{"id":294523,"date":"2019-09-07T09:14:30","date_gmt":"2019-09-07T12:14:30","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=294523"},"modified":"2019-09-08T13:48:28","modified_gmt":"2019-09-08T16:48:28","slug":"7-de-setembro-governos-usam-simbolos-nacionais-para-reescrever-a-historia-conforme-seus-interesses-diz-laurentino-gomes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/7-de-setembro-governos-usam-simbolos-nacionais-para-reescrever-a-historia-conforme-seus-interesses-diz-laurentino-gomes\/","title":{"rendered":"7 de Setembro: Governos usam s\u00edmbolos nacionais para reescrever a hist\u00f3ria conforme seus interesses"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"byline\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"byline__name\">Vitor Hugo Brandalise<\/span><\/div>\n<div class=\"with-extracted-share-icons\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share-row\">\n<div class=\"share-tools--no-event-tag\">\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-twite\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/9EF6\/production\/_108649604_visitaaocubculodeumasenzalanoengenhourua_zonadamatadepernambuco_comargoladeferrousadaparaimobilizarescravos.jpg\" alt=\"Laurentino Gomes\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span>Laurentino Gomes em visita ao cub\u00edculo de uma senzala no Engenho Urua\u00e9, na Zona da Mata de Pernambuco, com argola de ferro usada para imobilizar escravos<\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\" style=\"text-align: justify;\">O Brasil \u00e9 um pa\u00eds que d\u00e1 import\u00e2ncia demais aos seus s\u00edmbolos, e de menos \u00e0 sua gente. A defini\u00e7\u00e3o \u00e9 do escritor Laurentino Gomes, autor de uma trilogia premiada sobre a hist\u00f3ria do Brasil- os livros 1808, 1822 e 1889- e que acaba de lan\u00e7ar o primeiro livro de uma nova s\u00e9rie, desta vez sobre a escravid\u00e3o no pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo Laurentino Gomes, datas como a de hoje, o feriado da Independ\u00eancia, e s\u00edmbolos nacionais, como a bandeira do Brasil, t\u00eam sido utilizados h\u00e1 anos por governos para reescrever a hist\u00f3ria conforme seus interesses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo ele, no governo Jair Bolsonaro, patriotismo e datas hist\u00f3ricas s\u00e3o usados para negar o legado da escravid\u00e3o e para manter sistemas de privil\u00e9gios. Mas o renomado historiador ressalta que a estrat\u00e9gia de utilizar s\u00edmbolos patri\u00f3ticos para vender ideologia e pol\u00edticas p\u00fablicas n\u00e3o \u00e9 de hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Como a hist\u00f3ria \u00e9 ferramenta de constru\u00e7\u00e3o da identidade (&#8230;) \u00e9 natural que a hist\u00f3ria, e tamb\u00e9m os seus s\u00edmbolos, sejam manipulados pelas autoridades, pelos partidos pol\u00edticos, pelos diferentes grupos ideol\u00f3gicos&#8221;, afirma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em entrevista \u00e0 BBC News Brasil, ele exemplifica como a estrat\u00e9gia foi usada nos primeiros anos da Rep\u00fablica, no Regime Militar, no governo do ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva e por Bolsonaro.<\/p>\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-parrot wsoj-component\" style=\"text-align: justify;\" data-variation=\"default-0\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Se voc\u00ea observar, a frase preferida do presidente Lula, no governo do PT, era &#8216;nunca antes na hist\u00f3ria deste pa\u00eds&#8217;. \u00c9 uma maneira de reescrever o passado para justificar conquistas e desafios do presente&#8221;, diz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;E o governo atual faz a mesma coisa, tenta reescrever a hist\u00f3ria. Inclusive com essa hist\u00f3ria da escravid\u00e3o, de que os brancos n\u00e3o t\u00eam nada a ver com a escravid\u00e3o, Existe um projeto pol\u00edtico muito bem-definido, cujo objetivo \u00e9, ou combater as pol\u00edticas p\u00fablicas em vigor, ou impedir que novas pol\u00edticas p\u00fablicas destinadas a enfrentar o legado da escravid\u00e3o sejam discutidas e implantadas.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na entrevista, Laurentino Gomes tamb\u00e9m explicou os elos entre datas e s\u00edmbolos que um pa\u00eds escolhe exaltar &#8211; como \u00e9 o caso do feriado de 7 de Setembro -, e os eventos do passado que tentamos esconder.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Preferimos valorizar imagens enganosas com as quais aprendemos a nos identificar, como o gigante adormecido em ber\u00e7o espl\u00eandido, a bandeira, o hino, e deixamos de lado momentos inc\u00f4modos do passado. A viol\u00eancia, a corrup\u00e7\u00e3o, os milh\u00f5es de africanos que foram escravizados no Brasil&#8221;, disse o escritor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gomes destaca, sobretudo, o que chama de &#8220;neglig\u00eancia hist\u00f3rica&#8221; ao legado de escravid\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Nossa alma africana nunca foi observada, estudada, valorizada como deveria&#8221;, disse o escritor. &#8220;E \u00e9 por descuidar dessa alma que digo que viramos, sem querer fazer um jogo rasteiro de palavras, um pa\u00eds desalmado. Temos uma vis\u00e3o mercantilista dos s\u00edmbolos nacionais, valorizamos o aspecto f\u00edsico dos recursos naturais, mas n\u00e3o \u00e9 isso o que reflete e valoriza a sociedade brasileira.