{"id":299604,"date":"2019-10-27T11:39:24","date_gmt":"2019-10-27T14:39:24","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=299604"},"modified":"2019-10-27T11:39:24","modified_gmt":"2019-10-27T14:39:24","slug":"a-epoca-em-que-o-imperador-japones-era-mais-venerado-no-brasil-do-que-no-japao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/a-epoca-em-que-o-imperador-japones-era-mais-venerado-no-brasil-do-que-no-japao\/","title":{"rendered":"A \u00e9poca em que o imperador japon\u00eas era mais venerado no Brasil do que no Jap\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\"><\/h1>\n<div class=\"byline\"><span class=\"byline__name\">Jo\u00e3o Fellet\u00a0<\/span><\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/13F9B\/production\/_109291818_hiroshito.jpg\" alt=\"Hirohito\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">O imperador Hirohito em visita feita em 1935 ao santu\u00e1rio xinto\u00edsta Yasukuni (T\u00f3quio), que honra soldados japoneses mortos em guerra<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">Quando as r\u00e1dios do Jap\u00e3o come\u00e7aram a transmitir um discurso do imperador Hirohito em 1\u00ba de janeiro de 1946, a derrota do pa\u00eds na Segunda Guerra Mundial (1939-1945) estava prestes a ganhar uma dimens\u00e3o espiritual.<\/p>\n<p>&#8220;Os la\u00e7os que nos unem a v\u00f3s, nossos s\u00faditos, n\u00e3o s\u00e3o o resultado da mitologia ou de lendas. N\u00e3o se baseiam jamais no conceito de que o imperador \u00e9 deus ou qualquer outra divindade viva&#8221;, disse o monarca.<\/p>\n<p>A declara\u00e7\u00e3o, uma imposi\u00e7\u00e3o dos vencedores do conflito, marcava o fim do per\u00edodo em que o Estado japon\u00eas encarou o culto ao imperador como parte de sua religi\u00e3o oficial. Encerrava-se um ciclo iniciado em 1868, quando o imperador Meiji unificou o Jap\u00e3o e imp\u00f4s a cren\u00e7a de que sua fam\u00edlia descendia de Amaterasu, deusa xinto\u00edsta do sol.<\/p>\n<p>N\u00e3o bastasse terem perdido tr\u00eas milh\u00f5es de pessoas na guerra, os japoneses subitamente perderam um deus.<\/p>\n<p>O discurso do imperador, por\u00e9m, n\u00e3o teve o mesmo impacto entre compatriotas que viviam do outro lado do mundo, no Brasil \u2014 e que hoje formam a maior popula\u00e7\u00e3o de origem japonesa fora do Jap\u00e3o, com cerca de 1,5 milh\u00e3o de integrantes.<\/p>\n<p>Com pouco acesso a not\u00edcias em japon\u00eas e em sua maioria moradores de \u00e1reas rurais, muitos imigrantes se recusaram a acreditar que o Jap\u00e3o havia perdido a guerra e continuaram a tratar Hirohito como uma divindade v\u00e1rios anos ap\u00f3s o conflito.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/F17B\/production\/_109291816_familia_real_1997_sjp.jpg\" alt=\"Imperador do Jap\u00e3o no Brasil\" width=\"573\" height=\"349\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">Fam\u00edlia imperial japonesa \u00e9 saudada por imigrantes japoneses em S\u00e3o Jos\u00e9 dos Pinhais (PR), em 1997<\/figure>\n<p>Mais do que isso: japoneses que contestassem essa vers\u00e3o podiam ser perseguidos ou mortos por grupos radicais.<\/p>\n<p>Parte da comunidade se lembrar\u00e1 desse per\u00edodo nesta ter\u00e7a-feira (22\/3), quando o imperador Naruhito \u2014 neto de Hirohito \u2014 for entronizado em T\u00f3quio aos olhos de autoridades de v\u00e1rios pa\u00edses, entre os quais o presidente Jair Bolsonaro. E se a cerim\u00f4nia poder\u00e1 evocar mem\u00f3rias dolorosas para alguns, ela poder\u00e1 reavivar sentimentos nacionalistas para outros.