{"id":298302,"date":"2019-10-15T06:08:35","date_gmt":"2019-10-15T09:08:35","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=298302"},"modified":"2019-10-15T06:08:35","modified_gmt":"2019-10-15T09:08:35","slug":"por-que-mais-de-70-dos-casos-de-cancer-de-mama-no-brasil-sao-diagnosticados-em-estagio-avancado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/por-que-mais-de-70-dos-casos-de-cancer-de-mama-no-brasil-sao-diagnosticados-em-estagio-avancado\/","title":{"rendered":"Por que mais de 70% dos casos de c\u00e2ncer de mama no Brasil s\u00e3o diagnosticados em est\u00e1gio avan\u00e7ado"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\"><\/h1>\n<div class=\"byline\"><span class=\"byline__name\">Camilla Veras Mota &#8211; <\/span><\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/12D4\/production\/_109202840_gettyimages-1022242818.jpg\" alt=\"Mulher em tratamento quimioter\u00e1pico\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span>A maioria das mulheres diagnosticadas com a doen\u00e7a no pa\u00eds palpa o pr\u00f3prio n\u00f3dulo. O problema, para muitas delas, vem depois: a dificuldade de marcar uma consulta ou fazer um exame pelo sistema p\u00fablico de sa\u00fade.<\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">O relato \u00e9 breve:<\/p>\n<p>&#8220;<i>C\u00e2ncer de mama<\/i><\/p>\n<p><i>6 meses esperando bi\u00f3psia<\/i><\/p>\n<p><i>Agora aguardando consulta com oncologista<\/i><\/p>\n<p><i>Para come\u00e7ar quimioterapia.<\/i>&#8221;<\/p>\n<p>No in\u00edcio do ano, a Femama, que re\u00fane 72 entidades filantr\u00f3picas que apoiam mulheres com c\u00e2ncer de mama, colocou no ar uma p\u00e1gina intitulada &#8220;Relatos de Espera&#8221;, para que pacientes compartilhassem as dificuldades que tiveram para serem diagnosticadas e come\u00e7arem o tratamento.<\/p>\n<p>Entre as dezenas de mensagens est\u00e1 a de Cristiane, de Mangaratiba (RJ), enviada no dia 6 de fevereiro.<\/p>\n<p>Com mais ou menos adjetivos, as hist\u00f3rias s\u00e3o parecidas, e n\u00e3o por acaso: as defici\u00eancias do Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS), na vis\u00e3o de muitos especialistas, postergam diagn\u00f3stico e tratamento de milhares de mulheres em todo o Brasil e aprofundam as desigualdades entre ricas e pobres.<\/p>\n<p>Para especialistas como o mastologista Rodrigo Gon\u00e7alves, pesquisador da Faculdade de Medicina da Universidade de S\u00e3o Paulo (FMUSP), esse \u00e9 um ponto central na luta do pa\u00eds contra o c\u00e2ncer de mama, que tem atingido &#8211; e matado &#8211; cada vez mais mulheres no Brasil.<\/p>\n<p>Melhorar o acesso das mulheres ao SUS \u00e9 uma das principais recomenda\u00e7\u00f5es do paper\u00a0<i>Avalia\u00e7\u00e3o \u00e9tica do rastreamento de c\u00e2ncer de mama no Brasil<\/i>\u00a0para se fazer frente \u00e0s estat\u00edsticas negativas.<\/p>\n<p>O trabalho, que est\u00e1 sendo submetido a uma publica\u00e7\u00e3o internacional, \u00e9 assinado por ele e outros tr\u00eas colegas: Jos\u00e9 Maria Soares Jr, professor da Faculdade de Medicina da USP, Edmund Chada Baracat, pr\u00f3-reitor de Gradua\u00e7\u00e3o da USP, e Jos\u00e9 Roberto Filassi, professor chefe do setor de mastologia da FMUSP.<\/p>\n<p>O texto ressalta o n\u00famero elevado de diagn\u00f3sticos da doen\u00e7a em est\u00e1gio mais avan\u00e7ado. A propor\u00e7\u00e3o passa de 70%: 53,5% dos diagn\u00f3sticos s\u00e3o em est\u00e1gio 2 e 23,2% em est\u00e1gio 3, de acordo com os\u00a0<a class=\"story-body__link-external\" href=\"https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pubmed\/30738289\">dados do Estudo Amazona<\/a>, assinado por pesquisadores de 19 institui\u00e7\u00f5es e que leva em conta dados de pacientes atendidos pelas redes p\u00fablica e particular.