{"id":302249,"date":"2019-11-21T05:35:28","date_gmt":"2019-11-21T08:35:28","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=302249"},"modified":"2019-11-21T05:35:28","modified_gmt":"2019-11-21T08:35:28","slug":"laurentino-gomes-infelizmente-a-historia-da-escravidao-e-contada-por-pessoas-brancas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/laurentino-gomes-infelizmente-a-historia-da-escravidao-e-contada-por-pessoas-brancas\/","title":{"rendered":"Laurentino Gomes: \u201cInfelizmente, a hist\u00f3ria da escravid\u00e3o \u00e9 contada por pessoas brancas\u201d"},"content":{"rendered":"<header class=\"col desktop_12 tablet_8 mobile_4\">\n<div id=\"article_header\" class=\"article-header basic | \">\n<h1 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark \"><\/h1>\n<h2 class=\"font_secondary color_gray_dark \"><em>Autor do livro \u2018Escravid\u00e3o\u2019, jornalista diz que depoimentos e biografias sobre o tema s\u00e3o raras. Passado escravocrata manteve os negros na pobreza no Brasil, e requer segunda aboli\u00e7\u00e3o, ele defende<\/em><\/h2>\n<\/div>\n<figure class=\"lead_art |  \"><img decoding=\"async\" class=\"width_full\" src=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/resizer\/1RbLq769VIxVpeqRazjoSL99W58=\/1500x0\/smart\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/T7ORPYCJOM5HFHZZDC7JKDUJGQ.jpg\" alt=\"O escritor Laurentino Gomes, autor do livro 'Escravid\u00e3o'\" \/><figcaption class=\"color_gray_medium border_bottom border_1 border_gray padding_vertical text_align_right\">O escritor Laurentino Gomes, autor do livro &#8216;Escravid\u00e3o&#8217;<span class=\"color_black margin_left uppercase light\">L.BELTR\u00c3O<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<section class=\"share-bar | border_bottom border_5\">\n<div class=\"content | border_bottom border_1 padding_bottom flex\n              justify_space_between relative\"><\/p>\n<div class=\"flex container_row social-icons  horizontal  \"><\/div>\n<div class=\"flex container_row social-icons right-links horizontal  \"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<div data-fusion-collection=\"features\" data-fusion-type=\"article\/lead-art\"><\/div>\n<div class=\"article_byline | margin_bottom_lg  \">\n<div class=\"authors flex flex_wrap \"><span class=\"margin_bottom uppercase flex align_items_center margin_right\"><a class=\"color_black\" title=\"Ver todas as not\u00edcias de Guilherme Henrique\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/guilherme_henrique_costa_e_silva\/a\/\">GUILHERME HENRIQUE<\/a><\/span><span class=\"color_gray_medium_lighter margin_right\">|<\/span><span class=\"margin_bottom uppercase flex align_items_center \"><a class=\"color_black\" title=\"Ver todas as not\u00edcias de Naiara Galarraga Gort\u00e1zar\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/naiara_galarraga_gortazar\/a\/\">NAIARA GALARRAGA GORT\u00c1ZAR<\/a><\/span><\/p>\n<div class=\"flex container_row social-icons margin_left horizontal  small\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"\">\n<div class=\"place_and_time | uppercase color_gray_medium_lighter \"><span class=\"capitalize |  color_black\">S\u00e3o Paulo<\/span>\u00a020 NOV 2019 &#8211; 19:54\u00a0<abbr title=\"Bras\u00edlia time\">BRT<\/abbr><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"article | col desktop_8 tablet_8 mobile_4\">\n<section class=\"article_body | color_gray_dark\">\n<p class=\"\">A escravid\u00e3o existe desde o in\u00edcio da hist\u00f3ria humana, mas s\u00f3 atingiu uma escala industrial quando colonos europeus levaram \u00e0 for\u00e7a 12,5 milh\u00f5es de africanos para a Am\u00e9rica. O resultado desse processo \u00e9 que, pela primeira vez, a cor negra da pele se torna sin\u00f4nimo de sujeito escravizado. As duas constata\u00e7\u00f5es est\u00e3o no livro\u00a0<i>Escravid\u00e3o<\/i>, de Laurentino Gomes, c<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2013\/11\/19\/cultura\/1384887693_963093.