{"id":296046,"date":"2019-09-22T15:01:51","date_gmt":"2019-09-22T18:01:51","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=296046"},"modified":"2019-09-22T15:01:51","modified_gmt":"2019-09-22T18:01:51","slug":"aquecimento-global-trara-mais-migracoes-doencas-e-fenomenos-extremos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/aquecimento-global-trara-mais-migracoes-doencas-e-fenomenos-extremos\/","title":{"rendered":"Aquecimento global trar\u00e1 mais migra\u00e7\u00f5es, doen\u00e7as e fen\u00f4menos extremos"},"content":{"rendered":"<header class=\"col desktop_12 tablet_8 mobile_4\">\n<div id=\"article_header\" class=\"article-header especial | flex container_column align_items_center text_align_center padding_h_xxl\">\n<h1 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark \" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<h2 class=\"font_primary color_gray_dark \" style=\"text-align: justify;\"><em>Secas, inunda\u00e7\u00f5es, colheitas destru\u00eddas e epidemias s\u00e3o alguns dos problemas que se somam \u00e0 desigualdade, agravando a trag\u00e9dia para a popula\u00e7\u00e3o mais vulner\u00e1vel, especialmente crian\u00e7as e mulheres<\/em><\/h2>\n<\/div>\n<section class=\"share-bar | \">\n<div class=\"content |  flex\n              justify_center relative\"><\/p>\n<div class=\"\n      social-icons\n      flex container_row\n      horizontal\n\n    \"><\/div>\n<div class=\"\n      social-icons\n      flex container_row\n      horizontal\n\n      right-links\n    \"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<figure class=\"lead_art | especial row breakout\" style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"width_full\" src=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/resizer\/6RYPUAUu9xL2GPaRqFH_YJzxbgQ=\/1500x0\/smart\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/EWLKSJVAJQK2YSOJJN32RYUCQE.jpg\" alt=\"Dois pescadores trabalham em uma ilhota do lago Chad. Em meio s\u00e9culo, as secas reduziram em mais de 90% esta grande massa de \u00e1gua.\" \/><figcaption class=\"color_gray_medium border_bottom border_1 border_gray padding_vertical text_align_right col desktop_8 tablet_8 mobile_4 margin_center\">Dois pescadores trabalham em uma ilhota do lago Chad. Em meio s\u00e9culo, as secas reduziram em mais de 90% esta grande massa de \u00e1gua.<span class=\"color_black margin_left uppercase light\">C. CHAUVET<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"article_byline | margin_bottom_lg  especial text_align_center\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"authors flex flex_wrap justify_center\"><span class=\"margin_bottom uppercase flex align_items_center \"><a class=\"color_black\" title=\"Ver todas as not\u00edcias de Alejandra Agudo Lazareno\" href=\"https:\/\/cat.elpais.com\/autor\/alejandra_agudo\/a\/\">ALEJANDRA AGUDO LAZARENO<\/a><\/span><\/p>\n<div class=\"\n      social-icons\n      flex container_row\n      horizontal\n      small\n      margin_left\n    \"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"\"><\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"col desktop_12 tablet_8 mobile_4 row\">\n<section class=\"article_body | color_gray_dark initial_letter especial col desktop_8 tablet_8 mobile_4 margin_center\">\n<p class=\"\">Nsiru Saidu s\u00f3 voou uma vez na sua vida, de onde vive\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/refugiados\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">refugiado<\/a>\u00a0no Chad at\u00e9 a capital desse pa\u00eds, Ndjamena. \u201cNunca fui \u00e0 Am\u00e9rica nem a outro pa\u00eds.