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre as consequ\u00eancias que enfrenta um pa\u00eds ao ignorar sua alma, lembrou o escritor, est\u00e1 o caso do\u00a0<a class=\"story-body__link\" href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-49450572\">adolescente que levou chibatadas dentro de um supermercado<\/a>\u00a0na periferia de S\u00e3o Paulo, conforme noticiado esta semana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Aquilo foi muito forte, porque jogou um holofote sobre um legado da escravid\u00e3o que a gente julgava que estava apenas em bibliotecas, em livros de hist\u00f3ria do Brasil. \u00c9 uma pr\u00e1tica muito comum no regime escravista, um s\u00e9culo e meio atr\u00e1s, que aparece em 2019 na periferia da cidade mais rica do pa\u00eds.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Laurentino Gomes lan\u00e7ou nesta sexta (6) o livro &#8220;Escravid\u00e3o&#8221;, na Bienal do Livro do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Leia os principais trechos da entrevista do autor \u00e0 BBC News Brasil:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; Como o processo de Independ\u00eancia do Brasil, que comemora-se neste s\u00e1bado, se relaciona com a escravid\u00e3o, que s\u00f3 foi terminar quase 70 anos depois?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Laurentino Gomes &#8211;\u00a0<\/strong>Ao pesquisar a escravid\u00e3o, conclu\u00ed que esse \u00e9 o principal assunto da Hist\u00f3ria do Brasil, n\u00e3o s\u00f3 pelos n\u00fameros e pela dura\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico dos escravos ou pela persist\u00eancia do legado da escravid\u00e3o hoje, mas, porque quando voc\u00ea observa os grandes fatos hist\u00f3ricos brasileiros, a escravid\u00e3o \u00e9 o fio condutor. \u00c9 o que alinhava uma coisa na outra, e um caso exemplar \u00e9 a Independ\u00eancia do Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1821, os escravos e os seus descendentes, a popula\u00e7\u00e3o negra brasileira, j\u00e1 era amplamente majorit\u00e1ria. Os brancos eram minoria. E havia, segundo o historiador S\u00e9rgio Buarque de Holanda, um sentimento de medo, que funcionou como am\u00e1lgama do processo de Independ\u00eancia do Brasil. Medos de duas naturezas. Primeiro, de que o Brasil mergulhasse numa guerra civil republicana como estava acontecendo na am\u00e9rica espanhola.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As lideran\u00e7as pol\u00edticas locais mergulharam numa guerra para defender seus territ\u00f3rios, seus interesses e a Am\u00e9rica espanhola se separou em v\u00e1rios pa\u00edses independentes. Esse era o primeiro medo, ou seja, a conquista da integridade territorial tinha sido muito \u00e1rdua durante o per\u00edodo colonial brasileiro.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/8BD2\/production\/_108649753_d47970ee-5d35-4d83-91dc-82e7efa26be7.jpg\" alt=\"Rua Brasil, em Acra, capital de Gana. A Rua fica no bairro do Tabons, comunidade de descendentes de escravos do Brasil que retornaram para a \u00c1frica\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Laurentino Gomes diz que escravid\u00e3o \u00e9 o principal assunto da hist\u00f3ria do Brasil<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a\u00ed havia um segundo medo, que se somava ao primeiro: na hip\u00f3tese de uma guerra civil republicana no Brasil, os chefes pol\u00edticos regionais, que eram rivais entre si, teriam que armar os seus escravos, porque eles n\u00e3o tinham for\u00e7a armada que n\u00e3o fosse a da pr\u00f3pria escravid\u00e3o. E esses escravos armados e imbu\u00eddos das ideias libert\u00e1rias que sopravam da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, da Independ\u00eancia dos Estados Unidos, e assim por diante, poderiam reivindicar a pr\u00f3pria liberdade. Isso poderia resultar num banho de sangue, como aconteceu no processo de independ\u00eancia do Haiti, entre 1789 e 1794. Esse era o medo, representado por uma express\u00e3o muito corrente na \u00e9poca, que era o &#8220;Haitiismo&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Havia, ent\u00e3o, a soma desses dois medos: o medo de uma guerra civil republicana e o de uma guerra \u00e9tnica. Como ambos amea\u00e7avam os interesses da elite escravista brasileira, essa elite optou por uma revolu\u00e7\u00e3o conservadora. Eles se agregaram ao redor do herdeiro da Coroa de Portugal, o pr\u00edncipe D. Pedro I, imperador brasileiro, romperam os v\u00ednculos com a metr\u00f3pole, mas n\u00e3o