{"id":295479,"date":"2019-09-16T08:43:47","date_gmt":"2019-09-16T11:43:47","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=295479"},"modified":"2019-09-16T08:43:47","modified_gmt":"2019-09-16T11:43:47","slug":"um-satrapa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/um-satrapa\/","title":{"rendered":"Um s\u00e1trapa"},"content":{"rendered":"<div class=\"articulo__apertura\">\n<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div class=\"articulo-encabezado-texto\">\n<div id=\"articulo-titulares\" class=\"articulo-titulares\">\n<h1 id=\"articulo-titulo\" class=\"articulo-titulo \"><\/h1>\n<div class=\"articulo-subtitulos\">\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\"><em>Robert Mugabe dominou o Zimb\u00e1bue durante 37 anos. Submeteu seu povo a matan\u00e7as e fomes, embora tenha sido declarado \u201cher\u00f3i nacional\u201d pelo mesmo Governo que o expulsou do poder<\/em><\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"articulo-apertura \">\n<div class=\"firma \">\n<div class=\"autor\">\n<div class=\"autor-texto\"><span class=\"autor-nombre\"><a title=\"Ver todas as not\u00edcias de Mario Vargas Llosa\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/mario_vargas_llosa\/a\/\">MARIO VARGAS LLOSA<\/a><\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"articulo-datos\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<figure class=\"foto  izquierda  foto_w360\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2019\/09\/13\/opinion\/1568394243_171311_1568477284_noticia_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2019\/09\/13\/opinion\/1568394243_171311_1568477284_noticia_normal_recorte1.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2019\/09\/13\/opinion\/1568394243_171311_1568477284_noticia_normal.jpg 360w\" alt=\"Um s\u00e1trapa\" width=\"360\" height=\"554\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">FERNANDO VICENTE<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p>Sabe voc\u00ea por que milh\u00f5es de africanos querem entrar na Europa como for, arriscando-se a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/refugiados\">morrerem afogados no Mediterr\u00e2neo<\/a>? Porque, para sua infelicidade, ainda h\u00e1 na\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/africa\">\u00c1frica<\/a>\u00a0um bom n\u00famero de tiranetes como Robert Mugabe, o s\u00e1trapa que durante 37 anos foi amo e\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/09\/06\/internacional\/1567746933_151750.html\">senhor do Zimb\u00e1bue e que acaba de morrer<\/a>\u00a0no Hospital Gleneagles, em Singapura. Tinha 95 anos de idade, era muito aficionado do cr\u00edquete, das lagostas e do champanhe franc\u00eas, costumava gastar 250.000 d\u00f3lares em cada uma de suas festas de anivers\u00e1rio, e calcula-se que deixa \u00e0 sua vi\u00fava, Grace \u2013 apelidada Gucci por sua afei\u00e7\u00e3o pelas roupas e bolsas dessa c\u00e9lebre grife, e v\u00e1rias d\u00e9cadas mais jovem que seu marido \u2013, uma heran\u00e7a de nada menos que aproximadamente um bilh\u00e3o de d\u00f3lares.<\/p>\n<div id=\"elpais_gpt-INTEXT\" data-google-query-id=\"CIeO1Y6h1eQCFdxuwQodVa8MIQ\">\n<div id=\"google_ads_iframe_7811748\/elpais_web\/brasil\/opinion\/intext_0__container__\"><iframe id=\"google_ads_iframe_7811748\/elpais_web\/brasil\/opinion\/intext_0\" title=\"3rd party ad content\" name=\"google_ads_iframe_7811748\/elpais_web\/brasil\/opinion\/intext_0\" width=\"1\" height=\"1\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\" data-google-container-id=\"8\" data-load-complete=\"true\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<\/div>\n<p>Sua mais extraordin\u00e1ria proeza n\u00e3o foram seus roubos, nem as dezenas de milhares de zimbabuanos que torturou, encarcerou e assassinou. Tampouco ter causado uma hiperinfla\u00e7\u00e3o de 79,6 bilh\u00f5es por cento ao ano \u2013 chegaram a ser impressos bilhetes de cem trilh\u00f5es \u2013, que fez a moeda nacional desaparecer. \u00c9, talvez, ter destru\u00eddo a agricultura de um pa\u00eds sobre o qual, nos tempos do colonialismo brit\u00e2nico, dizia-se que aquela terra privilegiada poderia ser o celeiro de toda a \u00c1frica, e talvez do mundo inteiro. Hoje, aquela na\u00e7\u00e3o, a mais pr\u00f3spera do continente meio s\u00e9culo atr\u00e1s, morre de fome. Um ter\u00e7o da sua popula\u00e7\u00e3o foi obrigada a fugir para o exterior devido \u00e0s persegui\u00e7\u00f5es e matan\u00e7as de Mugabe; agora, s\u00e3o a mis\u00e9ria e a falta de trabalho que a impulsionam milh\u00f5es de desventurados zimbabuanos a fugirem ao exterior para sobreviver.