{"id":297806,"date":"2019-10-10T07:46:22","date_gmt":"2019-10-10T10:46:22","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=297806"},"modified":"2019-10-10T07:46:22","modified_gmt":"2019-10-10T10:46:22","slug":"a-corte-universitaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/a-corte-universitaria\/","title":{"rendered":"A Corte Universit\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<div class=\"td-post-header\">\n<header class=\"td-post-title\">\n<h1 class=\"entry-title\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<p class=\"td-post-sub-title\" style=\"text-align: justify;\"><em><strong>O t\u00edtulo dado a esta pseudocr\u00f4nica resvala numa contradi\u00e7\u00e3o de termos: historicamente, membros de corte s\u00e3o incompat\u00edveis com a universidade \u2013 institui\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e socialmente burguesa, por defini\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/em><\/p>\n<div class=\"td-module-meta-info\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"td-post-author-name\"><\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<\/div>\n<div class=\"td-post-sharing-top\" style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"td_social_sharing_article_top\" class=\"td-post-sharing td-ps-bg td-ps-notext td-post-sharing-style1 \">\n<div class=\"td-post-sharing-visible\">\n<div class=\"td-social-sharing-button td-social-sharing-button-js td-social-handler td-social-share-text\">\n<div class=\"td-social-but-text\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"td-social-but-icon\"><\/div>\n<div class=\"td-social-but-icon\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"td-post-content\">\n<div class=\"td-post-featured-image\" style=\"text-align: justify;\"><a class=\"td-modal-image\" href=\"https:\/\/jornalggn.com.br\/sites\/default\/files\/2019\/10\/a-corte-universitaria-por-jean-pierre-chauvin-arte-rua1.jpg\" data-caption=\"\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"entry-thumb\" title=\"arte-rua1\" src=\"https:\/\/jornalggn.com.br\/sites\/default\/files\/2019\/10\/a-corte-universitaria-por-jean-pierre-chauvin-arte-rua1.jpg\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" srcset=\"https:\/\/jornalggn.com.br\/sites\/default\/files\/2019\/10\/a-corte-universitaria-por-jean-pierre-chauvin-arte-rua1.jpg 500w, https:\/\/jornalggn.com.br\/sites\/default\/files\/2019\/10\/a-corte-universitaria-por-jean-pierre-chauvin-arte-rua1-300x225.jpg 300w, https:\/\/jornalggn.com.br\/sites\/default\/files\/2019\/10\/a-corte-universitaria-por-jean-pierre-chauvin-arte-rua1-80x60.jpg 80w, https:\/\/jornalggn.com.br\/sites\/default\/files\/2019\/10\/a-corte-universitaria-por-jean-pierre-chauvin-arte-rua1-265x198.jpg 265w\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"375\" \/><\/a><\/div>\n<div class=\"td-a-rec td-a-rec-id-content_top  td_uid_2_5d9f0925f2e89_rand td_block_template_10\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<h4 style=\"text-align: justify;\">P<strong>or\u00a0Jean Pierre Chauvin<\/strong><\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<em>Tienen m\u00e1s \u00f3 menos fondo las palabras,<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>seg\u00fan las mat\u00e9rias<\/em>\u201d (Baltasar Graci\u00e1n)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<em>O card\u00e1pio n\u00e3o \u00e9 muito extenso<\/em>\u201d (Di\u00e1logo)<sup>*<\/sup><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A historiografia ensina que as sociedades de Corte morreram no final do s\u00e9culo XVIII, na transi\u00e7\u00e3o entre o chamado Antigo Regime e o universo burgu\u00eas, orientado pelos valores propalados da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa. Por\u00e9m, o fim da era cortes\u00e3 n\u00e3o significa que os c\u00f3digos, conven\u00e7\u00f5es e rapap\u00e9s foram enterrados com ela; pelo contr\u00e1rio: o s\u00e9culo XIX testemunhou o pipocar de manuais de boas maneiras e instru\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas, a exemplo das Artes de Escrever, Vestir-se, Falar e Se Comportar, que sugerem a perman\u00eancia de uma concep\u00e7\u00e3o que prima pela distin\u00e7\u00e3o de uns em rela\u00e7\u00e3o aos outros. De acordo com Peter Burke (1995, p. 120):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cA Arte da Conversa\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 o t\u00edtulo de uma s\u00e9rie de manuais que apareceram entre os s\u00e9culos XVII e XIX, na Inglaterra, Fran\u00e7a e em outros lugares. [\u2026] Textos como esses ainda s\u00e3o produzidos, mas a \u00eanfase mudou, em nosso s\u00e9culo, do social para o psicol\u00f3gico \u2013 da arte de mostrar-se algu\u00e9m bem-nascido para aquela de adquirir confian\u00e7a, \u201cquebrar o gelo\u201d e fazer amigos.