{"id":299760,"date":"2019-10-29T03:08:54","date_gmt":"2019-10-29T06:08:54","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=299760"},"modified":"2019-10-29T03:08:54","modified_gmt":"2019-10-29T06:08:54","slug":"o-arquivo-brasileiro-que-reuniu-tatuagens-de-todo-o-mundo-em-uma-prisao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/o-arquivo-brasileiro-que-reuniu-tatuagens-de-todo-o-mundo-em-uma-prisao\/","title":{"rendered":"O arquivo brasileiro que reuniu tatuagens de todo o mundo em uma pris\u00e3o"},"content":{"rendered":"<header class=\"col desktop_12 tablet_8 mobile_4\">\n<div id=\"article_header\" class=\"article-header basic | \">\n<h1 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark \" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<h2 class=\"font_secondary color_gray_dark \" style=\"text-align: justify;\">O acervo do Museu Penitenci\u00e1rio Paulista inclui fotografias e fichas detalhadas dos desenhos sobre a pele de presos locais e trazidos pela onda migrat\u00f3ria do in\u00edcio do s\u00e9culo XX<\/h2>\n<\/div>\n<figure class=\"lead_art |  \" style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"width_full\" src=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/resizer\/ktJs_R7zEOKHzWM5ua4EsvHhLbo=\/1500x0\/smart\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/XBJLRQLYYTNVCQYRPVHGT6SHKY.jpg\" alt=\"V\u00e1rias imagens das tatuagens de prisioneiros brasileiros e estrangeiros da cole\u00e7\u00e3o do museu.\" \/><figcaption class=\"color_gray_medium border_bottom border_1 border_gray padding_vertical text_align_right\">V\u00e1rias imagens das tatuagens de prisioneiros brasileiros e estrangeiros da cole\u00e7\u00e3o do museu.<span class=\"color_black margin_left uppercase light\">LELA BELTR\u00c3O<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<section class=\"share-bar | border_bottom border_5\">\n<div class=\"content | border_bottom border_1 padding_bottom flex\n              justify_space_between relative\"><\/p>\n<div class=\"flex container_row social-icons  horizontal  \"><\/div>\n<div class=\"flex container_row social-icons right-links horizontal  \"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<div style=\"text-align: justify;\" data-fusion-collection=\"features\" data-fusion-type=\"article\/lead-art\"><\/div>\n<div class=\"article_byline | margin_bottom_lg  \" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"authors flex flex_wrap \"><span class=\"margin_bottom uppercase flex align_items_center \"><a class=\"color_black\" title=\"Ver todas as not\u00edcias de Naiara Galarraga Gort\u00e1zar\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/naiara_galarraga_gortazar\/a\/\">NAIARA GALARRAGA GORT\u00c1ZAR<\/a><\/span><\/p>\n<div class=\"flex container_row social-icons margin_left horizontal  small\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"article | col desktop_8 tablet_8 mobile_4\">\n<section class=\"article_body | color_gray_dark\">\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">No in\u00edcio do s\u00e9culo XX, o espanhol Manuel H. R. posou para um fot\u00f3grafo em uma pris\u00e3o em S\u00e3o Paulo. Era uma cobaia. O psiquiatra brasileiro Jos\u00e9 de Mello Moraes registrou os dados pessoais do preso e os de sua\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/tatuaje\" data-link-track-dtm=\"\">tatuagem<\/a>. O querubim no bra\u00e7o esquerdo do ajudante do pedreiro nascido em 1895 foi estampado na Pensilv\u00e2nia (EUA). Era obra de um tatuador italiano, por sua vez tatuado, que usou tinta azul. Como era relevante para o m\u00e9dico, tamb\u00e9m sabemos que foi preso por roubo, que era reincidente e agn\u00f3stico. Mas n\u00e3o se sabe o que o levou ao Brasil ou quando chegou, detalhes irrelevantes para o pesquisador. Esta \u00e9 uma das 2.600 fichas detalhadas do mais importante arquivo de tatuagens do Brasil, atesourado por Mello. Com fotografias feitas entre 1920 e 1940 para a \u201cse\u00e7\u00e3o de Medicina e Criminologia\u201d do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/masacre_carandiru\" data-link-track-dtm=\"\">complexo penitenci\u00e1rio do Carandiru<\/a>, o acervo \u00e9 conservado desde ent\u00e3o no Museu Penitenci\u00e1rio Paulista constru\u00eddo l\u00e1 mesmo.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">A historiadora Silvana Jeha passou muitas semanas folheando com luvas de l\u00e1tex as fichas dos 26 volumes durante a pesquisa para seu livro\u00a0<em>Uma Hist\u00f3ria da Tatuagem no Brasil<\/em>, que acaba de publicar. \u201cEste arquivo \u00e9 importante porque, nos anos vinte e trinta, grandes ondas de imigrantes de todo o mundo e do Nordeste do Brasil chegaram a S\u00e3o Paulo. \u00c9 por isso que aqui vemos tatuagens do Jap\u00e3o, da S\u00edria, da It\u00e1lia, dos franceses da Arg\u00e9lia, da Bahia&#8230;\u201d, explicava em uma sexta-feira de outubro no museu a pesquisadora \u00e0 qual o interesse pela hist\u00f3ria mar\u00edtima a levou aos marinheiros, e estes aos desenhos para embelezar a pele.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">A pris\u00e3o nasceu como laborat\u00f3rio de experimentos vanguardistas e programas de reinser\u00e7\u00e3o, como lembra o chefe do arquivo, o historiador William Santiago. Entre os ilustres visitantes daquela \u00e9poca, o antrop\u00f3logo\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/claude_levi_strauss\" data-link-track-dtm=\"\">Claude L\u00e9vi-Strauss<\/a>\u00a0e uma filha de Mussolini. Mas o Carandiru entrou na hist\u00f3ria brasileira como o cen\u00e1rio do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/06\/14\/politica\/1497471277_080723.html\" data-link-track-dtm=\"\">pior massacre de pris\u00e3o da hist\u00f3ria do Brasil<\/a>\u00a0\u2014em 1992 a pol\u00edcia matou 111 presos para reprimir uma revolta\u2014, o que tamb\u00e9m projetou a fac\u00e7\u00e3o criminosa mais poderosa do pa\u00eds,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/pcc_primeiro_comando_capital\" data-link-track-dtm=\"\">o Primeiro Comando da Capital (PCC)<\/a>.