{"id":298084,"date":"2019-10-13T10:16:01","date_gmt":"2019-10-13T13:16:01","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=298084"},"modified":"2019-10-13T10:16:01","modified_gmt":"2019-10-13T13:16:01","slug":"manuel-bandeira-da-vida-terna-e-eterna","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/manuel-bandeira-da-vida-terna-e-eterna\/","title":{"rendered":"Manuel Bandeira da vida terna e eterna"},"content":{"rendered":"<div class=\"td-post-header\">\n<header class=\"td-post-title\">\n<h1 class=\"entry-title\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<p class=\"td-post-sub-title\" style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Neste 13 de outubro, faz 51 anos que o nosso maior poeta se foi. Com Manuel Bandeira temos uma viagem \u00edntima nos poemas que nos abalaram desde quando \u00e9ramos adolescentes<\/em><\/strong><\/p>\n<div class=\"td-module-meta-info\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"td-post-author-name\"><\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<\/div>\n<div class=\"td-post-sharing-top\" style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"td_social_sharing_article_top\" class=\"td-post-sharing td-ps-bg td-ps-notext td-post-sharing-style1 \">\n<div class=\"td-post-sharing-visible\">\n<div class=\"td-social-sharing-button td-social-sharing-button-js td-social-handler td-social-share-text\">\n<div class=\"td-social-but-text\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"td-social-but-icon\"><\/div>\n<div class=\"td-social-but-icon\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"td-post-content\">\n<div class=\"td-post-featured-image\" style=\"text-align: justify;\"><a class=\"td-modal-image\" href=\"https:\/\/jornalggn.com.br\/sites\/default\/files\/2019\/10\/manuel-bandeira-da-vida-terna-e-eterna-por-urariano-mota-manuel-bandeira-.jpg\" data-caption=\"\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"entry-thumb\" title=\"manuel bandeira-\" src=\"https:\/\/jornalggn.com.br\/sites\/default\/files\/2019\/10\/manuel-bandeira-da-vida-terna-e-eterna-por-urariano-mota-manuel-bandeira-.jpg\" sizes=\"auto, (max-width: 480px) 100vw, 480px\" srcset=\"https:\/\/jornalggn.com.br\/sites\/default\/files\/2019\/10\/manuel-bandeira-da-vida-terna-e-eterna-por-urariano-mota-manuel-bandeira-.jpg 480w, https:\/\/jornalggn.com.br\/sites\/default\/files\/2019\/10\/manuel-bandeira-da-vida-terna-e-eterna-por-urariano-mota-manuel-bandeira--300x225.jpg 300w, https:\/\/jornalggn.com.br\/sites\/default\/files\/2019\/10\/manuel-bandeira-da-vida-terna-e-eterna-por-urariano-mota-manuel-bandeira--80x60.jpg 80w, https:\/\/jornalggn.com.br\/sites\/default\/files\/2019\/10\/manuel-bandeira-da-vida-terna-e-eterna-por-urariano-mota-manuel-bandeira--265x198.jpg 265w\" alt=\"\" width=\"480\" height=\"360\" \/><\/a><\/div>\n<div class=\"td-a-rec td-a-rec-id-content_top  td_uid_2_5da3211fc70dd_rand td_block_template_10\" style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"jornalggn_horizontal_2\" class=\"adv-dfp-google\" data-google-query-id=\"COn4l8immeUCFUgGgQod6mUAlg\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/21622511100\/jornalggn_blog\/jornalggn_horizontal_2_0__container__\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<h4 style=\"text-align: justify;\"><strong>Por Urariano Mota<\/strong><\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste 13 de outubro, faz 51 anos que o nosso maior poeta se foi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com Manuel Bandeira temos uma viagem \u00edntima nos poemas que nos abalaram desde quando \u00e9ramos adolescentes. E nos diz\u00edamos, surpresos, \u201cent\u00e3o isto \u00e9 poesia!\u201d. E por isso mesmo, por for\u00e7a dessa revela\u00e7\u00e3o, passamos a ser amantes de<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cPORQUINHO-DA-\u00cdNDIA<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando eu tinha seis anos<br \/>\nGanhei um porquinho-da-\u00edndia.<br \/>\nQue dor de cora\u00e7\u00e3o me dava<br \/>\nPorque o bichinho s\u00f3 queria estar debaixo do fog\u00e3o!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Levava ele pra sala<br \/>\nPra os lugares mais bonitos, mais limpinhos,<br \/>\nEle n\u00e3o gostava:<br \/>\nQueria era estar debaixo do fog\u00e3o.