<\/p>\n<p>Em pa\u00edses como Estados Unidos, por exemplo, 62% dos casos s\u00e3o detectados em est\u00e1gio inicial, quando os tumores ainda s\u00e3o localizados.<\/p>\n<p>O paper dos pesquisadores brasileiros ressalta que, se tomadas apenas as mulheres com acesso \u00e0 sa\u00fade privada, as propor\u00e7\u00f5es se invertem. A grande maioria recebe o diagn\u00f3stico no est\u00e1gio inicial da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Essa diferen\u00e7a, dizem, mostra como \u00e9 &#8220;perverso&#8221; o sistema &#8220;dual&#8221; de sa\u00fade no Brasil, em que quem tem condi\u00e7\u00f5es paga o sistema privado e quem n\u00e3o tem depende unicamente do SUS.<\/p>\n<p>Quanto mais tardio o diagn\u00f3stico, menores as chances de sobreviv\u00eancia da paciente e mais invasivo o tratamento &#8211; o n\u00famero de sess\u00f5es de quimio e radioterapia e a necessidade da retirada da mama, a mastectomia.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Um ano do n\u00f3dulo \u00e0 cirurgia<\/h2>\n<p>Cristiane da Silva Abreu realizou uma mastectomia radical com esvaziamento axilar no dia 26 de dezembro de 2018, quase um ano depois de descobrir um n\u00f3dulo abaixo do mamilo.<\/p>\n<p>Em busca de um diagn\u00f3stico, no come\u00e7o do ano passado ela procurou a ginecologista da rede privada com quem costumava fazer sua preven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sem plano de sa\u00fade, a carioca separava pelo menos R$ 300 por ano para tentar fugir da fila do SUS, pagar a consulta com especialista e alguns exames.<\/p>\n<p>Desta vez, a mamografia mostrou uma altera\u00e7\u00e3o do tipo bi-rads 4 na mama, que indica suspeita de malignidade e necessita de bi\u00f3psia para confirma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/8804\/production\/_109202843_cristianefilhos.jpg\" alt=\"Cristiane e os filhos, Gabriel, Rebeca e Raquel\" width=\"552\" height=\"310\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">Cristiane e os filhos, Gabriel, Rebeca e Raquel<\/figure>\n<p>Por conta da regi\u00e3o delicada em que se encontrava o n\u00f3dulo, o procedimento precisava ser cir\u00fargico &#8211; e n\u00e3o apenas por meio de uma pun\u00e7\u00e3o -, com retirada e reconstitui\u00e7\u00e3o do mamilo.<\/p>\n<p>Isso foi em mar\u00e7o. Abril, maio, junho, julho, agosto&#8230; A espera durou 6 meses &#8211; e poderia ter sido maior.<\/p>\n<p>Cristiane decidiu acionar um cunhado que trabalhava na Secretaria de Sa\u00fade de Mangaratiba e que intercedeu por ela junto \u00e0 secretaria da pasta, que transferiu seu caso para o hospital federal Cardoso Fontes.<\/p>\n<p>&#8220;Fiz a bi\u00f3psia e, na sa\u00edda do procedimento, a m\u00e9dica alertou que muito provavelmente eu precisaria fazer a mastectomia.&#8221;<\/p>\n<p>Foram mais tr\u00eas meses at\u00e9 a cirurgia, que retirou a mama esquerda e parte do m\u00fasculo peitoral. A reconstru\u00e7\u00e3o da mama seria delicada, demandaria uma s\u00e9rie de enxertos &#8211; e, por isso, ela decidiu que n\u00e3o faria.<\/p>\n<p>O relato de Cristiane \u00e9 o que abre este texto. Ao contr\u00e1rio do que a mensagem econ\u00f4mica nas palavras pode sugerir, ela \u00e9 uma dessas pacientes que tiram energia das dificuldades.