\u201d N\u00e3o tem carro, e sua humilde vida gera praticamente zero\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/emision_gases\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">emiss\u00e3o de carbono<\/a>. Mesmo assim ele sofre os estragos da crise clim\u00e1tica com toda dureza. Instalado com sua mulher e 10 dos 11 filhos no campo de Dar es Salam, junto ao lago Chad, este agricultor e pescador de 41 anos procedente da Nig\u00e9ria, de onde fugiu em 2016 da viol\u00eancia do grupo terrorista\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/boko_haram\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Boko Haram<\/a>, diz que seu principal problema agora \u00e9 outro: \u201cJ\u00e1 n\u00e3o t\u00ednhamos seguran\u00e7a alimentar, e a mudan\u00e7a clim\u00e1tica a piorou\u201d.<\/p>\n<p class=\"\">Do seu ref\u00fagio no Chad, Saidu fala devagar no outro lado do telefone para transmitir sua mensagem: \u201cSei que algum dia minha casa esteve a alguns metros do lago, mas agora est\u00e1 a quase 30 quil\u00f4metros. Tenho certeza de que isto aconteceu por causa da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/cambio_climatico\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">mudan\u00e7a clim\u00e1tica<\/a>. Agora as pessoas se instalam nas ilhas que surgiram por causa do desaparecimento da \u00e1gua. Antes essas ilhas n\u00e3o existiam.\u201d Esse \u00e9 o relato do paulatino desaparecimento do lago Chad, que em 1963 se estendia por 26.000 quil\u00f4metros quadrados (quase o tamanho de Alagoas) e hoje n\u00e3o chega a 1.500, dividido em duas partes estanques. Uma redu\u00e7\u00e3o de mais de 90%. Na pr\u00e1tica, para este pescador significa \u201cmenos peixes, e min\u00fasculos\u201d. Antes, segundo contaram a Saidu, havia muitos que pesavam v\u00e1rios quilos.<\/p>\n<p class=\"\">Na d\u00e9cada de sessenta existiam 135 esp\u00e9cies no lago, e 200.000 toneladas de peixe eram capturadas por ano. A \u00e1rea ao redor era prop\u00edcia para o pastoreio e a agricultura. Entretanto, as frequentes secas provocaram, al\u00e9m do desaparecimento da l\u00e2mina de \u00e1gua e da sua biodiversidade, a perda de \u00e1rea de pastoreio para o gado e a degrada\u00e7\u00e3o das terras para o cultivo. \u201cAgora faz muito calor. Antes havia mais \u00e1rvores, mas desapareceram. Cada vez mais isto se parece com um deserto\u201d, resume Saidu.<\/p>\n<p class=\"\">Essa tormenta humanit\u00e1ria perfeita coloca 3,6 milh\u00f5es de moradores ribeirinhos do lago Chad em situa\u00e7\u00e3o de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/seguridad_alimentaria\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">inseguran\u00e7a alimentar<\/a>, o que significa que se levantam diariamente sem saber se comer\u00e3o antes de voltarem a se deitar. \u00c9 o caso de Saidu, que recebe comida do Programa Mundial de Alimentos da ONU. \u201cMas n\u00e3o \u00e9 suficiente para uma fam\u00edlia, por isso temos que continuar pescando. N\u00e3o temos outra op\u00e7\u00e3o\u201d, diz.<\/p>\n<p class=\"\">\u201cQuem mais sofre com a mudan\u00e7a clim\u00e1tica \u00e9 quem menos a provocou\u201d, salienta Norman Mart\u00edn Casas, assessor de programas nacionais da Oxfam Interm\u00f3n. Para esta organiza\u00e7\u00e3o, trata-se de uma\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/desigualdad_social\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">crise de desigualdade<\/a>. \u201cNos pa\u00edses onde trabalhamos, as pessoas j\u00e1 s\u00e3o vulner\u00e1veis e sofrem com maior virul\u00eancia os impactos do clima. E enfrentam isso com escassez de recursos para se adaptar\u201d. A magnitude do problema \u00e9 tal que levou a ONU a uma mudan\u00e7a de estrat\u00e9gia: j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 hora de contar ao mundo o quanto se progrediu nas \u00faltimas de d\u00e9cadas, e sim de alertar sobre os perigos que se abatem sobre a humanidade e o meio ambiente se o\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/calentamiento_global\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">aquecimento global<\/a>\u00a0n\u00e3o for freado. Haver\u00e1 mais migra\u00e7\u00f5es, as mulheres e crian\u00e7as estar\u00e3o sob maior risco de adoecer e morrer, diversas esp\u00e9cies sucumbir\u00e3o aos fen\u00f4menos extremos, os lagos secar\u00e3o, as<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/09\/06\/politica\/1567800993_086681.