{"id":297423,"date":"2019-10-06T15:02:23","date_gmt":"2019-10-06T18:02:23","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=297423"},"modified":"2019-10-06T15:02:23","modified_gmt":"2019-10-06T18:02:23","slug":"como-as-historias-em-quadrinhos-se-tornaram-um-bode-expiatorio-da-classe-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/como-as-historias-em-quadrinhos-se-tornaram-um-bode-expiatorio-da-classe-politica\/","title":{"rendered":"Como as hist\u00f3rias em quadrinhos se tornaram um bode expiat\u00f3rio da classe pol\u00edtica"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"byline\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"byline__name\">Daniel Salom\u00e3o Roque<\/span><\/div>\n<div class=\"with-extracted-share-icons\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share-row\">\n<div class=\"share-tools--no-event-tag\">\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-twite\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/DB16\/production\/_108968065_5.jpg\" alt=\"Crian\u00e7as americanas ateiam fogo numa pilha de gibis, em foto de \u00e9poca\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span>Crian\u00e7as americanas ateiam fogo numa pilha de gibis durante a Guerra Fria<\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\" style=\"text-align: justify;\">Ao longo de quatro dias, no in\u00edcio de setembro, o prefeito do Rio de Janeiro e bispo da Igreja Universal, Marcelo Crivella, veiculou no Twitter uma s\u00e9rie de v\u00eddeos em que discursava sobre a \u00faltima Bienal do Livro, ocorrida no m\u00eas passado na capital fluminense.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No primeiro v\u00eddeo, anunciou o recolhimento do \u00e1lbum\u00a0<i>Vingadores &#8211; A Cruzada das Crian\u00e7as,<\/i>\u00a0vendido em um estande de quadrinhos do evento. A obra, segundo Crivella, trazia &#8220;conte\u00fado sexual para menores&#8221; e deveria ser exposta em embalagens lacradas, tal como a lei determina para materiais pornogr\u00e1ficos. &#8220;Precisamos proteger as nossas crian\u00e7as&#8221;, escreveu o prefeito, no tu\u00edte em que publicou o v\u00eddeo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>Vingadores &#8211; A Cruzada das Crian\u00e7as<\/i>\u00a0n\u00e3o cont\u00e9m nenhuma refer\u00eancia sexualmente expl\u00edcita. A HQ, escrita por Allan Heinberg e desenhada por Jim Cheung, seria apenas mais uma saga clich\u00ea de super-her\u00f3is, n\u00e3o fosse por um detalhe: sua galeria de justiceiros uniformizados inclui um casal gay, que se beija no fim da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A trama n\u00e3o gerou pol\u00eamica em 2012, ao ser publicada pela primeira vez no pa\u00eds. Tamb\u00e9m n\u00e3o rendeu controv\u00e9rsias em 2016, quando ganhou a edi\u00e7\u00e3o de luxo vendida na Bienal. Mas chamou a aten\u00e7\u00e3o de pol\u00edticos e religiosos no Brasil de 2019, provocando um vaiv\u00e9m de liminares e decis\u00f5es judiciais, das quais o prefeito saiu derrotado.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/EA31\/production\/_108735995_capture3.jpg\" alt=\"Imagem do livro Vingadores, a Cruzada das Crian\u00e7as\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>&#8216;Vingadores, a Cruzada das Crian\u00e7as&#8217;, que Crivella tentou recolher no Rio<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante da repercuss\u00e3o negativa, Crivella justificou-se em mais um v\u00eddeo: &#8220;O que n\u00f3s fizemos \u00e9 pra defender a fam\u00edlia&#8221;, disse. Em 8 de setembro, ap\u00f3s o Supremo Tribunal Federal (STF) ter suspendido a decis\u00e3o que permitia o confisco de livros durante o evento, o mandat\u00e1rio voltaria a se defender das cr\u00edticas e acusa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O que a prefeitura fez foi cumprir a lei do Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente&#8221;, afirmou. &#8220;Isso n\u00e3o \u00e9 censura, nem tampouco homofobia.