{"id":294709,"date":"2019-09-09T10:42:46","date_gmt":"2019-09-09T13:42:46","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=294709"},"modified":"2019-09-09T10:42:46","modified_gmt":"2019-09-09T13:42:46","slug":"o-tempo-que-vem-e-o-campo-que-ha-no-sertao-de-bacurau-por-diego-antonio-perini-milao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/o-tempo-que-vem-e-o-campo-que-ha-no-sertao-de-bacurau-por-diego-antonio-perini-milao\/","title":{"rendered":"O tempo que vem e o campo que h\u00e1 no sert\u00e3o de Bacurau, por\u00a0Diego Antonio Perini Mil\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div class=\"td-post-header\">\n<header class=\"td-post-title\">\n<h1 class=\"entry-title\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<p class=\"td-post-sub-title\" style=\"text-align: justify;\"><em><strong>Bacurau \u00e9 sobre a Mar\u00e9, sobre Eldorado dos Caraj\u00e1s, sobre as reservas ind\u00edgenas, sobre quilombos, sobre coloniza\u00e7\u00e3o, \u00e9 sobre a popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua no centro de S\u00e3o Paulo, sobre movimentos sociais e revoltas populares. \u00c9, mesmo sem ser.<\/strong><\/em><\/p>\n<div class=\"td-module-meta-info\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"td-post-author-name\"><\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<\/div>\n<div class=\"td-post-sharing-top\" style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"td_social_sharing_article_top\" class=\"td-post-sharing td-ps-bg td-ps-notext td-post-sharing-style1 \">\n<div class=\"td-post-sharing-visible\">\n<div class=\"td-social-sharing-button td-social-sharing-button-js td-social-handler td-social-share-text\">\n<div class=\"td-social-but-text\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"td-social-but-icon\"><\/div>\n<div class=\"td-social-but-icon\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"td-post-content\">\n<div class=\"td-post-featured-image\" style=\"text-align: justify;\"><a class=\"td-modal-image\" href=\"https:\/\/jornalggn.com.br\/sites\/default\/files\/2019\/09\/bacurau-cartaz.jpg\" data-caption=\"\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"entry-thumb\" title=\"bacurau-cartaz\" src=\"https:\/\/jornalggn.com.br\/sites\/default\/files\/2019\/09\/bacurau-cartaz.jpg\" sizes=\"auto, (max-width: 690px) 100vw, 690px\" srcset=\"https:\/\/jornalggn.com.br\/sites\/default\/files\/2019\/09\/bacurau-cartaz.jpg 690w, https:\/\/jornalggn.com.br\/sites\/default\/files\/2019\/09\/bacurau-cartaz-300x154.jpg 300w\" alt=\"\" width=\"690\" height=\"355\" \/><\/a><\/div>\n<div class=\"td-a-rec td-a-rec-id-content_top  td_uid_2_5d765420a868e_rand td_block_template_10\" style=\"text-align: justify;\">\n<div><\/div>\n<\/div>\n<h4 style=\"text-align: justify;\"><strong>O tempo que vem e o campo que h\u00e1 no sert\u00e3o de Bacurau\u00a0<\/strong><\/h4>\n<h4 style=\"text-align: justify;\"><strong>Por Diego Antonio Perini Mil\u00e3o<\/strong><\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">No espa\u00e7o entre o eu e o outro cabe uma imensid\u00e3o. Ou n\u00e3o cabe. Cabe o som que nos rodeia. Tamb\u00e9m cabe o sil\u00eancio. Cabe s\u00f3 um apartamento. Cabe o sert\u00e3o inteiro. Cabe um Brasil que j\u00e1 n\u00e3o cabe em si. Ou n\u00e3o cabe. Cabe um cachorro no quintal. Cabe um mar com tubar\u00e3o. Ou apenas uma col\u00f4nia de cupins a corroer mem\u00f3rias. Cabe uma can\u00e7\u00e3o. Um c\u00e9u cheio de estrelas. Cabe uma dist\u00e2ncia daquelas que s\u00f3 se