{"id":296771,"date":"2019-09-30T11:30:20","date_gmt":"2019-09-30T14:30:20","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=296771"},"modified":"2019-09-30T11:30:20","modified_gmt":"2019-09-30T14:30:20","slug":"o-que-fabricas-de-municoes-da-1a-guerra-tem-a-nos-ensinar-sobre-jornadas-estressantes-de-trabalho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/o-que-fabricas-de-municoes-da-1a-guerra-tem-a-nos-ensinar-sobre-jornadas-estressantes-de-trabalho\/","title":{"rendered":"O que f\u00e1bricas de muni\u00e7\u00f5es da 1\u00aa Guerra t\u00eam a nos ensinar sobre jornadas estressantes de trabalho"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\"><\/h1>\n<div class=\"byline\"><span class=\"byline__name\">Jill Duffy<\/span><span class=\"byline__title\">BBC Worklife<\/span><\/div>\n<div class=\"with-extracted-share-icons\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share-row\">\n<div class=\"mini-info-list-wrap\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"share-tools--no-event-tag\">\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-twite\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/6D22\/production\/_108983972_muni.jpg\" alt=\"Duas mulheres trabalhando em f\u00e1brica de muni\u00e7\u00e3o\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span>&#8216;Municionetes&#8217; \u00e0s vezes ficavam mais de 50 horas trabalhando por semana, quando n\u00e3o 72 horas<\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">No mundo das startups e dos CEOs, paix\u00e3o, foco e ambi\u00e7\u00e3o costumam ser apresentados como ingredientes para a produtividade. Neste discurso, o c\u00e9u \u2013 e n\u00e3o o rel\u00f3gio \u2013 \u00e9 o limite para o esfor\u00e7o materializado em horas de\u00a0<a class=\"story-body__link\" href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/topics\/61da8e70-0be5-4cc0-96be-099bc396c960\">trabalho<\/a>.<\/p>\n<p>Pesquisas sobre tempo no trabalho, no entanto, sugerem que o excesso leva as pessoas a serem menos produtivas, n\u00e3o mais. Muitas horas de labuta tamb\u00e9m est\u00e3o associadas ao aumento de doen\u00e7as cardiovasculares, diabetes e outros efeitos negativos \u00e0\u00a0<a class=\"story-body__link\" href=\"https:\/\/www.bbc.co.uk\/portuguese\/topics\/c4794229-7f87-43ce-ac0a-6cfcd6d3cef2\">sa\u00fade<\/a>\u00a0\u2013 que por sua vez podem afetar&#8230; a produtividade no trabalho.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, quantas horas s\u00e3o demais? A partir de qual ponto a produtividade cai? A \u00fanica maneira de saber isso \u00e9 medir a produ\u00e7\u00e3o de trabalhadores de verdade. E s\u00e3o dados antigos, da Primeira Guerra Mundial, que est\u00e3o ajudando a responder algumas dessas perguntas, como em uma publica\u00e7\u00e3o de 2015 com base nessas informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Durante a guerra, a Gr\u00e3-Bretanha precisava fabricar rapidamente armas e muni\u00e7\u00f5es. Como tantos homens estavam no\u00a0<i>front<\/i>, as mulheres, que normalmente naquela \u00e9poca n\u00e3o trabalhavam em f\u00e1bricas, foram chamadas para fazer o servi\u00e7o como\u00a0<i>municionetes<\/i>. O trabalho delas inclu\u00eda tarefas como perfurar pe\u00e7as e manusear peda\u00e7os de metal para fazer armas. Suas jornadas \u00e0s vezes chegavam a 50 horas de trabalho por semana e, em alguns casos, at\u00e9 72 horas.<\/p>\n<p>Em 1915, o governo criou o Comit\u00ea de Sa\u00fade dos Trabalhadores da Muni\u00e7\u00e3o (HMWC) para monitorar as condi\u00e7\u00f5es de trabalho e aconselhar sobre quest\u00f5es como expediente. O comit\u00ea conseguiu coletar um rico conjunto de dados que podem nos dizer muito sobre o que acontece quando as pessoas trabalham demais.<\/p>\n<p>As informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o especialmente \u00fateis devido \u00e0 natureza do trabalho e das trabalhadoras: havia apenas um turno e cada trabalhador fazia as mesmas tarefas \u2013 f\u00e1ceis de contar. Como as informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o inequ\u00edvocas e mensur\u00e1veis, s\u00e3o \u00f3timos dados para os pesquisadores.