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A BBC News Brasil ouviu quatro profissionais ligados ao mercado de HQs, que tra\u00e7aram um panorama dos epis\u00f3dios de censura a quadrinhos na hist\u00f3ria recente do pa\u00eds.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">&#8216;Viramos celebridades&#8217;<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tentativa de Crivella de censurar o gibi exposto na Bienal do Rio n\u00e3o \u00e9 uma medida isolada ou in\u00e9dita na hist\u00f3ria recente do Brasil. No in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990, governantes ga\u00fachos j\u00e1 haviam adotado uma agenda moral como ferramenta de ataque a quadrinistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Eu trabalhava na prefeitura de Porto Alegre e via o poder p\u00fablico financiando todos os tipos de manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas&#8221;, recorda Ad\u00e3o Iturrusgarai, cartunista da Folha de S.Paulo. &#8220;M\u00fasica, teatro, artes pl\u00e1sticas, dan\u00e7a. Mas nenhuma iniciativa contemplava as hist\u00f3rias em quadrinhos.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cartunista, ainda em in\u00edcio de carreira, decidiu buscar financiamento p\u00fablico para a produ\u00e7\u00e3o de um gibi. Na empreitada, associou-se ao escritor e colega Gilmar Rodrigues \u2013 a dupla era respons\u00e1vel pelas campanhas publicit\u00e1rias do munic\u00edpio, ent\u00e3o governado por Ol\u00edvio Dutra, do PT.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Surgia assim a revista Dundum, impressa em folhas de papel cedidas pela Secretaria da Cultura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Reunimos a vanguarda dos quadrinhos do Rio Grande do Sul&#8221;, relata Ad\u00e3o. Edgar Vasques, F\u00e1bio Zimbres, Otto Guerra, Eloar Guazzelli e Jaca foram alguns dos colaboradores de destaque.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As inspira\u00e7\u00f5es do grupo eram sobretudo europeias: o seman\u00e1rio parisiense Charlie Hebdo, a revista franco-belga L&#8217;Echo des Savanes e a espanhola El V\u00edbora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro n\u00famero foi lan\u00e7ado em julho de 1990, com tiragem de 1500 exemplares. As vendas, a princ\u00edpio, decepcionaram. O gibi era esnobado pelas bancas e encalhava nas livrarias. Dali a algumas semanas, por\u00e9m, esse cen\u00e1rio mudaria radicalmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deputados e vereadores da oposi\u00e7\u00e3o estavam prestes a iniciar uma campanha contra a Dundum e seu conte\u00fado explosivo. Uma das hist\u00f3rias, por exemplo, terminava com cenas de estupro homossexual no interior de uma delegacia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra narrava as rela\u00e7\u00f5es sexuais de um caipira com sua porca de estima\u00e7\u00e3o. No miolo da revista havia a foto de um cad\u00e1ver com o rosto ferido a bala. E, no canto inferior direito da segunda p\u00e1gina, destacava-se o logotipo da Secretaria Municipal de Cultura.