rebro virou um fato social, ganhou uma centralidade nas nossas preocupa\u00e7\u00f5es com a sa\u00fade. Na nossa rotina, discutimos os elementos bioqu\u00edmicos do c\u00e9rebro: serotonina, endorfina&#8230;&#8221;, exemplifica a historiadora.<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 uma disputa a\u00ed, porque por muitos s\u00e9culos, estes males eram coisas da alma. E a alma tem qualquer coisa de sobrenatural. Hoje, as mol\u00e9culas e os neur\u00f4nios superaram a ideia dos males do esp\u00edrito. Vivemos uma era muito mais materialista nesse aspecto.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Isso tem uma rela\u00e7\u00e3o forte com o decl\u00ednio da transcend\u00eancia: mesmo nas igrejas evang\u00e9licas, que crescem muito hoje, a \u00eanfase na vida atual (em contraposi\u00e7\u00e3o a outros planos) \u00e9 muito forte. A gente tende a fazer mais jejuns do corpo do que da alma.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption body-narrow-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/304\/cpsprodpb\/8366\/production\/_108483633_foto_dentro9635_0.jpg\" alt=\"Denise Bernuzzi posa para foto\" width=\"412\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"304\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-portrait has-caption body-narrow-width\">&#8216;A gente tende a fazer mais jejuns do corpo do que da alma.&#8217;, diz Bernuzzi sobre a contemporaneidade<\/figure>\n<p>Uma consequ\u00eancia &#8220;terr\u00edvel&#8221; deste novo cen\u00e1rio \u00e9, para a pesquisadora, uma &#8220;intoler\u00e2ncia muito maior \u00e0 tristeza&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Ela se tornou mais intoler\u00e1vel porque n\u00f3s a desnaturalizamos. \u00c0 medida que a tristeza vira uma doen\u00e7a, um dist\u00farbio, um desequil\u00edbrio, n\u00e3o s\u00f3 algo que simplesmente faz parte da vida, fica mais dif\u00edcil aceit\u00e1-la.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Voc\u00ea v\u00ea por algumas palavras que desapareceram, o que indica uma experi\u00eancia que n\u00e3o existe mais. Uma delas \u00e9 o &#8216;resguardo&#8217;, fase pela qual as mulheres passavam quando tinham filhos. Elas ficavam isoladas, eram alimentadas com canja por 20 dias, algumas tampavam o ouvido para n\u00e3o ouvir barulhos.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o tem &#8216;resguardo&#8217; hoje. N\u00f3s eliminamos cada vez mais da nossa vida espa\u00e7os que consideramos altamente entediantes, improdutivos, at\u00e9 doentios.&#8221;<\/p>\n<p>Mas esta n\u00e3o pode ser uma leitura saudosista? Bernuzzi diz &#8220;insistir&#8221; em destacar que, entre passado ou presente, n\u00e3o h\u00e1 algum cen\u00e1rio que seja melhor: o interessante \u00e9 perceber o que mudou.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/215A\/production\/_108483580_gettyimages-814571350.jpg\" alt=\"Pintura em preto e branco mostra mulher deitada com beb\u00ea rec\u00e9m-nascido no colo, e menina ajoelhada ao lado brincando com nen\u00e9m\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>&#8216;N\u00e3o tem &#8216;resguardo&#8217; hoje. N\u00f3s eliminamos cada vez mais da nossa vida espa\u00e7os que consideramos altamente entediantes, improdutivos, at\u00e9 doentios&#8217;, diz pesquisadora sobre antigo h\u00e1bito do puerp\u00e9rio<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">O que \u00e9 bonito?<\/h2>\n<p>Outro conceito que mudou radicalmente no \u00faltimo s\u00e9culo foi o de beleza, tema de estudo de Bernuzzi em seu doutorado na Universidade Paris VII, na Fran\u00e7a. A pesquisa resultou anos depois no livro a\u00a0<i>Hist\u00f3ria da Beleza no Brasil<\/i>\u00a0(Editora Contexto, 2014).<\/p>\n<p>Como em boa parte de seu trabalho, a historiadora se baseou em publica\u00e7\u00f5es na imprensa, propagandas e documentos da \u00e1rea m\u00e9dica, como teses e boletins.<\/p>\n<p>Isso, ela reconhece, acaba refletindo na predomin\u00e2ncia da hist\u00f3ria de certos grupos sociais em detrimento de outros, como os ind\u00edgenas &#8220;exterminados&#8221;. Assim, h\u00e1 tradi\u00e7\u00f5es que acabam n\u00e3o capturadas: &#8220;Um grande desafio do historiador \u00e9 fazer hist\u00f3ria dessas popula\u00e7\u00f5es que n\u00e3o tiveram voz.