{"id":296532,"date":"2019-09-27T15:02:14","date_gmt":"2019-09-27T18:02:14","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=296532"},"modified":"2019-09-27T15:02:14","modified_gmt":"2019-09-27T18:02:14","slug":"silvero-pereira-ha-uma-revolucao-lgbt-no-sertao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/silvero-pereira-ha-uma-revolucao-lgbt-no-sertao\/","title":{"rendered":"Silvero Pereira: \u201cH\u00e1 uma revolu\u00e7\u00e3o LGBT+ no sert\u00e3o\u201d"},"content":{"rendered":"<div class=\"articulo__apertura\">\n<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div class=\"articulo-encabezado-texto\">\n<div id=\"articulo-titulares\" class=\"articulo-titulares\">\n<h1 id=\"articulo-titulo\" class=\"articulo-titulo \" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"articulo-subtitulos\" style=\"text-align: justify;\">\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\"><em>Ator, que interpretou Lunga, o cangaceiro queer de &#8216;Bacurau&#8217;, roda o Brasil com espet\u00e1culos em que \u00e9 drag queen e oficinas de teatro para o p\u00fablico LGBT+<\/em><\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<aside id=\"compartir_superior\" class=\"compartir\">\n<div class=\"compartir__interior\">\n<div class=\"compartir-varios\"><\/div>\n<\/div>\n<\/aside>\n<\/header>\n<div class=\"articulo-apertura \" style=\"text-align: justify;\">\n<figure class=\"foto superior foto_w980\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2019\/09\/23\/cultura\/1569265659_610072_1569532747_noticia_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2019\/09\/23\/cultura\/1569265659_610072_1569532747_noticia_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2019\/09\/23\/cultura\/1569265659_610072_1569532747_noticia_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2019\/09\/23\/cultura\/1569265659_610072_1569532747_noticia_normal.jpg 980w\" alt=\"Ator cearense Silvero Pereira.\" width=\"980\" height=\"654\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Ator cearense Silvero Pereira.<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">CAU\u00ca GOMES<\/span>\u00a0<span class=\"foto-agencia\">EL PA\u00cdS<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"firma \">\n<div class=\"autor\">\n<div class=\"autor-texto\"><span class=\"autor-nombre\"><a title=\"Ver todas as not\u00edcias de Beatriz Juc\u00e1\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/beatriz_juca_pinheiro\/a\/\">BEATRIZ JUC\u00c1<\/a><\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"articulo-datos\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Enquanto caminha pela\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/avenida_paulista\">Avenida Paulista<\/a>\u00a0numa tarde de s\u00e1bado, o ator cearense Silvero Pereira se surpreende ao ser reconhecido. &#8220;Melhor ator de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.google.com\/url?sa=t&amp;rct=j&amp;q=&amp;esrc=s&amp;source=web&amp;cd=2&amp;cad=rja&amp;uact=8&amp;ved=2ahUKEwihmunF9-zkAhXoI7kGHXGeAvEQFjABegQIBRAB&amp;url=https%3A%2F%2Fbrasil.elpais.com%2Fbrasil%2F2019%2F08%2F20%2Fcultura%2F1566328403_365611.html&amp;usg=AOvVaw1umvjyF82Vm6HJZCphOzv4\">Bacurau<\/a>&#8220;, grita algu\u00e9m que cruza em um carro. Passaram-se alguns segundos at\u00e9 que ele entendesse. &#8220;Isso \u00e9 comigo mesmo?&#8221;, se questionava, cruzando as m\u00e3os com unhas longas e arredondadas junto ao peito e arqueando as sobrancelhas finas. Ainda que tenha come\u00e7ado a ser abordado nas ruas desde que interpretou\u00a0h\u00e1 dois anos uma\u00a0<em>drag queen<\/em>\u00a0na novela A For\u00e7a do Querer, da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/globo_tv_brasil\">Rede Globo<\/a>, foi o personagem Lunga, o cangaceiro\u00a0<em>queer<\/em>\u00a0de Bacurau, que o aproximou mais do p\u00fablico. &#8220;Tenho um choque quando escuto que estou famoso, n\u00e3o me vejo neste lugar.