<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1226\/production\/_108964640_2.jpg\" alt=\"N\u00famero de estreia da revista ga\u00facha Dundum\" width=\"470\" height=\"616\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>N\u00famero de estreia da revista ga\u00facha Dundum. Seu lan\u00e7amento levou cartunistas e o ex-prefeito de Porto Alegre, Ol\u00edvio Dutra, a serem processados por obscenidade<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vereadora Let\u00edcia Arruda, do PDT, solicitou a forma\u00e7\u00e3o de uma CPI para investigar o patroc\u00ednio da prefeitura \u00e0 Dundum. A Associa\u00e7\u00e3o de Cabos e Soldados da Brigada Militar de Porto Alegre enviou \u00e0 Justi\u00e7a ga\u00facha uma a\u00e7\u00e3o cautelar exigindo a apreens\u00e3o de todos os exemplares do gibi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ol\u00edvio Dutra e os editores foram denunciados pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico, sob alega\u00e7\u00e3o de violarem o artigo 234 do C\u00f3digo Penal, que disp\u00f5e sobre o &#8220;crime de escrito ou objeto obsceno&#8221; e prev\u00ea at\u00e9 dois anos de deten\u00e7\u00e3o para supostos infratores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Resultado? &#8220;Viramos celebridades. A Dundum foi not\u00edcia nas r\u00e1dios, televis\u00f5es e jornais do Brasil inteiro&#8221;, relembra Ad\u00e3o. &#8220;Deu at\u00e9 no Le Monde, veja s\u00f3.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os 1500 exemplares foram vendidos imediatamente. Uma segunda tiragem esgotou-se com igual velocidade. A revista foi elogiada por cr\u00edticos internacionais, traduzida para o japon\u00eas e lan\u00e7ada na \u00c1sia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1994, Ad\u00e3o, Gilmar e o prefeito Dutra foram absolvidos das acusa\u00e7\u00f5es de obscenidade.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">&#8216;Fomos acusados de incentivar a pedofilia&#8217;<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na d\u00e9cada seguinte, outra pol\u00eamica quase id\u00eantica eclodiu na regi\u00e3o Sul. O alvo da vez era a revista Banda Grossa, concebida por cartunistas de v\u00e1rios estados, mas radicada em Santa Catarina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O gibi, lan\u00e7ado em mar\u00e7o de 2006, havia vencido um edital proposto pela Funda\u00e7\u00e3o Cultural de Joinville (FCJ), obtendo R$ 9 mil de financiamento p\u00fablico. O projeto, submetido \u00e0 comiss\u00e3o julgadora no ano anterior, citava como modelo dois importantes t\u00edtulos da d\u00e9cada de 1980 \u2013 as revistas Animal e Chiclete com Banana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Animal foi a publica\u00e7\u00e3o que trouxe ao Brasil alguns dos mais controversos e cultuados personagens do quadrinho alternativo euroupeu \u2013 entre eles Ranxerox, um rob\u00f4 psic\u00f3tico que namora uma prostituta de 13 anos viciada em hero\u00edna, e Squeak the Mouse, uma par\u00f3dia sanguinolenta e pornogr\u00e1fica de Tom &amp; Jerry, que influenciaria at\u00e9 mesmo Os Simpsons.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Chiclete com Banana, grande sucesso comercial do per\u00edodo, era abastecida quase exclusivamente por cria\u00e7\u00f5es do cartunista Angeli \u2013 incluindo Bob Cuspe, um punk niilista que vive nos esgotos de S\u00e3o Paulo, Mara Tara, uma cientista ninfoman\u00edaca que comete assassinatos, e R\u00ea Bordosa, uma quarentona bo\u00eamia, alco\u00f3latra e autodestrutiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Banda Grossa cumpria com o prometido \u2013 a come\u00e7ar pela capa, que mostrava tr\u00eas anjos realizando um striptease para o Diabo, no inferno. Seu humor, em total acordo com as publica\u00e7\u00f5es mencionadas no projeto, era sujo, agressivo, escatol\u00f3gico, por vezes blasfemo. E logo traria problemas aos cartunistas. Vereadores de Joinville, descontentes com o gibi, fizeram de sua est\u00e9tica o mote de uma crise pol\u00edtica regional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Entre outras barbaridades, a Banda Grossa foi acusada de incentivar a pedofilia, a zoofilia e a necrofilia, al\u00e9m de publicar inadvertidamente material impr\u00f3prio para o p\u00fablico infantil&#8221;, declara o colaborador Gleber