{"id":298986,"date":"2019-10-21T15:29:54","date_gmt":"2019-10-21T18:29:54","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=298986"},"modified":"2019-10-21T15:29:54","modified_gmt":"2019-10-21T18:29:54","slug":"tudo-o-que-voce-precisa-saber-para-entender-o-que-esta-acontecendo-no-chile","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/tudo-o-que-voce-precisa-saber-para-entender-o-que-esta-acontecendo-no-chile\/","title":{"rendered":"Tudo o que voc\u00ea precisa saber para entender o que est\u00e1 acontecendo no Chile"},"content":{"rendered":"<div class=\"container\">\n<h1 style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<p class=\"description\" style=\"text-align: justify;\"><em><strong>A f\u00faria popular \u00e9 enorme e n\u00e3o parece que diminuir\u00e1 t\u00e3o cedo. O governo n\u00e3o tem outra resposta al\u00e9m da repress\u00e3o. J\u00e1 s\u00e3o 9 mil militares distribu\u00eddos pelas cidades ocupadas. Enquanto escrevo essas linhas, escuto gritos, tiros e bombas ao lado de fora do lugar onde estou.<\/strong><\/em><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"load-image\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"img-responsive center-block wp-post-image lazyloaded\" src=\"https:\/\/revistaforum.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/chile-e1570742565976.jpg\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"471\" data-lazy-src=\"https:\/\/revistaforum.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/chile-e1570742565976.jpg\" data-was-processed=\"true\" \/><\/p>\n<div class=\"wp-caption-text\">Foto: Fech\/Divulga\u00e7\u00e3o<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"marginbottom\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div class=\"container\">\n<div class=\"row\">\n<div class=\"col-lg-8 col-md-8 col-sm-12 col-xs-12\">\n<div class=\"author\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"pull-left\"><\/div>\n<div class=\"pull-right socials\"><i class=\"fa fa-facebook-official\" aria-hidden=\"true\"><\/i>\u00a0<i class=\"fa fa-twitter-square\" aria-hidden=\"true\"><\/i>\u00a0<i class=\"fa fa-whatsapp\" aria-hidden=\"true\"><\/i><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"text\">\n<div class=\"code-block code-block-7\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Ot\u00e1vio Calegari*<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como muitos j\u00e1 est\u00e3o acompanhando, h\u00e1 uma verdadeira rebeli\u00e3o popular em curso no Chile. O pa\u00eds que era o exemplo sul-americano de estabilidade e modernidade explodiu.<\/p>\n<div class=\"code-block code-block-33\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div class=\"code-block code-block-1\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quero contar um pouco de como est\u00e3o as coisas por aqui desde o in\u00edcio da rebeli\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na semana passada o governo anunciou um aumento da passagem dos \u00f4nibus e metr\u00f4s de Santiago. O aumento anunciado foi de 30 pesos, mais ou menos 4 centavos de d\u00f3lar. Um valor irris\u00f3rio, se n\u00e3o fosse s\u00f3 a ponta do iceberg. No entanto, o buraco \u00e9 mais embaixo, como dizemos no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Chile foi um dos ber\u00e7os ou laborat\u00f3rios do que se conhece como neoliberalismo. Aqui, desde a ditadura de Pinochet, todo o plano econ\u00f4mico dos neoliberais da Escola de Chicago foi implementado desde fins da d\u00e9cada de 1970. A maioria dos servi\u00e7os p\u00fablicos foi privatizada. As universidades p\u00fablicas s\u00e3o todas pagas. No Brasil, temos a ideia de que algo p\u00fablico \u00e9 gratuito, mas isso n\u00e3o \u00e9 assim em v\u00e1rios pa\u00edses. No Chile, uma mensalidade em uma universidade p\u00fablica pode custar mais do que em uma universidade privada. Como os sal\u00e1rios das fam\u00edlias s\u00e3o muito baixos (mais de 50% da popula\u00e7\u00e3o vive com menos de sal\u00e1rio m\u00ednimo), as fam\u00edlias n\u00e3o t\u00eam dinheiro para pagar as mensalidades. Isso gerou, h\u00e1 anos, um enorme problema de endividamento dos estudantes e de suas fam\u00edlias. Aqui, um estudante que termina seu curso universit\u00e1rio e pode passar 10 ou 15 anos pagando os empr\u00e9stimos que tomou.