&#8221;<\/p>\n<p>Bernuzzi destaca que, do in\u00edcio do s\u00e9culo at\u00e9 hoje, houve uma transi\u00e7\u00e3o do corpo como pertencente a uma comunidade \u2013 &#8220;ficando, assim, dependente da aprova\u00e7\u00e3o desta&#8221; \u2013 para uma propriedade mais individual.<\/p>\n<p>No Brasil do final do s\u00e9culo 19 e in\u00edcio do 20, por exemplo, um elogio important\u00edssimo era ser &#8220;elegante&#8221; \u2013 o que se refletia, entre a popula\u00e7\u00e3o abastada, no uso de produtos e roupas rebuscadas, como itens comprados em S\u00e3o Paulo na Casa Garraux, que importava de Paris p\u00f3s de arroz, \u00e1guas de col\u00f4nia e perfumes.<\/p>\n<p>Mas, no cen\u00e1rio tropical, a importa\u00e7\u00e3o destes h\u00e1bitos n\u00e3o era perfeita: vestidos com cauda ficavam sujos com facilidade e levavam para dentro de casa a poeira das ruas das cidades que efervesciam; penteados complicados duravam pouco e o p\u00f3 de arroz podia se tornar uma pasta com o calor.<\/p>\n<p>Falando no calor, outro item essencial naquele tempo eram os leques, mas sua fun\u00e7\u00e3o ia muito al\u00e9m de refrescar.<\/p>\n<p>&#8220;Saber usar um leque implicava conhecer os significados e os poderes dos gestos de abri-los e fech\u00e1-los. Havia significados distintos para leques fechados, abanados rapidamente ou lentamente. Equipamento essencial ao flerte, o seu desuso representou o esquecimento de um meio de comunica\u00e7\u00e3o&#8221;, diz a historiadora no livro.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/6F7A\/production\/_108483582_gettyimages-1138849691.jpg\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00f5es da era vitoriana da s\u00e9rie 'The society war game' (1884) mostra diferentes cenas em que pessoas usam leques\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Ilustra\u00e7\u00f5es da era vitoriana da s\u00e9rie &#8216;The society war game&#8217; (1884) refletem a import\u00e2ncia, na virada para o s\u00e9culo passado, do leque<\/figure>\n<p>Bernuzzi mostra tamb\u00e9m como epis\u00f3dios hist\u00f3ricos expressam no\u00e7\u00f5es de beleza, como a proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, consolidada em 1989. A elite monarquista, que ficava para tr\u00e1s, era simbolizada pela velhice e era conquistada pela mocidade republicana.<\/p>\n<p>Um trecho de\u00a0<i>Ordem e progresso<\/i>, de Gilberto Freyre (1900-1987), reproduzido no livro de Bernuzzi, diz que o per\u00edodo imperial havia morrido &#8220;sob as barbas brancas e nunca maculadas pela pintura do imperador D. Pedro 2\u00ba, ao passo que, em seu lugar, resplandeciam as barbas escuras dos jovens lideres republicanos, \u00e1vidos do poder&#8221;.<\/p>\n<p>Lembra at\u00e9 acontecimentos recentes da pol\u00edtica brasileira, em que o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) se viu rachado entre os &#8220;cabe\u00e7as brancas&#8221;, nomes mais antigos e tradicionais da sigla; e os &#8220;cabe\u00e7as pretas&#8221;, a ala mais jovem e fonte de uma proposta de novos rumos para o partido.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Influ\u00eancia americana<\/h2>\n<p>Com o passar das d\u00e9cadas, a influ\u00eancia dos Estados Unidos na economia, pol\u00edtica e cultura se reflete tamb\u00e9m nos ideais est\u00e9ticos, inclusive no Brasil. Isso se consolida na d\u00e9cada de 50, com o chamado\u00a0<i>american way of life<\/i>\u00a0\u2013 o &#8220;estilo de vida americano&#8221;, que se pauta em um discurso meritocr\u00e1tico, visando a qualidade de vida e abund\u00e2ncia material.<\/p>\n<p>A beleza, que sempre se escreveu no feminino, lembra Bernuzzi, indicando como atributo. O tema foi predominantemente relacionado \u00e0s mulheres e ganhou novos modelos tamb\u00e9m para os homens.<\/p>\n<p>As guerras mundiais catapultam o modelo viril dos soldados e o t\u00f3rax forte como atributo desej\u00e1vel.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 que antes n\u00e3o houvesse tend\u00eancias de beleza para eles. O Brasil do in\u00edcio do s\u00e9culo 20, por exemplo, tinha um \u00edcone do dandismo para chamar de seu, o pintor e fot\u00f3grafo Ernesto Quissak (1891-1960).