percorre com a velocidade de um disco-voador. E quando percorrida, deixa de caber. N\u00e3o nos cabe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas tudo isso cabe nos filmes do diretor pernambucano Kleber Mendon\u00e7a Filho (\u201cO Som ao Redor\u201d e \u201cAquarius\u201d), que possuem o tema do espa\u00e7o como um elemento em comum. E assim tamb\u00e9m ocorre com \u201cBacurau\u201d, novo filme de KMF codirigido por Juliano Dornelles, que recebeu o Pr\u00eamio do J\u00fari no Festival de Cannes deste ano e j\u00e1 pode ser visto nos cinemas brasileiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 muito mais que estrelas, sat\u00e9lites e objetos n\u00e3o-identificados no universo com o qual Bacurau se abre. Para al\u00e9m do espa\u00e7o sideral, os espa\u00e7os f\u00edsicos do macrocosmo retratado por uma vis\u00e3o da Terra nada euroc\u00eantrica e do microcosmo caracterizado pelo vilarejo do sert\u00e3o de Pernambuco que d\u00e1 nome ao filme expressam, quase como uma met\u00e1fora ou alegoria, os espa\u00e7os culturais, sociais e hist\u00f3ricos que tomar\u00e3o conta da narrativa do filme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bacurau \u00e9 sobre o sert\u00e3o, mas, como bem notou Guimar\u00e3es Rosa, \u201co sert\u00e3o \u00e9 do tamanho do mundo\u201d. Assim, Bacurau n\u00e3o deixa de ser sobre o nordeste brasileiro, sobre a riqueza e complexidade de sua forma\u00e7\u00e3o cultural e humana, mas o nordeste est\u00e1 sobretudo na linguagem que o filme adota para contar uma hist\u00f3ria t\u00e3o universal quanto sua cena de abertura. O sert\u00e3o \u00e9 do tamanho do mundo porque a partir dele e com ele \u00e9 poss\u00edvel interpretar e compreender a hist\u00f3ria da nossa civiliza\u00e7\u00e3o no \u00e2mbito da luta por espa\u00e7o, da afirma\u00e7\u00e3o e preserva\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os, nos mais diversos sentidos da palavra. Cabe um mundo todo em Bacurau.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, Bacurau retrata uma hist\u00f3ria c\u00edclica. Vai de Canudos \u00e0 Guerra do Vietn\u00e3, passando pelo Gueto de Vars\u00f3via. E vai tamb\u00e9m de Pernambuco a S\u00e3o Paulo, de Manaus ao Rio de Janeiro. Vai, mesmo sem ir. Bacurau est\u00e1 aqui do nosso lado, mesmo estando distante. Bacurau \u00e9 sobre a Mar\u00e9, sobre Eldorado dos Caraj\u00e1s, sobre as reservas ind\u00edgenas, sobre quilombos, sobre coloniza\u00e7\u00e3o, \u00e9 sobre a popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua no centro de S\u00e3o Paulo, sobre movimentos sociais e revoltas populares. \u00c9, mesmo sem ser. E \u00e9 tamb\u00e9m sendo. \u00c9 sobre viol\u00eancia institucionalizada, territ\u00f3rio, identidade, autodetermina\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse sentido, \u00e9 impressionante como o filme pode ser interpretado a partir de conceitos de filosofia social e pol\u00edtica desenvolvida por autores de diferentes pa\u00edses, em diversas \u00e9pocas e que pensaram o mundo a partir de uma perspectiva hist\u00f3rica e das rela\u00e7\u00f5es humanas (e talvez esteja aqui mais uma prova da universalidade da narrativa de Bacurau).