{"id":295182,"date":"2019-09-13T06:53:30","date_gmt":"2019-09-13T09:53:30","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=295182"},"modified":"2019-09-13T06:53:30","modified_gmt":"2019-09-13T09:53:30","slug":"os-dias-de-iriana-nas-ruas-de-recife-com-um-bebe-e-sem-documentos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/os-dias-de-iriana-nas-ruas-de-recife-com-um-bebe-e-sem-documentos\/","title":{"rendered":"Os dias de Iriana nas ruas de Recife: com um beb\u00ea e sem documentos"},"content":{"rendered":"<header class=\"col desktop_12 tablet_8 mobile_4\">\n<div id=\"article_header\" class=\"article-header basic | \">\n<h1 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark \" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<h2 class=\"font_secondary color_gray_dark \" style=\"text-align: justify;\">Reportagem acompanhou mulher em situa\u00e7\u00e3o de rua por nove meses; seu filho nasceu junto ao governo Bolsonaro<\/h2>\n<\/div>\n<section class=\"share-bar | border_bottom border_5\">\n<div class=\"content | border_bottom border_1 padding_bottom flex\n              justify_space_between relative\"><\/p>\n<div class=\"\n      social-icons\n      flex container_row\n      horizontal\n\n    \"><\/div>\n<div class=\"\n      social-icons\n      flex container_row\n      horizontal\n\n      right-links\n    \"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<figure class=\"lead_art |  \" style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"width_full\" src=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/resizer\/3CW7eNq8eKcnzhyE66fWPS4xMBk=\/1500x0\/smart\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/EABZQMH3ILHWWDANR7OSNGF6XU.jpg\" alt=\"Iriana, gr\u00e1vida de 9 meses, posa para foto no centro de Recife\" \/><figcaption class=\"color_gray_medium border_bottom border_1 border_gray padding_vertical text_align_right\">Iriana, gr\u00e1vida de 9 meses, posa para foto no centro de Recife<span class=\"color_black margin_left uppercase light\">FL\u00c1VIO TAVARES (AG\u00caNCIA P\u00daBLICA)<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"article_byline | margin_bottom_lg  \" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"authors flex flex_wrap \"><span class=\"margin_bottom uppercase flex align_items_center margin_right\"><a class=\"color_black\" title=\"Ver todas as not\u00edcias de Joana Suarez (Ag\u00eancia P\u00fablica)\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/agencia_publica\/a\/\">JOANA SUAREZ (AG\u00caNCIA P\u00daBLICA)<\/a><\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"article | col desktop_8 tablet_8 mobile_4\">\n<section class=\"article_body | color_gray_dark\">\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Magra, quase n\u00e3o dava para perceber que Iriana El\u00edsio do Nascimento, de 31 anos, estava no s\u00e9timo m\u00eas da gravidez. Perto do parto, em dezembro do ano passado, a barriga cresceu e come\u00e7ou a ser vista \u2014Iriana tamb\u00e9m. Gabriel chutava dentro dela e as pessoas passavam perguntando para quando era o parto, se era menino ou menina, doavam roupas e fraldas. Ela fez o enxoval completo na rua Sete de Setembro, no\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/06\/26\/politica\/1530040918_051796.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">centro de Recife<\/a>, onde instalou seu colch\u00e3o e sua vida h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada. O filho j\u00e1 tinha conjunto novo para sair da maternidade. Por um\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/bebes\" data-link-track-dtm=\"\">beb\u00ea<\/a>\u00a0que vai nascer, muitos se sensibilizam.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">A cama dela na cal\u00e7ada ficava, de dia, entre um mostru\u00e1rio de bolsas de um vendedor ambulante e uma mesinha com jogadores de baralho. \u201c\u00c9 muito dinheiro que circula aqui\u201d, comentou Iriana, que recebia trocados de quem passava. Conhecia todo mundo, o que lhe garantia\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/07\/20\/politica\/1563575540_977369.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">almo\u00e7o e jantar<\/a> todo dia. Em uma lanchonete da rua, ela usava o banheiro e tomava banho.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Na primeira sexta-feira do ano, Iriana come\u00e7ou a sentir uma dor forte na barriga e foi andando para o hospital p\u00fablico mais pr\u00f3ximo, que ficava a um quil\u00f4metro da rua Sete de Setembro. \u201cGabriel, me ajuda!\u201d, gritava o nome do sexto filho que levava na barriga, pouco antes de parir. \u201cA dor s\u00f3 fazia aumentar, o povo achava que eu estava chamando o anjo Gabriel.