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">onhecido pelos best-sellers\u00a0<i>1808<\/i>,\u00a0<i>1822<\/i>\u00a0e\u00a0<i>1889<\/i><\/a>. Se na primeira trilogia o autor reconstituiu a constru\u00e7\u00e3o institucional do Brasil nos anos que antecederam a proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, a nova pesquisa se debru\u00e7ou sobre a forma\u00e7\u00e3o social do pa\u00eds. &#8220;Se voc\u00ea quiser entender o Brasil em uma dimens\u00e3o mais profunda, precisa estudar a escravid\u00e3o. Tudo que\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/11\/15\/politica\/1573826930_913787.html?rel=arc_articulo#1574278371419\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">fomos no passado, o que somos hoje\u00a0<\/a>e que n\u00f3s gostar\u00edamos de ser no futuro tem a ver com a escravid\u00e3o&#8221;, afirmou ao EL PA\u00cdS, em uma livraria em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p class=\"\">O legado da escravid\u00e3o, que perdurou por mais de 300 anos e trouxe ao pa\u00eds cerca de 5 milh\u00f5es de negros e negras, deixou sequelas profundas. O autor afirma que o Brasil\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/11\/15\/politica\/1573824412_841710.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">precisa de uma\u00a0<i>segunda aboli\u00e7\u00e3o<\/i>,\u00a0<\/a>&#8220;j\u00e1 que a maioria da popula\u00e7\u00e3o pobre \u00e9 negra, sem acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e empregos decentes&#8221;, diz.<\/p>\n<p class=\"\">Laurentino tamb\u00e9m defende que pa\u00edses que utilizaram m\u00e3o de obra escrava devam pedir perd\u00e3o, ainda que a quest\u00e3o seja pol\u00eamica. &#8220;\u00c9 uma quest\u00e3o de honestidade, algo simb\u00f3lico, porque foi um massacre, uma trag\u00e9dia humanit\u00e1ria de grandes propor\u00e7\u00f5es. Agora, tenho d\u00favida se seria poss\u00edvel pagar essa d\u00edvida. Hoje, na \u00c1frica, h\u00e1 uma elite que \u00e9 herdeira militar beneficiada pelo tr\u00e1fico de escravos, aliado aos europeus. O rei Ashanti, em Gana, era fornecedor de cativos para ingleses e holandeses. Quem vai indenizar quem?&#8221;, questiona.<\/p>\n<blockquote class=\"quote quote_block | font_secondary border border_1 border_solid border_gray_dark border-box pull_right\">\n<div>\u201cO pa\u00eds abandonou sua popula\u00e7\u00e3o afrodescedente \u00e0 pr\u00f3pria sorte\u201d<\/div>\n<\/blockquote>\n<p class=\"\"><b>Pergunta.<\/b>\u00a0Voc\u00ea aprendeu mais com a trilogia feita anteriormente ou com esse livro?<\/p>\n<p class=\"\"><b>Resposta.<\/b>\u00a0Com essa trilogia. A trilogia anterior me ajudou a entender o Brasil do ponto de vista burocr\u00e1tico, institucional, legal, ou seja, como foi a constru\u00e7\u00e3o do estado brasileiro durante o s\u00e9culo XIX depois do rompimento dos v\u00ednculos com Portugal. S\u00e3o tr\u00eas datas \u00edcones: 1808, que \u00e9 a chegada da corte fugindo das tropas de Napole\u00e3o Bonaparte e o in\u00edcio o processo de independ\u00eancia do Brasil. O resultado \u00e9 1822, com a independ\u00eancia de fato. O Brasil se mant\u00e9m como monarquia durante 67 anos, o que os historiadores chamam de uma &#8220;flor ex\u00f3tica da Am\u00e9rica&#8221;, j\u00e1 que est\u00e1vamos cercados de rep\u00fablicas.