<\/p>\n<div class=\"code-block code-block-1\" style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"jornalggn_horizontal_2\" class=\"ggnads adv-dfp-google\"><\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bacurau \u00e9 o que h\u00e1 no espa\u00e7o entre o eu e o outro, o outro como objeto estranho, alien\u00edgena, o outro visto desde a Gr\u00e9cia antiga como b\u00e1rbaro simplesmente por n\u00e3o ser grego, o outro conceituado por Carl Schmitt como o inimigo que d\u00e1 suposta identidade \u00e0 na\u00e7\u00e3o. Bacurau \u00e9 tamb\u00e9m a velha rela\u00e7\u00e3o entre oprimido e opressor, retratada nas pe\u00e7as e poemas de Bertold Brecht e problematizada na pedagogia de Paulo Freire (pensadores que tamb\u00e9m est\u00e3o presentes, de certa maneira, na forma como a produ\u00e7\u00e3o de Bacurau se comunicou com o vilarejo de Barra, no Serid\u00f3, onde o filme foi gravado, incluindo os moradores como atores e posteriormente exibindo a pel\u00edcula em pra\u00e7a p\u00fablica). \u00a0Bacurau vai al\u00e9m do sert\u00e3o de Euclides da Cunha e Guimar\u00e3es Rosa, permeia a banalidade do mal de Hannah Arendt e a biopol\u00edtica de Foucault at\u00e9 chegar ao campo de Giorgio Agamben.<\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<div><span class=\"ctaText\">Leia tamb\u00e9m:<\/span>\u00a0\u00a0<span class=\"postTitle\">Dr. Kouchner e o Sr. Hyde: o m\u00e9dico e o monstro? Parte 3 \u2013 A m\u00e1fia do Kosovo, Por Ruben Rosenthal<\/span><\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como pensado pelo fil\u00f3sofo italiano em seu Projeto\u00a0<em>Homo\u00a0<\/em>Sacer \u2013 que nomeia o conjunto de sua obra recente \u2013, biopol\u00edtica e estado de exce\u00e7\u00e3o s\u00e3o fen\u00f4menos correlatos, reflexos e, em certo ponto, dependentes um do outro, sendo que o produto dessa rela\u00e7\u00e3o \u00e9 o espa\u00e7o do campo, produtor de vida nua, onde reside a figura hist\u00f3rica e completamente atual do\u00a0<em>homo sacer<\/em>, o indiv\u00edduo entendido como mat\u00e1vel e insacrific\u00e1vel e que est\u00e1 ligado \u00e0 imposi\u00e7\u00e3o do poder soberano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo Agamben, as caracter\u00edsticas de impunidade da matan\u00e7a (<em>impune occidi<\/em>) e de exclus\u00e3o do sacrif\u00edcio (<em>neque faz este eum immolari<\/em>), caracter\u00edsticas do\u00a0<em>homo sacer<\/em>\u00a0que constituem justamente a vida sacra ou vida nua, s\u00e3o situa\u00e7\u00f5es de exce\u00e7\u00e3o. O\u00a0<em>impune occidi<\/em>\u00a0configura uma exce\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>ius humanun<\/em>, uma vez que suspende a aplica\u00e7\u00e3o da lei sobre homic\u00eddio. O\u00a0<em>neque faz este eum immolari<\/em>\u00a0enuncia uma exce\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>ius divinum<\/em>\u00a0e de toda e qualquer forma de morte ritual, ou seja, aquela regulada por um ordenamento jur\u00eddico v\u00e1lido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com isso, conforme o fil\u00f3sofo, no caso do\u00a0<em>homo sacer<\/em>\u00a0uma pessoa \u00e9 simplesmente posta para fora da jurisdi\u00e7\u00e3o humana sem ultrapassar para a divina, configurando-se, pelo banimento, uma zona de indetermina\u00e7\u00e3o na qual a vida sacra ou vida nua se caracteriza. Assim, para Agamben, \u201cSoberana \u00e9 a esfera na qual se pode matar sem cometer homic\u00eddio e sem celebrar um sacrif\u00edcio, e sacra, isto \u00e9, mat\u00e1vel e insacrific\u00e1vel, \u00e9 a vida que foi capturada nesta esfera\u201d<a href=\"https:\/\/jornalggn.com.br\/artigos\/o-tempo-que-vem-e-o-campo-que-ha-no-sertao-de-bacurau-por-diego-antonio-perini-milao\/#_edn1\" name=\"_ednref1\">[i]<\/a>. A vida nua ou vida sacra constitui, assim, o conte\u00fado primeiro do poder