\u201d Alguma funcion\u00e1ria do hospital aparecia, de vez em quando, abria as pernas dela e olhava a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/08\/24\/actualidad\/1503582688_802126.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">dilata\u00e7\u00e3o<\/a>. \u201cEu n\u00e3o aguentava mais levar toque. A\u00ed a mulher veio com a paleta e estourou a bolsa\u201d, contou Iriana.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">No dia 4 de janeiro de 2019, \u00e0s 20h15, Gabriel nasceu em Recife, capital pernambucana. Em Bras\u00edlia, iniciava o<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/jair_messias_bolsonaro\/a\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">\u00a0Governo Bolsonaro<\/a>. Ap\u00f3s o parto, Iriana come\u00e7ou a ter febre, sentir mais dor e suar frio. \u201cSofri demais, parecia que a placenta toda tinha ficado. Ficou resto de parto dentro de mim, eles v\u00e3o fazer a curetagem pra tirar\u201d, narrou ela, que aguardava o procedimento havia cinco dias sozinha no hospital. Iriana passava o dia de jejum, amamentando, mas uma ces\u00e1rea urgente surgia \u00e0 noite e adiava a curetagem. \u201cNunca pensei que ia ter que ficar tanto tempo no hospital. S\u00f3 o que me segura \u00e9 ele\u201d, apontou para o beb\u00ea rec\u00e9m-nascido.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Uma em cada quatro mulheres no Brasil sofreu algum tipo de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/03\/21\/opinion\/1553125734_101001.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">viol\u00eancia obst\u00e9trica<\/a>, de acordo com o estudo \u201cMulheres brasileiras e g\u00eanero nos espa\u00e7os p\u00fablico e privado\u201d, de 2010. A mortalidade materna atinge 830 mulheres no mundo todos os dias e ocorre mais em \u00e1reas rurais e comunidades pobres, conforme a Organiza\u00e7\u00e3o Panamericana de Sa\u00fade.<\/p>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\" style=\"text-align: justify;\">Solid\u00e3o<\/h3>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Parir seria doloroso e solit\u00e1rio, pensava Iriana. \u201cJosimar n\u00e3o aguenta ver.\u201d O pai da crian\u00e7a, Josimar Greg\u00f3rio da Silva, de 32 anos, teve uma crise convulsiva na maternidade no primeiro dia e foi levado embora \u2014sumiu pelos dez dias seguintes. Ele \u00e9 pai dos \u00faltimos quatro filhos dela; o casal se conheceu na rua h\u00e1 dez anos.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Existem 11 milh\u00f5es de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/06\/21\/deportes\/1529536206_588160.html\" data-link-track-dtm=\"\">mulheres no Brasil que criam seus filhos sozinhas<\/a>\u00a0e as que, como Iriana, t\u00eam esses filhos nas ruas, sem nenhuma rede de apoio. Quase 60% das m\u00e3es solo vivem em situa\u00e7\u00e3o de pobreza.<\/p>\n<blockquote class=\"quote quote_block | font_secondary border border_1 border_solid border_gray_dark border-box pull_left\">\n<div>Como exigir que\u00a0Iriana pensasse em planejamento, se com um beb\u00ea na barriga ou no colo ela passa a ser notada pelas pessoas e pelo governo?<\/div>\n<\/blockquote>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Por seis dias, Iriana vestiu a bata verde do hospital, pois n\u00e3o tinha roupa, calcinha ou toalha. Havia ido para l\u00e1 com o vestido do corpo, que sujou de sangue. Eu fui a \u00fanica visita que ela recebeu. \u201cUma pessoa que mal me conhece vem ver meu filho, e minha fam\u00edlia, que \u00e9 meu sangue, n\u00e3o vem.\u201d Fazia pouco mais de dois meses que eu a acompanhava toda semana \u2014estive com ela desse fim de gravidez aos primeiros sete meses de Gabriel.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Retornei para v\u00ea-la na manh\u00e3 do s\u00e9timo dia no hospital e fui comunicada pela recepcionista de que Iriana tinha \u201cevadido\u201d sem fazer a curetagem. As outras pacientes disseram que ela n\u00e3o aguentou passar mais um dia sozinha, sem comer, estava chorando e morrendo de dor de cabe\u00e7a. Em uma sala com o ar condicionado gelado, uma obstetra informou que Iriana n\u00e3o obedecia ao jejum e que era normal ficarem co\u00e1gulos no \u00fatero, mas a paciente n\u00e3o poderia parar o antibi\u00f3tico.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Voltei \u00e0 rua e encontrei Iriana sentada em uma cadeira na Sete de Setembro, onde ficava seu colch\u00e3o, com Gabriel rec\u00e9m-nascido nos bra\u00e7os. \u201cSofri tanto que fugi de l\u00e1.\u201d Com aquele beb\u00ea de 47 cm e 2,9 kg no colo, come\u00e7ou a chorar.