<\/p>\n<p>Um d\u00e2ndi se vestia de maneira ousada e cheia de personalidade: a forma encontrada por jovens bo\u00eamios e rom\u00e2nticos para se opor \u00e0 predomin\u00e2ncia do ideal requintado da burguesia.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/E4AA\/production\/_108483585_gettyimages-182878158.jpg\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00e3o mostra dois homens com figurino d\u00e2ndi\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Jovens bo\u00eamios e rom\u00e2nticos levaram \u00e0 frente o estilo d\u00e2ndi<\/figure>\n<p>D\u00e9cadas depois vieram outras chacoalhadas nas defini\u00e7\u00f5es de feminino e masculino, como as trazidas pela contracultura das d\u00e9cadas de 60 e 70 e pelo\u00a0<i>rock&#8217;n&#8217;roll<\/i>. Gestos, roupas e adere\u00e7os at\u00e9 ent\u00e3o mais associados \u00e0s mulheres foram potencializados por estrelas como os m\u00fasicos David Bowie e Freddie Mercury; e no Brasil, Ney Matogrosso, exemplifica Bernuzzi.<\/p>\n<p>A contracultura, na verdade, foi um marco para todos. At\u00e9 para as gr\u00e1vidas.<\/p>\n<p>&#8220;A barriga gr\u00e1vida n\u00e3o era uma imagem valorizada. Isso muda com a contracultura, os movimentos de aceita\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio corpo, o feminismo. No Brasil, Leila Diniz foi um marco&#8221;, aponta Bernuzzi, lembrando da atriz cuja imagem na praia, n\u00e3o s\u00f3 preterindo o mai\u00f4 ao biquini \u2013 ainda em processo de aceita\u00e7\u00e3o \u2013, como tamb\u00e9m gr\u00e1vida, se tornou ic\u00f4nica.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio da foto da d\u00e9cada de 70, o mar do Rio de Janeiro, expressava tamb\u00e9m o protagonismo da capital fluminense como centro irradiador de modas para todo o pa\u00eds, entre elas, o uso de tangas.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">As musas da literatura<\/h2>\n<p>Cabelos molhados, soltos, \u00e0s vezes cheios, assim como corpos pouco cobertos, ganharam brilho nesse contexto de libera\u00e7\u00e3o corporal, o que, para Bernuzzi, vai ao encontro de um ideal particularmente brasileiro de beleza.<\/p>\n<p>&#8220;Temos esse mito de uma beleza natural muito forte, como se a mulher brasileira fosse um retrato de sua natureza: selvagem, indom\u00e1vel. A literatura alimenta isso, com mitos fundadores como Iracema, l\u00e1bios de mel&#8221;, diz a historiadora, fazendo refer\u00eancia \u00e0 personagem t\u00edtulo de romance hom\u00f4nimo de Jos\u00e9 de Alencar (1829-1877), descrita por ele como &#8220;a virgem dos l\u00e1bios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da gra\u00fana, e mais longos que seu talhe de palmeira.&#8221;<\/p>\n<p>A pesquisadora j\u00e1 mapeou outros s\u00edmbolos, na arte brasileira, de \u00edcones e express\u00f5es da beleza ao longo da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Guta, adolescente e uma das protagonistas do romance\u00a0<i>As tr\u00eas Marias<\/i>, de Rachel de Queiroz (1910-2003), simbolizou a repress\u00e3o das fam\u00edlias, no in\u00edcio do s\u00e9culo passado, diante de novidades como usar maquiagem ou fazer penteados ousados. Guta tinha truques com as amigas para burlar as regras, como enrolar a saia comprida na altura da cintura para mostrar as pernas na sa\u00edda da escola.<\/p>\n<p>Beatriz, personagem de Jorge Amado (1912-2001) em\u00a0<i>Tereza Batista cansada de guerra<\/i>, escandalizou sua vizinha por fazer cirurgias pl\u00e1sticas, algo ainda novo naquele tempo. Ao rejuvenescer o rosto e os seios, se tornou a &#8220;glorifica\u00e7\u00e3o ambulante da medicina moderna&#8221;, nas palavras do autor.<\/p>\n<p>Jacira, mote do impiedoso t\u00edtulo do conto\u00a0<i>Feia demais<\/i>, de Nelson Rodrigues (1912-1980), explicita o tratamento hoje escandaramente cruel \u00e0s mulheres consideradas feias. Rodrigues conta a hist\u00f3ria de um rapaz &#8220;bem apanhado&#8221;, que se apaixonou por uma mulher &#8220;fei\u00edssima&#8221;, &#8220;um bucho horroroso&#8221;. Depois de casados, ele se arrependeu de t\u00ea-lo feito ap\u00f3s v\u00ea-la diante do espelho.