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para incertos representantes das elites, a radiar durante o Oitocentos, sal\u00f5es, tribunais, agremia\u00e7\u00f5es e academias tornaram-se espa\u00e7os privilegiados de representa\u00e7\u00e3o de poder, por interm\u00e9dio de modas, h\u00e1bitos e trejeitos parcialmente herdados dos manuais de etiqueta que circularam nas cortes europeias entre os s\u00e9culos XVI e XVIII. Como ensinou Norbert Elias (2001, p. 103), \u201cUma vez que a hierarquia dos privil\u00e9gios foi criada segundo os par\u00e2metros da etiqueta, esta passou a ser mantida apenas pela competi\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos envolvidos em tal din\u00e2mica\u201d.<\/p>\n<div class=\"code-block code-block-1\" style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"jornalggn_horizontal_2\" class=\"ggnads adv-dfp-google\"><\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como sabemos, nossos tempos s\u00e3o outros: o s\u00fadito virou indiv\u00edduo; a corpora\u00e7\u00e3o perdeu espa\u00e7o para o autoempreendimento pejotista; as f\u00f3rmulas de tratamento foram substitu\u00eddas por novas e divertidas maneiras de estabelecer supostas diferen\u00e7as de classe, g\u00eanero, ra\u00e7a e intelig\u00eancia. Franco Moretti (2014, p. 24) relembra as supostas virtudes do burgu\u00eas oitocentista:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>No decurso do s\u00e9culo XIX, uma vez superado o estigma contra a \u201cnova riqueza\u201d, acumularam-se alguns atributos recorrentes em torno dessa figura: energia, acima de tudo; comedimento; clareza intelectual; honestidade comercial; um forte senso de metas. Todos \u201cbons\u201d atributos, mas n\u00e3o bons o bastante para se equiparar ao tipo de her\u00f3i \u2013 guerreiro, cavaleiro, conquistador, aventureiro \u2013 com o qual a narrativa ocidental contara, literalmente, durante mil\u00eanios.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, a essa altura dos acontecimentos nesta neocol\u00f4nia, seria oportuno lembrar, com Marilena Chau\u00ed (2018, p. 224) que, no Brasil, a Universidade ainda \u00e9 majoritariamente percebida como meio ascensional reservado \u00e0s classes sociais intermedi\u00e1rias: \u201c[\u2026] a maneira de acalmar a pequena burguesia, acalmar a classe m\u00e9dia, \u00e9 lhe oferecendo a chance de ascens\u00e3o social atrav\u00e9s da universidade\u201d. Sob essa \u00f3tica, a pervers\u00e3o est\u00e1 dada e orienta as pr\u00e1ticas sociais no s\u00e9culo XXI. (In)justamente, os que tiveram menos oportunidades socioecon\u00f4micas e culturais costumam ser percebidos como intrusos a contaminar o virginal e impoluto seio acad\u00eamico \u2013 espa\u00e7o que constitui um dos \u00faltimos redutos para distin\u00e7\u00e3o de seus\u00a0<em>muy<\/em>\u00a0dignos part\u00edcipes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isto posto, passemos a um exemplo ilustrativo. Para tanto, pe\u00e7o \u00e0(o) leitor(a) que figure a exist\u00eancia de uma mensagem de texto endere\u00e7ada por um professor a uma secret\u00e1ria \u2013 transcorrido dia desses em uma universidade de n\u00edvel superior \u2013, pautado nestes singelos termos: \u201cEstou em acordo com o documento que enviou, embora o mesmo n\u00e3o traduza, na \u00edntegra, a qualidade das reflex\u00f5es que o motivaram\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que vossa merc\u00ea, que \u00e9 discreto, sens\u00edvel e instru\u00eddo, teria a dissertar a esse respeito?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De minha parte, ocorrem-me quatro quest\u00f5es: 1. O docente n\u00e3o agradece \u00e0 secret\u00e1ria pelo envio do documento; 2. O professor diz estar \u201cde acordo\u201d com o teor do texto \u2013 quando n\u00e3o se trata de aceitar, ou n\u00e3o, a s\u00edntese redigida pela funcion\u00e1ria; 3. O sujeito subestima a intelig\u00eancia de sua colega de trabalho, sugerindo que ela n\u00e3o teria capacidade de alcan\u00e7ar o brilhantismo da reflex\u00e3o promovida pelos professores, tampouco reproduzir a fala t\u00e3o distinta (por que \u201csuperior\u201d) do docente; 4. O interlocutor, cioso representante da postura macha e grosseira, desconsidera o fato de que est\u00e1 a responder de modo injustificadamente rude a uma mulher.