<\/p>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\" style=\"text-align: justify;\">Depende da rua da \u201cindepend\u00eancia\u201d<\/h3>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">\u201cPoxa, meu Deus, o que eu fiz para sofrer desde pequena? Eu fico s\u00f3 pensando\u2026 Como teria sido se eu tivesse a minha m\u00e3e?\u201d, se perguntava. Iriana cresceu sem m\u00e3e, sem pai e sem casa. Foi criada pela tia e relatou ter sido\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/09\/10\/politica\/1568134128_017016.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">estuprada pelo tio aos 10 anos de idade<\/a>, o que a fez, para fugir da viol\u00eancia, ir para a rua e parar de estudar \u2014cursou at\u00e9 a 5\u00aa s\u00e9rie. Na \u00e9poca, Iriana contou sobre o abuso para as tias, que acharam que era mentira de crian\u00e7a. Um levantamento do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade revelou que os casos de viol\u00eancia sexual contra crian\u00e7as e adolescentes no pa\u00eds somaram mais de 141 mil entre 2011 e 2017. Em cerca de 70% deles, a viol\u00eancia acontece dentro da casa das v\u00edtimas.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Iriana tornou-se mulher na rua, engravidando seis vezes, a primeira aos 15 anos. Estudos mostram que a gravidez indesejada na adolesc\u00eancia ocorre mais em situa\u00e7\u00f5es de vulnerabilidade \u2014e os casos s\u00e3o mais frequentes nas regi\u00f5es Norte e Nordeste do Brasil.<\/p>\n<figure class=\"article_image | margin_top pull_left width_half\" style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"width_full\" src=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/resizer\/8G5TllTziqpJrGnLS4rTOBZj2Mk=\/450x600\/smart\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/ZNHZQCBMG6B7FPGHCOBF5VXTY4.jpg\" alt=\"Iriana com Gabriel na maternidade onde o beb\u00ea nasceu\" \/><figcaption class=\"caption | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">Iriana com Gabriel na maternidade onde o beb\u00ea nasceu<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Na rua Sete de Setembro, onde ela passou a morar, \u00e9 conhecida pelos apelidos de Galega (por ter pele clara) e Maga (por ser bem magra), mas seu nome quase ningu\u00e9m acerta, os mais \u201cpr\u00f3ximos\u201d a chamam, no m\u00e1ximo, de Liliana. Trata-se de uma das ruas mais tumultuadas do centro. Na esquina, sem sa\u00edda para carros, est\u00e1 a avenida Conde da Boa Vista, com tr\u00e2nsito de quase 10 mil ve\u00edculos, mais de 300 mil pessoas circulando entre 370 estabelecimentos comerciais e 1.500 unidades habitacionais. Iriana n\u00e3o tem recurso para morar em nenhuma delas, habitava o passeio das Lojas Americanas, ouvindo um funcion\u00e1rio anunciar promo\u00e7\u00f5es em um alto-falante o dia inteiro.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Em frente, est\u00e1 a loja Marisa, do slogan \u201cde mulher pra mulher\u201d, mas Iriana nunca entrava l\u00e1. De um lado, sapataria, loteria; do outro, farm\u00e1cia. No meio, dezenas de vendedores ambulantes, que tamb\u00e9m passam o dia gritando para atrair clientes. \u00c9 muita sujeira e um barulho que t\u00edmpano nenhum merece escutar o tempo todo, muito menos os de um rec\u00e9m-nascido.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">O primeiro banho de Gabriel fora do hospital, com sete dias de vida, foi na lanchonete da rua. Iriana tinha guardado l\u00e1 uma banheira de pl\u00e1stico que ganhou e conseguiu ferver um pouco de \u00e1gua. Ali mesmo, ela rasgou a embalagem da roupinha que o beb\u00ea usaria na alta da maternidade e vestiu o filho. Voltou para a cal\u00e7ada e ficou apresentando Gabriel aos seus conhecidos. \u201cOlha, nasceu seu filho, que ben\u00e7\u00e3o!\u201d; \u201c\u00c9 o menino que estava na tua barriga? Nasceu quando?\u201d; \u201cQue bonitinho, como ele chama?\u201d; \u201cJesus tem um plano na vida de voc\u00eas\u201d, falavam as pessoas.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/01\/11\/actualidad\/1515682730_474645.html\" data-link-track-dtm=\"\">A solid\u00e3o do hospital tinha acabado<\/a>. N\u00e3o importavam mais a dor, a infec\u00e7\u00e3o, as consequ\u00eancias. N\u00e3o pensava nas horas seguintes: o socorro de algum jeito viria e ela sabia. \u201cEles v\u00e3o vir me buscar para levar pro abrigo.