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">O interesse do doutor Mello pela pele dos presos ia al\u00e9m da documenta\u00e7\u00e3o. Seguia os passos do italiano Cesare Lombroso, autor de\u00a0<em>O Homem Delinquente<\/em>\u00a0e pai de uma escola da criminologia que h\u00e1 um s\u00e9culo considerava que o comportamento criminoso obedecia a caracter\u00edsticas f\u00edsicas ou marcas do delinquente. Esses supostos cientistas afirmavam que a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2015\/11\/13\/politica\/1447439643_374264.html\" data-link-track-dtm=\"\">miscigena\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0predispunha ao crime. Nesse contexto, surgiu uma documenta\u00e7\u00e3o minuciosa das tatuagens dos prisioneiros.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Jeha explica que as penitenci\u00e1rias se tornaram laborat\u00f3rios e a fotografia, um instrumento fundamental. Ali cristalizou a iconografia do delinquente, lembra a pesquisadora, que insiste que a tatuagem deve ser descriminalizada. \u201c\u00c9 uma manifesta\u00e7\u00e3o da cultura popular, como o samba ou o funk\u201d. E destaca que o Carandiru \u00e9 o lugar onde os protagonistas deste arquivo se encontraram, mas suas tatuagens mostram uma diversidade que vai muito al\u00e9m daqueles muros e torres.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Naqueles anos, as autoridades atra\u00edram imigrantes de todo o mundo. A maioria das pessoas retratadas era branca, cat\u00f3lica; muitos assassinos, muitas vezes reincidentes, como mostram as fichas. Os agricultores abundavam, mas como o psiquiatra escreveu, tamb\u00e9m havia 12 barbeiros&#8230; e tr\u00eas acrobatas! \u201cPor imita\u00e7\u00e3o\u201d, responderam quase todos \u00e0 pergunta \u201cpor qu\u00ea?\u201d. Esses presos eram cobaias, se expressavam com pouca ou nenhuma liberdade.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">No conjunto proliferam os \u201camor de m\u00e3e\u201d, as silhuetas de mulheres nuas, os nomes femininos \u2014Rita, Antonieta&#8230;\u2014 os crucifixos, as virgens desenhadas \u00e0s vezes com um tra\u00e7o firme, \u00e0s vezes hesitante, alguns minimalistas, outros elaborad\u00edssimos. O arquivo tamb\u00e9m deixa entrever algumas hist\u00f3rias que dariam para uma s\u00e9rie, como a data (1880) em que o cat\u00f3lico italiano Cesare C. se desenhou nas falanges da m\u00e3o direita como lembran\u00e7a da \u00faltima vez que pisou em uma igreja. Ele fez isso em um templo em seu pa\u00eds muito antes de chegar ao Brasil ou ser condenado por assassinato.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Ou a do encanador Leonid G., da Let\u00f4nia, preso por roubo, que consumiu tr\u00eas fichas para suas nove tatuagens, todas feitas por marinheiros, incluindo um gale\u00e3o de tr\u00eas mastros e o rosto de um \u00edndio da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/norteamerica\" data-link-track-dtm=\"\">Am\u00e9rica do Norte<\/a>. As primeiras foram feitas quando tinha 14 anos em uma taberna em Riga (\u201cbotequim\u201d, anotou o m\u00e9dico); as seguintes aos 17 anos em um cais em Montevid\u00e9u (Uruguai). Globaliza\u00e7\u00e3o nos anos trinta. Ou o barbeiro Antonio, a quem outro preso fez no peito uma ef\u00edgie de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do pa\u00eds sul-americano.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Os brasileiros adoram tatuagens. Caminhar pelas praias do Rio ou viajar no metr\u00f4 de S\u00e3o Paulo equivale a presenciar um mostru\u00e1rio infinito de obras de arte (e alguns servi\u00e7os malfeitos) em corpos que, como o clima ajuda, exibem muita pele. Tatuar-se atr\u00e1s das grades era (e \u00e9) proibido no Brasil por motivos de higiene. Mas isso nunca impediu que os corpos de muitos desses presos fossem decorados por outro preso com rudimentares instrumentos artesanais, inclusive alguns el\u00e9tricos, expostos neste museu, que depende da Secretaria de Assuntos Penitenci\u00e1rios de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<\/section>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A historiadora Silvana Jeha passou muitas semanas folheando com luvas de l\u00e1tex as fichas dos 26 volumes durante a pesquisa para seu livro\u00a0Uma Hist\u00f3ria da Tatuagem no Brasil, que acaba de publicar. \u201cEste arquivo \u00e9 importante porque, nos anos vinte e trinta, grandes ondas<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":299761,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-299760","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/tatuagem-boa.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/299760","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=299760"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/299760\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/299761"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=299760"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=299760"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=299760"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}