mexeram em nada. N\u00e3o acabaram com o tr\u00e1fico de escravos, n\u00e3o acabaram com a escravid\u00e3o, n\u00e3o educaram as pessoas, n\u00e3o fizeram a reforma agr\u00e1ria, mantiveram a estrutura social vigente. E isso explica o processo de independ\u00eancia totalmente diferente do Brasil em rela\u00e7\u00e3o aos seus vizinhos da Am\u00e9rica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, isso explica um pacto entre essa aristocracia brasileira e o trono brasileiro, que manteve a monarquia por tanto tempo no Brasil, por 67 anos ap\u00f3s a Independ\u00eancia. Um apoiava o outro, e um n\u00e3o mexia nos interesses do outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; No seu livro, o senhor aponta que o sistema escravista se fortaleceu ainda mais depois da Independ\u00eancia. A sociedade brasileira se estruturava nele?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Laurentino &#8211;<\/strong>Sim, se fortaleceu porque era um sistema que, do ponto de vista da elite brasileira, vinha funcionando muito bem ao longo do Brasil colonial. Os n\u00fameros depois da independ\u00eancia, de tr\u00e1fico de escravos, foram uma coisa incr\u00edvel. E \u00e9 interessante como a escravid\u00e3o volta a ser depois o fio condutor para a proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica. \u00c9 ela que d\u00e1 sentido aos acontecimentos. Porque, no fim do s\u00e9culo 19, o Brasil passou a sofrer uma press\u00e3o colossal abolicionista. Viramos um p\u00e1ria internacional, muito semelhante ao que aconteceu com a \u00c1frica do Sul durante o regime de segrega\u00e7\u00e3o racial, no s\u00e9culo 20. E \u00e9 a\u00ed que o trono se torna tamb\u00e9m abolicionista, acaba fazendo a Lei \u00c1urea, e o pacto se quebra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E n\u00e3o \u00e9 por acaso que, no ano seguinte, 1889, o edif\u00edcio todo implode, acaba a monarquia e vem a Rep\u00fablica. Isso mostra que realmente n\u00e3o d\u00e1 para entender os grandes acontecimentos da hist\u00f3ria do Brasil, incluindo a Independ\u00eancia e a Rep\u00fablica, sem entender que o mecanismo que conduz os acontecimentos \u00e9 justamente a escravid\u00e3o. E, antes disso, h\u00e1 mostra de como o regime estava estruturado na escravid\u00e3o: n\u00e3o s\u00f3 a Independ\u00eancia, o rompimento formal no dia 7 de setembro de 1822, mas os seus desdobramentos, o pr\u00f3prio destino do Primeiro Reinado (1822-1831), do brev\u00edssimo Primeiro Reinado, de apenas nove anos, \u00e9 permeado pela escravid\u00e3o. Lembra? D. Pedro se tornou imperador do Brasil em 1822, logo ap\u00f3s o grito do Ipiranga, e as diversas prov\u00edncias, as diversas correntes pol\u00edticas existentes no Brasil &#8211; republicanos, constitucionalistas, ma\u00e7ons, liberais, e assim por diante -, aceitaram em troca da promessa de que Dom Pedro convocaria uma Constituinte. Que faria uma lei a qual o pr\u00f3prio imperador estaria sujeito, n\u00e9, teria que respeitar. Esse era o plano.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/11426\/production\/_108649607_mesquitamuulmanacomtraosarquitetnicosdeigrejadecatlicaconstrudaporex-escravosbrasileirosemportonovo_benim.jpg\" alt=\"Mesquita mu\u00e7ulmana com tra\u00e7os arquitet\u00f4nicos de igreja de cat\u00f3lica\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Mesquita mu\u00e7ulmana com tra\u00e7os arquitet\u00f4nicos de igreja de cat\u00f3lica constru\u00edda por ex-escravos brasileiros em Porto Novo<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, a\u00ed, essa constituinte convocada em 1822 foi extinta, dissolvida em novembro de 1823. E qual foi a raz\u00e3o? A escravid\u00e3o. Porque come\u00e7aram a ser muito fortes os debates no Parlamento, especialmente uma proposta do Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio de Andrade e Silva, para acabar com o tr\u00e1fico negreiro e acabar com a escravid\u00e3o. O Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio, \u00e0s v\u00e9speras da disssolu\u00e7\u00e3o da Constituinte, ia apresentar um projeto para acabar com o tr\u00e1fico de escravos. E a\u00ed, pronto: todo o processo constituinte desandou. A Constituinte &#8211; que foi um pacto estabelecido entre D. Pedro e os diversos grupos rivais, advers\u00e1rios na \u00e9poca &#8211; se dissolveu. O motivo foi principalmente a amea\u00e7a que os fazendeiros, os cafeicultores, os senhores de engenho, os mineradores de ouro e diamante sentiram, diante da possibilidade de que essa Constituinte acabasse com o tr\u00e1fico de escravos. E a\u00ed o primeiro reinado mergulha numa crise e n\u00e3o sai mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ningu\u00e9m mexia com a escravid\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quis mexer, acabou com o Primeiro Reinado. A dissolu\u00e7\u00e3o da Constituinte \u00e9 um primeiro golpe de morte na popularidade de D. Pedro I. Ele tinha sa\u00eddo como her\u00f3i da Independ\u00eancia e rapidamente vira vil\u00e3o. Claro, houve outras causas, os esc\u00e2ndalos da vida pessoal, o envolvimento dele com a Marquesa de Santos, mas a principal raz\u00e3o foi essa. O fato de ele ter dissolvido a Constituinte, pressionado pelos interesses escravistas, e a\u00ed o primeiro reinado entra numa crise que vai terminar no dia 7 de abril de 1831, quando o imperador abdica e vai embora, n\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; O seu livro 1822, da trilogia anterior, trata justamente do processo de independ\u00eancia do Brasil. O que mudou para os escravos, viver em um pa\u00eds livre da col\u00f4ina portuguesa?