&#8221;<\/p>\n<div id=\"elpais_gpt-INTEXT\" style=\"text-align: justify;\" data-google-query-id=\"CPOi9LPK8eQCFZZuwQodJWMNrA\">\n<div id=\"google_ads_iframe_7811748\/elpais_web\/brasil\/cultura\/intext_0__container__\"><iframe id=\"google_ads_iframe_7811748\/elpais_web\/brasil\/cultura\/intext_0\" title=\"3rd party ad content\" name=\"google_ads_iframe_7811748\/elpais_web\/brasil\/cultura\/intext_0\" width=\"1\" height=\"1\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\" data-google-container-id=\"8\" data-load-complete=\"true\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<\/div>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Silvero Pereira viveu a inf\u00e2ncia e parte da adolesc\u00eancia praticamente sem contato com a arte em Momba\u00e7a, uma cidade de 44.000 habitantes em pleno sert\u00e3o central do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/ceara\">Cear\u00e1<\/a>. Viu uma pe\u00e7a de teatro pela primeira vez aos 17 anos, quando j\u00e1 morava em Fortaleza e estudava em uma escola t\u00e9cnica federal. Vinte anos depois,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/05\/25\/cultura\/1558804611_452276.html\">desfilava pelo tapete vermelho do Festival de Cannes<\/a>, onde Bacurau ganhou o pr\u00eamio do j\u00fari, vestido de Gisele Almod\u00f3var, que diz ser seu\u00a0<em>alter ego<\/em>. &#8220;Foi um ato pol\u00edtico&#8221;, explica. Neste m\u00eas de setembro, Silvero entrou pela primeira vez na C\u00e2mara Municipal de Fortaleza \u2014onde atualmente n\u00e3o h\u00e1 nenhum vereador que se identifique publicamente como\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/lgtb\">LGBT+<\/a>\u2014 para receber o t\u00edtulo de cidad\u00e3o fortalezense. N\u00e3o escreveu discurso. &#8220;Sou de escola p\u00fablica, sou pobre. Sou a caricatura do nordestino que passou fome e sede. Sou bicha,\u00a0<em>drag queen<\/em>\u00a0e artista. E eu acho que sou Brasil justamente por ser tudo isso&#8221;, se apresentou. Silvero refere-se a si mesmo ou a seus personagens ora no masculino, ora no feminino. Gosta de romper imagens encaixotadas, inclusive a sua pr\u00f3pria. Momentos antes de ser entrevistado para o casting de Bacurau, cortou os longos cabelos que o caracterizavam h\u00e1 anos. Apresentou-se de cara limpa aos diretores\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/kleber_de_mendonca_vasconcellos_filho\">Kl\u00e9ber Mendon\u00e7a Filho<\/a>\u00a0e Juliano Dornelles. &#8220;Foi uma maneira de dizer: vamos enxergar o Silvero de um lugar diferente&#8221;, explica.<\/p>\n<div class=\"teads-adCall\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Pergunta.<\/strong>\u00a0Lunga conseguiu te colocar neste lugar diferente que voc\u00ea desejava?<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Resposta.<\/strong>\u00a0Sim. Originalmente, no roteiro, Lunga seria uma mulher trans, mas a gente decidiu n\u00e3o fazer isso por respeitar a import\u00e2ncia da representatividade. Eu falei [aos diretores]: se voc\u00eas quiserem que seja de acordo com o roteiro original, v\u00e3o ter que procurar uma atriz trans. Mas se me querem no filme, podemos buscar outras maneiras de realizar. E a\u00ed Lunga veio\u00a0<em>queer<\/em>. N\u00e3o abrimos m\u00e3o desta identidade nas unhas, no olho, nas tatuagens, no que eu sinto por dentro. Mas isso n\u00e3o est\u00e1 no primeiro plano porque a\u00a0<a href=\"https:\/\/www.google.com\/url?sa=t&amp;rct=j&amp;q=&amp;esrc=s&amp;source=web&amp;cd=3&amp;cad=rja&amp;uact=8&amp;ved=2ahUKEwinrPDJ--zkAhXoILkGHVa4D4gQFjACegQIAxAB&amp;url=https%3A%2F%2Fbrasil.elpais.com%2Ftag%2Forientacion_sexual&amp;usg=AOvVaw38hyxifzF43NOu8AkWGcnR\">sexualidade de Lunga<\/a>\u00a0n\u00e3o \u00e9 o principal argumento para a exist\u00eancia dessa personagem. O que mais interessa \u00e9 algo que est\u00e1 no filme inteiro. \u00c9 que a comunidade n\u00e3o se importa se uma mulher trans vive com dois homens, se a m\u00e9dica vive com outra mulher, que por sua vez se relaciona com um mich\u00ea. A comunidade n\u00e3o se incomoda com absolutamente nada, ent\u00e3o porque os espectadores iriam se incomodar com a sexualidade de Lunga?