<\/p>\n<p>Dando risada, contou na conversa por telefone com a reportagem que, para fazer valer a isen\u00e7\u00e3o ao IPTU \u00e0 qual tem direito, j\u00e1 que passou a ser considerada portadora de defici\u00eancia ap\u00f3s a cirurgia, chegou a &#8220;invadir&#8221; a prefeitura de Mangaratiba.<\/p>\n<p>&#8220;Fui no gabinete do prefeito e mostrei minha cicatriz&#8221;, diz a funcion\u00e1ria p\u00fablica, hoje com 47 anos.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/60F4\/production\/_109202842_cristiane.jpg\" alt=\"Cristiane da Silva Abreu mostra sua cicatriz\" width=\"896\" height=\"896\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Mesmo sendo paciente oncol\u00f3gica, a carioca tem tido dificuldade para marcar consulta com especialista<\/figure>\n<p>Cristiane n\u00e3o precisou fazer quimioterapia, como pensava em fevereiro de 2019. Por recomenda\u00e7\u00e3o m\u00e9dica, entretanto, tem de acompanhar de perto a outra mama. At\u00e9 hoje, por\u00e9m, n\u00e3o conseguiu uma consulta.<\/p>\n<p>&#8220;Liguei no come\u00e7o do ano e disseram que a agenda de 2019 j\u00e1 estava fechada.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Mais de 60 dias entre diagn\u00f3stico e tratamento<\/h2>\n<p>Para as pacientes do SUS, a espera para realiza\u00e7\u00e3o de uma bi\u00f3psia &#8211; fundamental para entender o tipo de c\u00e2ncer e as possibilidades de tratamento &#8211; leva entre 75 e 185 dias, conforme os\u00a0<a class=\"story-body__link-external\" href=\"https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pmc\/articles\/PMC6372296\/\">dados citados<\/a>\u00a0no trabalho de Gon\u00e7alves.<\/p>\n<p>O intervalo entre o diagn\u00f3stico do c\u00e2ncer de mama e o primeiro tratamento no SUS leva mais de 60 dias em mais de 50% dos casos, de acordo com os dados reunidos pelo Painel-Oncologia, do Instituto Nacional de C\u00e2ncer (INCA) at\u00e9 2017. Os n\u00fameros de 2018 apontam uma propor\u00e7\u00e3o ligeiramente menor, mas h\u00e1 um volume grande de casos sem informa\u00e7\u00e3o (cerca de 7%), ou seja, em que n\u00e3o se sabe o intervalo do diagn\u00f3stico ao tratamento.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape no-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/16E80\/production\/_109142839_adca0205-2c6a-4a21-980f-c57df93d720e.png\" alt=\"Gr\u00e1fico\" width=\"1280\" height=\"1136\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<p>A m\u00e9dica mastologista Maira Caleffi, presidente volunt\u00e1ria da Femama e chefe do servi\u00e7o de mastologia do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, lembra que uma lei aprovada em 2012 determina um prazo m\u00e1ximo de 60 dias para in\u00edcio do tratamento ap\u00f3s o diagn\u00f3stico.<\/p>\n<p>&#8220;Os gestores p\u00fablicos j\u00e1 est\u00e3o usando os 60 dias como indicador de efici\u00eancia, cobram dos hospitais &#8211; mas, como tudo no Brasil, as coisas demoram a mudar.&#8221;<\/p>\n<p>Agora, a entidade faz campanha pela aprova\u00e7\u00e3o da &#8220;Lei dos 30 dias&#8221;, que estabelece um prazo m\u00e1ximo de um m\u00eas para que a mulher consiga ser diagnosticada. O projeto passou pela C\u00e2mara em dezembro do ano passado e est\u00e1 parado no Senado.<\/p>\n<p>Caleffi conta que o PL j\u00e1 entrou e saiu da pauta algumas vezes e que agora est\u00e1 parado na Comiss\u00e3o de Finan\u00e7as e Tributa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Eles dizem que n\u00e3o tem dinheiro (no sistema p\u00fablico de sa\u00fade para garantir o diagn\u00f3stico em 30 dias)&#8221;, diz a m\u00e9dica, que defende pautas de interesse das pacientes com c\u00e2ncer de mama h\u00e1 26 anos.