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Laurentino &#8211;\u00a0<\/strong>No livro 1822 eu escrevi um cap\u00edtulo chamado &#8220;Os \u00d3rf\u00e3os&#8221;, mostrando que h\u00e1 uma sensa\u00e7\u00e3o de orfandade no processo da Independ\u00eancia do Brasil, por parte das camadas mais pobres da popula\u00e7\u00e3o, que inclu\u00eda os ribeirinhos, os sertanejos do Nordeste, mas principalmente os escravos. \u00c9 muito interessante que, em 1821, quando chegou ao Brasil a not\u00edcia da Revolu\u00e7\u00e3o Liberal do Porto, muito influenciada pela Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, e a principal causa da volta de D. Jo\u00e3o para Lisboa, um escravo em Minas Gerais chamado Argoin, um dos poucos escravos que sabia escrever, escreveu uma carta aos seus vizinhos, negros cativos, que dizia o seguinte: observe o cativeiro de voc\u00eas, porque os nossos irm\u00e3os em Portugal fizeram uma revolu\u00e7\u00e3o que nos iguala aos brancos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o \u00e9 hora de lutar por essa liberdade. Ou seja, o Argoin, e tamb\u00e9m os escravos, achavam que essas ideias libert\u00e1rias que vinham da Europa eram para eles tamb\u00e9m, e n\u00e3o eram. Era s\u00f3 para os brancos. Que \u00e9 exatamente o que aconteceu no Haiti, uma col\u00f4nia francesa, houve uma revolu\u00e7\u00e3o escrava e um banho de sangue exatamente quando os cativos perceberam que as ideias que sopravam de Paris n\u00e3o eram para eles, eram s\u00f3 para os brancos. E a\u00ed houve uma revolu\u00e7\u00e3o e um massacre dos brancos no Haiti.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, no Brasil, tamb\u00e9m. Claro que aqui era uma massa enorme de analfabetos, n\u00e3o havia informa\u00e7\u00e3o, a imprensa era muito recente, a comunica\u00e7\u00e3o no interior do Brasil era muito prec\u00e1ria. Mas essas ideias chegavam. Isso explica, por exemplo, a quantidade de rebeli\u00f5es de natureza popular envolvendo segmentos muito pobres da popula\u00e7\u00e3o nos anos seguintes \u00e0 abdica\u00e7\u00e3o de D. Pedro, em 1831. Voc\u00ea tem a Cabanagem no Par\u00e1, a Revolta dos Cabanos, em Pernambuco, a Balaiada no Maranh\u00e3o, depois a Sabinada na Bahia, e assim por diante. E \u00e9 justamente isso. Envolvendo gente muito simples, gente muito pobre que julgou que tinha ficado \u00e0 margem do processo de Independ\u00eancia. Por isso eu digo que h\u00e1 essa orfandade na Independ\u00eancia do Brasil. E essas rebeli\u00f5es foram sufocadas \u00e0 ferro e fogo para que o sistema se mantivesse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; Como os governos fazem uso pol\u00edtico de uma data como a da Independ\u00eancia? Datas simb\u00f3licas como essa s\u00e3o usadas para encobrir problemas, por exemplo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Laurentino &#8211;<\/strong>Sim. Existe uma constru\u00e7\u00e3o oficial da hist\u00f3ria do Brasil tentando fazer uma narrativa, que eu diria que \u00e9 uma narrativa basicamente masculina, branca e europeia. S\u00e3o os grandes personagens, os grandes acontecimentos, a vinda da corte portuguesa. Podemos enumerar: a chegada de Pedro \u00c1lvares Cabral, os governadores gerais, a chegada da corte, depois a Independ\u00eancia, a Rep\u00fablica, D. Pedro I, D. Pedro II, Princesa Isabel. H\u00e1 uma celebra\u00e7\u00e3o em torno desses personagens, primeiro com vi\u00e9s mon\u00e1rquico e depois com uma narrativa republicana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, por outro lado, existe uma hist\u00f3ria que fica escondida e diz muito sobre quem somos. Por exemplo, a hist\u00f3ria da escravid\u00e3o, eu diria que comparada com a hist\u00f3ria de ascend\u00eancia europeia, digamos assim, o que poder\u00edamos chamar de hist\u00f3ria branca, ela \u00e9 muito menos valorizada do que esses personagens e acontecimentos emblem\u00e1ticos. O Brasil nunca teve at\u00e9 hoje um \u00fanico grande museu nacional da escravid\u00e3o, ao contr\u00e1rio do que h\u00e1 em Liverpool, na Inglaterra, em Angola, em Washington, nos Estados Unidos. \u00c9 uma maneira, inclusive, de esconder uma parte da hist\u00f3ria que incomoda. Porque os museus n\u00e3o s\u00e3o apenas lugares de entretenimento, de levar crian\u00e7a e passar uma tarde. Eles s\u00e3o locais de reflex\u00e3o. E, quando voc\u00ea reflete sobre determinados assuntos, isso tem consequ\u00eancia