<\/p>\n<p>&#8220;Entre fam\u00edlias de imigrantes japoneses no Brasil se nota mais respeito pela figura do imperador do que entre as fam\u00edlias no Jap\u00e3o hoje&#8221;, diz \u00e0 BBC News Brasil Ricardo M\u00e1rio Gon\u00e7alves, professor de Religi\u00e3o e Pensamento Japon\u00eas da USP.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alves diz que, em casas de imigrantes da primeira gera\u00e7\u00e3o (os chamados &#8220;issei&#8221;), era comum encontrar fotografias de membros da fam\u00edlia imperial. &#8220;O tradicionalismo ficou mais vivo aqui, ao passo que o choque da derrota na guerra acabou por elimin\u00e1-lo da mentalidade do povo japon\u00eas, a n\u00e3o ser em setores ligados \u00e0 extrema direita nacionalista&#8221;, afirma o professor.<\/p>\n<p>O monarca japon\u00eas hoje n\u00e3o tem poder pol\u00edtico, embora exer\u00e7a uma diplomacia imperial e seja visto como um representante do povo japon\u00eas no exterior. Segundo Gon\u00e7alves, a maioria dos japoneses v\u00ea o imperador como uma figura folcl\u00f3rica, e n\u00e3o religiosa \u2014 ainda que o trono siga associado ao xinto\u00edsmo.<\/p>\n<p>Todos os anos, por exemplo, o imperador cultiva arroz nos jardins de seu pal\u00e1cio num ritual que busca garantir fertilidade aos solos de todo o Jap\u00e3o. E sacerdotes xinto\u00edstas t\u00eam papel central nos ritos de entroniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/3213\/production\/_109291821_shinto_tokyo.jpg\" alt=\"Xinto\u00edsmo\" width=\"768\" height=\"512\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Sacerdotes xinto\u00edstas conduzem cerim\u00f4nia em T\u00f3quio<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Deuses e for\u00e7as sobre-humanas<\/h2>\n<p>Considerada a principal religi\u00e3o origin\u00e1ria do Jap\u00e3o, o xinto\u00edsmo remonta \u00e0 pr\u00e9-hist\u00f3ria do pa\u00eds. Xint\u00f4 quer dizer &#8220;caminho dos kami&#8221;, termo que costuma ser traduzido como &#8220;deuses&#8221;, mas tamb\u00e9m pode se referir a poderes ou for\u00e7as sobre-humanas, como ventos, tempestades, montanhas ou \u00e1rvores com poder sagrado.<\/p>\n<p>Mortos tamb\u00e9m podem ser considerados &#8220;kami&#8221;. No passado, conta Gon\u00e7alves, muitos pol\u00edticos ilustres que morriam eram divinizados por seus pr\u00f3prios advers\u00e1rios, que temiam ser amaldi\u00e7oados pelos esp\u00edritos inimigos.<\/p>\n<p>Hoje o xinto\u00edsmo sobrevive no Jap\u00e3o mesclado a outras religi\u00f5es e pr\u00e1ticas. &#8220;\u00c9 dif\u00edcil falar em seguidores do xinto\u00edsmo ou do budismo, porque os japoneses conservam as cren\u00e7as muito misturadas&#8221;, diz o professor.<\/p>\n<p>&#8220;Tudo que diz respeito \u00e0 fecundidade, ao nascimento, ao crescimento e \u00e0 prosperidade \u00e9 considerado da al\u00e7ada dos kami, venerados nos santu\u00e1rios xinto\u00edstas, enquanto tudo que envolve morte, funeral e homenagens p\u00f3stumas est\u00e1 na al\u00e7ada do budismo.&#8221;<\/p>\n<p>Uma das cerim\u00f4nias xinto\u00edstas ligadas \u00e0 fertilidade que geram mais curiosidade no Ocidente \u00e9 o Festival do Falo de A\u00e7o, no qual homens vestidos como mulheres carregam esculturas de p\u00eanis gigantes pelas ruas de Kawasaki, no primeiro domingo de abril.