<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0Bacurau te levou pro\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/festival_cannes\">Festival de Cannes<\/a>\u00a0e voc\u00ea decidiu aparecer montada outra vez. Por qu\u00ea?<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0Se eu tivesse atravessado aquele\u00a0<em>red carpet<\/em>\u00a0de pinguim, seria s\u00f3 um ator qualquer. Eu j\u00e1 n\u00e3o sou conhecido l\u00e1 fora, ent\u00e3o n\u00e3o faria a menor diferen\u00e7a. Decidi fazer com que olhassem pra mim. E fui daquele jeito, inspirada em Gisele Almod\u00f3var, que est\u00e1 na minha vida e \u00e9 um\u00a0<em>alter ego<\/em>\u00a0do Silvero, com vestido e joias de estilistas e designers cearenses. Isso faria com que as pessoas olhassem pra mim no meio daquele turbilh\u00e3o que \u00e9 o Festival de Cannes, com tanta gente incr\u00edvel \u2014como Leonardo DiCaprio, Pen\u00e9lope Cruz e\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/05\/17\/cultura\/1558098841_465275.html\">Pedro Almod\u00f3var<\/a>\u2014 atravessando o tapete vermelho. Eu estive ali, de Gisele, com um vestido que foi eleito um dos melhores e uma foto no perfil oficial do festival no Instagram. Foi um ato pol\u00edtico.<\/p>\n<section id=\"sumario_2|html\" class=\"sumario_html centro\"><a name=\"sumario_2\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\"><iframe id=\"instagram-embed-0\" class=\"instagram-media instagram-media-rendered\" src=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/BxfzBNYiuR2\/embed\/?cr=1&amp;v=12&amp;wp=540&amp;rd=https%3A%2F%2Fbrasil.elpais.com&amp;rp=%2Fbrasil%2F2019%2F09%2F23%2Fcultura%2F1569265659_610072.html#%7B%22ci%22%3A0%2C%22os%22%3A4094.0000000118744%7D\" height=\"744\" frameborder=\"0\" scrolling=\"no\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-instgrm-payload-id=\"instagram-media-payload-0\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0Os teus espet\u00e1culos trazem muito a tem\u00e1tica LGBT+. Quando voc\u00ea come\u00e7ou a se reconhecer dentro deste universo?<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0No in\u00edcio dos anos 90, falar sobre ser gay, ainda mais no interior do Cear\u00e1, era muito cruel. Voc\u00ea tinha que n\u00e3o falar sobre isso, que era considerado uma doen\u00e7a na minha cabe\u00e7a, porque era o que as pessoas diziam. E eu sempre tive muito medo de pegar essa doen\u00e7a, mas desde pequeno eu sabia que era diferente, que eu n\u00e3o me encaixava no que as pessoas queriam que eu fosse. (&#8230;) Eu fui morar em Fortaleza com tudo ainda muito enrustido, temeroso dessas coisas todas, mas foi no teatro que eu fui descobrindo que isso era poss\u00edvel. O teatro era este lugar mais permissivo, onde as pessoas podiam ser quem elas quisessem.<\/p>\n<section id=\"sumario_3|html\" class=\"sumario_html centro\"><a name=\"sumario_3\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p class=\"texto_grande\">&#8220;Ser gay era uma doen\u00e7a na minha cabe\u00e7a, porque era o que as pessoas diziam. E eu sempre tive muito medo de pegar essa doen\u00e7a, mas desde pequeno eu sabia que era diferente&#8221;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0E quando decidiu levar essa tem\u00e1tica para o centro da sua produ\u00e7\u00e3o nos palcos?