{"id":297614,"date":"2019-10-08T07:28:09","date_gmt":"2019-10-08T10:28:09","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=297614"},"modified":"2019-10-08T07:28:09","modified_gmt":"2019-10-08T10:28:09","slug":"a-alemanha-oriental-venceu-a-guerra-dos-orgasmos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/a-alemanha-oriental-venceu-a-guerra-dos-orgasmos\/","title":{"rendered":"A Alemanha Oriental venceu a guerra dos orgasmos"},"content":{"rendered":"<div class=\"articulo__apertura\">\n<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div class=\"articulo-encabezado-texto\">\n<div id=\"articulo-titulares\" class=\"articulo-titulares\">\n<h1 id=\"articulo-titulo\" class=\"articulo-titulo \" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"articulo-subtitulos\" style=\"text-align: justify;\">\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\"><em>As mulheres gozavam mais nos pa\u00edses socialistas? As diferen\u00e7as entre a Rep\u00fablica Democr\u00e1tica Alem\u00e3 (RDA) e a Rep\u00fablica Federal da Alemanha (RFA) s\u00e3o um exemplo de como o capitalismo afeta a sexualidade<\/em><\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"articulo-apertura \" style=\"text-align: justify;\">\n<figure class=\"foto superior foto_w980\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2019\/10\/04\/ideas\/1570201563_930103_1570202025_noticia_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2019\/10\/04\/ideas\/1570201563_930103_1570202025_noticia_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2019\/10\/04\/ideas\/1570201563_930103_1570202025_noticia_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2019\/10\/04\/ideas\/1570201563_930103_1570202025_noticia_normal.jpg 980w\" alt=\"Duas modelos em 1960 em frente ao port\u00e3o de Brandemburgo, entre os setores leste e oeste de Berlim, antes da constru\u00e7\u00e3o do muro.\" width=\"980\" height=\"600\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Duas modelos em 1960 em frente ao port\u00e3o de Brandemburgo, entre os setores leste e oeste de Berlim, antes da constru\u00e7\u00e3o do muro.<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">KONRAD GIEHR<\/span>\u00a0<span class=\"foto-agencia\">GETTY IMAGES<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"firma \">\n<div class=\"autor\">\n<div class=\"autor-texto\"><span class=\"autor-nombre\"><a title=\"Ver todas as not\u00edcias de Kristen Ghodsee\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/el_pais\/a\/\">KRISTEN GHODSEE<\/a><\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Durante quatro d\u00e9cadas, as duas Alemanhas\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/02\/05\/album\/1517835790_012071.html\">seguiram caminhos diferentes<\/a>, sobretudo no que diz respeito \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de masculinidades e feminilidades ideais. Na\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/alemania\">Alemanha Ocidental<\/a>, abra\u00e7ou-se o capitalismo, os pap\u00e9is de g\u00eanero tradicionais e o modelo do casamento monog\u00e2mico burgu\u00eas em que o homem sustenta a fam\u00edlia, e a mulher \u00e9 dona de casa. No lado Oriental, o objetivo da emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres, combinado com a escassez de m\u00e3o de obra, levou a uma incorpora\u00e7\u00e3o maci\u00e7a delas \u00e0 popula\u00e7\u00e3o ativa. Como contava a historiadora Dagmar Herzog em seu livro\u00a0<em>Sex After Fascism<\/em> (\u201cO sexo depois do fascismo\u201d), publicado em 2007, na Alemanha Oriental o Estado promoveu ativamente a igualdade de g\u00eanero e a independ\u00eancia econ\u00f4mica das mulheres como caracter\u00edsticas distintivas do socialismo, num esfor\u00e7o de demonstrar sua superioridade moral acima do Ocidente democr\u00e1tico e capitalista. J\u00e1 no come\u00e7o da d\u00e9cada de 1950, as publica\u00e7\u00f5es estatais estimulavam os homens alem\u00e3es a participarem do trabalho dom\u00e9stico, compartilhando assim o \u00f4nus do cuidado da prole de forma mais equitativa com suas esposas, caso estas tamb\u00e9m trabalhassem em jornada completa.