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption body-narrow-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/304\/cpsprodpb\/14F9F\/production\/_109291958_imperador.jpg\" alt=\"casal imperial japon\u00eas\" width=\"425\" height=\"278\" data-highest-encountered-width=\"304\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption body-narrow-width\">Retratos do imperador Hirohito e da imperatriz Kojun eram comuns em casas de imigrantes japoneses no Brasil<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Xinto\u00edsmo de estado<\/h2>\n<p>Embora hoje convivam em relativa harmonia, o xinto\u00edsmo e o budismo j\u00e1 travaram embates. Nos s\u00e9culos 13 e 14, autoridades japonesas come\u00e7aram a sistematizar doutrinas xinto\u00edstas para tentar frear o avan\u00e7o do budismo, visto como uma influ\u00eancia estrangeira indesej\u00e1vel.<\/p>\n<p>At\u00e9 que, na Era Meiji (1867-1912), surgiu o &#8220;xinto\u00edsmo de estado&#8221; \u2014 uma &#8220;constru\u00e7\u00e3o totalmente artificial promovida por l\u00edderes modernizantes que pretendiam criar uma ideologia nacionalista para unir o povo em torno de s\u00edmbolos que representassem o novo Jap\u00e3o&#8221;, segundo Gon\u00e7alves.<\/p>\n<p>O xinto\u00edsmo de estado chegou ao Brasil com os imigrantes japoneses, que come\u00e7aram a aportar no pa\u00eds em 1908 para trabalhar em fazendas de caf\u00e9 e n\u00facleos rurais. Traziam incutido um forte nacionalismo, associado ao culto ao imperador e a um senso de origem comum.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/15F3F\/production\/_109291998_bauru_mi_ico_amp_001_003_002_001.jpg\" alt=\"Imigrantes japoneses em Bauru\" width=\"1432\" height=\"1068\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Oitava reuni\u00e3o dos clubes japoneses da regi\u00e3o noroeste de S\u00e3o Paulo, em Bauru, em 1940<\/figure>\n<p>&#8220;O Estado japon\u00eas n\u00e3o foi transplantado para o Brasil, mas os trabalhadores migrantes japoneses (<i>dekasegi<\/i>) no Brasil, educados em escolas do in\u00edcio do s\u00e9culo 20, mantiveram a religiosidade do xint\u00f4 imperial mesmo depois da Segunda Guerra Mundial&#8221;, diz Rafael Shoji, PhD em Ci\u00eancia da Religi\u00e3o pela Universidade Leibniz de Hannover (Alemanha), em artigo no Japanese Journal of Religious Studies, em 2008.<\/p>\n<p>Essa religiosidade se expressava principalmente por uma venera\u00e7\u00e3o difusa de Hirohito, j\u00e1 que, at\u00e9 a d\u00e9cada de 1930, os imigrantes s\u00f3 haviam constru\u00eddo dois santu\u00e1rios xinto\u00edstas no Brasil: um em Promiss\u00e3o (SP) e outro em Bastos (SP).<\/p>\n<p>Em compensa\u00e7\u00e3o, templos budistas da comunidade exibiam retratos do imperador e tabuletas com os nomes de seus antecessores \u2014 pr\u00e1ticas exigidas no Jap\u00e3o pr\u00e9-guerra que cruzaram os mares. O nacionalismo tamb\u00e9m era cultivado nas escolas erguidas pelos imigrantes. L\u00e1 os jovens aprendiam o &#8220;yamato-damashii&#8221; \u2014 literalmente o &#8220;esp\u00edrito japon\u00eas&#8221;, ou modo de ser do povo.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Brasil declara guerra ao Eixo<\/h2>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/A743\/production\/_109291824_shindo.jpg\" alt=\"Shindo Renmei\" width=\"624\" height=\"351\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Shindo Renmei difundia a vers\u00e3o de que o Jap\u00e3o havia ganhado a Segunda Guerra e perseguia divergentes<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Em 1942, por\u00e9m, o Brasil entrou na Segunda Guerra, e as escolas japonesas foram fechadas. Os imigrantes nip\u00f4nicos se tornaram alvo de uma s\u00e9rie de a\u00e7\u00f5es repressivas: tiveram dep\u00f3sitos banc\u00e1rios congelados, seus jornais deixaram de circular e foram at\u00e9 proibidos de falar sua l\u00edngua em p\u00fablico.