<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0J\u00e1 fazendo teatro dentro de grupos profissionais, eu tinha muitas colegas que eram transformistas nas boates de Fortaleza, e elas\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/transfobia\">sofriam muito preconceito<\/a>\u00a0porque [a cena do] teatro dizia que elas n\u00e3o eram artistas. Como se transformismo fosse uma arte menor [mesmo nesse ambiente mais permissivo]. Isso me incomodava profundamente. Nessa \u00e9poca, eu tive contato com um conto do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/09\/10\/politica\/1536537646_398336.html\">Caio Fernando Abreu<\/a>\u00a0que se chama A Dama da Noite [nele, a personagem principal se sente \u00e0 margem do mundo que a rodeia], e ele me inspirou a come\u00e7ar uma pesquisa. Passei dois anos, entre 2000 e 2002, indo para as boates, conversando com travestis e transformistas. E a\u00ed decidi montar uma pe\u00e7a e levar para dentro do teatro essa discuss\u00e3o e talvez tentar quebrar esse preconceito de que o que tem dentro da boate n\u00e3o \u00e9 arte, porque eu ficava extremamente emocionado com o que eu via ali. Montei a primeira pe\u00e7a, que se chama Uma Flor de Dama, em 2005.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0Da\u00ed veio o coletivo art\u00edstico\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/astravestidas\/?hl=pt\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">As Travestidas<\/a>?<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0A minha ideia era fazer esse trabalho e seguir minha carreira, mas ele come\u00e7ou a ficar significativo no Cear\u00e1 e ser visto como uma bandeira. Fui inserido muito naturalmente no movimento e vendo a import\u00e2ncia da arte e do movimento social estarem juntos. As pessoas que est\u00e3o comigo hoje n&#8217;As Travestidas foram se aproximando aos poucos. A gente criou o coletivo em 2008 [O grupo tem nove integrantes e pelo menos sete espet\u00e1culos no repert\u00f3rio]. Hoje, tudo o que eu via de preconceito no Cear\u00e1 naquela \u00e9poca est\u00e1 muito diferente. Temos travestis, transexuais e\u00a0<em>drag queens<\/em>\u00a0fazendo faculdade de artes c\u00eanicas e cursos t\u00e9cnicos. Estamos dizendo &#8216;foda-se o que voc\u00ea pensa, eu vou continuar fazendo teatro, boate e a minha arte em todo e qualquer lugar&#8217;. Hoje \u00e9 poss\u00edvel falar isso em Fortaleza. Foi dentro desse coletivo que muitas se reconheceram como travestis, transexuais, e hoje\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/03\/01\/politica\/1519943603_800505.html\">t\u00eam suas carteiras de identidade com o nome social<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0Voc\u00ea tamb\u00e9m passou por esse processo? Como voc\u00ea se identifica hoje?<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0Eu n\u00e3o me identifico em nenhum lugar, na verdade. N&#8217;As Travestidas, durante algum tempo, eu pensei: &#8216;ser\u00e1 que sou travesti? Ser\u00e1 que sou\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/transexualidad\/a\">transexual<\/a>? Ser\u00e1 que sou\u00a0<em>drag queen<\/em>?&#8217; E ali fui descobrindo que n\u00e3o sou nenhuma dessas coisas. Eu gosto de estar vestido de mulher, de homem. Gosto da minha imagem Cis, travesti e\u00a0<em>drag queen<\/em>. Eu n\u00e3o gosto dos encaixotados, mas eu sei da import\u00e2ncia das letrinhas [<em>do LGBTQ+<\/em>] porque a nossa sociedade precisa que as coisas sejam muito claras para reconhec\u00ea-las, ent\u00e3o a gente vai continuar nomeando para que as pessoas compreendam.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0Nas \u00faltimas semanas, voc\u00ea fez um giro sozinho por v\u00e1rias cidades do interior do Cear\u00e1 com espet\u00e1culos. Por que voc\u00ea decidiu fazer isso neste momento em que est\u00e1 sob os holofotes por Bacurau?