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">\u00a0florestas queimar\u00e3o<\/a>\u2026 mais do que agora.<\/p>\n<figure class=\"article_image | margin_top\"><img decoding=\"async\" class=\"width_full breakout\" style=\"width: 100vw; box-sizing: border-box; margin-left: calc((97.5rem - 100%) \/ -2); max-width: 97.5rem;\" src=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/resizer\/jCs7cMKMWNIKNoX1o5IpruHzEag=\/1500x0\/smart\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/73P2CEJVPX3JJXYT6ZMSFCNKIU.jpg\" alt=\"&lt;b&gt;Sahel.&lt;\/b&gt; Uma paisagem des\u00e9rtica nesta regi\u00e3o que une a \u00c1frica do Norte com a zona subsaariana.\" \/><figcaption class=\"caption | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\"><b>Sahel.<\/b>\u00a0Uma paisagem des\u00e9rtica nesta regi\u00e3o que une a \u00c1frica do Norte com a zona subsaariana.<span class=\"color_black margin_left uppercase light\">J. B. RUSSELL (PANOS)<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\">Em Mo\u00e7ambique, a popula\u00e7\u00e3o conhece bem as consequ\u00eancias da fatal soma de ser pobre e estar no centro da tempestade. Literalmente. Esta ex-col\u00f4nia portuguesa no sudeste da \u00c1frica \u00e9 um dos pa\u00edses menos desenvolvidos do mundo, ocupando a 180\u00ba posi\u00e7\u00e3o entre as 189 na\u00e7\u00f5es inclu\u00eddas no\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/idh_indice_desarrollo_humano\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">\u00cdndice de Desenvolvimento Humano<\/a>\u00a0(IDH). Em mar\u00e7o de 2019, os mo\u00e7ambicanos sofreram a passagem do catastr\u00f3fico ciclone Idai, ao qual se seguiu, duas semanas depois, o Kenneth. Mais de 1.000 pessoas morreram nesses epis\u00f3dios, considerados entre os piores j\u00e1 ocorridos no Hemisf\u00e9rio Sul. Dois milh\u00f5es de outras pessoas foram v\u00edtimas sobreviventes. Reparar os danos causados pelas chuvas torrenciais custar\u00e1 mais de dois bilh\u00f5es de d\u00f3lares (8,3 bilh\u00f5es de reais) a esta paup\u00e9rrima regi\u00e3o \u2014Mal\u00e1ui e Zimb\u00e1bue tamb\u00e9m foram afetados\u2014, segundo c\u00e1lculos do Banco Mundial.<\/p>\n<p class=\"\">Meia d\u00e9cada antes, no mesmo Mo\u00e7ambique, a mudan\u00e7a clim\u00e1tica se manifestava com outra cara: a seca. O fen\u00f4meno El Ni\u00f1o, especialmente cruel em suas \u00faltimas apari\u00e7\u00f5es, deixou 1,5 milh\u00e3o de pessoas com necessidades de assist\u00eancia humanit\u00e1ria no pa\u00eds em 2015 e 2016. Em Massaca, uma aldeia no sul, vivia na \u00e9poca Maria Jose Goven, uma senhora na faixa dos 50 anos. Quando a conhecemos, tinha oito netos sob seus cuidados, pois alguns de seus filhos haviam migrado, e uma filha havia morrido de AIDS. As crian\u00e7as se reviravam adormecidas ao seu redor, quase sem energia para se manterem em p\u00e9. \u201cN\u00e3o temos o que comer. N\u00e3o chove e n\u00e3o tenho colheita. N\u00e3o sei o que fazer, n\u00e3o temos aonde ir e n\u00e3o vejo sa\u00edda\u201d, lamentava-se a av\u00f3.<\/p>\n<p class=\"\">As\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/07\/13\/actualidad\/1562972599_738643.