Pieniz, que \u00e9 jornalista e mestre em artes visuais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/3936\/production\/_108964641_3-1.jpg\" alt=\"Capa da revista Banda Grossa\" width=\"500\" height=\"675\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Capa da revista Banda Grossa; em 2006, o gibi foi piv\u00f4 de uma crise pol\u00edtica no munic\u00edpio catarinense de Joinville<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A pol\u00eamica, na verdade, restringiu-se \u00e0s esferas burocr\u00e1ticas do munic\u00edpio, j\u00e1 que a repercuss\u00e3o junto ao p\u00fablico foi muito positiva e a aceita\u00e7\u00e3o no circuito de quadrinhos foi bastante afetuosa, com boas cr\u00edticas e divulga\u00e7\u00e3o&#8221;, ressalta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma notifica\u00e7\u00e3o judicial enviada ao coeditor Paulo Gerloff exigia que o logotipo da prefeitura de Joinville, estampado nos exemplares, fosse coberto com tarjas pretas. Embora a capa trouxesse um aviso de conte\u00fado inadequado para menores, o cartunista tamb\u00e9m foi processado pela suposta aus\u00eancia desse alerta. Posteriormente, o processo foi arquivado. A reportagem entrou em contato com Gerloff, mas ele n\u00e3o quis dar entrevista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O fato mais pitoresco do imbr\u00f3glio&#8221;, lembra Gleber, &#8220;talvez tenha sido a sess\u00e3o na C\u00e2mara dos Vereadores, na qual o vice-prefeito e presidente da Funda\u00e7\u00e3o Cultural teve a cara-de-pau de nos chamar de pilantras.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Gleber, o incidente da Banda Grossa e as pol\u00eamicas envolvendo Crivella e a Bienal do Rio de Janeiro est\u00e3o fincados no mesmo princ\u00edpio: &#8220;a ignor\u00e2ncia de acreditar que um objeto de arte tem o poder irresist\u00edvel de aliciar, convencer ou corromper parte da popula\u00e7\u00e3o em favor de ideias consideradas perigosas&#8221;, aponta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;\u00c9 uma postura que se sustenta nos equ\u00edvocos de considerar as hist\u00f3rias em quadrinhos uma linguagem estritamente infantil e de julgar que pessoas adultas n\u00e3o t\u00eam o m\u00ednimo poder de discernimento. Sintoma dessa ignor\u00e2ncia \u00e9 a forma desequilibrada como esses grupos reagem \u00e0s HQs, dando-lhes uma aten\u00e7\u00e3o e destaque que jamais teriam se cumprissem seus fluxos habituais de publica\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Comparando a atual celeuma com as turbul\u00eancias que experimentou nos anos 1990, Ad\u00e3o Iturrusgarai, cartunista da Folha de S.Paulo, chega a conclus\u00f5es similares. &#8220;\u00c9 bem parecido, pois foram jogadas claramente pol\u00edticas&#8221;, diz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;E o resultado acabou sendo o mesmo que aconteceu com a gente no caso da Dundum. Publicidade gratuita.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos autores de\u00a0<i>Vingadores: a Cruzada das Crian\u00e7as<\/i>, o brit\u00e2nico Jim Cheung\u00a0<a class=\"story-body__link\" href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-49650286\">chegou a dizer, com ironia<\/a>, que pensava em &#8220;contratar o prefeito do Rio&#8221; para &#8220;promover&#8221; seu pr\u00f3ximo livro.