<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0Eu sou uma pessoa que veio do interior, de uma fam\u00edlia pobre e que conseguiu chegar neste lugar de visibilidade. \u00c9 muito delicado para as pessoas que moram no interior do Cear\u00e1 terem acesso a figuras assim. Ent\u00e3o eu decidi levar arte pra onde eu conseguisse levar. Esse trabalho n\u00e3o tem patroc\u00ednio p\u00fablico, n\u00e3o tem financiamento nenhum, \u00e9 totalmente independente. Eu peguei o meu carro, coloquei o cen\u00e1rio dentro e passei a conversar com amigos de v\u00e1rias cidades pra mobilizar isso atrav\u00e9s da venda de ingressos muito populares. O objetivo nunca foi ganhar dinheiro, mas n\u00e3o \u00e9 porque estou indo para o interior que o espet\u00e1culo tem que ser gratuito, at\u00e9 porque o artista \u00e9 muito colocado neste lugar de vagabundo, de que\u00a0<em>mama nas tetas do Governo<\/em>, ent\u00e3o a gente tem que provar que \u00e9 um trabalhador.<\/p>\n<section id=\"sumario_6|html\" class=\"sumario_html izquierda\"><a name=\"sumario_6\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p class=\"texto_grande\">&#8220;Temos travestis, transexuais e\u00a0<em>drag queens<\/em>\u00a0fazendo faculdade de artes c\u00eanicas e cursos t\u00e9cnicos. Estamos dizendo &#8216;foda-se o que voc\u00ea pensa, eu vou continuar fazendo teatro, boate e a minha arte em todo e qualquer lugar'&#8221;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0Voc\u00ea fala de um ambiente muito conservador no interior do Cear\u00e1 durante a sua inf\u00e2ncia. Os pequenos grupos de teatro que existem nestas cidades s\u00e3o hoje espa\u00e7os de acolhimento para a comunidade LGBT+, neste sentido?<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0Foi muito aberto o lugar dos LGBT+ no interior, e considero isso um resultado das\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/redes_sociales\">redes sociais<\/a>\u00a0porque ali h\u00e1 exemplos sem filtro. Durante a minha inf\u00e2ncia e a minha adolesc\u00eancia, o que chegava at\u00e9 mim era o que aparecia na televis\u00e3o, que \u00e9 um lugar de filtro. A gente tem v\u00e1rios casos de artistas homossexuais que nunca se assumiram e pintam de h\u00e9tero na TV. As redes sociais permitiram que pessoas sem esses filtros falassem, e essas identidades foram provocando identifica\u00e7\u00f5es. As pessoas olham e dizem: \u201cEu sou assim, sou gorda mesmo, sou negra, sou gay\u201d. Ent\u00e3o isso tem feito uma revolu\u00e7\u00e3o LGBT+ no sert\u00e3o, um tsunami onde as pessoas est\u00e3o se mostrando quem elas s\u00e3o, sem medo, porque sabem que existem outras pessoas dizendo: \u201cVamos, gente. Voc\u00eas n\u00e3o est\u00e3o sozinhos\u201d.<\/p>\n<section id=\"sumario_5|foto\" class=\"sumario_foto centro\"><a name=\"sumario_5\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w980\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2019\/09\/23\/cultura\/1569265659_610072_1569450847_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2019\/09\/23\/cultura\/1569265659_610072_1569450847_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2019\/09\/23\/cultura\/1569265659_610072_1569450847_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2019\/09\/23\/cultura\/1569265659_610072_1569450847_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"Silvero Pereira, durante passeio na Avenida Paulista.\" width=\"980\" height=\"654\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Silvero Pereira, durante passeio na Avenida Paulista.<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">CAU\u00ca GOMES<\/span>\u00a0<span class=\"foto-agencia\">EL PA\u00cdS<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0Chegou um ponto que a pr\u00f3pria televis\u00e3o n\u00e3o tinha mais como ignorar essa diversidade. Voc\u00ea foi para a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/globo_tv_brasil\">TV Globo<\/a>\u00a0fazer novela. O que estar nesse espa\u00e7o trouxe para voc\u00ea?