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">mulheres e as crian\u00e7as<\/a>\u00a0s\u00e3o especialmente vulner\u00e1veis ao a\u00e7oite das adversidades clim\u00e1ticas. \u201cEm grande parte do mundo, a popula\u00e7\u00e3o feminina \u00e9 sistematicamente discriminada e n\u00e3o tem igual acesso que os homens a recursos como terra, \u00e1gua, sementes, fertilizantes ou cr\u00e9ditos para a produ\u00e7\u00e3o\u201d, diz Mart\u00edn Casas. \u201cS\u00e3o as primeiras que veem seu consumo alimentar reduzido quando ocorrem eventos extremos.\u201d Quanto \u00e0s crian\u00e7as, o Unicef (ag\u00eancia da ONU para a inf\u00e2ncia) estima que na pr\u00f3xima d\u00e9cada a mudan\u00e7a clim\u00e1tica afete 175 milh\u00f5es delas por ano. \u201cEst\u00e3o f\u00edsica, fisiol\u00f3gica e epidemiologicamente mais expostas ao impacto\u201d, observa Nicholas Rees, especialista do Unicef nesse assunto. S\u00e3o menos capazes de suportar secas, inunda\u00e7\u00f5es e condi\u00e7\u00f5es extremas. Al\u00e9m disso, seus corpos e sistemas imunol\u00f3gicos est\u00e3o em processo de crescimento e desenvolvimento. Uma alimenta\u00e7\u00e3o deficiente por falta de colheitas ou ter que deixar a escola porque uma tormenta a destruiu s\u00e3o fatores que, durante esta etapa crucial da vida, \u201cpodem afetar sua sa\u00fade e bem-estar a longo prazo\u201d.<\/p>\n<p class=\"\">Este mal est\u00e1 difundido na Guatemala, onde 46,5% dos menores de cinco anos sofrem de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/desnutricion\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">desnutri\u00e7\u00e3o<\/a>. \u201cAssim, metade da inf\u00e2ncia est\u00e1 condenada a n\u00e3o alcan\u00e7ar todo seu potencial\u201d, denuncia a ONG Oxfam Interm\u00f3n. Esse pa\u00eds, no chamado Corredor Seco centro-americano, \u00e9 v\u00edtima de uma crise alimentar exacerbada pela mudan\u00e7a clim\u00e1tica. A prolonga\u00e7\u00e3o da temporada seca em 2018 danificou 70% da primeira safra (geralmente colhida em agosto), enquanto as chuvas torrenciais danificaram 50% da segunda (em mar\u00e7o), segundo a FAO e o PMA. Ao todo, 2,2 milh\u00f5es de pessoas sofreram preju\u00edzos.<\/p>\n<figure class=\"article_image | margin_top\"><img decoding=\"async\" class=\"width_full breakout\" style=\"width: 100vw; box-sizing: border-box; margin-left: calc((97.5rem - 100%) \/ -2); max-width: 97.5rem;\" src=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/resizer\/jfrRDysNrCuKU_KlCQHkMiMuVBs=\/1500x0\/smart\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/BSKQKN6KFQMW3P3HFNMDYVQVFY.jpg\" alt=\"&lt;b&gt;Guatemala.&lt;\/b&gt; Um menino sobre um bote no terreno seco que outrora foi o leito do lago Atescatempa.\" \/><figcaption class=\"caption | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\"><b>Guatemala.<\/b>\u00a0Um menino sobre um bote no terreno seco que outrora foi o leito do lago Atescatempa.<span class=\"color_black margin_left uppercase light\">MARVIN RECINOS (AFP)<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\">Na regi\u00e3o de Puno, no altiplano peruano, a 4.200 metros de altura, os habitantes de Ajoyani detectaram que seu problema com a mudan\u00e7a clim\u00e1tica \u00e9 muito diferente. E desconhecido. O frio cada ano mais extremo mata suas alpacas e congela o pasto. Este camel\u00eddeo apreciado por sua l\u00e3 come\u00e7ou a n\u00e3o ser capaz de suportar as temperaturas de at\u00e9 -20 graus. Para as fam\u00edlias desta localidade, onde 48% vivem em situa\u00e7\u00e3o de pobreza, a perda de v\u00e1rios animais significa menos renda e pior alimenta\u00e7\u00e3o. Aqui, 25,6% dos menores de cinco anos sofrem de desnutri\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica, muito acima da taxa do pa\u00eds (14,4%). E a anemia entre beb\u00eas de 6 a 36 meses sobe a 76%, 20 pontos a mais que a m\u00e9dia nacional.