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">N\u00f3dulo de 14 cent\u00edmetros<\/h2>\n<p>A ga\u00facha Katia Lopes recebeu o primeiro diagn\u00f3stico de c\u00e2ncer de mama aos 28 anos, em 2006. A cidade de Tramanda\u00ed, onde vive, n\u00e3o tem m\u00e9dicos especialistas. Assim, ela fez todo o tratamento em Porto Alegre, a uma hora e quarenta de \u00f4nibus.<\/p>\n<p>Foi uma maratona.<\/p>\n<p>Para as sess\u00f5es de quimioterapia &#8211; que come\u00e7aram cerca de 8 meses depois de ela sentir o n\u00f3dulo no seio -, acordava de madrugada para chegar a tempo ao ponto de onde saia o transporte disponibilizado pela prefeitura, que partia \u00e0s 4h30 da manh\u00e3.<\/p>\n<p>Em 2015, quase dez anos depois da primeira mastectomia radical, ela sentiu um n\u00f3dulo na outra mama. O fato de j\u00e1 ser paciente oncol\u00f3gica n\u00e3o fez diferen\u00e7a na fila de espera do SUS: foram tr\u00eas meses at\u00e9 que conseguisse se consultar com a mastologista que a acompanhava.<\/p>\n<p>Outro diagn\u00f3stico de malignidade. O n\u00f3dulo cresceu r\u00e1pido e, quando ela foi operada, em 22 de janeiro de 2017, o tumor media 14 cent\u00edmetros.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1A7E\/production\/_109228760_planalto.jpg\" alt=\"Planalto com ilumina\u00e7\u00e3o cor de rosa\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>&#8216;Lei dos 30 dias&#8217;, que estabelece prazo m\u00e1ximo de um m\u00eas para o diagn\u00f3stico do c\u00e2ncer de mama, est\u00e1 parada no Congresso<\/figure>\n<p>Em 2006, a m\u00e9dica deu encaminhamento na prefeitura para que Katia fosse submetida a um teste gen\u00e9tico.<\/p>\n<p>O procedimento ajudaria a medir o risco de ela desenvolver c\u00e2ncer na outra mama ou em outras partes do corpo, mas at\u00e9 hoje n\u00e3o foi liberado.<\/p>\n<p>Katia conseguiu se aposentar por invalidez depois da primeira mastectomia, que foi bastante invasiva. Recentemente, entretanto, o pente fino que o INSS vem fazendo sobre aposentadorias por invalidez e aux\u00edlio doen\u00e7a cortou o benef\u00edcio.<\/p>\n<p>Ela entrou na Justi\u00e7a, mas perdeu a causa.<\/p>\n<p>H\u00e1 6 meses procura emprego, &#8220;alguma coisa que n\u00e3o seja pesada&#8221;, j\u00e1 que sente dores quando for\u00e7a o movimento dos bra\u00e7os.<\/p>\n<p>Seu advogado tenta garantir na Justi\u00e7a um aux\u00edlio de meio sal\u00e1rio m\u00ednimo por m\u00eas, que ela espera para ajudar a pagar as despesas de casa, com quem mora com o filho, de 25 anos.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;Fura fila&#8217;<\/h2>\n<p>As hist\u00f3rias de Cristiane e Katia, que foram diagnosticadas jovens, antes dos 50 anos, n\u00e3o s\u00e3o casos raros: 41,1% de todos os casos de c\u00e2ncer de mama no pa\u00eds atingem mulheres at\u00e9 essa idade, conforme os dados do Estudo Amazona, citados no trabalho do m\u00e9dico Rodrigo Gon\u00e7alves.<\/p>\n<p>Nos EUA, por exemplo, o percentual de diagn\u00f3sticos at\u00e9 os 54 anos de idade (par\u00e2metro adotado pelo National Cancer Institute) \u00e9 de 30,4%.<\/p>\n<p>O mastologista afirma que ainda &#8220;n\u00e3o existe nenhuma explica\u00e7\u00e3o s\u00f3lida sobre os motivos de termos mais mulheres jovens com c\u00e2ncer no Brasil&#8221;, mas chama aten\u00e7\u00e3o para o fato de que as diretrizes para o rastreamento da doen\u00e7a estabelecidas pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade recomendam a mamografia em mulheres entre 50 e 69 anos, a cada dois anos.<\/p>\n<p>&#8220;O Brasil est\u00e1 copiando as recomenda\u00e7\u00f5es de rastreamento de pa\u00edses desenvolvidos &#8211; e que n\u00e3o atendem a 41% da popula\u00e7\u00e3o afetada pela doen\u00e7a&#8221;, ressalta.