{"id":298499,"date":"2019-10-17T05:10:36","date_gmt":"2019-10-17T08:10:36","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=298499"},"modified":"2019-10-17T05:10:36","modified_gmt":"2019-10-17T08:10:36","slug":"mestre-no-seu-dia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/mestre-no-seu-dia\/","title":{"rendered":"Mestre, no seu dia"},"content":{"rendered":"<div class=\"td-post-header\">\n<header class=\"td-post-title\">\n<h1 class=\"entry-title\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<p class=\"td-post-sub-title\" style=\"text-align: justify;\"><em><strong>O mestre Arlindo Albuquerque era um homem de estatura baixa, quase obeso, atleta dos prazeres da boa mesa, prenhe no ventre e no esp\u00edrito do amor pelo conhecimento.<\/strong><\/em><\/p>\n<div class=\"td-module-meta-info\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"td-post-author-name\"><\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<\/div>\n<div class=\"td-post-sharing-top\" style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"td_social_sharing_article_top\" class=\"td-post-sharing td-ps-bg td-ps-notext td-post-sharing-style1 \">\n<div class=\"td-post-sharing-visible\">\n<div class=\"td-social-sharing-button td-social-sharing-button-js td-social-handler td-social-share-text\">\n<div class=\"td-social-but-text\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"td-social-but-icon\"><\/div>\n<div class=\"td-social-but-icon\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"td-post-content\">\n<div class=\"td-post-featured-image\" style=\"text-align: justify;\"><a class=\"td-modal-image\" href=\"https:\/\/jornalggn.com.br\/sites\/default\/files\/2019\/10\/mestre-no-seu-dia-por-urariano-mota-escola-antiga.jpg\" data-caption=\"\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"entry-thumb\" title=\"escola antiga\" src=\"https:\/\/jornalggn.com.br\/sites\/default\/files\/2019\/10\/mestre-no-seu-dia-por-urariano-mota-escola-antiga.jpg\" sizes=\"auto, (max-width: 690px) 100vw, 690px\" srcset=\"https:\/\/jornalggn.com.br\/sites\/default\/files\/2019\/10\/mestre-no-seu-dia-por-urariano-mota-escola-antiga.jpg 690w, https:\/\/jornalggn.com.br\/sites\/default\/files\/2019\/10\/mestre-no-seu-dia-por-urariano-mota-escola-antiga-300x198.jpg 300w, https:\/\/jornalggn.com.br\/sites\/default\/files\/2019\/10\/mestre-no-seu-dia-por-urariano-mota-escola-antiga-636x420.jpg 636w\" alt=\"\" width=\"690\" height=\"456\" \/><\/a><\/div>\n<h4 style=\"text-align: justify;\">P<strong>or Urariano Mota<\/strong><\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ontem, na s\u00e9rie \u201cSegunda chamada\u201d, no Dia dos Professores, houve este lindo depoimento da costureira Neide Santos, de 58 anos:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEu lembro que no meu primeiro texto que eu escrevi, eu escrevi professor com P mai\u00fasculo. O professor corrigiu o meu texto, e a\u00ed veio me perguntar. A\u00ed eu disse pra ele que como eu escrevo m\u00e3e com M mai\u00fasculo, eu tamb\u00e9m escrevo professor com P mai\u00fasculo\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse depoimento me arrancou do meu let\u00e1rgico canto. Ent\u00e3o a\u00ed vai, Neide Santos, esta mem\u00f3ria homenagem a um professor com P mai\u00fasculo, que publiquei no Dicion\u00e1rio Amoroso do Recife:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Professor Arlindo, mestre de escola p\u00fablica<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O velho Arlindo, como ainda o chamamos, sem a percep\u00e7\u00e3o de que temos hoje a mesma idade que o velho possu\u00eda quando \u00e9ramos adolescentes, o mestre Arlindo Albuquerque era um homem de estatura baixa, quase obeso, atleta dos prazeres da boa mesa, prenhe no ventre e no esp\u00edrito do amor pelo conhecimento. Ele era um apaixonado ao nos ensinar l\u00edngua portuguesa, humanismo e franc\u00eas. Eu o vejo a caminhar na sala, com a dic\u00e7\u00e3o precisa, mais de uma vez com o entusiasmo na voz, a conversar conosco de igual para igual, quero dizer, de igual para a altura do seu humanismo. Lembro agora o que antes n\u00e3o sab\u00edamos, um fen\u00f4meno misterioso, um estranho efeito de mimese: o seu rosto se assemelhava ao de Sartre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De \u00e2nimo sempre alto, quase at\u00e9 o del\u00edrio, era como se o cotidiano para ele fosse uma continua\u00e7\u00e3o imediata, sem