<\/p>\n<p>A \u00c1frica \u00e9 o ber\u00e7o daquele que foi talvez o melhor estadista que a humanidade conheceu no \u00faltimo s\u00e9culo \u2013 refiro-me ao sul-africano\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/nelson_mandela\">Nelson Mandela<\/a>, gra\u00e7as a quem seu pa\u00eds \u00e9 um dos que escapam \u00e0 crise que assola tantos outros \u2013, mas, logo depois do desaparecimento do sistema colonial, assim como na Am\u00e9rica Latina, em vez de estabelecer a democracia e desenvolver seus abundantes recursos, esse continente se encheu de ditadorezinhos ambiciosos e venais, al\u00e9m de assassinos \u2013 as exce\u00e7\u00f5es cabiam em uma m\u00e3o \u2013, que continuaram empobrecendo seus pa\u00edses a ponto de gerarem um \u00eaxodo gigantesco que, hoje, se tornou um problema para o mundo inteiro. A trag\u00e9dia que o Zimb\u00e1bue viveu com a tirania de Mugabe \u00e9 um bom exemplo do que ocorreu com muitos pa\u00edses africanos que, depois de se libertarem de um sistema colonial saqueador e racista, abismaram-se em ditaduras de ladr\u00f5es sanguin\u00e1rios.<\/p>\n<section id=\"sumario_2|html\" class=\"sumario_html derecha\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p class=\"texto_grande\">A hist\u00f3ria da \u00c1frica \u00e9 t\u00e3o triste como foi \u2013 e continua sendo em boa parte \u2013 a da Am\u00e9rica Latina<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Como outros s\u00e1trapas na hist\u00f3ria, Robert Mugabe, filho de um carpinteiro e uma catequista crist\u00e3, recebeu uma boa educa\u00e7\u00e3o. Obrigado a se exilar por sua milit\u00e2ncia anticolonial, estudou, primeiro, em universidades da \u00c1frica do Sul e logo depois em Gana, onde tamb\u00e9m lecionou. Declarava-se ent\u00e3o disc\u00edpulo do africanista Kwame Nkrumah, mas, durante os anos da a\u00e7\u00e3o anticolonialista contra o regime racista de Ian Smith (o Zimb\u00e1bue ent\u00e3o se chamava Rod\u00e9sia), encabe\u00e7ou um movimento mao\u00edsta. Passou quase dez anos na cadeia e saiu dela transformado no pol\u00edtico inescrupuloso, intrigante e ardiloso que foi marginalizando (e \u00e0s vezes liquidando) os seus antigos companheiros da luta anticolonial, como Joshua Nkomo, que terminou al\u00e7ando-se contra ele. A repress\u00e3o que Mugabe levou a cabo foi terr\u00edvel; al\u00e9m dos rebelados, estendeu-se \u00e0s comunidades dos shonas e ndebeles, as quais praticamente exterminou. Entre 20.000 e 30.000 membros dessas comunidades pereceram naquela espantosa sangria.<\/p>\n<p>Segundo os acordos de Lancaster House, que deram a independ\u00eancia ao Zimb\u00e1bue, o Governo de Mugabe se comprometeu a respeitar as terras de 5.000 agricultores zimbabuanos brancos que, embora fossem produto da rapina colonial, eram tecnicamente exemplares e asseguravam trabalho e grandes rendimentos ao pa\u00eds. Mas aqueles foram expropriados durante a pitoresca \u201creforma agr\u00e1ria\u201d que Mugabe empreendeu no ano 2000 e que consistiu em distribuir aquelas pr\u00f3speras empresas entre seus cupinchas e protegidos. Isto foi o princ\u00edpio do desmoronamento da agricultura nacional que, ap\u00f3s poucos anos, transformaria um dos pa\u00edses mais ricos da \u00c1frica em uma sociedade pobre e deprimida. O autocrata, apesar disso, n\u00e3o cessava em seus enlouquecidos disp\u00eandios, nem tampouco os dissimulava. Encarregou uma firma chinesa de construir no centro de sua propriedade de 22 hectares, em Harare, um palacete versalhesco de 25 quartos que mobiliou com todo luxo e, em um de seus discursos mais difundidos, reconheceu que admirava Hitler e que n\u00e3o se importava em ser comparado a ele. Acreditava ter a cumplicidade assegurada de seu partido deixando que seus dirigentes roubassem, mas mesmo isso tinha um limite.