<\/p>\n<div class=\"code-block code-block-34\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sa\u00fade p\u00fablica tamb\u00e9m \u00e9 paga. N\u00e3o existe um SUS. Os hospitais p\u00fablicos s\u00e3o ca\u00f3ticos, todos os anos morrem milhares de pessoas nas filas de espera. Quem tem dinheiro para pagar um plano de sa\u00fade privado acaba comprometendo grande parte de sua renda nisso, j\u00e1 que os planos n\u00e3o cobrem todos os gastos de atendimento hospital\u00e1rio, interna\u00e7\u00f5es, cirurgias, etc. Se uma pessoa fica doente e se salva, seguramente sair\u00e1 com uma enorme d\u00edvida que ter\u00e1 que pagar pelos pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n<div class=\"code-block code-block-2\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os direitos trabalhistas foram destru\u00eddos pela ditadura. A jornada de trabalho \u00e9 de 45 horas, as f\u00e9rias s\u00e3o de 15 dias, os trabalhadores t\u00eam meia hora de almo\u00e7o. A maioria dos sindicatos n\u00e3o t\u00eam nenhum poder de negocia\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que dentro de uma mesma empresa \u00e9 permitida a exist\u00eancia de muitos sindicatos do mesmo setor (dentro de uma mina, por exemplo, podem existir 20 ou 30 sindicatos). O resultado disso \u00e9 que os patr\u00f5es fazem o que querem. A possibilidade de rea\u00e7\u00e3o dos trabalhadores \u00e9 pequena. E quando h\u00e1 sindicatos fortes, est\u00e3o na m\u00e3o de burocratas que defendem mais os patr\u00f5es do que os trabalhadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das heran\u00e7as mais nefastas da ditadura \u00e9 o sistema de aposentadorias. Todo o sistema \u00e9 privado. A aposentadoria dos trabalhadores \u00e9 administrada pelas AFPs, Administradoras dos Fundos de Pens\u00e3o. S\u00e3o empresas privadas que utilizam a enorme quantidade de recursos que \u00e9 descontada todos os meses dos sal\u00e1rios dos trabalhadores para lucrar. O dinheiro das aposentadorias \u00e9 utilizado para financiar os neg\u00f3cios dos pr\u00f3prios empres\u00e1rios, comprar a\u00e7\u00f5es de empresas, etc. Os pr\u00f3prios donos das AFPs, que tamb\u00e9m s\u00e3o donos de muitas outras empresas, bancos, seguradoras, etc., utilizam esse dinheiro para financiar, com baix\u00edssimas taxas de juros, seus outros neg\u00f3cios. \u00c9 uma mina de ouro. Esse \u00e9 o modelo de capitaliza\u00e7\u00e3o individual que Bolsonaro e Guedes quiseram implementar j\u00e1 com essa Reforma da Previd\u00eancia no Brasil. Ainda n\u00e3o conseguiram, mas o projeto vir\u00e1 logo mais. Trata-se de destruir o sistema p\u00fablico (INSS) para que as empresas privadas administrem o dinheiro acumulado pelos trabalhadores. A l\u00f3gica das AFPs \u00e9 nefasta. Essa enorme soma de recursos \u00e9 investida no mercado. Se h\u00e1 ganhos, isso fica pros acionistas das AFPs, se h\u00e1 perdas, esse dinheiro \u00e9 retirado da aposentadoria dos trabalhadores. E o pior, a maioria dos trabalhadores se aposenta com menos de 30% do que recebia antes. Isso explica em grande parte o enorme aumento do n\u00famero de suic\u00eddios de idosos na \u00faltima d\u00e9cada.<\/p>\n<div class=\"code-block code-block-35\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos \u00faltimos anos milh\u00f5es de chilenos sa\u00edram \u00e0s ruas de forma pac\u00edfica contra as AFPs e defendendo a volta de um sistema p\u00fablico de aposentadorias (como o nosso INSS). A resposta dos governos (de \u201cesquerda\u201d e de direita) foi fazer promessas e n\u00e3o mudar nenhuma v\u00edrgula. Agora, pior, o governo de Pi\u00f1era (atual presidente) mandou ao Congresso uma reforma que entrega ainda mais dinheiro para as empresas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas principais empresas do pa\u00eds, a explora\u00e7\u00e3o \u00e9 brutal. O Chile \u00e9 o maior produtor de cobre do mundo. Os mineiros, com um longo hist\u00f3rico de lutas, e suas fam\u00edlias, sofrem diariamente as consequ\u00eancias mais nefastas da minera\u00e7\u00e3o \u2013 as doen\u00e7as pulmonares (como a silicose), doen\u00e7as musculares, psicol\u00f3gicas, etc. Muitos mineiros trabalham longe de suas casas, em turnos de 10\/10 (10 dias de trabalho, 10 de descanso), o que os leva a ter uma din\u00e2mica familiar muito dif\u00edcil e penosa.<\/p>\n<div class=\"code-block code-block-3\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">A situa\u00e7\u00e3o do principal povo origin\u00e1rio, os mapuches, \u00e9 dram\u00e1tica. H\u00e1 s\u00e9culos esse povo vem resistindo \u00e0s ofensivas dos empres\u00e1rios e do Estado para tomar suas terras, que se concentram principalmente na regi\u00e3o sul (a mais f\u00e9rtil) do pa\u00eds. H\u00e1 s\u00e9culos h\u00e1 uma verdadeira guerra contra os mapuches.