<\/p>\n<p>Foi nesse contexto que um grupo de imigrantes fundou o Shindo Renmei (Liga do Caminho dos S\u00faditos). Liderada por Junji Kikawa, coronel que havia lutado na guerra Russo-Japonesa (1904-1905), a organiza\u00e7\u00e3o buscava refor\u00e7ar o v\u00ednculo entre os imigrantes e o imp\u00e9rio do Jap\u00e3o, garantindo a transmiss\u00e3o dos valores nip\u00f4nicos aos descendentes nascidos no Brasil.<\/p>\n<p>O grupo encarava sua presen\u00e7a no Brasil como tempor\u00e1ria. A comunidade deveria, portanto, preservar sua coes\u00e3o e cultura para suavizar a mudan\u00e7a de volta ao Jap\u00e3o ou sua instala\u00e7\u00e3o definitiva em col\u00f4nias japonesas no Pac\u00edfico.<\/p>\n<p>No livro\u00a0<i>Cora\u00e7\u00f5es Sujos<\/i>, que trata da hist\u00f3ria do Shindo Renmei, o escritor Fernando Morais diz que a entidade chegou a ter 100 mil doadores e 60 mil simpatizantes no Brasil. Os n\u00fameros, atribu\u00eddos a documentos da pol\u00edcia, equivalem a metade da comunidade japonesa no pa\u00eds \u00e0 \u00e9poca.<\/p>\n<p>Entre 1946 e 1947, a organiza\u00e7\u00e3o perseguiu imigrantes que tentavam esclarecer os compatriotas sobre a derrota do Jap\u00e3o na guerra, chamados de &#8220;makegumi&#8221; (derrotistas). O grupo matou 23 pessoas e feriu cerca de 150 em atentados em S\u00e3o Paulo e no Paran\u00e1.<\/p>\n<p>Os integrantes do Shindo Renmei divulgavam que o Jap\u00e3o havia ganhado a guerra, fraudando cartas e documentos que comprovariam essa vers\u00e3o.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/8033\/production\/_109291823_xinto.jpg\" alt=\"Juni Kikawa\" width=\"831\" height=\"717\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">O coronel Juni Kikawa, que liderou o Shindo Renmei, com quimono xinto\u00edsta (\u00e0 esq.) e com traje militar (\u00e0 dir.)<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;Meio balde de sangue&#8217;<\/h2>\n<p>Em 2018,\u00a0<a class=\"story-body__link\" href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/internacional-46321448\">a imigrante Aiko Higuchi descreveu \u00e0 BBC News Brasil<\/a>\u00a0o ataque do Shindo Renmei que matou seu pai, Ikuta Mizobe, na \u00e9poca gerente da cooperativa agr\u00edcola em Bastos (SP).<\/p>\n<p>&#8220;Meu pai tinha sa\u00eddo para dar uma olhada nas orqu\u00eddeas e fechar o port\u00e3o, que meu irm\u00e3o mais novo sempre deixava aberto&#8221;, disse Aiko. &#8220;Ent\u00e3o ele foi ao banheiro, atr\u00e1s da casa. Dois homens estavam escondidos. Quando ele estava fechando a porta, eles atiraram. Minha m\u00e3e ouviu os tiros e saiu, e viu dois homens fugindo no cavalo.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Mam\u00e3e falou depois: nunca imaginou que tinha tanto sangue no corpo&#8221;, diz Aiko, misturando japon\u00eas e portugu\u00eas. &#8220;Ela limpou meio balde de sangue.&#8221;<\/p>\n<p>Segundo dados citados em &#8220;Cora\u00e7\u00f5es Sujos&#8221;, 31.380 imigrantes japoneses foram presos por suspeitas de conex\u00e3o com o Shindo Renmei, e 14 cumpriram pena por homic\u00eddio.<\/p>\n<p>Para identificar simpatizantes da organiza\u00e7\u00e3o, policiais costumavam exigir que eles pisassem no retrato do imperador ou na bandeira japonesa. A pr\u00e1tica, conhecida entre os japoneses como &#8220;fumie&#8221;, era considerada mais humilhante do que torturas f\u00edsicas. Quem se recusava a pisar nas figuras se tornava suspeito automaticamente.