pol\u00edtica. As pessoas v\u00e3o tomar decis\u00f5es, v\u00e3o chegar a determinadas conclus\u00f5es, e isso resulta em decis\u00f5es que s\u00e3o tomadas na urna, na ado\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas e assim por diante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m pode ser uma estrat\u00e9gia esconder uma parte da hist\u00f3ria, ou maqui\u00e1-la com mitos. Por exemplo, h\u00e1 toda uma historiografia constru\u00edda no Brasil de que tivemos uma escravid\u00e3o mais ben\u00e9vola, mais patriarcal, e que isso resultou numa grande democracia racial. Esses s\u00e3o mitos que a gente construiu a respeito de n\u00f3s mesmos, para encobrir o legado da escravid\u00e3o, e encobrir n\u00e3o s\u00f3 as estat\u00edsticas absurdas com as quais convivemos hoje, um abismo de oportunidades entre brancos e afrodescendentes, mas tamb\u00e9m o preconceito racial, que \u00e9 muito vis\u00edvel no Brasil. E a gente finge que \u00e9 uma grande democracia racial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; Por que h\u00e1 muita dificuldade em acertar as contas com esse passado?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Laurentino &#8211;<\/strong>Porque a escravid\u00e3o n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um com\u00e9rcio de gente. Ela \u00e9 uma estrutura\u00e7\u00e3o da sociedade, de poder, distribui\u00e7\u00e3o de recursos, de terras, riquezas, de benef\u00edcios e de privil\u00e9gios. Um grupo tem acesso a riqueza, a privil\u00e9gios, a confortos, \u00e0 reparti\u00e7\u00e3o dos recursos p\u00fablicos, e outro n\u00e3o. E isso acontece hoje tamb\u00e9m. Ent\u00e3o quando voc\u00ea v\u00ea, por exemplo, esse mar de desigualdade no Brasil, n\u00f3s estamos falando da mesma coisa. Um grupo muito pequeno, privilegiado, que tem acesso aos recursos p\u00fablicos, tem acesso \u00e0s melhores \u00e1reas de moradia, por exemplo, no Rio de Janeiro. Existe uma segrega\u00e7\u00e3o real hoje no Rio de Janeiro, como existe em Salvador e S\u00e3o Paulo. Os morros s\u00e3o habitados por afrodescendentes. Os bairros chiques e nobres da Zona Sul s\u00e3o habitados por brancos. Isso acontece tamb\u00e9m nos Jardins, em S\u00e3o Paulo, nos bairros da periferia, nos morros de Salvador e assim por diante. Mas tamb\u00e9m como os recursos do estado s\u00e3o destinados, n\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem \u00e9 que vai ter acesso \u00e0s oportunidades, \u00e0 escola, \u00e0 sa\u00fade, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. E a hist\u00f3ria fundamenta isso, a hist\u00f3ria \u00e9 que justifica a organiza\u00e7\u00e3o de uma sociedade, a identidade de um pa\u00eds, de uma na\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o a maneira como voc\u00ea narra, ou deixa de narrar, esconde a hist\u00f3ria, resulta em como a sociedade vai distribuir os benef\u00edcios entre seus diversos grupos. Eu acho que hoje n\u00f3s temos no Brasil um sistema de fato de castas muito bem definido, embora a gente finja que n\u00f3s somos um pa\u00eds igualit\u00e1rio, democr\u00e1tico, e de oportunidades iguais. As estat\u00edsticas e a realidade vis\u00edvel na paisagem urbana geogr\u00e1fica do Brasil mostra que n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; Como os s\u00edmbolos nacionais ajudam a consolidar esse sistema? A bandeira, os desfiles, por exemplo.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Laurentino &#8211;<\/strong>\u00a0Isso \u00e9 interessante. Na abertura do meu livro sobre a Escravid\u00e3o, eu cito como ep\u00edgrafe uma frase do padre Ant\u00f4nio Vieira, do finalzinho do s\u00e9culo 17, que ele dizia o seguinte: &#8220;O Brasil tem o seu corpo na Am\u00e9rica, e a sua alma na \u00c1frica&#8221;. O que ele est\u00e1 dizendo? O Brasil tem a sua geografia na Am\u00e9rica, a sua presen\u00e7a f\u00edsica, mas a ess\u00eancia, o povo, o elemento mais importante de constitui\u00e7\u00e3o da sociedade brasileira era de matriz africana. A\u00ed, quando voc\u00ea olha, por exemplo, a bandeira nacional, o que aparece l\u00e1? Aparecem os aspectos do corpo f\u00edsico. As florestas, o ouro, o c\u00e9u azul, o Cruzeiro do Sul. Voc\u00ea n\u00e3o tem povo brasileiro na bandeira do Brasil. Ent\u00e3o eu diria que \u00e9 interessante voc\u00ea observar isso, que a gente sempre valorizou muito as riquezas nacionais, n\u00e9. Como se isso fosse a grande virtude, o gigante adormecido &#8220;em ber\u00e7o espl\u00eandido&#8221;, como o Hino Nacional diz. Que ber\u00e7o espl\u00eandido \u00e9 esse?