<br \/>\nN\u00e3o fazia caso nenhum das minhas ternurinhas\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 O meu porquinho-da-\u00edndia foi a minha primeira namorada.\u201d<\/p>\n<div class=\"code-block code-block-1\" style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"jornalggn_horizontal_2\" class=\"ggnads adv-dfp-google\"><\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">A parte que vem da raz\u00e3o nos fala que por tr\u00e1s desses versos existe um homem experiente na arte de criar um poema, um ser feroz que fere porque \u00e9 poesia. Esse poema cresce pelo pequeno, pelos diminutivos: porquinho, bichinho, limpinhos, ternurinhas, at\u00e9 explodir no inusitado, no s\u00fabito golpe, no absurdo da rela\u00e7\u00e3o entre uma cobaia e o amor, \u201co meu porquinho-da-\u00edndia foi a minha primeira namorada\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porquinho-da-\u00edndia \u00e9 um poema escrito antes de 1930, mas um verso diz, \u201cLevava ele pra sala\u201d. Isso at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o era poesia nem portugu\u00eas. At\u00e9 hoje, em 2016, os gram\u00e1ticos de fama condenam quem usa \u201clevava ele\u201d. Levava-o, corrigem, e vamos todos ser idiotas conforme a norma culta. Levava-o, para o inferno. E nada mais antipo\u00e9tico que um \u201clevava ele\u201d, sentenciariam os asnos de 1930 a 2019 e vindouros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 pouco, me lembrei de uma li\u00e7\u00e3o de poesia que Manuel Bandeira recebeu desde a inf\u00e2ncia. Copio do seu livro \u201cItiner\u00e1rio de Pas\u00e1rgada\u201d, que recomendo como uma li\u00e7\u00e3o fundamental de poesia e literatura:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cLembro-me de uns versos cujo autor at\u00e9 hoje ignoro. Ouviu-os meu pai de um sujeito que um dia, no alpendre de uma casinha do interior de Pernambuco, lhe veio pedir esmola. Meu pai, que gostava de brincar, disse-lhe: \u2018Pois n\u00e3o! Mas voc\u00ea antes tem de me dizer uns versos.\u2019 Ora, o nosso homem n\u00e3o se fez de rogado e saiu-se com esta d\u00e9cima lapidar, cujo primeiro verso, estropiado, mostra que a estrofe n\u00e3o era de sua autoria:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Tive uma cho\u00e7a, se ardeu-se.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tinha um s\u00f3 dente, caiu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tive uma arara, morreu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um papagaio, fugiu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dois tost\u00f5es tinha de meu:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Tentou-me o diabo, joguei-os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E fiquei sem ter mais meios<\/p>\n<div class=\"code-block code-block-3\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">De sustentar os meus brios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tinha uns chinelos\u2026 Vendi-os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tinha uns amores\u2026 Deixei-os.\u2019 \u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que li\u00e7\u00e3o de poesia, vinda de um homem analfabeto para o futuro poeta! Mas \u00e9 preciso ser um artista de mente aberta, com o brilho do g\u00eanio para compreend\u00ea-la. Em outros, passaria batida, ou se a lembrasse, n\u00e3o a julgaria digna de cita\u00e7\u00e3o. Desprezaria o ouro por preconceito. Mas Manuel Bandeira era grande poeta pelo justo motivo da sua sensibilidade el\u00e1stica, pl\u00e1stica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A prop\u00f3sito do seu universo sem fronteiras, vale a pena publicar trechos de uma conversa que tive com Andr\u00e9 Cintra, jornalista, escritor e editor de cultura do Vermelho, que copio sem aviso ou autoriza\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Andr\u00e9 \u2013\u00a0 Bandeira era um bom \u201chomenageador\u201d. Quando o M\u00e1rio de Andrade morreu,\u00a0 Bandeira fez um poema monumental para o M\u00e1rio: \u201cA M\u00e1rio de Andrade Ausente\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA M\u00c1RIO DE ANDRADE AUSENTE<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Anunciaram que voc\u00ea morreu.