<\/p>\n<p class=\"\">As crian\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o apenas mais vulner\u00e1veis \u00e0 falta de comida, mas tamb\u00e9m a \u201cdoen\u00e7as mortais como a mal\u00e1ria e a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/dengue\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">dengue<\/a>, ou infec\u00e7\u00f5es que causam diarreias\u201d, cuja incid\u00eancia aumenta quando ocorrem desastres naturais, explica o especialista do Unicef. \u201cN\u00e3o vamos alcan\u00e7ar nosso objetivo de acabar com as mortes infantis em n\u00edvel mundial a menos que abordemos tanto as causas como os impactos da mudan\u00e7a clim\u00e1tica\u201d, conclui Rees.<\/p>\n<p class=\"\">A ONU j\u00e1 advertiu em seu \u00faltimo relat\u00f3rio de progresso dos Objetivos de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel \u2014a agenda internacional para obter um mundo mais justo, pac\u00edfico e um planeta ainda habit\u00e1vel at\u00e9 2030\u2014 que n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel reduzir a mortalidade infantil nem atingir nenhum outro dos 17 objetivos devido \u00e0 crise clim\u00e1tica e \u00e0 desigualdade. A\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/pobreza\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">pobreza extrema<\/a>\u00a0n\u00e3o ser\u00e1 erradicada. Ao ritmo atual de queda, at\u00e9 essa data 6% da popula\u00e7\u00e3o do planeta ainda viver\u00e1 com menos de 1,90 d\u00f3lar por dia. Tampouco a fome acabar\u00e1. De fato, milh\u00f5es de pessoas mais sofrem inseguran\u00e7a alimentar hoje do que em 2015.<\/p>\n<p class=\"\">Os progn\u00f3sticos do Banco Mundial n\u00e3o s\u00e3o mais animadores: 100 milh\u00f5es de pessoas poderiam cair em situa\u00e7\u00e3o de pobreza at\u00e9 2030 s\u00f3 por causa dos impactos clim\u00e1ticos. E at\u00e9 2050, em tr\u00eas regi\u00f5es\u2014\u00c1frica Subsaariana, Sul da \u00c1sia e Am\u00e9rica Latina\u2014 que representam 55% da popula\u00e7\u00e3o do mundo em desenvolvimento a mudan\u00e7a clim\u00e1tica poderia obrigar mais de 143 milh\u00f5es de pessoas a se deslocarem dentro de seus pa\u00edses.<\/p>\n<p class=\"\">S\u00f3 em 2017 houve 18,8 milh\u00f5es de novos deslocamentos internos devido a desastres naturais, segundo o Centro para o Monitoramento do Deslocamento Interno (IDMC, na sigla em ingl\u00eas). S\u00e3o sete milh\u00f5es a mais do que os deslocados por conflitos armados no mesmo ano, embora nem todos tenham uma rela\u00e7\u00e3o direta com a mudan\u00e7a clim\u00e1tica. \u201c\u00c9 imposs\u00edvel estabelecer uma correla\u00e7\u00e3o entre os efeitos da mudan\u00e7a clim\u00e1tica e o deslocamento for\u00e7ado. H\u00e1 m\u00faltiplos fatores que levam uma pessoa \u00e0 decis\u00e3o de abandonar seu lar\u201d, ressalva Sylvain Ponserre, do IDMC. \u201cPouqu\u00edssimos migrantes citam a mudan\u00e7a clim\u00e1tica como causa de seu deslocamento\u201d, observa Sergio de Otto, respons\u00e1vel pela campanha sobre o tema na ONG Ecodes. Por isso, diz, \u00e9 praticamente imposs\u00edvel p\u00f4r cifras a este drama. Salvo uma exce\u00e7\u00e3o, ligada a um efeito do aquecimento global que inequivocamente causa deslocamentos. Trata-se da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/08\/05\/ciencia\/1565002218_315086.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar<\/a>, que obriga comunidades litor\u00e2neas a abandonarem seus lares. \u00c9 o que ocorre em Kiribati, um Estado composto por 33 ilhas no meio do Pac\u00edfico.<\/p>\n<p class=\"\">J\u00e1 em 1989, um relat\u00f3rio da ONU advertia que\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/09\/14\/internacional\/1536940957_042749.