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise de 2015 desses dados mostrou que, \u00e0 medida que o n\u00famero de horas trabalhadas aumentava, a produ\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m, mas apenas at\u00e9 certo ponto. A produ\u00e7\u00e3o por hora atingiu um pico no ponto de cerca de 40 horas de trabalho por semana e depois caiu.<\/p>\n<p>O autor do estudo, John H. Pencavel, professor do departamento de economia da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, sugere que h\u00e1 um ponto-chave no n\u00famero de horas que as pessoas trabalham por semana.<\/p>\n<p>&#8220;Ap\u00f3s este ponto (que provavelmente varia de acordo com o tipo de trabalho), uma hora a mais gera mais resultado (ou melhor desempenho) se o trabalhador j\u00e1 trabalhou 30 horas do que se j\u00e1 trabalhou 40 horas em uma semana &#8220;, explica \u00e0 reportagem, por e-mail.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/B5D4\/production\/_108984564_muni2.jpg\" alt=\"Mulher com m\u00e1scara em f\u00e1brica\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Trabalhadores manuais conseguem rastrear suas horas e tarefas mais facilmente<\/figure>\n<p>Em seu livro\u00a0<i>Diminishing Returns at Work: The Consequences of Long Working Hours\u00a0<\/i>(&#8220;Diminuindo o retorno no trabalho: as consequ\u00eancias das longas horas de trabalho&#8221;, em tradu\u00e7\u00e3o livre), Pencavel mostra, tamb\u00e9m com dados do setor de muni\u00e7\u00f5es, que as semanas em que a produ\u00e7\u00e3o era mais alta n\u00e3o coincidiam com semanas em que as jornadas eram mais longas.<\/p>\n<p>Isso significa que, a partir de um determinado momento, trabalhar mais horas n\u00e3o ajuda \u2013 e, ainda, aumenta os custos operacionais.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">A import\u00e2ncia do tempo de folga<\/h2>\n<p>N\u00e3o se trata apenas da quantidade de horas trabalhando: os dias de folga tamb\u00e9m s\u00e3o importantes quando se trata de produtividade.<\/p>\n<p>As municionetes, por exemplo, costumavam trabalhar muitos dias seguidos sem descanso. O trabalho no s\u00e1bado ainda era comum na \u00e9poca e os domingos voltaram a ser dias de trabalho por causa da guerra.<\/p>\n<p>Ocasionalmente, no entanto, elas precisavam tirar um domingo de folga. O HMWC coletou dados que cobrem essas duas condi\u00e7\u00f5es \u2013 dia de expediente e de folga \u2013 e percebeu que uma semana inteira de trabalho sem um dia de descanso n\u00e3o beneficia ningu\u00e9m. A produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o aumenta e os trabalhadores ficam descontentes.<\/p>\n<p>Mas algumas condi\u00e7\u00f5es no setor de muni\u00e7\u00f5es s\u00e3o particulares. As municionetes faziam trabalho manual e repetitivo em condi\u00e7\u00f5es perigosas. As mulheres superavam os poucos homens e jovens empregados nas f\u00e1bricas em uma propor\u00e7\u00e3o de quatro para um.<\/p>\n<p>Dado que elas aceitaram a ocupa\u00e7\u00e3o como uma forma de servir a seu pa\u00eds e eram pagas por tarefa, e n\u00e3o por hora, \u00e9 justo presumir que suas motiva\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m eram semelhantes.<\/p>\n<p>Cem anos depois, os resultados do excesso deste trabalho manual n\u00e3o parecem ser t\u00e3o diferentes para trabalhos mais intelectuais. Trabalhar por muitas horas \u00e9 algo que sai pela culatra tanto para os empregadores quanto para os funcion\u00e1rios \u2013 isso em m\u00e9tricas variadas, dos resultados e qualidade da produ\u00e7\u00e3o \u00e0 criatividade e habilidade interpessoal dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o quer dizer que uma maratona para concluir um projeto ou cumprir um prazo n\u00e3o valha a pena. E alguns podem argumentar que, apesar de trabalharem por horas a fio, alguns CEOs e executivos prosperaram em suas fun\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Embora certamente possa haver discrep\u00e2ncias, n\u00e3o h\u00e1 um conjunto consistente de pesquisas apontando que longas horas sejam o ideal; j\u00e1 no suporte a semanas de trabalho mais curtas, h\u00e1 amplas evid\u00eancias.<\/p>\n<p>As pessoas precisam de fins de semana e outros tipos de folga para se recuperar do trabalho e retornar \u00e0 labuta renovadas e produtivas. Um estudo com trabalhadores israelenses que ficaram as mesmas duas semanas fora do escrit\u00f3rio constatou que todos experimentaram algum tipo de al\u00edvio no per\u00edodo de folga \u2013 n\u00e3o importando se, antes do descanso, o funcion\u00e1rio se sentisse ou n\u00e3o estressado.