soberano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O desaparecimento de Bacurau dos mapas oficiais e dos sinais de sat\u00e9lite enuncia: Bacurau \u00e9 o sert\u00e3o, mas Bacurau \u00e9 tamb\u00e9m o campo. O campo como paradigma biopol\u00edtico moderno, o campo como n\u00e3o-lugar, o campo como o espa\u00e7o pr\u00f3prio do estado de exce\u00e7\u00e3o. E como alerta Agamben, \u00e9 preciso que se aprenda reconhecer as metamorfoses e os travestimentos do campo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conforme observa o autor, \u201co campo n\u00e3o \u00e9 um fato hist\u00f3rico e uma anomalia pertencente ao passado (mesmo que, eventualmente, ainda verific\u00e1vel), mas, de algum modo, como a matriz oculta, o\u00a0<em>n\u00f3mos<\/em>\u00a0do espa\u00e7o pol\u00edtico em que ainda vivemos.\u201d<a href=\"https:\/\/jornalggn.com.br\/artigos\/o-tempo-que-vem-e-o-campo-que-ha-no-sertao-de-bacurau-por-diego-antonio-perini-milao\/#_edn2\" name=\"_ednref2\">[ii]<\/a> Talvez por isso Bacurau seja t\u00e3o atual, mesmo que o roteiro tenha come\u00e7ado a ser escrito h\u00e1 dez anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, o fen\u00f4meno do campo retratado por Agamben pode ser verificado pelo esquecimento, abandono e marginaliza\u00e7\u00e3o de determinados territ\u00f3rios pelo Estado dito Soberano, deixando-os a toda sorte, sem qualquer tipo de prote\u00e7\u00e3o e garantia de qualquer direito, conferindo aos indiv\u00edduos que ali residem a vida sacra, a condi\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>homo sacer<\/em>\u00a0e, como tais, mat\u00e1veis e insacrific\u00e1veis. Mesmo n\u00e3o tendo cometido nenhum crime, j\u00e1 est\u00e3o banidos da sociedade civil e dos seus ritos de toda esp\u00e9cie, inclusive, como n\u00e3o poderia deixar de ser, do devido processo legal. Eis a insacrificabilidade. A vida dos que residem no campo n\u00e3o \u00e9 (na vis\u00e3o do Soberano) um bem jur\u00eddico a ser protegido, logo, quem os mata n\u00e3o recebe qualquer tipo de puni\u00e7\u00e3o. Eis a matabilidade. Eis o estado de exce\u00e7\u00e3o como paradigma de governo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bacurau \u00e9 um retrato dessa pol\u00edtica de exce\u00e7\u00e3o, que se caracteriza, em um primeiro momento, por um \u201cdeixar morrer\u201d. Mas Bacurau resiste. As institui\u00e7\u00f5es ausentes no vilarejo logo s\u00e3o substitu\u00eddas por uma forte ideia de comunidade, por uma nova \u00e1gora. A ordem pol\u00edtica \u00e9 substitu\u00edda por uma ordem humana, que se personifica. Nesse sentido, \u00e9 relevante destacar a rela\u00e7\u00e3o aleg\u00f3rica entre as personagens Domingas e Carmelita (que morre aos \u2013 n\u00e3o por acaso \u2013 94 anos de idade, representando tamb\u00e9m o fim de mais um ciclo hist\u00f3rico).<\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<div><span class=\"ctaText\">Leia tamb\u00e9m:<\/span>\u00a0\u00a0<span class=\"postTitle\">\u201cKochtopus\u201d: os tent\u00e1culos da m\u00e1quina de influ\u00eancia pol\u00edtica dos irm\u00e3os Koch, por C\u00e9sar Locatelli<\/span><\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, a resist\u00eancia de Bacurau n\u00e3o se d\u00e1 somente com a constru\u00e7\u00e3o de uma ordem humana e de um c\u00f3digo social pautados em uma democracia participativa, mas se d\u00e1 tamb\u00e9m com anomia. Esse \u201cdeixar morrer\u201d, retratado no filme pela situa\u00e7\u00e3o extrema da priva\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00e1gua (muito mais por uma quest\u00e3o pol\u00edtica do que geogr\u00e1fica) e, por consequ\u00eancia \u2013 como nos lembra a \u00e1gua que transborda do caix\u00e3o de Carmelita \u2013 como uma restri\u00e7\u00e3o ao ser, levar\u00e1 a uma crise da legitimidade do poder pol\u00edtico e do seu sistema jur\u00eddico, com uma consequente \u201cviola\u00e7\u00e3o\u201d por convic\u00e7\u00e3o das normas do Estado dito Soberano. E com isso temos a personagem Lunga. Lunga evoca o canga\u00e7o, mas Lunga \u00e9 tamb\u00e9m um poema de Brecht, especialmente uma estrofe: \u201cDo rio que tudo arrasta \/ Se diz que \u00e9 violento \/ Mas ningu\u00e9m diz violentas \/ As margens que o comprimem\u201d (ou que o secam).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, como a hist\u00f3ria bem nos ensina, resist\u00eancia \u2013 quase sempre \u2013 \u00e9 respondida com repress\u00e3o. Aqueles que ocupam o governo oficial querem impor a soberania de Estado, querem produzir vida nua, implantar a exce\u00e7\u00e3o no indiv\u00edduo para transform\u00e1-lo em\u00a0<em>homo sacer<\/em>. A \u00e1gua se transforma em sangue e o estado de exce\u00e7\u00e3o implantado em Bacurau assume um novo ato ap\u00f3s a m\u00e1 (ou boa) recep\u00e7\u00e3o que o vilarejo d\u00e1 ao prefeito: o \u201cfazer morrer\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E nesse ponto ocorre uma das grandes ideias do roteiro, que passa a trabalhar ainda mais com uma distopia de dimens\u00f5es propositadamente n\u00e3o esclarecidas. V\u00e1rias hip\u00f3teses surgem no pensamento de quem assiste o filme: seria um jogo ou uma invas\u00e3o? Uma guerra civil ou atra\u00e7\u00e3o tur\u00edstica? Institucionalizado ou individualizado? P\u00fablico ou privado? Pol\u00edtica de Estado ou explora\u00e7\u00e3o comercial? Mas a distopia que atingir\u00e1 o Brasil em um futuro pr\u00f3ximo tamb\u00e9m est\u00e1 na impossibilidade dessas distin\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que ocorre em Bacurau n\u00e3o precisa ser uma coisa ou outra, o que ocorre em Bacurau pode ser tudo isso ao mesmo tempo. Em Bacurau, assim como a \u00e1gua, a repress\u00e3o do Estado \u00e9 tamb\u00e9m privatizada ou, ao menos, concedida, terceirizada e, com isso, transformada em mercadoria e em espet\u00e1culo. Talvez seja esse tamb\u00e9m o motivo das execu\u00e7\u00f5es p\u00fablicas no Vale do Anhangaba\u00fa, da qual temos conhecimento por uma not\u00edcia na TV. O que pode tamb\u00e9m explicar o sistema de pontos entre os \u201cjogadores\u201d como um mero cumprimento de metas para o recebimento de b\u00f4nus no final do m\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse pacote neoliberal (ironicamente incentivado at\u00e9 mesmo por funcion\u00e1rios p\u00fablicos), a soberania (nesse sentido agambeniano e no sentido origin\u00e1rio do termo) tamb\u00e9m \u00e9 concedida. E isso fica claro na sequ\u00eancia de cenas em que forasteiros brasileiros equivocadamente pensam que podem se comportar como se americanos ou europeus fossem, como se ainda detivessem a soberania que acabaram de entregar. O novo Soberano n\u00e3o demora muito para reafirmar o seu poder de produzir vida nua e logo lembra aos forasteiros do sul do Brasil que qualquer indiv\u00edduo pode ser capturado em sua esfera, qualquer um pode vir a ser\u00a0<em>homo sacer<\/em>, mat\u00e1vel e insacrific\u00e1vel, mas somente o Soberano pode decidir quem assim o \u00e9. Soberano \u00e9 quem decide sobre o estado de exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, Bacurau tamb\u00e9m resiste a essa segunda faceta do campo. E resiste porque, ao contr\u00e1rio dos forasteiros, Bacurau possui consci\u00eancia das suas ra\u00edzes, n\u00e3o esquece a sua hist\u00f3ria, preserva a identidade de sua gente e de sua cultura. Diferentemente da realidade, na fic\u00e7\u00e3o de Bacurau os museus n\u00e3o s\u00e3o consumidos pelo fogo. A educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 tratada como mercadoria que se carrega na ca\u00e7amba de um caminh\u00e3o, livros s\u00e3o tijolos apenas no sentido figurado e certamente, se pud\u00e9ssemos consultar a biblioteca do Professor Pl\u00ednio, encontrar\u00edamos v\u00e1rios exemplares de Paulo Freire. Quando a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 libertadora, o sonho do oprimido n\u00e3o \u00e9 se tornar o opressor.<\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<div><span class=\"ctaText\">Leia tamb\u00e9m:<\/span>\u00a0\u00a0<span class=\"postTitle\">De Po\u00e7os de Caldas das Minas Gerais \u00e0 Amaz\u00f4nia, por Rui Daher<\/span><\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contra esse poder Soberano produtor de exce\u00e7\u00e3o, de vida nua, Bacurau retoma a soberania no sentido original da palavra, defendendo o direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o de seu povo e estourando em mil peda\u00e7os qualquer pensamento (ou n\u00e3o-pensamento) de quem pretende subjugar a sua gente. Cansados de tomarem naquele lugar, eles deixam de lado o suposit\u00f3rio inibidor de humor dado pelo Estado para produzir uma sociedade ap\u00e1tica e escolhem tomar a p\u00edlula de Damiano, um poderoso psicotr\u00f3pico. Bacurau decide, assim, pela autodetermina\u00e7\u00e3o em detrimento do marasmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, apesar dos esfor\u00e7os de Malcolm X para nos lembrar que n\u00e3o se deve confundir a rea\u00e7\u00e3o do oprimido com a viol\u00eancia do opressor, mais uma vez a hist\u00f3ria da nossa civiliza\u00e7\u00e3o tristemente nos ensina que o direito \u00e0 resist\u00eancia e \u00e0 desobedi\u00eancia civil \u00e9 rotulado como mera viol\u00eancia por aqueles que pretendem manter o monop\u00f3lio da for\u00e7a enquanto repelem qualquer possibilidade de di\u00e1logo e se utilizam de uma real viol\u00eancia mascarada de juridicidade ou miss\u00e3o divina para impor sua domina\u00e7\u00e3o ao outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o devemos cometer o mesmo erro com o filme. N\u00e3o se deve reproduzir uma das falas finais de Michael. Seria incorreto classificar Bacurau como violento. H\u00e1 um certo paradoxo: quando \u201cBacurau\u201d se torna graficamente mais violento, ele passa a ser, na verdade, menos violento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bacurau \u00e9 resist\u00eancia. Um filme de fic\u00e7\u00e3o, mas que poderia ser todo montado com cenas da hist\u00f3ria e da realidade atual, essas que s\u00e3o exibidas todos os dias nos telejornais ou que nos deparamos nas esquinas de nosso cotidiano. Bastaria fazer pequenas adapta\u00e7\u00f5es, como trocar uma lanterna por um guarda-chuva, por exemplo. E nem ser\u00e1 preciso revogar a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 para isso, o estado de exce\u00e7\u00e3o j\u00e1 basta. Por vezes, \u00e9 dif\u00edcil perceber se estamos diante de um drone ou de um disco-voador (nem todos temos a clareza de Damiano).