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Kiribati se tornaria o primeiro pa\u00eds a desaparecer<\/a>\u00a0engolido pelas \u00e1guas. Foi 18 anos mais tarde quando Anote Tong, seu presidente entre 2003 e 2016, decidiu levar esse problema \u201cmuito a s\u00e9rio\u201d. O alerta tinha estado l\u00e1 durante d\u00e9cadas, admitiu ele em uma palestra Ted no final de 2015, mas s\u00f3 em 2007 o IPCC (painel de especialistas que assessora a ONU nesta quest\u00e3o) publicou seu quarto relat\u00f3rio, em que conclu\u00eda \u201ccategoricamente\u201d que a mudan\u00e7a clim\u00e1tica era real e provocada pelo ser humano. \u201cE previa cen\u00e1rios muito graves para pa\u00edses como o meu.\u201d As partes mais altas das ilhas Kiribati ficam apenas dois metros acima do n\u00edvel do mar, e as mais baixas a apenas alguns cent\u00edmetros, por isso qualquer eleva\u00e7\u00e3o das \u00e1guas significa a perda de uma grande quantidade de terra. \u201cTemos comunidades deslocadas. J\u00e1 tiveram que emigrar\u201d, contava Tong. Durante seu mandato, ele elaborou um plano de transfer\u00eancia ordenada da popula\u00e7\u00e3o das suas ilhas para Fiji.<\/p>\n<figure class=\"article_image | margin_top\"><img decoding=\"async\" class=\"width_full breakout\" style=\"width: 100vw; box-sizing: border-box; margin-left: calc((97.5rem - 100%) \/ -2); max-width: 97.5rem;\" src=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/resizer\/dpSV8HsXtiBXo7n3dwf4kZwLG_k=\/1500x0\/smart\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/XGZ7IKCXJCXGFM7GMVPJNTUMDM.jpg\" alt=\"&lt;b&gt;Kiribati.&lt;\/b&gt;Vista a\u00e9rea do arquip\u00e9lago do Pac\u00edfico em risco de desaparecimento pela ascens\u00e3o do n\u00edvel do mar.\" \/><figcaption class=\"caption | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\"><b>Kiribati.<\/b>Vista a\u00e9rea do arquip\u00e9lago do Pac\u00edfico em risco de desaparecimento pela ascens\u00e3o do n\u00edvel do mar.<span class=\"color_black margin_left uppercase light\">J. GRATZER (GETTY)<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\">A dificuldade de estabelecer outras correla\u00e7\u00f5es entre deslocamentos e mudan\u00e7a clim\u00e1tica n\u00e3o quer dizer que elas n\u00e3o existam. \u00c9 extensa a literatura mostrando como a vida de milh\u00f5es de pessoas piora. A experi\u00eancia dos profissionais humanit\u00e1rios e volunt\u00e1rios corrobora isso. \u201cO Unicef h\u00e1 70 anos trabalha sobre o terreno, e estamos vendo o impacto. Os fen\u00f4menos adversos s\u00e3o cada vez mais frequentes e severos\u201d, diz Rees.<\/p>\n<p class=\"\">Em Bangladesh, todos os anos h\u00e1 inunda\u00e7\u00f5es. \u201cMas neste ano a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 pior\u201d, contou Monoara Khatun, uma jovem de 23 anos, aos pesquisadores do Banco Mundial. Por isso, sua fam\u00edlia decidiu se mudar do seu povoado para a capital, Dacca. Mas a decis\u00e3o de partir do campo para a cidade nem sempre \u00e9 a mais segura. Tampouco as grandes urbes est\u00e3o preparadas para a mudan\u00e7a clim\u00e1tica, e tampouco para acolher todos os que fogem dela e acabam em moradias prec\u00e1rias de bairros informais, alerta Ponserre, do IDMC.<\/p>\n<figure class=\"article_image | margin_top\"><img decoding=\"async\" class=\"width_full breakout\" style=\"width: 100vw; box-sizing: border-box; margin-left: calc((97.5rem - 100%) \/ -2); max-width: 97.5rem;\" src=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/resizer\/Y2IoVtxzqUY0IJL1hJ18xoFdvW8=\/1500x0\/smart\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/RZ7YSIX2U7GRRTUZ4U273OFT2Q.jpg\" alt=\"&lt;b&gt;Bangladesh.&lt;\/b&gt;Moradores de um povoado aguardam socorro depois das inunda\u00e7\u00f5es causadas pelas chuvas.