{"id":296048,"date":"2019-09-22T15:05:56","date_gmt":"2019-09-22T18:05:56","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=296048"},"modified":"2019-09-22T15:05:56","modified_gmt":"2019-09-22T18:05:56","slug":"o-povoado-italiano-que-tratava-hitler-como-um-heroi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/o-povoado-italiano-que-tratava-hitler-como-um-heroi\/","title":{"rendered":"O povoado italiano que tratava Hitler como um her\u00f3i"},"content":{"rendered":"<header class=\"col desktop_12 tablet_8 mobile_4\">\n<div id=\"article_header\" class=\"article-header basic | \">\n<h1 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark \" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<h2 class=\"font_secondary color_gray_dark \" style=\"text-align: justify;\">Marco Balzano reconstr\u00f3i em \u2018Resto Qui\u2019 a hist\u00f3ria n\u00e3o contada de Curon, uma localidade do Alto Adigio submetida pelo fascismo de Mussolini e \u201cresgatada\u201d pelos nazistas<\/h2>\n<\/div>\n<section class=\"share-bar | border_bottom border_5\">\n<div class=\"content | border_bottom border_1 padding_bottom flex\n              justify_space_between relative\"><\/p>\n<div class=\"\n      social-icons\n      flex container_row\n      horizontal\n\n    \"><\/div>\n<div class=\"\n      social-icons\n      flex container_row\n      horizontal\n\n      right-links\n    \"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<figure class=\"lead_art |  \" style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"width_full\" src=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/resizer\/c3qo2hSl5o10mhcgpMCOmdssMVQ=\/1500x0\/smart\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/MTCYGTPHYKFZP5GSOKSH37SYO4.jpg\" alt=\"Obra do artista Maurizio Cattelan baseada na imagem de Adolf Hitler.\" \/><figcaption class=\"color_gray_medium border_bottom border_1 border_gray padding_vertical text_align_right\">Obra do artista Maurizio Cattelan baseada na imagem de Adolf Hitler.<span class=\"color_black margin_left uppercase light\">LEON NEAL (GETTY IMAGES)<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"article_byline | margin_bottom_lg  \" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"authors flex flex_wrap \"><span class=\"margin_bottom uppercase flex align_items_center margin_right\"><a class=\"color_black\" title=\"Ver todas as not\u00edcias de Laura Fern\u00e1ndez\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/laura_fernandez_dominguez\/a\/\">LAURA FERN\u00c1NDEZ<\/a><\/span><\/div>\n<div class=\"\">\n<div class=\"place_and_time | uppercase color_gray_medium_lighter\"><span class=\"capitalize color_black\">Barcelona<\/span>\u00a0&#8211;\u00a020 SEP 2019 &#8211; 14:18\u00a0<abbr title=\"Bras\u00edlia time\">BRT<\/abbr><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"article | col desktop_8 tablet_8 mobile_4\">\n<section class=\"article_body | color_gray_dark\">\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">O \u00fanico que resta de Curon, um povoado de Val Venosta, no Tirol do Sul \u2014regi\u00e3o da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/italia\" data-link-track-dtm=\"\">It\u00e1lia<\/a>\u00a0onde se fala majoritariamente alem\u00e3o\u2014, \u00e9 parte de seu campan\u00e1rio. Na verdade, essa parte do campan\u00e1rio \u00e9 a \u00fanica coisa que se pode ver, porque o povoado continua l\u00e1, sob a enorme represa constru\u00edda em 1950 contra a vontade de seus moradores. Curon \u00e9 hoje uma cidade submersa, sobre a qual veleiros navegam e turistas se divertem no ver\u00e3o. Em 1921 se tornou, entretanto, a primeira localidade a ser subjugada por\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/benito_mussolini\" data-link-track-dtm=\"\">Benito