<\/p>\n<p>A sugest\u00e3o dele e dos colegas, entretanto, n\u00e3o \u00e9 reduzir a idade de rastreamento &#8211; que representaria um custo elevado para o sistema de sa\u00fade sem necessariamente trazer benef\u00edcios na mesma propor\u00e7\u00e3o -, mas melhorar o acesso das mulheres ao SUS, especialmente aquelas com n\u00f3dulos palp\u00e1veis e les\u00f5es suspeitas.<\/p>\n<p>Nesses casos, eles recomendam que as pacientes tenham prioridade na fila para consulta e exames &#8211; o que j\u00e1 acontece em hospitais p\u00fablicos como o P\u00e9rola Byington, em S\u00e3o Paulo, exemplifica o m\u00e9dico.<\/p>\n<p>Segundo o mastologista Luiz Henrique Gebrim, diretor do P\u00e9rola Byington, 70% das mulheres com c\u00e2ncer diagnosticadas no SUS palparam o n\u00f3dulo &#8211; \u00e9 o que os m\u00e9dicos chamam de &#8220;<i>self detected cancer<\/i>&#8221; (&#8220;c\u00e2ncer autodetectado&#8221;).<\/p>\n<p>&#8220;Elas n\u00e3o precisam de mamografia, precisam de exame cl\u00ednico e bi\u00f3psia&#8221;, concorda.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/689E\/production\/_109228762_gettyimages-76946242.jpg\" alt=\"Mulher fazendo mamografia\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Antes de aumentar oferta de mamografia, Brasil precisa garantir que mulheres com sintomas ter\u00e3o acesso a consultas e exames de forma c\u00e9lere, dizem especialistas<\/figure>\n<p>Na unidade, que recebe os casos j\u00e1 triados, as pacientes s\u00e3o submetidas \u00e0 bi\u00f3psia no mesmo dia da consulta com o especialista. Detectado em est\u00e1gio inicial, a mortalidade do c\u00e2ncer de mama cai em at\u00e9 30%.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00f3s economizamos mais (porque reduzimos os tratamentos de alta complexidade) e salvamos mais gente.&#8221;<\/p>\n<p>Com apoio da funda\u00e7\u00e3o americana Susan Komen, o hospital est\u00e1 replicando seu modelo em outros Estados. Segundo Gebrim, j\u00e1 foram treinados cerca de 100 m\u00e9dicos em cidades como Manaus, Bel\u00e9m e Teresina.<\/p>\n<p>A diretora geral do Instituto Nacional de C\u00e2ncer (Inca), Ana Cristina Pinho, respondendo a questionamentos da reportagem enviados ao Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, afirmou que as \u00e1reas t\u00e9cnicas do instituto e a pasta defendem a hierarquiza\u00e7\u00e3o dos casos, para que as les\u00f5es suspeitas sejam verificadas de forma mais c\u00e9lere, e diz que a diretriz para o\u00a0<i>fast tra<\/i><i>ck<\/i>\u00a0j\u00e1 existe no SUS.<\/p>\n<p>&#8220;Na pr\u00e1tica ele n\u00e3o funciona a contento, de maneira organizada, estruturada. N\u00e3o \u00e9 isso que a gente v\u00ea. Precisa que a rede esteja funcionando mais adequadamente, e esse \u00e9 um trabalho a ser feito&#8221;, disse, por telefone.<\/p>\n<p>Segundo ela, j\u00e1 existem protocolos de encaminhamento r\u00e1pido nos casos suspeitos para investiga\u00e7\u00e3o diagn\u00f3stica na aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, que \u00e9 de compet\u00eancia dos munic\u00edpios.<\/p>\n<p>&#8220;Nada disso \u00e9 poss\u00edvel sem o envolvimento dos gestores municipais e estaduais. O SUS, na sua concep\u00e7\u00e3o, \u00e9 um sistema tripartite, que funciona necessariamente em rede. Se a rede n\u00e3o funciona, o sistema n\u00e3o vai funcionar.