transi\u00e7\u00e3o, dos seus ideais. Da\u00ed que ele chegasse a ser esquisito, da\u00ed que ele fosse tomado quase como um lun\u00e1tico, at\u00e9 mesmo pelo c\u00edrculo mais \u00edntimo, da fam\u00edlia. A sua esposa nos contava, quando aos domingos \u00edamos \u00e0 sua casa para almo\u00e7ar, para comer e beber alimentos e li\u00e7\u00f5es, ela nos contava que o professor subia nos \u00f4nibus a cantar a Marselhesa, n\u00e3o em voz baixa, mas, esquecido de si, em voz alta, com um sorriso nos l\u00e1bios, a cumprimentar, a dividir com as pessoas do povo o hino da revolu\u00e7\u00e3o francesa. Mal satisfeito do alheamento, nessa outra forma de aliena\u00e7\u00e3o que \u00e9 a de n\u00e3o estar est\u00fapido como todos em volta, certa vez ele \u201csocializou\u201d os gomos de um peda\u00e7o de jaca com que se deliciava um menino pobre. Alertado pela mulher, apressou-se em pagar a injusta desapropria\u00e7\u00e3o. Com pedidos de desculpa e de permiss\u00e3o para comer mais.<\/p>\n<div class=\"code-block code-block-1\" style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"jornalggn_horizontal_2\" class=\"ggnads adv-dfp-google\"><\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Que maravilha \u00e9 a sua jaca, meu filho. Que cheiro, que sabor! Vamos, voc\u00ea me vende mais um pouco?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esquecido de si, algumas alunas diziam que o professor \u00e0s vezes se encontrava, quando ao dissertar sobre um autor fundamental, um samba, um compositor, um poema, encoberto por uma bata azul, \u00f3culos de lente espessa, o que lhe dava um ar de erudito nos tr\u00f3picos, punha-se a remexer e a co\u00e7ar os test\u00edculos, perdido no enlevo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 \u201cAquele aperto de m\u00e3o n\u00e3o foi adeus. A nossa separa\u00e7\u00e3o n\u00e3o convenceu\u2026\u201d. Notem a letra deste samba. Como \u00e9 lindo. Percebam\u2026 (E os dedos iam e vinham no alumbramento.)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00c9 sintom\u00e1tico como os nossos olhos veem num ser aquilo que \u00e9 conforme a nossa natureza. Entre as alunas que foram atingidas pelo calor do seu esp\u00edrito, o professor n\u00e3o \u00e9 lembrado por esse livre costume, que distra\u00eddo exibia em p\u00fablico. Ju\u00e7ara, de beleza morena, com o seu porte de mocinha \u00edndia, se viva estivesse, dele evocaria o professor que a chamava de \u201cpequenininha\u201d. Concei\u00e7\u00e3o, Nazirdes, do Carmo, onde estiverem no Brasil, dele falar\u00e3o como o mestre que as saudava a partir das leituras que em p\u00e9 faziam em voz alta. \u201cGrande, Magn\u00edfico\u201d, ele lhes dizia. At\u00e9 mesmo Solange, a perdi\u00e7\u00e3o de sensualidade, ou mais precisamente de coxas, que ela exibia generosa, dele afirmar\u00e1 que era um mestre incorrupt\u00edvel, pior que Robespierre:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Dona Solange, sente-se direito! Isto n\u00e3o s\u00e3o modos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00f3s, os meninos, dele podemos dizer que era o mestre s\u00f3 poss\u00edvel de acompanhar com os nossos queixos erguidos, para melhor v\u00ea-lo. Apreend\u00ea-lo. Para n\u00e3o perder na sala um s\u00f3 momento seu, com os nossos olhos e ouvidos despertos. Por mim, posso dizer que ele me deu um conselho fundamental, que \u00e0s vezes consigo cumprir: \u201cseja mais pessoal\u201d, ele escreveu \u00e0 margem de um texto em que eu imitava o estilo precioso de Jos\u00e9 de Alencar. Que coisa mais feia, ele poderia dizer, de onde voc\u00ea copiou isso, menino?, poderia perguntar. Mas foi mais longe que um reparo, um conserto, uma censura ocasional \u2013 passou um ideal de cria\u00e7\u00e3o: \u201cseja pessoal\u201d, o que significava: escreva conforme a sua experi\u00eancia e \u00edndole, menino. A outro, ele pediu que o acompanhasse at\u00e9 a sala dos professores. E l\u00e1, diante do nosso colega intimidado, que estava com medo de uma reprimenda, de um castigo, o mestre pediu humilde:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Por favor, n\u00e3o me fa\u00e7a mais perguntas dif\u00edceis. Voc\u00ea me pergunta coisas que v\u00e3o al\u00e9m da minha capacidade. Eu sou apenas um professor, compreenda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que mentira. Ele era apenas esta coisa rara, um professor de radical honestidade. Porque ele poderia com duas