<br \/>\nMeus olhos, meus ouvidos testemunham:<br \/>\nA alma profunda, n\u00e3o.<br \/>\nPor isso n\u00e3o sinto agora a sua falta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sei bem que ela vir\u00e1<\/p>\n<div class=\"code-block code-block-5\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">(Pela for\u00e7a persuasiva do tempo).<br \/>\nVir\u00e1 s\u00fabito um dia,<br \/>\nInadvertida para os demais.<br \/>\nPor exemplo assim:<br \/>\n\u00c0 mesa conversar\u00e3o de uma coisa e outra,<br \/>\nUma palavra lan\u00e7ada \u00e0 toa<br \/>\nBater\u00e1 na franja dos lutos de sangue.<br \/>\nAlgu\u00e9m perguntar\u00e1 em que estou pensando,<br \/>\nSorrirei sem dizer que em voc\u00ea<br \/>\nProfundamente<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas agora n\u00e3o sinto a sua falta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(\u00c9 sempre assim quando o ausente<br \/>\nPartiu sem se despedir:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00ea n\u00e3o se despediu.)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00ea n\u00e3o morreu: ausentou-se.<br \/>\nDirei: Faz j\u00e1 tempo que ele n\u00e3o escreve.<br \/>\nIrei a S\u00e3o Paulo: voc\u00ea n\u00e3o vir\u00e1 ao meu hotel.<br \/>\nImaginarei: Est\u00e1 na chacrinha de S\u00e3o Roque.<br \/>\nSaberei que n\u00e3o, voc\u00ea ausentou-se. Para outra vida?<br \/>\nA vida \u00e9 uma s\u00f3. A sua continua.<br \/>\nNa vida que voc\u00ea viveu.<br \/>\nPor isso n\u00e3o sinto agora a sua falta\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Andr\u00e9 \u2013 Houve uma \u00e9poca em que ele assinou uma coluna de jornal onde fazia perfis dos companheiros de artes e letras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu \u2013 Grande cr\u00edtico liter\u00e1rio tamb\u00e9m. O que ele escreveu sobre Ascenso Ferreira ningu\u00e9m havia notado antes. E destacava em Ascenso, como destacou em compositores de m\u00fasica popular, trechos e sacadas fora do universo dos livros, fora da academia<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fora da conversa, anoto que Manuel Bandeira observou em Ascenso Ferreira uma interpreta\u00e7\u00e3o \/ leitura do poema al\u00e9m dos livros. Mais preciso, aqui:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cQuem n\u00e3o ouviu Ascenso dizer, cantar, declamar, rezar, cuspir, dan\u00e7ar, arrotar os seus poemas n\u00e3o pode fazer ideia das virtualidades verbais neles contidas\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De volta \u00e0 conversa:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu \u2013 Bandeira falava, \u00a0por exemplo, que tinha inveja dos versos de Orestes Barbosa: \u201ctu pisavas nos astros distra\u00edda\u201d<\/p>\n<div class=\"code-block code-block-9\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fora da conversa, copio de modo literal o que o poeta escreveu:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cSe fizessem aqui um concurso, como fizeram na Fran\u00e7a, para apurar qual o verso mais bonito de nossa l\u00edngua, talvez eu votasse naquele de Orestes Barbosa em que ele diz: \u2018tu pisavas os astros distra\u00edda..\u2019.\u201d<\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<div><span class=\"ctaText\">Leia tamb\u00e9m:<\/span>\u00a0\u00a0<span class=\"postTitle\">Terra devastada, por Rom\u00e9rio R\u00f4mulo<\/span><\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">E volto \u00e0 conversa deste s\u00e1bado:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Andr\u00e9 \u2013 Voc\u00ea sabia que o M\u00e1rio de Andrade batizou a pr\u00f3pria m\u00e1quina de escrever de Manuela, em homenagem ao Manuel Bandeira?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu: \u2013 Essa n\u00e3o! N\u00e3o sabia. Em tempo: o poeta era um homem de g\u00eanio, cult\u00edssimo, erudito, que n\u00e3o fazia pose de erudi\u00e7\u00e3o. Ele era solteio, solteir\u00e3o, por conta da tuberculose da juventude, que ficou como uma marca.Mas um amante sem hora marcada, na sua solid\u00e3o. Tu lembras daquele poema para Jaime Ovalle? (Na solid\u00e3o,) \u201cpensando na vida e nas mulheres que amei\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">E encerramos por enquanto a nossa conversa. Motivado, copio esta solid\u00e3o em poesia:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cPoema s\u00f3 para Jaime Ovalle<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando hoje acordei, ainda fazia escuro<br \/>\n(Embora a manh\u00e3 j\u00e1 estivesse avan\u00e7ada)<br \/>\nChovia.