Mussolini<\/a>. \u201cN\u00e3o \u00e9 verdade que o fascismo tenha come\u00e7ado com a Marcha sobre Roma. Come\u00e7ou antes, e foi em Curon, quando o ditador impediu seus habitantes de falarem sua l\u00edngua, trabalharem e at\u00e9 de se vestirem como gostavam\u201d. Quem fala \u00e9 Marco Balzano, o escritor italiano que um dia se disp\u00f4s contar, no romance\u00a0<em>Resto Qui<\/em>\u00a0(\u201cFico aqui\u201d, finalista do pr\u00eamio Strega), a hist\u00f3ria do povoado para o qual\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/adolf_hitler\" data-link-track-dtm=\"\">Hitler<\/a> era um santo.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Topou com ela por acaso, fazendo turismo com sua fam\u00edlia no que hoje se conhece como lago de Resia. Viu o campan\u00e1rio quase submerso, e como, segundo ele, todo romance come\u00e7a sendo \u201cuma imagem\u201d, entregou-se \u00e0 curiosidade por buscar informa\u00e7\u00e3o a respeito de t\u00e3o misterioso lugar. \u201cPercebi ent\u00e3o que essa hist\u00f3ria, como outras muitas hist\u00f3rias de fronteira na It\u00e1lia, n\u00e3o tinha sido contada, e me senti tentado a fazer isso\u201d. Cont\u00e1-la n\u00e3o lhe permitiria apenas p\u00f4r em d\u00favida o in\u00edcio do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/fascismo\" data-link-track-dtm=\"\">fascismo<\/a>\u00a0(e sua esquecida crueldade nessa \u00e9poca), mas tamb\u00e9m tratar de entender de que maneira o horror do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/nazismo\" data-link-track-dtm=\"\">nazismo<\/a>\u00a0n\u00e3o o foi para alguns \u2014\u201ct\u00e3o pouco cultos que a \u00fanica coisa que viam \u00e9 que tinham trabalho e podiam voltar a falar alem\u00e3o\u201d, afirma o escritor\u2014 e mostrar que, \u201cem nome do progresso\u201d, tudo se permite.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">\u201cEssa gente odiava profundamente Mussolini porque vinham empobrecendo sob seu jugo desde 1921, e o que ela viu, quando os nazistas tomaram a It\u00e1lia, em setembro de 1943, foi que as obras da represa pararam, que Hitler lhes dava trabalho \u2014construindo as estradas que levavam aos\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/campos_concentracion_nazis\" data-link-track-dtm=\"\">campos de concentra\u00e7\u00e3o<\/a>, algo que n\u00e3o sabiam exatamente em que consistia\u2014, e que podiam voltar a falar sua l\u00edngua. Para eles, o nazismo era bom, estava resgatando-os de uma situa\u00e7\u00e3o insustent\u00e1vel\u201d, analisa o escritor, que entrevistou cinco ex-moradores do povoado e mostra no celular a foto de uma idosa sobre uma mesa dentro da sua casa, j\u00e1 afundada na \u00e1gua, negando-se a ir embora. Era 1950. Assim que os nazistas abandonaram o povoado, as obras da represa foram retomadas e destru\u00edram tudo.<\/p>\n<figure class=\"article_image | margin_top\" style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"width_full\" src=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/resizer\/nv27g8qyn0bHfK9mNr5hFuKWy4I=\/1500x0\/smart\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/HXAKWHOKVBVZW4SHCXT4OAH3EI.jpg\" alt=\"O escritor Marco Balzano, em Barcelona.\" \/><figcaption class=\"caption | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">O escritor Marco Balzano, em Barcelona.