<\/p>\n<figure class=\"media-landscape no-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/50D6\/production\/_108649602_899eeaef-a146-4fde-9a7e-477691d7b508.jpg\" alt=\"Escravos levando chibatadas\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com grandes potenciais, recursos naturais, solo e sol e um clima adequado que para o agroneg\u00f3cio prosperar, as jazidas, mas a gente n\u00e3o cuida da nossa alma. A nossa alma africana nunca foi observada, estudada, valorizada da forma como deveria. E sem querer fazer um jogo rasteiro de palavras, com isso n\u00f3s viramos um pa\u00eds desalmado, n\u00e9. Um pa\u00eds que pensa nos seus s\u00edmbolos nacionais e patri\u00f3ticos e tenta esconder o legado da escravid\u00e3o, isso \u00e9 um retrato de um pa\u00eds que descuida da alma. Cuidamos muito da geografia. Temos uma vis\u00e3o mercantilista dos s\u00edmbolos nacionais, valorizamos o aspecto f\u00edsico dos recursos naturais, mas isso n\u00e3o reflete e nem valoriza a sociedade brasileira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fica mais contradit\u00f3rio por estarmos na era da informa\u00e7\u00e3o, da tecnologia, da possibilidade de as pessoas realizarem seus talentos, potenciais, voca\u00e7\u00f5es. Um pa\u00eds \u00e9 constitu\u00eddo principalmente pelos seus habitantes. E n\u00e3o pelos seus recursos naturais. E \u00e9 preciso notar, \u00e9 interessante que nossos s\u00edmbolos nacionais, nosso hino, nossa bandeira valoriza o corpo e n\u00e3o a alma do Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; Por que o interesse em valorizar os s\u00edmbolos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Laurentino &#8211;<\/strong>Para defender a forma como a sociedade se estruturou, de cima para baixo, e que permita a um pequeno grupo explorar o trabalho e o potencial de, no limite, como mostra o per\u00edodo da escravid\u00e3o, explorar o outro ser humano. \u00c9 o que eu chamo de, no livro 1889, de uma miragem, no s\u00e9culo 19. Os s\u00edmbolos nacionais, a narrativa, os mitos nacionais foram implantados no s\u00e9culo 19, incluindo o hino nacional e a bandeira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o voc\u00ea tem o Imp\u00e9rio brasileiro constitu\u00eddo por uma pequena elite bem educada, em Coimbra, no centro de forma\u00e7\u00e3o europeus, e a\u00ed tinha todo um ritual de corte europeia, tinha uma arquitetura imperial em Petr\u00f3polis, no Rio de Janeiro, tinha bar\u00e3o, visconde, conde, duque, pr\u00edncipe, imperador. E, nas ruas, pobreza, analfabetismo e escravid\u00e3o. Essa era a realidade brasileira at\u00e9 o final do s\u00e9culo 19. E eu diria que \u00e9 at\u00e9 agora. Quando eu nasci, em 1956, metade dos brasileiros era de analfabetos, o \u00edndice de analfabetismo era de 50%. Ent\u00e3o voc\u00ea v\u00ea que tem um descompasso entre o Brasil sonhado, o Brasil vendido nos seus s\u00edmbolos e nos seus mitos, e o Brasil real.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/16246\/production\/_108649609_commeuguia_beninazro_narotadosescravos_cidadedeajud_repblicadobenim.jpg\" alt=\"Laurentino com o guia Beni Naz\u00e1ro\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Laurentino com o guia Beni Naz\u00e1ro na Rota dos Escravos, na cidade de Ajud\u00e1, Rep\u00fablica do Benim<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso tem consequ\u00eancia na forma como a sociedade distribui os seus privil\u00e9gios, os seus recursos. E, pelo que notamos, quem est\u00e1 no governo representa grupos que se interessam por manter as coisas como est\u00e3o. \u00c9 muito interessante, por exemplo, que nesta \u00e9poca exista uma narrativa que tenta perpetuar esses mitos. Ent\u00e3o, por exemplo, um candidato no ano passado, que por acaso virou presidente da Rep\u00fablica, dizia que os portugueses nunca tinham entrado na \u00c1frica, e que a culpa pela escravid\u00e3o era dos pr\u00f3prios africanos. Culpava os escravos pela sua pr\u00f3pria escravid\u00e3o. Por que isso? \u00c9 um projeto pol\u00edtico que se op\u00f5e a pol\u00edticas p\u00fablicas destinadas a enfrentar o legado da escravid\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um projeto que questiona as cotas para afrodescendentes em escolas, impostos da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, que n\u00e3o quer dar qualquer tipo de apoio m\u00ednimo \u00e0s comunidades quilombolas no Brasil. Visitei muitas delas, s\u00e3o lugares muito pobres, de uma popula\u00e7\u00e3o carente. Ent\u00e3o, quando voc\u00ea quer se opor a pol\u00edticas p\u00fablicas de compensa\u00e7\u00e3o, voc\u00ea tenta reescrever a hist\u00f3ria. E diz que os quilombolas s\u00e3o todos gordos, pesam sete arrobas, pregui\u00e7osos, que vivem dos recursos do Estado. N\u00e3o \u00e9 um discurso bobo apenas para alimentar brigas nas redes sociais. Existe um projeto pol\u00edtico muito bem-definido e de implanta\u00e7\u00e3o acelerada, cujo objetivo \u00e9, ou combater as pol\u00edticas p\u00fablicas em vigor, ou impedir que novas pol\u00edticas p\u00fablicas destinadas a enfrentar o legado da escravid\u00e3o sejam discutidas e implantadas. O uso de s\u00edmbolos patri\u00f3ticos \u00e9 s\u00f3 uma faceta pequena disso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; Qual a rela\u00e7\u00e3o do brasileiro com os seus s\u00edmbolos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Laurentino &#8211;\u00a0<\/strong>\u00c9 muito contradit\u00f3ria. Por