<\/p>\n<div class=\"code-block code-block-36\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dito tudo isso, agora podemos voltar ao aumento da passagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na semana passada, ent\u00e3o, o governo decidiu aumentar o pre\u00e7o da passagem. Um trabalhador ou uma trabalhadora que toma dois metr\u00f4s por dia pode chegar a gastar em um m\u00eas, 1\/6 do sal\u00e1rio m\u00ednimo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O aumento, claro, n\u00e3o foi bem recebido. Nos dias seguintes ao an\u00fancio, muitos estudantes secundaristas come\u00e7aram a convocar \u201cpulas-catracas\u201d nos metr\u00f4s. O movimento se massificou. O governo respondeu dizendo que n\u00e3o ia diminuir o pre\u00e7o da passagem e colocou a pol\u00edcia nas esta\u00e7\u00f5es de metr\u00f4. Da\u00ed pra frente a coisa foi piorando. Muitos v\u00eddeos mostram a pol\u00edcia jogando bombas de g\u00e1s lacrimog\u00eanio dentro das esta\u00e7\u00f5es, crian\u00e7as vomitando, m\u00e3es chorando, policiais empurrando estudantes pelas escadas. Obviamente o efeito dessas a\u00e7\u00f5es foi o aumento das manifesta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<div class=\"code-block code-block-37\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div class=\"code-block code-block-4\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na sexta-feira (18) o governo militarizou completamente as esta\u00e7\u00f5es, diante das convocat\u00f3rias massivas dos estudantes. No hor\u00e1rio de pico de sa\u00edda dos trabalhadores, 18h-19h, o governo resolveu fechar as esta\u00e7\u00f5es para evitar os pulas-catracas. Essa decis\u00e3o fez com que milhares de trabalhadores n\u00e3o pudessem voltar \u00e0s suas casas e tivessem que caminhar. Isso gerou manifesta\u00e7\u00f5es espont\u00e2neas em v\u00e1rias partes da cidade. Na sexta a noite, os conflitos mais violentos come\u00e7aram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em todos os bairros come\u00e7aram os protestos e confrontos com a pol\u00edcia. De noite, a coisa j\u00e1 tinha se generalizado. Em todas os bairros da capital j\u00e1 havia protestos. As fam\u00edlias se somaram \u00e0 juventude. A pol\u00edcia reprimiu e reprimiu. A revolta tomou um car\u00e1ter mais violento. Nessa noite, 16 esta\u00e7\u00f5es de metr\u00f4 e um enorme edif\u00edcio da empresa de energia Enel (localizado na principal avenida de Santiago) foram queimados, houve saques em alguns supermercados e barricadas por toda a cidade. A pol\u00edcia j\u00e1 n\u00e3o conseguia mais controlar as manifesta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na noite de sexta-feira, diante de uma enorme rebeli\u00e3o popular, o governo anuncia o Estado de Emerg\u00eancia na cidade, restringindo os direitos a manifesta\u00e7\u00e3o e reuni\u00f5es e passando o controle da cidade \u00e0s m\u00e3os de um general. As For\u00e7as Armadas s\u00e3o autorizadas a ocupar a cidade. Mais de 300 pessoas s\u00e3o presas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A interven\u00e7\u00e3o das For\u00e7as Armadas jogou ainda mais lenha na fogueira. Aqui h\u00e1 uma enorme raiva de amplos setores sociais contra as For\u00e7as Armadas pelo papel que tiveram na ditadura \u2013 os milhares de torturados, assassinados e desaparecidos. A maioria dos militares envolvidos nesses casos nunca foi punida.<\/p>\n<div class=\"code-block code-block-5\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">A noite de sexta-feira foi de conflitos e barricadas. N\u00e3o sab\u00edamos como iria amanhecer o dia seguinte. A presen\u00e7a das For\u00e7as Armadas seguramente intimidaria os manifestantes, pensava o governo. Nada mais equivocado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No s\u00e1bado a cidade amanheceu com panela\u00e7os e conflitos em praticamente todos os setores populares e alguns bairros de classe-m\u00e9dia. Os conflitos agora n\u00e3o eram s\u00f3 com os policiais, mas com as pr\u00f3prias For\u00e7as Armadas. Ontem (s\u00e1bado), os protestos se expandiram para todo o pa\u00eds, de norte a sul, de Arica a Magallanes. O governo decretou estado de Emerg\u00eancia em Valpara\u00edso (cidade portu\u00e1ria com longa trajet\u00f3ria de lutas) e Concepci\u00f3n (uma das principais cidades do Sul). Em Santiago, muitos supermercados de grandes empresas (Wallmart, por exemplo) foram saqueados ou queimados. Em um dos inc\u00eandios, tr\u00eas pessoas morreram queimadas. Muitas