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0As pessoas passaram a entender quem \u00e9 o Silvero, quem \u00e9 esse artista. A televis\u00e3o abriu o meu discurso, me fez chegar em pessoas que eu n\u00e3o chegaria s\u00f3 com o teatro. \u00c9 um espa\u00e7o em que eu consigo fazer arte e social mesmo sabendo que estou em um territ\u00f3rio de entretenimento, ind\u00fastria e com\u00e9rcio. Consegui dizer o que penso na novela, no Crian\u00e7a Esperan\u00e7a e em todos os programas que participei.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0O atual Governo tem um discurso contr\u00e1rio ao p\u00fablico LGBT+. Essa postura \u00e9 algo que te inquieta, que interfere na tua produ\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0A arte \u00e9 um espa\u00e7o extremamente importante e talvez a arma mais poderosa que a gente tem pra combater toda e qualquer forma de repress\u00e3o,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/dictadura_brasilena\">ditadura<\/a>\u00a0ou retrocesso. O atual Governo tem feito ataques muito absurdos com rela\u00e7\u00e3o aos direitos adquiridos at\u00e9 agora, que foram batalhas muito grandes. Corpos foram empilhados pra que a gente tenha hoje os direitos que temos, e acho que a gente tem que respeitar essas mortes, essas pessoas que deram a vida pra que a gente esteja aqui hoje. N\u00f3s, como artistas, pagamos um pre\u00e7o muito pequeno comparado \u00e0s gera\u00e7\u00f5es passadas. Eu sei que sempre que abro a boca pra falar alguma coisa, eu posso virar alvo de uma viol\u00eancia desse Governo. Mas se eu n\u00e3o fizer isso, gera\u00e7\u00f5es futuras n\u00e3o pagar\u00e3o pre\u00e7os menores que o meu.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0As pessoas est\u00e3o olhando para voc\u00ea, como voc\u00ea queria. Mas como Silvero se v\u00ea depois de vivenciar tudo isso?<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0Eu me vejo sempre como uma figura muito s\u00f3, muito solit\u00e1ria. Sou de religi\u00e3o de matriz africana e, quando digo isso, digo tamb\u00e9m que n\u00e3o sou de religi\u00e3o nenhuma. Frequento a umbanda, o candombl\u00e9, a igreja cat\u00f3lica, o espiritismo. Recentemente, estive no If\u00e1, que \u00e9 uma das matrizes que falam deste lugar de n\u00e3o intermedi\u00e1rio. Voc\u00ea conversa diretamente com o universo e a natureza, sem precisar de orix\u00e1s intermedi\u00e1rios. E a \u00faltima defini\u00e7\u00e3o que tenho sobre a minha personalidade \u00e9 que sou uma personalidade escrava. Neste momento, eu me sinto muito servidor da minha comunidade, do meu pa\u00eds, e muito solit\u00e1rio.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ainda que tenha come\u00e7ado a ser abordado nas ruas desde que interpretou\u00a0h\u00e1 dois anos uma\u00a0drag queen\u00a0na novela A For\u00e7a do Querer, da\u00a0Rede Globo, foi o personagem Lunga, o cangaceiro\u00a0queer\u00a0de Bacurau, que o apr<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":296533,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[6,11],"tags":[],"class_list":["post-296532","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-municipios","category-regional"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/viadagem-sertaneja.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/296532","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=296532"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/296532\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/296533"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=296532"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=296532"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=296532"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}