exemplo, em v\u00e9spera de Copa do Mundo todo mundo p\u00f5e a bandeira nas costas, ou no carro e canta o hino nacional, e isso \u00e9 muito brasileiro e \u00e9 muito ufanista. E a\u00ed quando a sele\u00e7\u00e3o perde, vira uma sensa\u00e7\u00e3o de grande des\u00e2nimo, um v\u00e1cuo. No fundo, isso n\u00e3o \u00e9 coisa s\u00f3 do futebol. No fundo, como \u00e9 que eu me identifico com o Brasil? Que pa\u00eds \u00e9 esse? O que esses s\u00edmbolos representam? Porque o Brasil \u00e9 criado por uma s\u00e9rie de mitos, n\u00e9. De que uma hora acordar\u00edamos e surpreender\u00edamos o mundo. Mas por que demora tanto? Por que o Brasil perde oportunidades uma atr\u00e1s da outra? Ou o mito de sermos um povo pac\u00edfico, ordeiro, honesto, trabalhador. Mas por que 19 das 50 cidades mais violentas do mundo est\u00e3o no Brasil? Por que tanta corrup\u00e7\u00e3o? Por que existe uma guerra civil de fato em andamento nas periferias das cidades brasileiras? E tamb\u00e9m a\u00ed chegamos na escravid\u00e3o, na tal democracia racial. Como esses s\u00edmbolos, o hino, a bandeira, elas representam a identidade nacional, acho que o brasileiro, quando finalmente v\u00ea sua realidade no espelho, v\u00ea que o pa\u00eds \u00e9 muito menos poderoso, igualit\u00e1rio e her\u00f3ico do que os s\u00edmbolos projetam, ele reluta a se identificar com o pa\u00eds que est\u00e1 descrito nos s\u00edmbolos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; E qual a consequ\u00eancia desse descompasso?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Laurentino &#8211;\u00a0<\/strong>A consequ\u00eancia n\u00f3s estamos vendo agora. E eu vejo isso de forma positiva. O Brasil hoje vive um per\u00edodo muito novo, in\u00e9dito na sua hist\u00f3ria, que s\u00e3o mais de 30 anos de democracia sem ruptura. Claro que \u00e9 uma democracia com muitos sobressaltos, muitos sustos no meio do caminho, mas pela primeira vez estamos aprendendo a exercitar a democracia. E neste ambiente n\u00f3s estamos confrontando os nossos mitos. Ent\u00e3o eu diria que nunca se discutiu tanto o Brasil quanto agora. Pode ser at\u00e9 de uma forma ainda bastante inadequada, com muita polariza\u00e7\u00e3o, muita intoler\u00e2ncia, muita agress\u00e3o nas redes sociais, e at\u00e9 nas declara\u00e7\u00f5es das autoridades, mas o fato \u00e9 que a gente est\u00e1 discutindo o Brasil. Se voc\u00ea entrar l\u00e1, tudo isso que a gente falou aqui est\u00e1 sendo discutido. Por que o Brasil n\u00e3o d\u00e1 certo, nada funciona, a quest\u00e3o da escravid\u00e3o, a heran\u00e7a africana, a viol\u00eancia, a corrup\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o acho que isso \u00e9 um bom sinal. No passado, sequer a possibilidade de gritar e brigar existia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Viv\u00edamos sob uma monarquia, em meio a um mar de analfabetos e pobres, e s\u00f3 uma pequena elite falava e discutia, produzia ensaios, discursos no parlamento a respeito do Brasil. Depois, v\u00e1rias ditaduras militares, regimes autorit\u00e1rios que impunham a censura e impediam que as pessoas falassem, se manifestassem ou participassem de reuni\u00f5es pol\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora o ambiente hoje seja de muita raiva, briga, agress\u00e3o, intoler\u00e2ncia, o fato de a gente poder gritar \u00e9 uma coisa boa. No futuro, esses mitos todos que foram constru\u00eddos de forma silenciosa e impostos de cima pra baixo v\u00e3o ser redesenhados, e a gente vai chegar e ter uma vis\u00e3o mais concreta do pa\u00eds que realmente temos. E eu acho que pode at\u00e9 melhorar em fun\u00e7\u00e3o dessa discuss\u00e3o. Nada vai se resolver muito rapidamente, porque os passivos hist\u00f3ricos s\u00e3o imensos e muito antigos, mas acho que hoje existe uma constru\u00e7\u00e3o nova, uma vis\u00e3o nova, ao ponto de um livro sobre escravid\u00e3o virar um best-seller, em duas semanas, o que para mim \u00e9 uma tremenda surpresa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; O que o fato de omitirmos o que o senho chama de alma pode causar? O caso dos seguran\u00e7as de supermercado que espancaram um adolescente infrator esta semana, por exemplo, pode ser um reflexo disso?<\/strong><\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/2DAE\/production\/_108649611_e0557f82-babe-44a2-af74-b016d3c550e7.jpg\" alt=\"Imagem retirada de v\u00eddeo que circula nas redes sociais\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>V\u00eddeo que circula por redes sociais e aplicativos de mensagens tem 40 segundos e mostra jovem tomando chibatadas<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Laurentino &#8211;\u00a0<\/strong>Aquilo foi muito forte, porque jogou um holofote sobre um legado da escravid\u00e3o que a gente julgava que estava apenas em bibliotecas, em livros de hist\u00f3ria do Brasil. E a\u00ed uma pr\u00e1tica que era muito comum no regime escravista, eu cheguei a fazer uns posts em rede social, dizendo que no come\u00e7o