<\/p>\n<div class=\"code-block code-block-4\" style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"jornalggn_horizontal_5\" class=\"ggnads adv-dfp-google\" data-google-query-id=\"COPvkantw-QCFYXI4wcdWuEIjw\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/21622511100\/jornalggn_blog\/jornalggn_horizontal_5_0__container__\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">A op\u00e7\u00e3o pela fic\u00e7\u00e3o, contudo, permite a entrega de um final aparentemente esperan\u00e7oso, mas que n\u00e3o sabemos at\u00e9 quando durar\u00e1 se levarmos em considera\u00e7\u00e3o a hist\u00f3ria dos levantes populares que aconteceram em nosso pa\u00eds e no mundo. Por ora, ao menos na fic\u00e7\u00e3o, n\u00e3o temos um final em que um governante chega euf\u00f3rico ao vilarejo dando pulos e socos no ar para comemorar a morte dos cidad\u00e3os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim como h\u00e1 momentos em que temos que nos esfor\u00e7ar para distinguir se uma cena de Bacurau \u00e9 real ou apenas fic\u00e7\u00e3o, h\u00e1 tamb\u00e9m momentos da realidade que, se nos descuidarmos, pensaremos ser apenas uma cena delatada de Bacurau, um final alternativo que n\u00e3o foi utilizado no filme. Talvez a escolha da p\u00edlula certa nos ajude com essa distin\u00e7\u00e3o. De qualquer maneira, essa simbiose que ocorre na mente de quem assiste o filme n\u00e3o deixa de ser um aviso: a distopia chegou. Ou apenas voltou. Afinal, enterramos vivos os nossos problemas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Diego Antonio Perini Mil\u00e3o \u2013\u00a0<\/em><em>Mestre em Direito e Justi\u00e7a pela UFMG.\u00a0<\/em><em>Bacharel em Direito pela Unesp<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/jornalggn.com.br\/artigos\/o-tempo-que-vem-e-o-campo-que-ha-no-sertao-de-bacurau-por-diego-antonio-perini-milao\/#_ednref1\" name=\"_edn1\">[i]<\/a>\u00a0AGAMBEN, Giorgio.\u00a0<em>Homo sacer:\u00a0<\/em>o poder soberano e a vida nua I. Tradu\u00e7\u00e3o de Henrique Burigo. Belo Horizonte: UFMG, 2007.\u00a0<em>p<\/em>. 91.<\/p>\n<div class=\"code-block code-block-5\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/jornalggn.com.br\/artigos\/o-tempo-que-vem-e-o-campo-que-ha-no-sertao-de-bacurau-por-diego-antonio-perini-milao\/#_ednref2\" name=\"_edn2\">[ii]<\/a>\u00a0AGAMBEN, Giorgio.\u00a0<em>Homo sacer:\u00a0<\/em>o poder soberano e a vida nua I. Tradu\u00e7\u00e3o de Henrique Burigo. Belo Horizonte: UFMG, 2007.\u00a0<em>p<\/em>. 162.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bacurau \u00e9 sobre a Mar\u00e9, sobre Eldorado dos Caraj\u00e1s, sobre as reservas ind\u00edgenas, sobre quilombos, sobre coloniza\u00e7\u00e3o, \u00e9 sobre a popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua no centro de S\u00e3o Paulo, sobre movimentos sociais e revoltas populares. \u00c9, mesmo sem ser.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":294711,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-294709","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/bacurau-cartaz.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/294709","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=294709"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/294709\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/294711"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=294709"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=294709"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=294709"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}