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Aumento da mortalidade<\/h2>\n<p>Questionada sobre o aumento da mortalidade do c\u00e2ncer de mama no Brasil, que muitos especialistas consideram em parte reflexo da dificuldade de acesso de muitas mulheres ao SUS, a diretora geral do INCA aponta outras raz\u00f5es &#8211; a maior longevidade do brasileiro, o aumento no n\u00famero de casos e de uma melhor &#8220;qualifica\u00e7\u00e3o e apura\u00e7\u00e3o das bases de dados&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;A incid\u00eancia do c\u00e2ncer de mama est\u00e1 aumentando na popula\u00e7\u00e3o, mas por qu\u00ea? Porque a nossa popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 vivendo mais. Ent\u00e3o \u00e9 um processo natural. A gente est\u00e1 seguindo a tend\u00eancia no mundo. Isso mostra avan\u00e7os, de um modo geral, para a sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o, proporcionado pela cobertura universal (do sistema de sa\u00fade).&#8221;<\/p>\n<p>Segundo ela, &#8220;a tend\u00eancia \u00e9 que a mortalidade, pelo menos durante um per\u00edodo, aumente. E, a partir de um determinado momento, ela comece a reduzir, na m\u00e9dia.&#8221;<\/p>\n<p>Ana Cristina Pinho tamb\u00e9m ressalta que a mortalidade, de forma geral, n\u00e3o aumentou de maneira proporcional ao aumento da incid\u00eancia, e que ela chegou a cair em algumas regi\u00f5es.<\/p>\n<p>No lan\u00e7amento da Campanha Outubro Rosa deste ano, a p\u00e1gina do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade destaca que a mortalidade no pa\u00eds est\u00e1 abaixo da m\u00e9dia global, em linha com a de pa\u00edses como Estados Unidos, Reino Unido e Fran\u00e7a, mas n\u00e3o menciona que ela est\u00e1 crescendo.<\/p>\n<p>O indicador passou de 9,15 por 100 mil habitantes para 12,11 por 100 mil entre 1980 e 2016 &#8211; alta de 32% -, conforme os dados da International Agency on Research on Cancer (Iarc), ligada \u00e0 Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade. A mesma base mostra que os pa\u00edses citados pela pasta em seu site t\u00eam reduzido a mortalidade desde meados dos anos 90.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape no-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/AF14\/production\/_109202844_aba92fba-33f4-4d77-a938-84e87cd60487.png\" alt=\"Gr\u00e1fico mortalidade do c\u00e2ncer de mama no Brasil\" width=\"1280\" height=\"1136\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape no-caption body-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1683C\/production\/_104602229_line976.jpg\" alt=\"L\u00ednea\" width=\"464\" height=\"2\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><br \/>\n<\/span><\/figure>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antes de aumentar oferta de mamografia, Brasil precisa garantir que mulheres com sintomas ter\u00e3o acesso a consultas e exames de forma c\u00e9lere, dizem especialistas<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":298303,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[6,11],"tags":[],"class_list":["post-298302","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-municipios","category-regional"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/mama.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/298302","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=298302"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/298302\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/298303"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=298302"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=298302"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=298302"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}