<\/p>\n<p>Na verdade, a exig\u00eancia de beleza revela como, neste campo, h\u00e1 uma &#8220;alian\u00e7a nem sempre vis\u00edvel&#8221; entre prazeres e sofrimentos, direitos e deveres, como aponta a historiadora.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/5C56\/production\/_108483632_gettyimages-182878146.jpg\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00e3o mostra homem se olhando em espelho de corpo inteiro\" width=\"549\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">Achava que eles sempre estiveram por aqui? No in\u00edcio do s\u00e9culo passado, espelhos eram artigos de luxo<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;Persegui\u00e7\u00e3o especular&#8217;<\/h2>\n<p>Hoje \u00e9 dif\u00edcil imaginar, por exemplo, como seria um mundo sem espelhos ou tantas imagens nas telas \u2013 e sem a press\u00e3o que eles fazem.<\/p>\n<p>&#8220;As pessoas n\u00e3o se viam tanto em outros s\u00e9culos, n\u00e3o havia espelho em toda parte, essa persegui\u00e7\u00e3o especular. Nos anos 1910, 1920, espelhos eram caros, ainda mais de corpo inteiro. As elites tinham no guarda-roupa.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;O h\u00e1bito de se olhar em espelhos maiores dentro de casa se banaliza mesmo depois dos anos 70.&#8221;<\/p>\n<p>A multiplica\u00e7\u00e3o de imagens tamb\u00e9m pressiona para que toda imagem do ser humano seja fotog\u00eanica \u2013 mesmo que venha de dentro do corpo.<\/p>\n<p>&#8220;Mesmo sendo um feto na barriga, tem que ser algo que j\u00e1 nos d\u00ea uma sensa\u00e7\u00e3o boa. N\u00e3o vou dizer bonito, mas tem que ser harmonioso.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Um outro exemplo disso [da press\u00e3o sobre toda parte do corpo] s\u00e3o os mamilos nas [revistas]\u00a0<i>Playboys<\/i>. At\u00e9 um certo ponto, os seios das mulheres s\u00e3o os mais diversos. Depois, inclusive por causa da cirurgia est\u00e9tica, h\u00e1 uma padroniza\u00e7\u00e3o nos anos 90, 2000. H\u00e1 a exig\u00eancia de uma fotogenia estandarte.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Como se n\u00e3o bastasse, h\u00e1 uma cobran\u00e7a \u00e0s vezes nas partes internas do corpo, como a que motiva cirurgias est\u00e9ticas ginecol\u00f3gicas.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/169DE\/production\/_108483629_gettyimages-1085682140.jpg\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00e3o mostra v\u00e1rias mulheres com apar\u00eancias diferentes enfileiradas\" width=\"549\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">Do in\u00edcio do s\u00e9culo a hoje, historiadora aponta para transi\u00e7\u00e3o do corpo como pertencente \u00e0 comunidade para algo como uma propriedade individual<\/figure>\n<p>No Brasil, a ades\u00e3o \u00e0s cirurgias pl\u00e1sticas vai muito al\u00e9m deste procedimento. Somos o segundo pa\u00eds do mundo no volume de cirurgias est\u00e9ticas (1,4 milh\u00e3o em 2017), pouco atr\u00e1s dos Estados Unidos (1,5 milh\u00e3o).<\/p>\n<p>Segundo a historiadora, no pa\u00eds, artigos na imprensa j\u00e1 anunciavam nomes de cirurgi\u00f5es e financiamentos para opera\u00e7\u00f5es na d\u00e9cada de 60 e 70, mas foi s\u00f3 nos anos 80 que a pr\u00e1tica foi impulsionada.<\/p>\n<p>\u00c9 uma ascens\u00e3o associada \u00e0 &#8220;globaliza\u00e7\u00e3o&#8221; da publicidade de corpos jovens e longil\u00edneos e \u00e0 cria\u00e7\u00e3o da medicina est\u00e9tica inicialmente na Fran\u00e7a e nos EUA.<\/p>\n<p>&#8220;E o Brasil tem uma certa facilidade em aceitar novas tecnologias. Isso em todos os meios, inclusive o m\u00e9dico. Na Fran\u00e7a, as pessoas fazem cirurgia pl\u00e1stica tamb\u00e9m, mas h\u00e1 um n\u00edvel de precau\u00e7\u00e3o maior, como com a anestesia geral. A grande preocupa\u00e7\u00e3o aqui no Brasil \u00e9 se vai ficar bom.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;A nossa intoler\u00e2ncia \u00e0 idade \u00e9 muito grande. Somos um pa\u00eds jovem. A disputa no mercado amoroso, no mercado de trabalho, \u00e9 muito mais cruel.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;N\u00e3o tem &#8216;resguardo&#8217; hoje. 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