\" \/><figcaption class=\"caption | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\"><b>Bangladesh.<\/b>Moradores de um povoado aguardam socorro depois das inunda\u00e7\u00f5es causadas pelas chuvas.<span class=\"color_black margin_left uppercase light\">R. ASSAD (GETTY)<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\">A maioria de migra\u00e7\u00f5es nas quais o clima \u00e9 parte da equa\u00e7\u00e3o ocorre no chamado sul global. \u201cEnquanto isso, o norte \u00e9 o causador de 80% das emiss\u00f5es de gases do efeito estufa\u201d, den\u00fancia De Otto. E s\u00e3o as na\u00e7\u00f5es em vias de desenvolvimento que pagar\u00e3o pelo progresso das ricas, pois assumir\u00e3o entre 75% e 80% do custo da mudan\u00e7a clim\u00e1tica, calcula o Banco Mundial. \u201c\u00c9 importante a prepara\u00e7\u00e3o para estes fen\u00f4menos, por isso s\u00e3o necess\u00e1rios mais recursos para os pa\u00edses pobres que n\u00e3o os t\u00eam\u201d, alerta Rosa Otero, porta-voz do Alto Comissariado das Na\u00e7\u00f5es Unidas para os Refugiados (ACNUR) na Espanha.<\/p>\n<p class=\"\">\u201cA mudan\u00e7a clim\u00e1tica j\u00e1 est\u00e1 aqui, e o IPCC diz que ela avan\u00e7a mais rapidamente do que acredit\u00e1vamos. \u00c9 preciso incitar os pol\u00edticos a lev\u00e1-la a s\u00e9rio. Tamb\u00e9m em nossos pa\u00edses h\u00e1 mais inc\u00eandios, ondas de calor e furac\u00f5es que antes n\u00e3o havia\u201d, adverte De Otto. E como disse Achim Steiner, do Programa das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Desenvolvimento: \u201cMesmo com todo o dinheiro do mundo, os ricos n\u00e3o v\u00e3o poder comprar um futuro diferente\u201d.<\/p>\n<p class=\"\">Enquanto isso, h\u00e1 quem possa fugir do desastre. Como a capital da Indon\u00e9sia, que ser\u00e1 transferida de Jacarta \u2014que est\u00e1 afundando e sufocando na polui\u00e7\u00e3o\u2014 para a ilha de Born\u00e9u. A nova cidade a ser constru\u00edda alojar\u00e1 a 1,5 milh\u00e3o de habitantes. Pouco se sabe sobre o que acontecer\u00e1 com os outros 8,5 milh\u00f5es de moradores da atual capital. Nem todos ter\u00e3o a oportunidade de escapar. Como n\u00e3o a t\u00eam os moradores do lago Chad, os agricultores mo\u00e7ambicanos nem as crian\u00e7as guatemaltecas cujo futuro ficou truncado pela fome. Com a mudan\u00e7a clim\u00e1tica, perdem os de sempre.<\/p>\n<\/section>\n<div class=\"related_stories | row border_1 border_top border_black col desktop_8 tablet_8 mobile_4 margin_center\">\n<div class=\"row \">\n<div class=\"vertical_card card_container | background_black col desktop_6 tablet_4\">\n<div class=\"image_container\">\n<figure class=\"height_full_mobile\" style=\"text-align: justify;\"><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Secas, inunda\u00e7\u00f5es, colheitas destru\u00eddas e epidemias s\u00e3o alguns dos problemas que se somam \u00e0 desigualdade, agravando a trag\u00e9dia para a popula\u00e7\u00e3o mais vulner\u00e1vel, especialmente crian\u00e7as e mulheres<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":296047,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1175,6],"tags":[],"class_list":["post-296046","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-educacao","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/seca-na-africa.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/296046","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=296046"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/296046\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/296047"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=296046"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=296046"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=296046"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}