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/17756\/production\/_108968069_7.jpg\" alt=\"Reprodu\u00e7\u00e3o da primeira p\u00e1gina de uma edi\u00e7\u00e3o de 1950 do Di\u00e1rio de Not\u00edcias, cuja manchete noticia o assassinato de uma crian\u00e7a pelo italiano Santino Marani\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Na capa do Di\u00e1rio de Not\u00edcias, manchete noticia o assassinato de uma crian\u00e7a por Santino Marani, jovem italiano obcecado por quadrinhos de crime<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Os her\u00f3is queimam nas fogueiras<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">As especula\u00e7\u00f5es sobre a influ\u00eancia comportamental dos quadrinhos antecedem em muitas d\u00e9cadas as rusgas entre cartunistas e prefeituras brasileiras. Tais ideias, na verdade, t\u00eam ra\u00edzes americanas e remontam ao fim da Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1945, Adolf Hitler estava morto e os EUA emergiam como superpot\u00eancia, mas o antagonismo da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e a lembran\u00e7a de duas bombas at\u00f4micas lan\u00e7adas em territ\u00f3rio japon\u00eas indicavam que o futuro da Am\u00e9rica n\u00e3o seria nada tranquilo. A ind\u00fastria dos quadrinhos, fortemente alicer\u00e7ada em super-her\u00f3is, sentia o baque. No fundo, os leitores pareciam saber que nenhum vigilante fantasiado poderia salv\u00e1-los de uma cat\u00e1strofe global.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aos editores, sobrava a alternativa de buscar ref\u00fagio em outros g\u00eaneros, mais sintonizados com os traumas e puls\u00f5es que assolavam secretamente as fam\u00edlias americanas. Gibis de crime, terror e fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica abarrotaram as bancas, oferecendo ao p\u00fablico centenas de narrativas t\u00e3o s\u00e1dicas quanto rent\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo o Comic Magazine Publishing Report, boletim que divulgava mensalmente as estat\u00edsticas comerciais do ramo, as vendas de quadrinhos saltaram, s\u00f3 nos EUA, foram de 532 milh\u00f5es de exemplares em 1945 para 728 milh\u00f5es em 1948 \u2013 um aumento de 37% em apenas tr\u00eas anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Pela primeira vez no mercado industrial de quadrinhos, os produtores pareciam interessados em expandir essa linguagem e felizes pelo trabalho que estavam fazendo&#8221;, explica Lauro Larsen, cofundador da Mino, uma das principais editoras brasileiras de quadrinhos autorais. &#8220;As vendas apontam isso. Os leitores tamb\u00e9m queriam esse frescor. Desejavam de fato se surpreender com uma hist\u00f3ria.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lauro \u00e9 um dos respons\u00e1veis pela Cole\u00e7\u00e3o Incendi\u00e1ria, s\u00e9rie que re\u00fane em \u00e1lbuns tem\u00e1ticos dezenas de HQs obscuras do per\u00edodo. Dois volumes j\u00e1 foram lan\u00e7ados \u2013 o primeiro,\u00a0<i>Os Morcegos-C\u00e9rebro de V\u00eanus<\/i>, \u00e9 dedicado \u00e0 fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, enquanto o segundo,\u00a0<i>O Que Havia na Caixa de Sam Dora?<\/i>, se debru\u00e7a sobre o terror.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o HQs heterog\u00eaneas, mas unidas pela ousadia narrativa, virtuosismo gr\u00e1fico e abordagem contundente de temas espinhosos: aliena\u00e7\u00e3o, xenofobia, linchamentos, bio\u00e9tica, sexualidade feminina, corrida espacial, medo nuclear, fanatismo religioso, corrup\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. &#8220;Foi um momento de descobertas, de afronta a um pensamento padronizado e supostamente sadio&#8221;, explica Lauro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O impacto dessas afrontas pode ser medido por algumas declara\u00e7\u00f5es da \u00e9poca. O cr\u00edtico teatral John Mason Brown definia os quadrinhos como &#8220;a maconha dos ber\u00e7\u00e1rios, o horror dos lares, a maldi\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as e uma amea\u00e7a ao futuro.&#8221; O psicoterapeuta Marvin L. Blumberg, por sua vez, disse: &#8220;Os gibis despertam o sadomasoquismo adormecido em cada crian\u00e7a.