<br \/>\nChovia uma triste chuva de resigna\u00e7\u00e3o<br \/>\nComo contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.<br \/>\nEnt\u00e3o me levantei,<br \/>\nBebi o caf\u00e9 que eu mesmo preparei,<br \/>\nDepois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando\u2026<br \/>\n\u2013 Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">De que matagal de parnasianismo e fala educada, falsamente educada, o poeta saiu, a ponto de se tornar o \u00a0S\u00e3o Jo\u00e3o Batista do modernismo, na frase de M\u00e1rio de Andrade. Desde o poema de provoca\u00e7\u00e3o Os Sapos, que virou hino de rebeldia para os modernistas:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cOs sapos<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enfunando os papos,<br \/>\nSaem da penumbra,<br \/>\nAos pulos, os sapos.<br \/>\nA luz os deslumbra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em ronco que aterra,<br \/>\nBerra o sapo-boi:<br \/>\n\u2013 \u201cMeu pai foi \u00e0 guerra!\u201d<br \/>\n\u2013 \u201cN\u00e3o foi!\u201d \u2013 \u201cFoi!\u201d \u2013 \u201cN\u00e3o foi!\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sapo-tanoeiro,<br \/>\nParnasiano aguado,<br \/>\nDiz: \u2013 \u201cMeu cancioneiro<br \/>\n\u00c9 bem martelado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vede como primo<br \/>\nEm comer os hiatos!<br \/>\nQue arte! E nunca rimo<br \/>\nOs termos cognatos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O meu verso \u00e9 bom<br \/>\nFrumento sem joio.<br \/>\nFa\u00e7o rimas com<br \/>\nConsoantes de apoio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vai por cinquenta anos<br \/>\nQue lhes dei a norma:<br \/>\nReduzi sem danos<br \/>\nA f\u00f4rmas a forma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Clame a saparia<br \/>\nEm cr\u00edticas c\u00e9ticas:<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 mais poesia,<br \/>\nMas h\u00e1 artes po\u00e9ticas\u2026\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Urra o sapo-boi:<br \/>\n\u2013 \u201cMeu pai foi rei!\u201d- \u201cFoi!\u201d<br \/>\n\u2013 \u201cN\u00e3o foi!\u201d \u2013 \u201cFoi!\u201d \u2013 \u201cN\u00e3o foi!\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Brada em um assomo<br \/>\nO sapo-tanoeiro:<br \/>\n\u2013 A grande arte \u00e9 como<br \/>\nLavor de joalheiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou bem de estatu\u00e1rio.<br \/>\nTudo quanto \u00e9 belo,<br \/>\nTudo quanto \u00e9 v\u00e1rio,<br \/>\nCanta no martelo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outros, sapos-pipas<br \/>\n(Um mal em si cabe),<br \/>\nFalam pelas tripas,<br \/>\n\u2013 \u201cSei!\u201d \u2013 \u201cN\u00e3o sabe!\u201d \u2013 \u201cSabe!\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Longe dessa grita,<br \/>\nL\u00e1 onde mais densa<br \/>\nA noite infinita<br \/>\nVeste a sombra imensa;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">L\u00e1, fugido ao mundo,<br \/>\nSem gl\u00f3ria, sem f\u00e9,<br \/>\nNo perau profundo<br \/>\nE solit\u00e1rio, \u00e9<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que solu\u00e7as tu,<br \/>\nTransido de frio,<br \/>\nSapo-cururu<br \/>\nDa beira do rio\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>At\u00e9 este rompimento, definitivo: \u00a0<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cPO\u00c9TICA<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estou farto do lirismo comedido<br \/>\nDo lirismo bem comportado<br \/>\nDo lirismo funcion\u00e1rio p\u00fablico com livro de ponto expediente protocolo e manifesta\u00e7\u00f5es de apre\u00e7o ao Sr. diretor.<br \/>\nEstou farto do lirismo que p\u00e1ra e vai averiguar no dicion\u00e1rio o cunho vern\u00e1culo de um voc\u00e1bulo.<br \/>\nAbaixo os puristas.