\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2013\/12\/04\/opinion\/1386197042_791442.html\" data-link-track-dtm=\"\">E a terceira data \u00e9 1889<\/a>. Essa tr\u00eas datas ajudam muito a entender o que n\u00f3s temos em Bras\u00edlia hoje, essa promiscuidade entre interesses p\u00fablicos e privados. Mas, se voc\u00ea quiser entender o Brasil em uma dimens\u00e3o mais profunda, precisa estudar a escravid\u00e3o, que \u00e9 o assunto mais importante da hist\u00f3ria do pa\u00eds.<\/p>\n<p class=\"\"><b>P.<\/b> De que forma?<\/p>\n<p class=\"\"><b>R.<\/b>\u00a0Tudo que fomos no passado, o que somos hoje e que n\u00f3s gostar\u00edamos de ser no futuro tem a ver com a escravid\u00e3o. Primeiro por uma raz\u00e3o estat\u00edstica: o Brasil foi o maior territ\u00f3rio escravista da Am\u00e9rica, com quase 5 milh\u00f5es de cativos africanos. Isso d\u00e1 40% do total de africanos escravizados que embarcaram para o Novo Mundo, estimado em 12,5 milh\u00f5es. Foi o pa\u00eds que mais tempo demorou para acabar com o tr\u00e1fico negreiro, com a Lei Eus\u00e9bio de Queir\u00f3s, em 1850,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/11\/15\/politica\/1573824412_841710.html\" data-link-track-dtm=\"\">e o \u00faltimo a acabar com a pr\u00f3pria escravid\u00e3o, em 1888<\/a>. O Brasil foi constru\u00eddo por escravos, em todos os ciclos econ\u00f4micos, passando pelo a\u00e7\u00facar, ouro, diamante, caf\u00e9. A escravid\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um assunto acabado, tema de museu ou livro de hist\u00f3ria. Ela est\u00e1 presente na realidade brasileira. Os abolicionistas do s\u00e9culo XIX, como Joaquim Nabuco, Luiz Gama, Andr\u00e9 Rebou\u00e7as e Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio, defendiam que o Brasil precisava fazer duas aboli\u00e7\u00f5es. A primeira era parar de comercializar gente como mercado, algo ocorrido com a Lei \u00c1urea. A segunda era incorporar os ex-escravos na sociedade brasileira como cidad\u00e3os, dando terra, emprego, educa\u00e7\u00e3o, e isso o Brasil jamais fez. O pa\u00eds abandonou sua popula\u00e7\u00e3o afrodescedente \u00e0 pr\u00f3pria sorte.<\/p>\n<p class=\"\"><b>P.\u00a0<\/b>Por que o Brasil os abandonou ?<\/p>\n<p class=\"\"><b>R.<\/b>\u00a0Quando voc\u00ea olha a hist\u00f3ria da aboli\u00e7\u00e3o no Brasil, h\u00e1 uma hist\u00f3ria branca. O Brasil, no final do s\u00e9culo XIX, tornou-se um p\u00e1ria no cen\u00e1rio internacional, como foi a \u00c1frica do Sul na \u00e9poca do\u00a0<i>Apartheid<\/i>. A elite brasileira se deu conta de que a escravid\u00e3o comprometia a imagem do pa\u00eds perante o mundo supostamente desenvolvido. Havia uma nobreza aqui, como se fosse Versailles ou a Corte Espanhola, de um pa\u00eds que se julgava europeu, mon\u00e1rquico, com uma imagem imperial. Mas a realidade nas ruas era de escravid\u00e3o, pobreza e anafalbetismo.\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/11\/15\/politica\/1573824412_841710.