<\/p>\n<section id=\"sumario_3|html\" class=\"sumario_html izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p class=\"texto_grande\">Logo depois do desaparecimento do sistema colonial, esse continente se encheu de ditadorezinhos ambiciosos<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Seus problemas com os membros de seu pr\u00f3prio partido come\u00e7aram quando se empenhou em que sua jovem esposa, Grace, o substitu\u00edsse no Governo. Isto o levou a uma confronta\u00e7\u00e3o com seu bra\u00e7o direito e homem para toda obra, Emmerson Mnangagwa, o atual presidente, que conspirou com os militares, e estes obrigaram\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/11\/21\/internacional\/1511279753_690230.html\">Robert Mugabe a renunciar, embora sem lev\u00e1-lo a ju\u00edzo<\/a>\u00a0e, sobretudo, deixando intacta a sua fortuna. H\u00e1, portanto, poucas esperan\u00e7as de que com a morte do s\u00e1trapa as coisas mudem em seu desventurado pa\u00eds. Seus c\u00famplices, que t\u00eam as m\u00e3os t\u00e3o manchadas de sangue como as tinha ele, e que ao mesmo tempo em que enriqueciam arruinavam o Zimb\u00e1bue, continuam no poder, de modo que o empobrecimento do pa\u00eds prosseguir\u00e1, e continuar\u00e1 contribuindo para a migra\u00e7\u00e3o dos milh\u00f5es de africanos que devem buscar na Europa o que sua p\u00e1tria \u00e9 incapaz de lhes dar.<\/p>\n<p>Talvez o mais absurdo desta morte tenha sido que quem o tirou do poder pela for\u00e7a, nada menos que o pr\u00f3prio Emmerson Mnangagwa, fa\u00e7a o an\u00fancio de sua morte \u201ccom o maior dos pesares\u201d. \u201cEra um \u00edcone da liberta\u00e7\u00e3o\u201d, proclamou, \u201cum pan-africanista que dedicou sua vida \u00e0 emancipa\u00e7\u00e3o e empoderamento de seu povo. Sua contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria da nossa na\u00e7\u00e3o e do continente nunca ser\u00e1 esquecida\u201d. E pouco depois anunciou que seu Governo decidiu nomear Robert Mugabe \u201cher\u00f3i nacional\u201d.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria da \u00c1frica \u00e9 t\u00e3o triste como foi \u2013 e continua sendo em boa parte \u2013 a da Am\u00e9rica Latina. Nunca aprendemos que a democracia n\u00e3o consiste apenas em que haja independ\u00eancia de poderes e diversidade pol\u00edtica, e sim em ter pol\u00edticos honrados, que respeitem as leis e que n\u00e3o se aproveitem do poder para enriquecer e liquidar o advers\u00e1rio. Os Mandelas que chegamos a ter \u2013 houve v\u00e1rios, embora nenhum tivesse a repercuss\u00e3o mundial do sul-africano \u2013 foram aves de passagem e n\u00e3o chegaram a fazer escola. O pior n\u00e3o \u00e9 que existam esses lixos humanos como um Robert Mugabe, mas sim que haja povos que votem neles e os elejam e reelejam e, como fez Mnangagwa com aquele, os transformem em \u201cher\u00f3is nacionais\u201d. Com pouqu\u00edssimas exce\u00e7\u00f5es, nem africanos nem latino-americanos temos rem\u00e9dio, pelo visto.<\/p>\n<p class=\"nota_pie\">Direitos mundiais de imprensa em todas as l\u00ednguas reservados a Edi\u00e7\u00f5es EL PA\u00cdS, SL, 2019. \u00a9 Mario Vargas Llosa, 2019.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Robert Mugabe dominou o Zimb\u00e1bue durante 37 anos. Submeteu seu povo a matan\u00e7as e fomes, embora tenha sido declarado \u201cher\u00f3i nacional\u201d pelo mesmo Governo que o expulsou do poder<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":295480,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-295479","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/torrorista-africano.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/295479","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=295479"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/295479\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/295480"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=295479"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=295479"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=295479"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}