ou tr\u00eas cita\u00e7\u00f5es destruir qualquer impertin\u00eancia, mencionar autores sobre os quais nem sonh\u00e1vamos, mandar-nos de volta para o lugar de estudantes pobres em come\u00e7o de forma\u00e7\u00e3o intelectual. Ou mesmo brandir amea\u00e7as de notas em provas de persegui\u00e7\u00e3o, como os professores med\u00edocres executavam e executam, aprisionavam e aprisionam o esp\u00edrito de alunos mais rebeldes at\u00e9 hoje. Em lugar disso, ele nos escolhia como o p\u00fablico ideal para ouvir Jean-Jacques Rousseau. Acreditam nisso, meninos pobres em uma escola p\u00fablica a ouvir um mestre em voz alta nos contar sobre o prazer de andar a p\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cJe n\u2019ai pas besoin de choisir des chemins tout faits, des routes commodes; je passe partout o\u00f9 un homme peut passer; je vois tout ce qu\u2019un homme peut voir; et, ne d\u00e9pendant que de moi-m\u00eame, je jouis de toute la libert\u00e9 dont un homme peut jouir\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois voltava para o livro de Marcel Debrot, Le fran\u00e7ais au gymnase. Com frequ\u00eancia, muitas vezes repetimos um mesmo texto, pois ele nos mandava ler este gozo: \u201cSur la libert\u00e9 de la conscience\u201d. Eram anos de ditadura, sab\u00edamos, e comentava-se, aos murm\u00farios, que o professor em 1964 fora espancado, preso, porque fizera parte da dire\u00e7\u00e3o do Servi\u00e7o Social contra o Mocambo. O texto no livro de Marcel Debrot vinha sempre a calhar, e era em estado de \u00eaxtase que o mestre nos fazia ler \u201cSobre a liberdade da consci\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Vejam a beleza. Repitam esta frase. O t\u00edtulo \u00e9 uma coisa extraordin\u00e1ria \u2014 e silabava em ritmo lento \u201csur la libert\u00e9 de la conscience\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E l\u00edamos, e pass\u00e1vamos pela Revolu\u00e7\u00e3o Francesa: \u201cLe peuple, que se croyait de plus em plus trahi, se porta em masse \u00e0 l\u2019Hotel des Invalides\u201d\u2026. Essas coisas agora retornam como uma can\u00e7\u00e3o, como se fossem m\u00fasica, ainda que do franc\u00eas eu mal consiga conjugar os verbos Avoir e \u00catre. Agora mesmo sou capaz de recordar as primeiras linhas de um texto cujo t\u00edtulo era Ma M\u00e8re, que assim come\u00e7ava: \u201cPose tes mains fra\u00efches sur mes tempes. L\u00e0, oui, quel repos! Il me semble revivre les temps\u2026\u201d. Eu lia essa frase e olhava para os lados, para n\u00e3o me flagrarem atingido no cora\u00e7\u00e3o, porque envergonhado eu me encontrava diante do abalo desconcertante que me invadia. Pose tes mains fra\u00efches sur mes tempes. L\u00e0, oui, quel repos!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse franc\u00eas a gente lembra porque uma li\u00e7\u00e3o mais funda vinha naquelas aulas do professor Arlindo Albuquerque. Em lugar da conjuga\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica de verbos ele nos legava um valor permanente de humanidade. Sem trombetas, de bata azul, em um sub\u00farbio que hoje chamam de perif\u00e9rico, de nome \u00c1gua Fria, ningu\u00e9m nunca nos falou t\u00e3o bem sobre a felicidade que \u00e9 a liberdade de consci\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*Vermelho\u00a0<a href=\"http:\/\/www.vermelho.org.br\/noticia\/324146-1\">http:\/\/www.vermelho.org.br\/noticia\/324146-1<\/a><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mestre Arlindo Albuquerque era um homem de estatura baixa, quase obeso, atleta dos prazeres da boa mesa, prenhe no ventre e no esp\u00edrito do amor pelo conhecimento.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":273681,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1175,6],"tags":[],"class_list":["post-298499","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-educacao","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/assembleia-dos-professores-boa.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/298499","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=298499"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/298499\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/273681"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=298499"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=298499"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=298499"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}