\u201d Eu tentava n\u00e3o intervir nos acontecimentos para compreender como a rede de prote\u00e7\u00e3o funcionaria, mas precisei ligar para o ent\u00e3o coordenador da Pastoral do Povo da Rua, frei Marcos Carvalho, que morava perto. Ele fez contato com o Centro de Refer\u00eancia Especializado para Popula\u00e7\u00e3o em Situa\u00e7\u00e3o de Rua (Centro POP) e a pessoa do outro lado da linha respondeu que j\u00e1 estavam acostumados com Iriana, que esse n\u00e3o era o primeiro filho dela, que ela sempre foge dos lugares, que iriam, depois, verificar a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">\u201cMas ela est\u00e1 aqui com um beb\u00ea rec\u00e9m-nascido no meio da rua, e a demanda \u00e9 urgente. Ela est\u00e1 dizendo que quer ir para o abrigo municipal, para o hospital n\u00e3o volta. Voc\u00eas precisam vir\u201d, o frei insistia. At\u00e9 que decidimos levar Iriana e Gabriel, de t\u00e1xi, \u00e0 unidade Centro POP, a um quil\u00f4metro dali. De l\u00e1, conduziram ela para outra maternidade, o Hospital Barros Lima. Amparada por funcion\u00e1rias da prefeitura, na mesma noite, Iriana fez a curetagem e ficou em observa\u00e7\u00e3o mais quatro dias, enquanto tomava o antibi\u00f3tico.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">\u201cAqui \u00e9 de outro jeito, eles tratam a gente melhor. Eu falei \u2018obrigada\u2019 para a mulher e ela respondeu \u2018disponha\u201d, comentou Iriana. No princ\u00edpio, ela estranhou as pacientes vizinhas de leito. Havia sempre o receio de ser julgada por desconhecidos e maltratada, e isso a fazia vestir uma personagem encrenqueira com cara de poucos amigos. Mas a mulher da cama ao lado a acolheu, oferecendo apoio e cuidados b\u00e1sicos. Fez amizade.<\/p>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\" style=\"text-align: justify;\">Seis filhos sem endere\u00e7o certo<\/h3>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Antes de conhecer Josimar, Iriana j\u00e1 tinha dois filhos. Afirma que engravidou do primeiro, Bernardo, h\u00e1 mais de 15 anos. Mas s\u00f3 sabe o nome dele, pois ainda beb\u00ea foi levado pelo Conselho Tutelar e ela nunca mais teve not\u00edcias. \u201cEles pegaram para \u2018doa\u00e7\u00e3o\u2019 [ado\u00e7\u00e3o]. Eu n\u00e3o entendia das coisas antigamente. Queria achar ele.\u201d<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Depois veio Ana Clara, cujo nome est\u00e1 tatuado no bra\u00e7o de Iriana. Segundo ela, a menina tem 13 anos hoje e mora com a av\u00f3 paterna, m\u00e3e do companheiro da \u00e9poca, que foi assassinado. Iriana chegou a morar com ele na favela dos Coelhos, em\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/recife\/a\/\" data-link-track-dtm=\"\">Recife<\/a>, e sofreu mais viol\u00eancia. Ele batia nela.<\/p>\n<figure class=\"article_image | margin_top\" style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"width_full\" src=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/resizer\/pkeX4DxxMfTjlnPti1xb9rfySAE=\/1500x0\/smart\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/56UEKVL7CQY65MN2UIBV776TU4.jpg\" alt=\"Iriana \u00e0 espera da chegada de Gabriel. No bra\u00e7o, o nome da filha tatuado: Ana Clara foi a segunda de seis gesta\u00e7\u00f5es\" \/><figcaption class=\"caption | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">Iriana \u00e0 espera da chegada de Gabriel. No bra\u00e7o, o nome da filha tatuado: Ana Clara foi a segunda de seis gesta\u00e7\u00f5es<span class=\"color_black margin_left uppercase light\">FL\u00c1VIO TAVARES\/AG\u00caNCIA P\u00daBLICA<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Mais uma vez, a hist\u00f3ria de Iriana esbarra na estat\u00edstica: Pesquisa do Datafolha, publicada em fevereiro deste ano, indica que\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/violencia_machista\/a\/\" data-link-track-dtm=\"\">1,6 milh\u00e3o de mulheres foram espancadas<\/a>\u00a0ou sofreram tentativa de estrangulamento no Brasil, apenas em 2018. Do n\u00famero total, 76,4% das mulheres afirmaram conhecer seu agressor.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">O atual parceiro [Josimar] \u00e9 o pai de Gabriel, Leonardo, de 8 anos, Vit\u00f3ria, de 7 anos, e uma menina que morreu no parto, segundo Iriana por falta de socorro. A m\u00e3e de Josimar, Ana Maria da Silva, de 52 anos, cria sozinha os dois netos mais velhos, Vit\u00f3ria e Leonardo. O menino ficou com a m\u00e3e no abrigo por dois meses, depois passou seis meses na rua at\u00e9 que a av\u00f3 paterna buscou com respaldo da pol\u00edcia e do Conselho Tutelar. Ela quis correr com o beb\u00ea na hora, mas ele estava em situa\u00e7\u00e3o de risco, e at\u00e9 hoje quem cuida \u00e9 Ana.