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/6927\/production\/_109291962_colonia_hirano_national_diet_library_japan.jpg\" alt=\"Escola japonesa na col\u00f4nia Hirano\" width=\"649\" height=\"447\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">Escola japonesa na col\u00f4nia Hirano, em Cafel\u00e2ndia (SP), em 1938; institui\u00e7\u00f5es transmitiam valores nip\u00f4nicos aos filhos dos imigrantes<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Curandeirismo e pr\u00e1ticas m\u00e1gicas<\/h2>\n<p>O nacionalismo entre imigrantes japoneses esfriou conforme as novas gera\u00e7\u00f5es se tornaram cada vez mais integradas ao Brasil.<\/p>\n<p>Masato Ninomiya, professor de Direito Internacional da USP nascido no Jap\u00e3o, diz \u00e0 BBC que fam\u00edlias nip\u00f4nicas no Brasil hoje veem o imperador como um personagem simb\u00f3lico, sem qualquer poder espiritual.<\/p>\n<p>Ele diz que alguns templos e organiza\u00e7\u00f5es xinto\u00edstas sobrevivem no pa\u00eds, mas perderam o la\u00e7o com o monarca e se voltaram principalmente a rituais ligados ao nascimento e envelhecimento.<\/p>\n<p>H\u00e1, ainda, grupos formados por japoneses de tend\u00eancia xinto\u00edsta que se dedicam ao curandeirismo e a pr\u00e1ticas m\u00e1gicas, incorporando elementos do universo religioso brasileiro, como o espiritismo e a umbanda.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1111F\/production\/_109291996_familia.jpg\" alt=\"Senjiro Hatanaka\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Imigrantes fizeram do Brasil o pa\u00eds com a maior popula\u00e7\u00e3o de origem japonesa fora do Jap\u00e3o; comunidade tem hoje cerca de 1,5 milh\u00e3o de membros, como a fam\u00edlia Senjiro Hatanaka, retratada em 1944<\/figure>\n<p>Ninomiya diz que a sobrevida que o xinto\u00edsmo imperial teve no Brasil v\u00e1rios anos ap\u00f3s o fim da Segunda Guerra gera curiosidade entre os japoneses.<\/p>\n<p>Ele cita uma emissora de TV japonesa que, em 1972, levou ao Jap\u00e3o uma fam\u00edlia de imigrantes nip\u00f4nicos que vivia no Brasil e ainda acreditava, quase tr\u00eas d\u00e9cadas depois da guerra, que os japoneses haviam vencido o conflito.<\/p>\n<p>&#8220;Os jornalistas mostraram cidades que tinham sido bombardeadas e foram reconstru\u00eddas, mostraram as ferrovias, as estradas \u2014 o Jap\u00e3o moderno que havia surgido no lugar do pa\u00eds arrasado&#8221;, conta o professor.<\/p>\n<p>&#8220;Depois de rodar o pa\u00eds, eles perguntaram \u00e0 fam\u00edlia se ainda acreditavam que o Jap\u00e3o havia vencido a guerra. O pai respondeu que era \u00f3bvio que sim, afinal, se o Jap\u00e3o tivesse perdido a guerra, eles n\u00e3o estariam vendo toda aquela prosperidade.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Ali os jornalistas perceberam que n\u00e3o adiantava insistir, que aquela vis\u00e3o n\u00e3o era racional. Era uma quest\u00e3o de f\u00e9, de cren\u00e7a&#8221;, afirma.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escola japonesa na col\u00f4nia Hirano, em Cafel\u00e2ndia (SP), em 1938; institui\u00e7\u00f5es transmitiam valores nip\u00f4nicos aos filhos dos imigrantes<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":299606,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-299604","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/imperador-japones.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/299604","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=299604"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/299604\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/299606"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=299604"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=299604"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=299604"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}