<\/p>\n<div class=\"code-block code-block-2\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Convenhamos. \u00c9 poss\u00edvel que isso tenha acontecido porque o replicante n\u00e3o se comportou de modo pertinente \u00e0 elevada posi\u00e7\u00e3o social que sup\u00f5e ocupar. Recorro a Jo\u00e3o Adolfo Hansen (2019, p. 99), para distinguir entre discri\u00e7\u00e3o e vulgaridade: \u201c[\u2026] no s\u00e9culo XVII, \u00e9 discreto o que n\u00e3o \u00e9 vulgar. Como vulgar \u00e9 definido como \u2018esp\u00edrito fraco\u2019 levado pelo gosto confuso que se deixa enganar pelas apar\u00eancias, discreto \u00e9 aquele capaz de produzir apar\u00eancias adequadas a cada ocasi\u00e3o, porque tem o ju\u00edzo\u201d. Suponho que, no pequeno grande mundo acad\u00eamico,\u00a0<em>distin\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0e\u00a0<em>discri\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0sejam tomados como termos equivalentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso mesmo, e pensando melhor, devo confessar que o t\u00edtulo dado a esta pseudocr\u00f4nica resvala numa contradi\u00e7\u00e3o de termos: historicamente, membros de corte s\u00e3o incompat\u00edveis com a universidade \u2013 institui\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e socialmente burguesa, por defini\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, talvez fosse o caso de sugerir aos colegas, especialmente aqueles que se autopromoveram ao irredut\u00edvel plano do \u00c9ter, que passassem a se comportar de modo mais coerente com a \u00e1rea do Ensino, especialmente quando atuarem nos f\u00f3runs que, em tese, primam pelas boas-maneiras e a melhor educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BURKE, Peter.\u00a0<strong>A Arte da Conversa\u00e7\u00e3o<\/strong>. 1\u00aa reimp. Trad. \u00c1lvaro Luiz Hattnher. S\u00e3o Paulo: Editora Unesp, 1995.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CHAUI, Marilena. \u201cA Universidade est\u00e1 em crise?\u201d. In: _____.\u00a0<strong>Em defesa da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, gratuita e democr\u00e1tica<\/strong>. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2018, pp. 223-229 [Volume organizado por Homero Santiago].<\/p>\n<div class=\"code-block code-block-3\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">ELIAS, Norbert.\u00a0<strong>A Sociedade de Corte: investiga\u00e7\u00e3o sobre a sociologia da realeza e da aristocracia de corte<\/strong>. Trad. Pedro S\u00fcssekind. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GRACI\u00c1N, Baltasar.\u00a0<strong>El h\u00e9roe\/El discreto<\/strong>. Madrid: B. Rodr\u00edguez Serra, 1900, p. 100.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">HANSEN, Jo\u00e3o Adolfo. \u201cO Discreto\u201d: In: ____.\u00a0<strong>Agudezas Seiscentistas e Outro Ensaios<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Edusp, 2019, pp. 97-122 [Volume organizado por Cilaine Alves Cunha e Mayra Laudanna].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MORETTI, Franco.\u00a0<strong>O burgu\u00eas: entre a hist\u00f3ria e a literatura<\/strong>. Trad. Alexandre Morales. S\u00e3o Paulo: Tr\u00eas Estrelas, 2014.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*<em>Fala de um cliente, ao adentrar um restaurante situado na Barra Funda, bairro da megal\u00f3pole de S\u00e3o Paulo, Estado de SP, em 9 de outubro de 2019.<\/em><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O t\u00edtulo dado a esta pseudocr\u00f4nica resvala numa contradi\u00e7\u00e3o de termos: historicamente, membros de corte s\u00e3o incompat\u00edveis com a universidade \u2013 institui\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e socialmente burguesa, por defini\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":297807,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1175,6],"tags":[],"class_list":["post-297806","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-educacao","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/quadro-antigo-edicar.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/297806","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=297806"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/297806\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/297807"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=297806"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=297806"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=297806"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}