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">A av\u00f3 tamb\u00e9m tem a guarda de Maria Vit\u00f3ria, que chegou para ela aos 4 anos, quando Iriana aceitou fazer tratamento para\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/adicciones\/a\/\" data-link-track-dtm=\"\">depend\u00eancia qu\u00edmica<\/a>. \u201cDe Vit\u00f3ria e L\u00e9o, eu sempre vou ser a m\u00e3e. Mas, se eu pegar eles de volta, ela [Ana] tem um derrame. Esses meninos s\u00e3o tudo pra ela\u201d, disse Iriana.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">O discurso dela era que Gabriel seria o \u00faltimo filho, mas explicava que n\u00e3o era f\u00e1cil conseguir a cirurgia de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/06\/12\/politica\/1528827824_974196.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">laqueadura<\/a>\u00a0no SUS. No Brasil, o procedimento pode ser feito sem custo em mulheres e homens acima de 25 anos ou com pelo menos dois filhos vivos, mas muitas vezes as mulheres precisam recorrer \u00e0 Justi\u00e7a para garantir esse direito. Ela falava tamb\u00e9m em outros m\u00e9todos contraceptivos, que na situa\u00e7\u00e3o de rua n\u00e3o funcionam bem.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">As pessoas que conheciam um pouco de sua hist\u00f3ria diziam que Iriana deveria \u201cparar de colocar filho no mundo\u201d. Mas como exigir que ela, sozinha e vulner\u00e1vel, pensasse em planejamento familiar, se com um beb\u00ea na barriga ou no colo ela passa a ser notada pelas pessoas e pelo governo?<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Sem estar gr\u00e1vida, a rede de assist\u00eancia social da capital pernambucana n\u00e3o tem muito a oferecer para a popula\u00e7\u00e3o que faz da rua moradia. N\u00e3o tem restaurantes para alimenta\u00e7\u00e3o popular ou gratuita, nem tem acolhimentos noturnos para dormir. Existem duas unidades do Centro de Refer\u00eancia Especializado para Popula\u00e7\u00e3o em Situa\u00e7\u00e3o de Rua (Centro POP) com atendimentos durante o dia, al\u00e9m do servi\u00e7o especial de abordagem e o Consult\u00f3rio na Rua, que fez o pr\u00e9-natal de Iriana.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Ser bem tratada no [segundo] hospital j\u00e1 fazia Iriana come\u00e7ar a planejar o futuro com mais \u00e2nimo. Pensava em ir ao dentista colocar uma pr\u00f3tese no lugar dos dentes quebrados por causa do v\u00edcio em crack. \u201cNo abrigo vai ser bom, Gabriel vai ser muito paparicado. Vamos poder ir \u00e0 praia, que \u00e9 perto. Eu vou sair de l\u00e1 s\u00f3 quando tiver a minha casa.\u201d<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Mas queria not\u00edcias de Josimar. Assim que teve alta hospitalar e foi para o primeiro acolhimento municipal na Casa de Passagem Diagn\u00f3stica, Iriana voltou \u00e0 cidade para procurar o companheiro. Estava toda arrumada, como eu nunca tinha visto: vestido justo preto, batom vermelho, l\u00e1pis no olho e cabelos presos. \u201cFoi a Galega que me emprestou tudo\u201d, se referia a Graziele, nova colega de quarto do abrigo. Gabriel tamb\u00e9m estava de roupa nova e perfumado. N\u00e3o encontrou o pai dele.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Na semana seguinte, Iriana deixou a Casa de Passagem para ser acolhida na Casa Recome\u00e7o, abrigo municipal onde poderia ficar de seis meses a um ano com outras 40 mulheres e crian\u00e7as.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">\u201cQuero ser gente agora, coisa que eu nunca fui\u201d, disse. Entrou em um curso de cabeleireira, pintou o cabelo de vermelho, fez as sobrancelhas. As olheiras fundas diminu\u00edram, engordou um pouco. As minhas visitas frequentes tamb\u00e9m acabavam por mant\u00ea-la com o prop\u00f3sito de melhorar, pois eu demonstrava interesse na evolu\u00e7\u00e3o. \u201cSe n\u00e3o fosse tu, eu j\u00e1 estava desbaratada nas ruas\u201d, afirmou, e me ligava para contar novidades ou perguntar quando eu iria v\u00ea-la.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Eu era a jornalista que escreveria sobre Iriana, mas a \u201centrevista\u201d nunca acabava, ent\u00e3o ela passou a me apresentar como colega e, por fim, como \u201cmadrinha de Gabriel\u201d. Muitos desconfiavam que eu fosse assistente social ou algu\u00e9m interessada em ficar com o beb\u00ea, pois as ajudas que ela costumava receber eram apenas imediatas, para sobreviv\u00eancia, n\u00e3o havia uma presen\u00e7a cont\u00ednua como a minha. \u201cPor que tu n\u00e3o d\u00e1 o menino para ela?\u201d, perguntou um homem na rua. \u201cD\u00e1 os teus, que tu n\u00e3o cria\u201d, respondeu Iriana. N\u00e3o era mulher de aceitar desaforo.