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Segundo a professora de Estudos Culturais Alem\u00e3es Ingrid Sharp, na Alemanha Oriental criou-se uma situa\u00e7\u00e3o em que as\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/mujeres\">mulheres<\/a>\u00a0j\u00e1 n\u00e3o dependiam mais dos homens, e isto lhes proporcionava uma sensa\u00e7\u00e3o de autonomia, o que resultava num comportamento masculino mais generoso na cama. Se as namoradas e esposas da Alemanha Ocidental se sentiam insatisfeitas com o desempenho sexual de seus parceiros masculinos, elas n\u00e3o tinham muitas op\u00e7\u00f5es, pois, como dependiam economicamente deles, o m\u00e1ximo que podiam fazer era tentar convenc\u00ea-los a que fossem mais atentos \u00e0s suas necessidades. Na RDA, os homens que desejavam manter rela\u00e7\u00f5es com mulheres n\u00e3o podiam comprar o acesso a elas com dinheiro, por isso tinham incentivos para melhorar seu comportamento. (&#8230;) Em 1984, Kurt Starke e Walter Friedrich publicaram um livro com os resultados de suas pesquisas sobre o amor e a sexualidade entre seus compatriotas menores de 30 anos. Assim, descobriram que a juventude alem\u00e3-oriental, tanto os homens como as mulheres, estava muito satisfeita com sua vida sexual: dois ter\u00e7os das jovens diziam chegar ao orgasmo \u201cquase sempre\u201d, e 18% \u201ccom frequ\u00eancia\u201d. Starke e Friedrich afirmavam que estes n\u00edveis de satisfa\u00e7\u00e3o pessoal na cama eram resultado da vida socialista: \u201cA sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a social, o equil\u00edbrio quanto a responsabilidades educativas e profissionais, a igualdade de direitos e de possibilidades na hora de participar da vida social e determinar seu curso (\u2026)\u201d.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Numa pesquisa de pr\u00e1ticas sexuais femininas realizada pelo Gewis-Institut de Hamburgo para o Neue Revue, 80% das alem\u00e3s-orientais responderam que sempre chegavam ao orgasmo, em compara\u00e7\u00e3o a 63% das ocidentais. (\u2026) O contexto [deste estudo] era o conflito ideol\u00f3gico entre os lados Oriental e Ocidental: uma guerra fria que se travava no campo de batalha da sexualidade, e no qual o potencial de orgasmos substitu\u00eda a capacidade nuclear. Efetivamente, Sharp conta que a cont\u00ednua vincula\u00e7\u00e3o feita por sex\u00f3logos do Leste sobre o maior gozo sexual das mulheres da RDA e sua independ\u00eancia econ\u00f4mica e sua confian\u00e7a em si mesmos supunha uma amea\u00e7a para a sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a da Alemanha Ocidental. A resposta dos meios de comunica\u00e7\u00e3o ocidentais contra a ideia de que no Leste pudessem ter algo melhor foi contundente e deu lugar ao que Sharp chamou a \u201cGrande Guerra dos Orgasmos\u201d. Os cont\u00ednuos debates sobre as compara\u00e7\u00f5es entre os n\u00edveis de satisfa\u00e7\u00e3o sexual das duas Alemanhas estimularam os historiadores Paul Betts e Josie McLellan a explorar o tema com maior profundidade em seu livro\u00a0<em>Love in the Time of Communism<\/em>\u00a0(\u201cO amor nos tempos do comunismo\u201d), onde o tema \u00e9 dissecado ao longo de 239 p\u00e1ginas. Betts e McLellan confirmam a ideia de que a independ\u00eancia econ\u00f4mica feminina contribuiu para criar uma forma de sexualidade \u00fanica, n\u00e3o mercantilizada, talvez mais \u201cnatural\u201d e \u201clivre\u201d, que floresceu no Leste e que permite afirmar que, embora a teoria da economia sexual proporcione uma descri\u00e7\u00e3o adequada dos mercados do sexo, esta s\u00f3 \u00e9 aplic\u00e1vel \u00e0s sociedades capitalistas. Entretanto, como apontam estes autores, outros fatores contribu\u00edram para as diferen\u00e7as entre as culturas sexuais. Em primeiro lugar, a Igreja desempenhava um papel muito mais importante na regula\u00e7\u00e3o da moral e a sexualidade no Ocidente que no Leste, secular e ateu (embora seja importante assinalar que