<br \/>\nTodas as palavras sobretudo os barbarismos universais<br \/>\nTodas as constru\u00e7\u00f5es sobretudo as sintaxes de exce\u00e7\u00e3o<br \/>\nTodos os ritmos sobretudo os inumer\u00e1veis<\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<div><span class=\"ctaText\">Leia tamb\u00e9m:<\/span>\u00a0\u00a0<span class=\"postTitle\">Ventania, obra coletiva V\u00eddeo Poemas, por Eduardo Waack<\/span><\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estou farto do lirismo namorador<br \/>\nPol\u00edtico<br \/>\nRaqu\u00edtico<br \/>\nSifil\u00edtico<br \/>\nDe todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.<br \/>\nDe resto n\u00e3o \u00e9 lirismo<br \/>\nSer\u00e1 contabilidade tabela de co-senos secret\u00e1rio do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar \u00e0s mulheres, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quero antes o lirismo dos loucos<br \/>\nO lirismo dos b\u00eabedos<br \/>\nO lirismo dif\u00edcil e pungente dos b\u00eabedos<br \/>\nO lirismo dos clowns de Shakespeare.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 N\u00e3o quero saber do lirismo que n\u00e3o \u00e9 liberta\u00e7\u00e3o.\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bandeira \u00e9 autor de versos que atingiram aquele estado rar\u00edssimo de ir al\u00e9m do gosto da gente culta. Viraram quase uma reflex\u00e3o, um prov\u00e9rbio. Exemplos disso v\u00eam sem muita pesquisa: \u201cA \u00fanica coisa a fazer \u00e9 tocar um tango argentino\u201d, ouvimos, quando nada mais resta fazer. \u201cFoi o meu primeiro alumbramento\u201d, e vejam que palavra bela, alumbramento, posta em circula\u00e7\u00e3o e moda na l\u00edngua. Todos apreendemos de imediato o significado, porque o poeta assim nos fala depois de \u201cUm dia eu vi uma mo\u00e7a nuinha no banho\/ Fiquei parado o cora\u00e7\u00e3o batendo\u201d. Assim como tamb\u00e9m apreendemos pelo poema o sentido de \u201cVou-me embora pra Pas\u00e1rgada\u201d \u2013 fugir, sumir, buscar abrigo em uma terra ut\u00f3pica de felicidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas coisas n\u00e3o se escrevem por dom ou presente dos deuses. Versos assim se conseguem ao longo de muita vida, estudo e trabalho. A linha do poema de Bandeira parece vir curtida, decantada, palavra por palavra. Raro ele corre em voo livre de condor, antes plana, paira, na altura, contraditoriamente parecendo voar baixo, ao n\u00edvel do ch\u00e3o, do cotidiano, do min\u00fasculo dos dias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nele, o sentido do poema est\u00e1 antes no verso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa linha lapidar que sobrevive ao poema, \u00e0 circunst\u00e2ncia, n\u00e3o se encontra em outro poeta brasileiro com a frequ\u00eancia com que se encontra em Manuel Bandeira. \u201cA vida inteira que podia ter sido e que n\u00e3o foi\u201d \u00e9 um verso que nos fica, para sempre, \u00e9 uma luz que guardamos at\u00e9 mesmo sem conhecer o poema Pneumot\u00f3rax. At\u00e9 mesmo sem saber o \u00faltimo dia do corpo f\u00edsico do poeta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>*Publicado, originalmente, no\u00a0<a href=\"http:\/\/www.vermelho.org.br\/noticia\/324063-1\">Portal Vermelho<\/a><\/strong><\/em><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste 13 de outubro, faz 51 anos que o nosso maior poeta se foi. Com Manuel Bandeira temos uma viagem \u00edntima nos poemas que nos abalaram desde quando \u00e9ramos adolescentes<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":298085,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1175,6],"tags":[],"class_list":["post-298084","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-educacao","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/manuel-bandeira.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/298084","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=298084"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/298084\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/298085"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=298084"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=298084"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=298084"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}