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">A gente sa\u00eda para conversar na praia, na pra\u00e7a perto do abrigo, passear no centro. Fomos visitar a sogra e a irm\u00e3 dela. Quando o assunto era a fam\u00edlia, o passado ou os filhos, Iriana se emocionava. \u201cNingu\u00e9m nunca tinha dado tanta aten\u00e7\u00e3o a mim\u201d, comentou uma vez com os olhos molhados.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">A ger\u00eancia da Casa Recome\u00e7o percebeu que Iriana estava mais determinada do que nas outras passagens por l\u00e1, com os filhos anteriores. \u201cTalvez pela quantidade de sofrimento em rela\u00e7\u00e3o aos outros filhos; ela estava muito mais ativa e participativa, no sentido de \u2018esse [filho] eu n\u00e3o perco&#8217;\u201d, apontou Hugo Melo, chefe do setor de acolhimento. Ela brincava com Gabriel, que retribu\u00eda com gargalhadas e olhos brilhando. A amamenta\u00e7\u00e3o era demanda livre. \u201cGuinho est\u00e1 esperto, tirando a maior onda. O neg\u00f3cio dele \u00e9 esse: comer e dormir\u201d, disse Iriana.<\/p>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\" style=\"text-align: justify;\">Na casa da sogra<\/h3>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Ao chegarmos na casa de Ana Maria, a av\u00f3 n\u00e3o quis olhar para o beb\u00ea de 15 dias no colo da nora. Deixou claro que n\u00e3o teria a menor condi\u00e7\u00e3o de ficar com o terceiro neto. \u201cEla [Iriana] tem que dar para quem possa criar, eu j\u00e1 estou com esses dois\u201d, disse. L\u00e9o e Vit\u00f3ria disputavam para carregar e acariciar o novo irm\u00e3o. \u201cM\u00e3e, eu quero ficar com ele [Gabriel]\u201d, falou L\u00e9o para a av\u00f3.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Eles vivem em um barraco de dois c\u00f4modos na vila de Dois Unidos, periferia de Recife. Os netos dormem na cama de casal com ela, que tem ainda cinco filhos homens e jovens. Josimar \u00e9 o mais velho. Quando ele cansa da rua e aparece em casa, dorme no sof\u00e1.<\/p>\n<blockquote class=\"quote quote_block | font_secondary border border_1 border_solid border_gray_dark border-box pull_left\">\n<div>\u201cSe n\u00e3o fosse tu, eu j\u00e1 estava desbaratada nas ruas\u201d, afirmou, e me ligava para contar novidades ou perguntar quando eu iria v\u00ea-la<\/div>\n<\/blockquote>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Antes de irmos embora, Ana pegou o netinho no colo e percebeu que ele parecia mais com ela do que os outros. \u201cFico com a cabe\u00e7a perturbada, cuidando de um, de outro. Mas meu aperreio maior aqui \u00e9 eles [Iriana e Josimar]. Os netos est\u00e3o bem comigo\u201d, disse Ana, esquecendo Gabriel.<\/p>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\" style=\"text-align: justify;\">Saiu do Recome\u00e7o e n\u00e3o voltou<\/h3>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">O beb\u00ea foi crescendo e a condi\u00e7\u00e3o de Iriana no abrigo municipal mudava muito pouco. Ela largou o curso de cabeleireira porque Gabriel chorava muito. Passou a falar mal da Casa Recome\u00e7o. \u201cAqui est\u00e1 muito ruim, n\u00e3o tem nada para fazer, durmo cedo. A diferen\u00e7a \u00e9 que tem um teto.\u201d Sentia-se entediada. \u201cD\u00e1 uma tristeza em mim, sou s\u00f3 eu e Gabriel, n\u00e3o tenho fam\u00edlia.\u201d<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">A solid\u00e3o se manifestava novamente na rotina de Iriana. Queria a aten\u00e7\u00e3o que experienciava na rua. \u201cNo abrigo, a pessoa s\u00f3 vale o que tem. Na cidade, eu fico andando, falo com um, com outro. Meu filho teria tudo.\u201d No acolhimento havia regras, hor\u00e1rios e demandas a cumprir, ela n\u00e3o suportava isso por muito tempo. Se voltasse para a rua, tamb\u00e9m n\u00e3o precisaria mais fazer o tratamento para interromper o uso de crack, que consistia em conversas em grupo e medica\u00e7\u00e3o \u2014limitada, no caso dela, por causa da amamenta\u00e7\u00e3o. \u201cO psiquiatra disse que eu estou assim porque me sinto muito s\u00f3.\u201d<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">As hist\u00f3rias de vida semelhantes entre as mulheres na casa serviam para uni-las, mas tamb\u00e9m eram motivo de atrito. O v\u00edcio em drogas de uma atrapalhava o tratamento da outra, elas viviam entre reca\u00eddas e envolvimento com traficantes. Logo, surgiram desentendimentos at\u00e9 a briga ser feia e Iriana precisar sair \u201cfugida\u201d mais uma vez, cinco meses depois de ter dado entrada na Casa Recome\u00e7o.