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 a natureza cotidiana, aparentemente intermin\u00e1vel e inevit\u00e1vel do estresse cr\u00f4nico que causa\u00a0<i>burnout<\/i>&#8220;, escrevem os autores.<\/p>\n<p>O ato de ir trabalhar recorrentemente desgasta as pessoas; o intervalo permite que elas se recuperem.<\/p>\n<p>Mas alguns tipos de trabalhadores n\u00e3o podem evitar um bloco de trabalho de longas horas, como aqueles nas emerg\u00eancias hospitalares, cirurgi\u00f5es, marinheiros, pilotos de avi\u00e3o, mineiros&#8230; Os estudos sobre esses grupos geralmente se concentram nos efeitos da priva\u00e7\u00e3o do sono, porque trabalhar muitas horas cont\u00ednuas significa n\u00e3o dormir. Os riscos variam de acordo com a profiss\u00e3o, mas s\u00e3o consistentemente negativos quando longas horas de trabalho levam ao sono insuficiente.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Estabelecendo limites<\/h2>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/103F4\/production\/_108984566_muni3.jpg\" alt=\"Homem usa celular na beira d'\u00e1gua\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>O ato de ir trabalhar recorrentemente desgasta as pessoas; o intervalo permite que elas se recuperem<\/figure>\n<p>Uma vantagem dos trabalhadores manuais em rela\u00e7\u00e3o aos de ocupa\u00e7\u00e3o mais intelectual \u00e9 que suas horas trabalhadas e tarefas conclu\u00eddas s\u00e3o registradas com mais facilidade.<\/p>\n<p>\u00c9 muito mais dif\u00edcil quantificar a produ\u00e7\u00e3o se o seu trabalho \u00e9 promover relacionamentos de longo prazo com outras empresas, por exemplo. \u00c0 medida que a natureza do trabalho muda, \u00e9 ainda mais dif\u00edcil descobrir o que constitui &#8220;trabalho&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;O que pode ser complicado para as profissionais intelectuais \u00e9 controlar o tempo trabalhado&#8221;, diz Erin Reid, professora associada de recursos humanos e administra\u00e7\u00e3o da Universidade McMaster, no Canad\u00e1. &#8220;Espera-se que muitos deles respondam e-mails ou mensagens de texto de trabalho a todo momento do dia, no final de semana e, muitas vezes, nas f\u00e9rias. Como resultado, mesmo que eles estejam tecnicamente &#8216;fora do trabalho&#8217;, ainda est\u00e3o envolvidos com ele, o que pode ser muito desgastante.&#8221;<\/p>\n<p>Reid diz que, al\u00e9m de se tornarem menos produtivas, pessoas em jornadas extensas tamb\u00e9m podem perder a alegria ou satisfa\u00e7\u00e3o no trabalho.<\/p>\n<p>As solu\u00e7\u00f5es para evitar o excesso de trabalho parecem enganosamente simples e envolvem o estabelecimento de limites e o gerenciamento de cargas de trabalho.<\/p>\n<p>&#8220;Mas, para ser sincero, longas horas de trabalho e demandas fora do hor\u00e1rio s\u00e3o impostas aos funcion\u00e1rios pela ger\u00eancia e geralmente fazem parte de um ambiente de trabalho ou de uma cultura profissional&#8221;, diz Reid. &#8220;Pedir aos trabalhadores que resolvam o problema por si mesmos pode levar a corre\u00e7\u00f5es tempor\u00e1rias e incompletas.&#8221;<\/p>\n<p>Em outras palavras, cabe aos empregadores e gerentes controlarem o volume de trabalho de seus funcion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Pencavel observa que alguns empregadores sabem as consequ\u00eancias do excesso de trabalho em seus resultados e funcion\u00e1rios, embora outros n\u00e3o estejam muito informados.<\/p>\n<p>&#8220;Eles atuam h\u00e1 algum tempo de uma determinada maneira e, por isso, n\u00e3o veem motivo para mudan\u00e7as&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Ainda assim, h\u00e1 casos de empregadores que possibilitaram mudan\u00e7as ap\u00f3s revisar os resultados da empresa.<\/p>\n<p>&#8220;Por que n\u00e3o vemos mais empregadores fazendo isso, ou seja, testando jornadas diferentes?&#8221;, pergunta Pencavel. &#8220;N\u00e3o sei porque n\u00e3o o fazem.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisas sobre tempo no trabalho, no entanto, sugerem que o excesso leva as pessoas a serem menos produtivas, n\u00e3o mais. 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