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nenhuma dessas vozes foi t\u00e3o estridente quanto a de Fredric Wertham, psiquiatra alem\u00e3o radicado nos EUA.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/8CF6\/production\/_108968063_4.jpg\" alt=\"Fredric Wertham\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Fredric Wertham, psiquiatra alem\u00e3o radicado nos EUA, foi o mais ruidoso detrator das hist\u00f3rias em quadrinhos nas d\u00e9cadas de 40 e 50<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seu artigo &#8220;The comics&#8230; very funny!&#8221; (&#8220;Os quadrinhos&#8230; muito divertido!&#8221;), publicado em 29 de maio de 1948 no Saturday Review of Literature, era uma exaustiva lista de atos violentos supostamente cometidos por crian\u00e7as e adolescentes: meninos que se juntavam para torturar uma garotinha de quatro anos, um rapaz que se deleitava com cenas de crueldade animal, um jovem que matara o colega por admira\u00e7\u00e3o a Satan\u00e1s, um estudante que havia assassinado a irm\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Wertham questionava: &#8220;Qual \u00e9 o denominador comum de tudo isso?&#8221; A resposta vinha logo a seguir: todos aqueles crimes teriam sido mera consequ\u00eancia da leitura de gibis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao longo dos meses seguintes, o artigo seria republicado pelos mais diversos ve\u00edculos \u2013 incluindo a anticomunista Reader&#8217;s Digest, a mais vendida revista dos EUA na \u00e9poca. O senador republicano Joseph McCarthy, empossado em janeiro de 1947, estava no in\u00edcio de sua cruzada contra professores, intelectuais e artistas, a quem perseguia sob justificativa de serem agentes vermelhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em tempos de ca\u00e7a \u00e0s bruxas, a campanha contra os quadrinhos n\u00e3o demorou a adquirir contornos de histeria coletiva: queimar gibis em fogueiras tornou-se um h\u00e1bito rotineiro nas escolas e igrejas de todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Assim como acontece hoje no Brasil, esse tipo de pensamento j\u00e1 se baseava em inimigos imagin\u00e1rios, constru\u00eddos a partir da paranoia e da avers\u00e3o \u00e0 cultura&#8221;, observa Lauro. &#8220;Mesmo que fosse uma cultura t\u00e3o escapista, como eram as hist\u00f3rias em quadrinhos sobre monstros e crimes.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A demoniza\u00e7\u00e3o das HQs chegaria ao auge em 1954, ap\u00f3s o lan\u00e7amento de\u00a0<i>Seduction of the Innocent<\/i>\u00a0(&#8220;Sedu\u00e7\u00e3o dos Inocentes&#8221;), calhama\u00e7o de 400 p\u00e1ginas em que Wertham sistematizava as pol\u00eamicas levantadas em seus artigos pr\u00e9vios. O sucesso do livro valeu ao psiquiatra um convite para depor numa audi\u00eancia do Senado americano, em 21 de abril daquele ano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o cerco das autoridades e a aprova\u00e7\u00e3o de novas leis de controle sobre o conte\u00fado das hist\u00f3rias, os profissionais do ramo se deram conta de que a salva\u00e7\u00e3o comercial da ind\u00fastria passava pela autocensura. Em setembro de 1954, as principais editoras dos EUA se aglutinaram em torno da Associa\u00e7\u00e3o Americana de Revistas em Quadrinhos (Comics Magazine Association of America), entidade criada com o objetivo de regulamentar o mercado de gibis e formular as diretrizes a serem adotadas por todas as publica\u00e7\u00f5es do g\u00eanero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nascia o Comics Code Authority, o c\u00f3digo de \u00e9tica do mercado de HQs. As palavras &#8220;crime&#8221;, &#8220;terror&#8221; e &#8220;horror&#8221; n\u00e3o mais poderiam estampar as capas dos gibis. Tamb\u00e9m estavam vetadas as cenas de &#8220;excessiva viol\u00eancia&#8221; e enredos que lidassem com tortura, canibalismo, zumbis, vampiros, fantasmas e lobisomens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Policiais, ju\u00edzes, governantes e institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o deveriam ser representados de modo a &#8220;estimular a desobedi\u00eancia \u00e0s autoridades constitu\u00eddas&#8221;. Os criminosos, obrigatoriamente, seriam punidos no final de cada hist\u00f3ria. E, em todas as narrativas, o bem triunfaria sobre o mal.