<\/p>\n<blockquote class=\"quote quote_block | font_secondary border border_1 border_solid border_gray_dark border-box pull_right\">\n<div>Eu me deparei com Iriana dormindo no colch\u00e3o e o filho acordado do lado. Aquele beb\u00ea deitado na cal\u00e7ada sinalizava que todas as pol\u00edticas falharam mais uma vez<\/div>\n<\/blockquote>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Foi pedir ref\u00fagio na sogra, longe dali. Ficaria l\u00e1 at\u00e9 receber o aux\u00edlio do governo de R$ 200. Alugaria um quarto com o dinheiro mais o Bolsa Fam\u00edlia de R$ 131. Iriana j\u00e1 conhecia bem o caminho oferecido pela gest\u00e3o p\u00fablica: sair do acolhimento e receber o aluguel social com um kit para \u201crecome\u00e7ar\u201d a vida (fog\u00e3o de duas bocas, panelas, pratos, colch\u00e3o e uma cesta b\u00e1sica).<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Mas os encaminhamentos que s\u00e3o dados para que Iriana e mulheres como ela saiam das ruas falham. Um dos gargalos est\u00e1 na falta de comunica\u00e7\u00e3o entre as \u00e1reas da assist\u00eancia, da sa\u00fade, da educa\u00e7\u00e3o, da moradia e do emprego, como avalia o chefe da Casa Recome\u00e7o, Hugo Melo. \u201cA pol\u00edtica [p\u00fablica] \u00e9 muito rica, mas \u00e9 cada um atuando nas suas caixinhas, a gente precisa fazer valer a palavra rede para o tratamento do usu\u00e1rio.\u201d<\/p>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\" style=\"text-align: justify;\">De volta ao colch\u00e3o na Sete de Setembro<\/h3>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Passados seis meses buscando outras sa\u00eddas, Iriana retornou para a Sete de Setembro. O quarto que planejava alugar n\u00e3o deu certo, o dinheiro do aux\u00edlio aluguel ainda n\u00e3o tinha sa\u00eddo. N\u00e3o conseguiu ficar nem um m\u00eas no sof\u00e1 da sogra. \u201cEu n\u00e3o botei para fora, acolhi ela e Josimar, mesmo n\u00e3o tendo espa\u00e7o. Tudo que podia, eu fiz\u201d, explicou a sogra Ana Maria. E Gabriel? \u201cO menino [Gabriel] chora muito, s\u00f3 fica no peito.\u201d Iriana disse que n\u00e3o gostava de ver como Vit\u00f3ria e L\u00e9o eram criados junto dos tios na casa da sogra. \u201cEstava vendo a hora de eu voar em cima de um.\u201d Preferiu ficar longe.<\/p>\n<figure class=\"article_image | margin_top\" style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"width_full\" src=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/resizer\/0UnW58QFmA0Qfiun-DEAuToVmZA=\/1500x0\/smart\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/GPWAWKGYYDI5624SOOPNESD5M4.jpg\" alt=\"Iriana leva Gabriel com pouco mais de 1 m\u00eas para ser aben\u00e7oado na igreja Nossa Senhora da Gl\u00f3ria a um quil\u00f4metro da rua que ela dormia\" \/><figcaption class=\"caption | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">Iriana leva Gabriel com pouco mais de 1 m\u00eas para ser aben\u00e7oado na igreja Nossa Senhora da Gl\u00f3ria a um quil\u00f4metro da rua que ela dormia<span class=\"color_black margin_left uppercase light\">FL\u00c1VIO TAVARES\/AG\u00caNCIA P\u00daBLICA<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Eu me deparei com Iriana dormindo no colch\u00e3o e o filho acordado do lado. Aquele beb\u00ea deitado na cal\u00e7ada sinalizava que todas as pol\u00edticas falharam mais uma vez. Era manh\u00e3 de uma quarta-feira, a cidade estava movimentada. Tentei pegar Gabriel sem que ela percebesse. \u201cTu pensa que eu durmo \u00e9?\u201d, acordou assustada antes que eu conseguisse tirar o menino do colch\u00e3o. Teve a ideia de amarrar o p\u00e9 dele no cord\u00e3o do vestido. Gabriel j\u00e1 rolava no colch\u00e3o, reagia \u00e0s brincadeiras, mantinha o brilho no olhar.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Ela aproveitou que eu tinha chegado para ficar com o filho e foi tomar banho na lanchonete vizinha. N\u00e3o confiava em deix\u00e1-lo com quase ningu\u00e9m. Depois levou Gabriel para banhar tamb\u00e9m e botou um perfume emprestado. O melhor que ela podia oferecer para o filho estava ali na rua, vendo-o sorrir com as pessoas que passam, brincam com ele e doam (quase) tudo.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Josimar aparecia de vez em quando, b\u00eabado. Os outros homens da rua ajudavam Iriana a carregar o colch\u00e3o de noite para a outra cal\u00e7ada, onde era mais alto e protegido da chuva. Estava no per\u00edodo de inverno e em Recife n\u00e3o faz tanto frio, mas chove praticamente todos os dias. Durante esse tempo que acompanhei a vida de Iriana, lidei de forma minimamente confort\u00e1vel enquanto sabia que ela estaria em um lugar protegido com Gabriel. N\u00e3o soube como me despedir deles na rua. N\u00e3o teve mais nenhuma chuva que eu n\u00e3o pensasse neles.