do s\u00e9culo 19 havia manuais sobre como surrar adequadamente um negro no Brasil. Tinha um padre jesu\u00edta, o Jorge Benci, que chegava a ter instru\u00e7\u00f5es, dizendo que os senhores deveriam, sim, surrar os seus escravos, mas que o n\u00famero de chibatadas n\u00e3o ultrapassasse 40 por dia. Para n\u00e3o comprometer a capacidade de trabalho dos cativos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E a\u00ed, de repente, no come\u00e7o do s\u00e9culo 21, quando a gente julga que a escravid\u00e3o \u00e9 coisa acabada, congelada no passado, voc\u00ea tem uma manifesta\u00e7\u00e3o vis\u00edvel, gravada em v\u00eddeo, de uma pr\u00e1tica caracter\u00edstica do Brasil escravista colonial. Eu acho que isso serviu como um despertar de consci\u00eancia. Isso \u00e9 um pa\u00eds desalmado. Porque um pa\u00eds que pega um garoto que rouba uma barra de chocolate e surra ele, \u00e9 um absurdo, sem nem chamar a pol\u00edcia, sem passar pelas institui\u00e7\u00f5es, \u00e9 um pa\u00eds sem alma. Desalmado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; Mais governantes tentaram fazer uso dos s\u00edmbolos nacionais?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Laurentino &#8211;\u00a0<\/strong>Como a hist\u00f3ria \u00e9 uma ferramenta de constru\u00e7\u00e3o de identidade, \u00e9 olhando para o passado que a gente constr\u00f3i um presente e projeta uma identidade para o futuro, n\u00e9, que pa\u00eds n\u00f3s gostar\u00edamos de ser daqui pra frente? Ent\u00e3o a hist\u00f3ria ajuda a organizar essa constru\u00e7\u00e3o de identidade a\u00ed. \u00c9 natural que a hist\u00f3ria, e tamb\u00e9m os seus s\u00edmbolos sejam manipulados pelas autoridades, pelos partidos pol\u00edticos, pelos diferentes grupos ideol\u00f3gicos. Ent\u00e3o, voc\u00ea observa, por exemplo, que o filme mais famoso produzido durante a ditadura militar foi o Independ\u00eancia ou Morte, com o Tarc\u00edsio Meira e a Gl\u00f3ria Menezes, no sesquicenten\u00e1rio da Independ\u00eancia, em 1972, em que o imperador D. Pedro I aparecia quase como se fosse um general do regime de 1964, um her\u00f3i marcial, imponente, a\u00ed na redemocratiza\u00e7\u00e3o, o mesmo D. Pedro I j\u00e1 aparece como um bo\u00eamio, mulherengo, na s\u00e9ria Quintos dos Infernos, com Marcos Pasquim. E depois, se voc\u00ea observar a frase preferida do presidente Lula, no governo do PT, era &#8220;nunca antes na hist\u00f3ria deste pa\u00eds&#8221;. Que \u00e9 uma maneira de reescrever o passado para justificar conquistas e desafios do presente. E o governo atual faz a mesma coisa, tenta reescrever a hist\u00f3ria. Inclusive com essa hist\u00f3ria da escravid\u00e3o, de que os brancos n\u00e3o t\u00eam nada a ver com a escravid\u00e3o, porque quem se escravizava eram os pr\u00f3prios negros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; Todos os governantes tentam fazer uso dessas datas?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Laurentino &#8211;\u00a0<\/strong>O caso t\u00edpico \u00e9 o da proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica. Logo depois da proclama\u00e7\u00e3o, o novo regime come\u00e7ou a rebatizar ruas, pra\u00e7as, monumentos, mudou a bandeira, mudou o hino nacional, criou mitos novos. Por exemplo, Tiradentes. Joaquim Jos\u00e9 da Silva Xavier era uma v\u00edtima da Monarquia e passou 100 anos inc\u00f3gnito na hist\u00f3ria do Brasil. E a\u00ed na Rep\u00fablica, ele \u00e9 reconstru\u00eddo, ele emerge das cinzas como her\u00f3i republicano, defensor das ideias do novo regime. Ent\u00e3o, na constru\u00e7\u00e3o do Tiradentes \u00e9 um caso t\u00edpico: na \u00e9poca, depois de 1889, houve uma desconstru\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria e dos s\u00edmbolos nacionais, mon\u00e1rquicos, para a constru\u00e7\u00e3o de um novo imagin\u00e1rio republicano. Isso vem acontecendo, Get\u00falio fez isso, o regime militar fez isso, o governo do PT tamb\u00e9m, e isso est\u00e1 novamente sendo feito agora.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Visita ao cub\u00edculo de uma senzala no Engenho Urua\u00e9, na Zona da Mata de Pernambuco, com argola de ferro usada para imobilizar escravos<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":294525,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[6,11],"tags":[],"class_list":["post-294523","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-municipios","category-regional"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/fazenda-de-escravos-em-pernambuco.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/294523","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=294523"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/294523\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/294525"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=294523"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=294523"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=294523"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}