o estudo de 1984 realizado por Starke e Friedrich n\u00e3o encontrou diferen\u00e7as entre as respostas das ateias e das que professavam alguma religi\u00e3o). Em todo caso, parece incontest\u00e1vel que a cultura da Alemanha Ocidental abra\u00e7ou os padr\u00f5es de g\u00eanero tradicionais das Igrejas cat\u00f3lica e protestante em muito maior medida que a cultura da Alemanha Oriental. Em segundo lugar, a natureza autorit\u00e1ria do regime da RDA restringia o acesso \u00e0 esfera p\u00fablica, por isso sua sociedade respondeu retirando-se ao \u00e2mbito privado, onde se constru\u00edram vidas \u00edntimas, acolhedoras e alheias \u00e0\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/ideologias\">ideologia<\/a>, onde era poss\u00edvel se refugiar da onipresen\u00e7a do Estado em todos os outros planos. Em terceiro lugar, no Leste havia muito menos que fazer em compara\u00e7\u00e3o com as distra\u00e7\u00f5es comerciais do Ocidente, por isso provavelmente as pessoas dispunham de mais tempo para dedic\u00e1-lo ao\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/sexo\">sexo<\/a>. E, por \u00faltimo, o regime da RDA estimulava o desfrute da vida sexual como meio para distrair seus habitantes da monotonia e das relativas priva\u00e7\u00f5es da economia socialista, assim como das restri\u00e7\u00f5es nos deslocamentos.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">(\u2026) A ideia que se tinha do sexo na Alemanha Oriental continua sendo conservadora quando a comparamos aos padr\u00f5es atuais. Os gays e l\u00e9sbicas, embora n\u00e3o sofressem uma persegui\u00e7\u00e3o aberta, tinham vidas limitadas, confinadas \u00e0 esfera privada. E, por mais que o Estado tentasse convencer os homens a darem uma m\u00e3o em casa, as mulheres continuavam realizando a maior parte do trabalho dom\u00e9stico. Apesar da disponibilidade de anticoncepcionais e da exist\u00eancia do abordo legal, a RDA, assim como outros Estados socialistas, continuava mantendo uma forte pol\u00edtica de fomento da natalidade: a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/maternidad\">maternidade<\/a>\u00a0era considerada um dever, e os socialistas tendiam a ver o sexo como algo que acabaria por levar ao casamento e aos beb\u00eas. Por \u00faltimo, embora o sexo por prazer fosse visto como algo desej\u00e1vel para ambos os g\u00eaneros, o Estado nunca foi a favor da promiscuidade descontrolada nem do sexo \u201chedon\u00edstico\u201d: considerava-se que o sexo era uma express\u00e3o de amor e carinho entre camaradas iguais.<\/p>\n<p class=\"nota_pie\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Kristen Ghodsee<\/strong>, etn\u00f3grafa, \u00e9 professora de Estudos da R\u00fassia e Leste Europeu na Universidade da Pensilv\u00e2nia (EUA) e autora de v\u00e1rios livros. Este \u00e9 um extrato de \u2018<em>Why Women Have Better Sex Under Socialism<\/em>\u2019, traduzido a partir de sua vers\u00e3o espanhola (\u2018Por Qu\u00e9 las Mujeres Disfrutan M\u00e1s del Sexo Bajo el Socialismo\u2019), lan\u00e7ado na Espanha pela editora Capit\u00e1n Swing neste 7 de outubro.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As mulheres gozavam mais nos pa\u00edses socialistas? As diferen\u00e7as entre a Rep\u00fablica Democr\u00e1tica Alem\u00e3 (RDA) e a Rep\u00fablica Federal da Alemanha (RFA) s\u00e3o um exemplo de como o capitalismo afeta a sexualidade<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":297615,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-297614","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/alemans.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/297614","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=297614"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/297614\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/297615"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=297614"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=297614"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=297614"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}