<\/p>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\" style=\"text-align: justify;\">Uma vida sem registro no novo governo<\/h3>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Gabriel completou 8 meses apenas com a declara\u00e7\u00e3o de nascido vivo do hospital, n\u00e3o tinha certid\u00e3o de nascimento porque sua m\u00e3e tinha perdido a carteira de identidade e portanto n\u00e3o podia registrar o filho no cart\u00f3rio. Funcion\u00e1rias do abrigo municipal informaram que n\u00e3o era f\u00e1cil conseguir o documento de Iriana de gra\u00e7a e, em outra ocasi\u00e3o, disseram que n\u00e3o tinha papel para emiti-lo. Em setembro, o menino ainda n\u00e3o havia se tornado um cidad\u00e3o brasileiro, por ser filho de uma moradora de rua.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Distante dos novos planos que eram feitos em Bras\u00edlia, uma crian\u00e7a nordestina crescia desconhecida, sem futuro definido. Iriana n\u00e3o votou nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es porque n\u00e3o tinha identidade, n\u00e3o escolheu o novo presidente e o governador. Mas a vida dela e a do filho dependiam, principalmente, da pol\u00edtica de assist\u00eancia social, que se mostra cada vez mais desvalorizada no pa\u00eds, com cortes no or\u00e7amento ocorrendo desde 2014.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">No retorno dela para rua com Gabriel, algumas pessoas que me viam perto comentavam que n\u00e3o tinha \u201cjeito\u201d, que ela \u201cpreferia\u201d ficar na rua vivendo de doa\u00e7\u00f5es, sem fazer nada. \u201cO povo pensa que \u00e9 f\u00e1cil. Me d\u00e1 s\u00f3 um dia da tua vida e pega um da minha pra tu ver. A pessoa n\u00e3o sabe se vai acordar\u201d, me disse Iriana. Um dia, estava no colch\u00e3o e uma mulher passou na cal\u00e7ada dizendo: \u2018Olha a\u00ed que vida boa\u2019. \u201cEu levantei e mandei ela deitar\u201d, respondeu.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Muitas mulheres como Iriana n\u00e3o s\u00e3o vistas, n\u00e3o s\u00e3o contadas. Quantas existem em Recife, em Pernambuco, no Nordeste ou no Brasil? N\u00e3o sabemos ao certo porque n\u00e3o h\u00e1 um diagn\u00f3stico amplo, com transpar\u00eancia e regularidade. O que h\u00e1 dispon\u00edvel \u00e9 o dado de 125 mil fam\u00edlias em situa\u00e7\u00e3o de rua inscritas no Cadastro \u00danico brasileiro, at\u00e9 junho deste ano, segundo o Minist\u00e9rio da Cidadania. Estimativas n\u00e3o oficiais avaliavam em 1,8 milh\u00e3o o n\u00famero de pessoas vivendo em locais improvisados desde 2005.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Recife fez um censo em 2016 que identificou mais de mil pessoas nas ruas \u2014n\u00famero questionado pelos movimentos sociais. A pr\u00f3pria prefeitura admitiu uma subnotifica\u00e7\u00e3o. Em 2018, entre os que foram atendidos nos Centros POP, 642 eram mulheres, sendo 39 gestantes \u2014entre elas, Iriana. Eu me aproximei da hist\u00f3ria \u00fanica dela para contar, n\u00e3o em n\u00famero, mas em dimens\u00e3o, a narrativa de uma mulher que engravida na rua.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">\u201cEu queria que a hist\u00f3ria que voc\u00ea escrevesse fosse com um final feliz. Seria lindo colocar: ela conseguiu uma casa, com o esposo, para cuidar dos filhos\u201d, me falou a freira Luana, que tamb\u00e9m acompanhou Iriana por um tempo.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Lembrei o que Iriana me disse, ainda no m\u00eas de mar\u00e7o, quando acabara de dar entrada no abrigo: \u201cMeu sonho n\u00e3o acabou n\u00e3o, visse?\u201d. Qual sonho? \u201cO de ter minha casa, pra poder cuidar dos meus filhos e achar o outro [Bernardo, cujo paradeiro ela n\u00e3o sabe].\u201d No fim de julho, esse cen\u00e1rio desmoronava, mas ela sempre buscava alguma forma de resistir. Resolvi passar na rua Sete de Setembro de noite, no pior hor\u00e1rio do centro. Encontrei Iriana com cara de assustada. Peguei Gabriel, ele chorou. Voltou para o colo da m\u00e3e e para o peito. Adormeceu balan\u00e7ado por Iriana. \u201cEu vou sair dessa situa\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<\/section>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lembrei o que Iriana me disse, ainda no m\u00eas de mar\u00e7o, quando acabara de dar entrada no abrigo: \u201cMeu sonho n\u00e3o acabou n\u00e3o, visse?\u201d. Qual sonho? \u201cO de ter minha casa, pra poder cuidar dos meus filhos e achar o outro [Bernardo, cujo paradeiro ela n\u00e3o sabe].\u201d No fim de julho, esse cen\u00e1rio desmoronava, mas ela sempre buscava alguma forma de resistir. 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