farm\u00e1cias e grandes lojas foram saqueadas. Sobre os saques, h\u00e1 cenas muito interessantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitos deles foram protagonizados por fam\u00edlias e pela popula\u00e7\u00e3o em geral. Em um v\u00eddeo que circula pela internet \u00e9 poss\u00edvel ver um jovem l\u00fampen que sai carregando uma enorme televis\u00e3o. Os trabalhadores que organizavam a barricada, ao ver o jovem saindo com a televis\u00e3o, tomam-na de suas m\u00e3os e a atiram na fogueira da barricada. O televisor come\u00e7a a arder em chamas. Os alimentos saqueados, em v\u00e1rios lugares, foram repartidos pelos trabalhadores presentes nas barricadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O processo \u00e9 totalmente espont\u00e2neo e sem dire\u00e7\u00e3o. Os partidos tradicionais n\u00e3o conseguem control\u00e1-lo. O governo est\u00e1 perdido. Ontem, teve que retroceder e declarou a revoga\u00e7\u00e3o do aumento da passagem. Ao mesmo tempo, o general encarregado de Santiago, anunciou um toque de recolher a partir das 22h. Nada poderia enfurecer ainda mais a popula\u00e7\u00e3o, que saiu \u00e0s ruas massivamente ap\u00f3s o toque de recolher e passou a noite nas barricadas enfrentando-se com a pol\u00edcia e o ex\u00e9rcito. Os protestos ganharam muito apoio popular, apesar da campanha dos grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o para criminalizar os \u201cv\u00e2ndalos\u201d que estavam queimando os metr\u00f4s e saqueando os supermercados. Entre os trabalhadores se armou tamb\u00e9m um grande debate sobre as t\u00e1ticas que devem ser utilizadas no movimento, j\u00e1 que a destrui\u00e7\u00e3o do transporte p\u00fablico ou outros espa\u00e7os p\u00fablicos seguramente acabar\u00e1 significando uma perda para a pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o. Mas a raiva foi incontrol\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os v\u00eddeos da brutalidade policial e do ex\u00e9rcito circulam sem parar. Ontem, a cidade de Valpara\u00edso, uma das mais combativas do pa\u00eds, foi completamente ocupada por tropas do ex\u00e9rcito. Os conflitos se estenderam por toda a noite de ontem. Muitos panela\u00e7os foram realizados de norte a sul do pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje o dia amanheceu relativamente tranquilo. Alguns \u00f4nibus circulavam por Santiago. O aeroporto, no entanto, n\u00e3o funcionou. Muitos voos foram cancelados, o que est\u00e1 gerando um colapso. Logo no in\u00edcio da manh\u00e3 come\u00e7aram as concentra\u00e7\u00f5es nas pra\u00e7as e outros lugares p\u00fablicos. Na emblem\u00e1tica Plaza It\u00e1lia, o conflito com o ex\u00e9rcito e a pol\u00edcia n\u00e3o pararam um minuto. Mais inc\u00eandios, mais saques, muitas barricadas. O governo novamente anunciou o toque de recolher para as 19h (h\u00e1 duas horas).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um novo fen\u00f4meno come\u00e7ou a aparecer. Grupos armados de traficantes ou relacionados com a pr\u00f3pria pol\u00edcia come\u00e7am a assustar as popula\u00e7\u00f5es mais combativas, atacar feiras e outros pequenos neg\u00f3cios. H\u00e1 not\u00edcias de corte de \u00e1gua em v\u00e1rios lugares de Santiago. Os v\u00eddeos da brutalidade das For\u00e7as Armadas n\u00e3o param de circular. Se ainda n\u00e3o h\u00e1 nenhum assassinado pelas for\u00e7as militares ou paramilitares, essa \u00e9 uma possibilidade grande nas pr\u00f3ximas horas ou dias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A f\u00faria popular \u00e9 enorme e n\u00e3o parece que diminuir\u00e1 t\u00e3o cedo. O governo n\u00e3o tem outra resposta al\u00e9m da repress\u00e3o. J\u00e1 s\u00e3o 9 mil militares distribu\u00eddos pelas cidades ocupadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto escrevo essas linhas, escuto gritos, tiros e bombas ao lado de fora do lugar onde estou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bem-vindos ao Chile, um o\u00e1sis de modernidade e estabilidade da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>*Liga Internacional dos Trabalhadores (litci.org)<\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A situa\u00e7\u00e3o do principal povo origin\u00e1rio, os mapuches, \u00e9 dram\u00e1tica. H\u00e1 s\u00e9culos esse povo vem resistindo \u00e0s ofensivas dos empres\u00e1rios e do Estado para tomar suas terras, que se concentram principalmente na regi\u00e3o sul (a mais f\u00e9rtil) do pa\u00eds. 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