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Moral e bons costumes a servi\u00e7o de disputas comerciais<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Passados pouco mais de dois meses de sua publica\u00e7\u00e3o nos EUA, &#8220;The comics&#8230; very funny!&#8221; chegou ao Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O artigo \u00e9 longo&#8221;, antecipava o Di\u00e1rio de Not\u00edcias em 12 de agosto de 1948. &#8220;Merece, por\u00e9m, ser lido, e para ele chamamos a aten\u00e7\u00e3o dos pais, dos educadores, das autoridades educacionais, de todos quantos se interessam pela s\u00e3 forma\u00e7\u00e3o moral e mental da crian\u00e7a brasileira.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/10226\/production\/_108968066_6.jpg\" alt=\"Capa da revista Gibi, criada pelo empres\u00e1rio Roberto Marinho em 1939\" width=\"691\" height=\"979\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Exemplar da revista Gibi, criada pelo empres\u00e1rio Roberto Marinho em 1939<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao aviso, seguia-se uma tradu\u00e7\u00e3o integral do texto de Wertham, ocupando a quase totalidade da primeira p\u00e1gina. Essa foi apenas uma das mais de cinquenta capas que o jornal carioca dedicou ao tema naquele ano. As manchetes, sempre alarmistas, denunciavam: &#8220;Monstros, fantasmas, crimes e cenas picantes para divertir as crian\u00e7as&#8221;; &#8220;Nefasta a influ\u00eancia de certas hist\u00f3rias em quadrinhos sobre a popula\u00e7\u00e3o escolar&#8221;; &#8220;Necessidade de reprimir, imediatamente, os maus efeitos da literatura perniciosa \u00e0 juventude.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas reportagens, a perversidade dos vil\u00f5es, a trucul\u00eancia dos her\u00f3is e a vol\u00fapia das personagens femininas eram apontadas como elementos prejudiciais ao desenvolvimento psicol\u00f3gico dos leitores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Di\u00e1rio de Not\u00edcias, ironicamente, havia sido um dos primeiros ve\u00edculos brasileiros a publicar quadrinhos com regularidade. Desde 1935, o jornal mantinha uma p\u00e1gina di\u00e1ria de tirinhas americanas, tendo como carro-chefe as aventuras do marinheiro Popeye.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Orlando Dantas, propriet\u00e1rio do Di\u00e1rio de Not\u00edcias, nada tinha contra os quadrinhos&#8221;, explica Gon\u00e7alo Junior, autor do livro A Guerra dos Gibis &#8211; A Forma\u00e7\u00e3o do Mercado Editorial Brasileiro e a Censura aos Quadrinhos (Companhia das Letras).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Acontece que ele ganhava muito dinheiro sorteando brindes em seu jornal. Roberto Marinho, que comandou o Conselho Superior de Censura durante a ditadura do Estado Novo, conseguiu proibir esses sorteios, pois estavam prejudicando as vendas do jornal O Globo. Dantas ficou furioso e usou os quadrinhos para atacar seu concorrente. Deu no que deu.