<span class=\"color_black margin_left uppercase light\">CARLES RIBAS<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">O nome da idosa era Trina, diz. Tinha 86 anos. N\u00e3o havia conhecido outra vida, nem queria conhecer. A mente de escritor de Balzano se p\u00f4s a funcionar ao contemplar a foto. A protagonista de seu romance se chamaria como ela. Seria uma professora clandestina. Algu\u00e9m que resistia \u201ccom a palavra\u201d. \u201cAs mulheres foram as primeiras a enfrentarem o fascismo, e isso \u00e9 algo que tampouco se conta e que precisa ser reivindicado\u201d, acrescenta. Como fizeram? \u201cArriscando-se a acabar na pris\u00e3o ou algo pior por ensinar a sua pr\u00f3pria l\u00edngua \u00e0s crian\u00e7as\u201d, responde. \u201cA palavra \u00e9 a forma de resist\u00eancia maior\u201d, acrescenta, mostrando como o ferreiro obrigado pelos nazistas a forjar em ferro a frase na porta que dava acesso ao campo de exterm\u00ednio de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/auschwitz\" data-link-track-dtm=\"\">Auschwitz<\/a>\u00a0(\u201cArbeit macht frei\u201d, o trabalho liberta) colocou a letra b ao contr\u00e1rio, como uma pequena rebeli\u00e3o.<\/p>\n<blockquote class=\"quote quote_block | font_secondary border border_1 border_solid border_gray_dark border-box pull_left\">\n<div>Hitler parou as obras da represa que acabaria inundando o povoado em 1950, deu trabalho a seus habitantes e lhes permitiu voltar a falar sua l\u00edngua<\/div>\n<\/blockquote>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">O romance tem a forma de uma longa carta que Trina escreve \u00e0 sua filha. N\u00e3o sabe se a filha voltar\u00e1, ou se desapareceu para sempre, mas se poderia dizer que \u00e9 sua \u00fanica ancoragem no mundo. Que lhe contar o que vive dia a dia torna sua vida mais suport\u00e1vel. \u00c9 um dia a dia que n\u00e3o tem nada a ver com o nosso. \u201cIsso \u00e9 algo que como escritor tamb\u00e9m me interessa. A velocidade com que tudo muda, e mudou no s\u00e9culo XX. O s\u00e9culo XX \u00e9 o primeiro s\u00e9culo em que todas as gera\u00e7\u00f5es foram diferentes\u201d, diz. Mas no qual, ao mesmo tempo, \u201ca pol\u00edtica mais envelheceu\u201d. \u201cHoje em dia a pol\u00edtica n\u00e3o tem vis\u00e3o. S\u00f3 procura um inimigo, \u00e0 moda antiga. O\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/09\/17\/internacional\/1505669165_912633.html\" data-link-track-dtm=\"\">fascismo continua claramente pairando sobre a It\u00e1lia<\/a>. Basta escutar Matteo Salvini. Porque nunca a abandonou. Os dirigentes se reciclaram, nunca foram julgados. Um pa\u00eds tem que prestar contas com seu passado para que deixe de sujar o presente\u201d, diz.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">O que ocorreu com a represa de Curon? O que foi daquelas pessoas? \u201cAcabaram em casas pr\u00e9-fabricadas. As mesmas nas quais acabaram os nazistas e fascistas que se fizeram passar por democratas quando a guerra acabou\u201d, diz. Valeu a pena, pelo menos, que o povoado se perdesse? Forneceu energia \u00e0 regi\u00e3o? \u201cDurante dez anos a represa de Curon foi a maior da Europa, e era justamente isso que se propunham. Mas depois perceberam que sa\u00eda mais barato comprar energia nuclear que extra\u00ed-la da represa, e a abandonaram. Hoje \u00e9 um lugar tur\u00edstico. Poder\u00edamos dizer que\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/04\/09\/cultura\/1554818717_044339.html\" data-link-track-dtm=\"\">as pessoas fazem turismo na trag\u00e9dia, como o que se faz em Chernobyl<\/a>, mas que nem sabem\u201d, responde. J\u00e1 se disse em mais de uma ocasi\u00e3o, acrescenta, que, se fosse constru\u00eddo um museu europeu do fascismo, \u201calgo que deveria ser feito\u201d, ele teria que ser edificado nesse lugar, porque \u201cfoi l\u00e1 que tudo come\u00e7ou\u201d.<\/p>\n<\/section>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O nome da idosa era Trina, diz. Tinha 86 anos. N\u00e3o havia conhecido outra vida, nem queria conhecer. A mente de escritor de Balzano se p\u00f4s a funcionar ao contemplar a foto. 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