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O dono das Organiza\u00e7\u00f5es Globo, pr\u00f3ximo a Get\u00falio Vargas, firmava-se ent\u00e3o como um dos principais editores de HQs do pa\u00eds. Em meados da d\u00e9cada anterior, seu ex-empregado Adolfo Aizen, rec\u00e9m-chegado de uma viagem aos EUA, lhe havia feito uma proposta: publicar no Brasil as aventuras dos modernos her\u00f3is americanos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O desinteresse do patr\u00e3o fez com que Aizen, a partir de 1934, editasse revistas por conta pr\u00f3pria. Na principal delas, o Suplemento Juvenil, lan\u00e7ou personagens como Flash Gordon, Mandrake, Tarzan e Agente Secreto X-9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os quadrinhos viraram uma febre nacional. Cioso do \u00eaxito obtido por Aizen, Marinho ingressou no mercado de HQs com duas novas e bem-sucedidas publica\u00e7\u00f5es do g\u00eanero \u2013 O Globo Juvenil, em 1937, e Gibi, em 1939. Na ojeriza de certos grupos \u00e0 novidade, Dantas encontrou o pretexto ideal para um revide. Para tanto, contou com o apoio de importantes personalidades da vida cultural brasileira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A escritora Rachel de Queiroz, em cr\u00f4nica publicada pelo Di\u00e1rio de Not\u00edcias, afirmou serem os quadrinhos &#8220;um g\u00eanero miser\u00e1vel e bastardo, que nem chega a ser literatura, e muito menos ser\u00e1 qualquer coisa no dom\u00ednio da arte da gravura, e cuja mis\u00e9ria intr\u00ednseca \u00e9 a qualidade dominante.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O soci\u00f3logo Gilberto Freyre, autor do livro\u00a0<i>Casa-Grande &amp; Senzala<\/i>, acusou as HQs de serem &#8220;evidentemente racistas e capazes de excitar no leitor o \u00f3dio de ra\u00e7a.&#8221; Em discurso proferido na C\u00e2mara Municipal do Rio de Janeiro, onde exercia mandato de vereador, o m\u00fasico Ary Barroso, do samba Aquarela do Brasil, definiu os gibis como &#8220;revistas vendidas com fins lucrativos e para enriquecimento dos seus propriet\u00e1rios, sem terem nenhuma finalidade educativa&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na se\u00e7\u00e3o de cartas do Di\u00e1rio de Not\u00edcias, tamb\u00e9m eram comuns as demonstra\u00e7\u00f5es de solidariedade \u00e0 causa. &#8220;N\u00e3o se pode conceber que homens que se dizem cat\u00f3licos e honestos possam atirar contra os inocentes jovens de nossa terra esses quadrinhos em que se mostram a nu todas as podrid\u00f5es humanas&#8221;, reclamou um leitor. &#8220;N\u00e3o esmorecerdes na vossa campanha contra leituras infantis perniciosas. Deus e os bons brasileiros vos ajudar\u00e3o&#8221;, garantiu outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Brasil, como nos EUA, a celeuma culminou numa onda de autocensura. A Ebal, maior editora brasileira de gibis na \u00e9poca, adotou seu pr\u00f3prio c\u00f3digo de \u00e9tica em 1955. Suas normas vetavam, por exemplo, &#8220;alus\u00f5es a ideologias ou partidos pol\u00edticos&#8221;, a &#8220;quest\u00f5es sexuais&#8221; e a &#8220;conflitos entre ra\u00e7as e classes sociais&#8221;. Iniciativas semelhantes seriam abra\u00e7adas por outros editores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A coisa se estendeu e virou uma guerra santa e ideol\u00f3gica contra as revistinhas, cujos efeitos sofremos at\u00e9 hoje. O caso da Bienal prova que as HQs continuam a ser vistas como fonte de deturpa\u00e7\u00e3o moral, uma ferramenta de pervertidos que querem mudar a orienta\u00e7\u00e3o sexual das pessoas&#8221;, avalia Gon\u00e7alo Junior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Esses censores precisam de ajuda emocional. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que tamanha obsess\u00e3o pela homossexualidade seja algo normal, n\u00e3o \u00e9 verdade?&#8221;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;A coisa se estendeu e virou uma guerra santa e ideol\u00f3gica contra as revistinhas, cujos efeitos sofremos at\u00e9 hoje. 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