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">A Lei \u00c1urea procura livrar o pa\u00eds\u00a0<\/a>dessa n\u00f3doa, mas o Brasil nunca fez nenhum esfor\u00e7o para incorporar sua popula\u00e7\u00e3o, porque isso significava abrir m\u00e3o dos privil\u00e9gios, riquezas, redirecionar os recursos do Estado para pessoas que n\u00e3o tinham oportunidade. O resultado disso \u00e9 que hoje n\u00f3s somos um dos pa\u00edses mais segregados do mundo, embora n\u00e3o tenhamos leis de segrega\u00e7\u00e3o racial como houve nos EUA at\u00e9 a luta pelos direitos civis. Mas somos um pa\u00eds segregado na geografia, basta ir ao Rio de Janeiro e ver quem mora nos bairros violentos e dominados pelo crime organizado e quem vive em Copacabana ou no Leblon, na zona sul. Tamb\u00e9m \u00e9 um pa\u00eds segregado nos n\u00fameros, indicadores sociais. Por qualquer crit\u00e9rio que voc\u00ea queira medir o Brasil, seja renda, emprego, seguran\u00e7a p\u00fablica,<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/11\/19\/politica\/1574195977_206027.html\" data-link-track-dtm=\"\">\u00a0existe um abismo entre oportunidades para a popula\u00e7\u00e3o branca e negra<\/a>. Um homem negro aqui tem oito vezes mais chances de morrer em um homic\u00eddio do que um homem branco. N\u00f3s somos um pa\u00eds profundamente preconceituoso. No passado, desenvolvemos alguns mitos de que ser\u00edamos uma grande democracia racial, de que a conviv\u00eancia era cordial e amig\u00e1vel. Se voc\u00ea entrar numa rede social agora vai ver as manifesta\u00e7\u00f5es de racismo expl\u00edcitas, cruas, inclusive no discurso do presidente da Rep\u00fablica.<\/p>\n<figure class=\"article_image | margin_top\"><img decoding=\"async\" class=\"width_full\" src=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/resizer\/5kWEA-8T0FxaHD057wVD5jVkAYs=\/1500x0\/smart\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/EMBYJLXGYJCPFLMGVBW4PRRZRM.jpg\" alt=\"Laurentino Gomes, autor do livro Escravid\u00e3o\" \/><figcaption class=\"caption | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">Laurentino Gomes, autor do livro Escravid\u00e3o<span class=\"color_black margin_left uppercase light\">LELA BELTR\u00c3O<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\"><b>P.\u00a0<\/b>Qual a maior diferen\u00e7a da escravid\u00e3o ocorrida nas Am\u00e9ricas para a escravid\u00e3o na hist\u00f3ria?<\/p>\n<p class=\"\"><b>R<\/b>. \u00c9 como se a escravid\u00e3o fizesse parte do c\u00f3digo gen\u00e9tico humano. Houve no Egito Antigo, na Babil\u00f4nia, na Gr\u00e9cia Antiga e na \u00c1frica antes da chegada dos europeus. A pr\u00f3pria etimologia da palavra escravo,\u00a0<i>slave<\/i>\u00a0em ingl\u00eas, vem de\u00a0<i>&#8220;slavo&#8221;<\/i>, do povo branco que era escravizado no leste da Europa pelo\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/07\/27\/internacional\/1501148623_366673.html\" data-link-track-dtm=\"\">Imp\u00e9rio Romano<\/a>. A africana tem duas novidades: a primeira \u00e9 a escala industrial, com 12,5 milh\u00f5es de pessoas embarcadas em cerca de 35 mil viagens de navios negreiros para trabalhar em atividades no Novo Mundo que podem ser consideradas pr\u00e9-industriais. A divis\u00e3o dos trabalhos, os turnos, a hierarquia, a maneira de funcionamento de um engenho de a\u00e7\u00facar no Nordeste brasileiro, ou de uma mina de diamante, se assemelhavam muito \u00e0s futuras f\u00e1bricas da revolu\u00e7\u00e3o industrial na Inglaterra. A segunda caracter\u00edstica est\u00e1 no nascimento do racismo: \u00e9 a primeira vez na hist\u00f3ria da humanidade que h\u00e1 a associa\u00e7\u00e3o entre a escravid\u00e3o e a cor negra da pele. H\u00e1 toda uma ideologia constru\u00edda, inclusive de fundo religioso, para dizer que os africanos eram selvagens, b\u00e1rbaros, pag\u00e3os, praticantes de religi\u00f5es demon\u00edacas, e que portanto a melhor coisa que poderia acontecer com o africano era ser escravizado para se incorporar a suposta civiliza\u00e7\u00e3o europeia que se instalava nos tr\u00f3picos. Era muito comum nas discuss\u00f5es do parlamento brasileiro a ideia de que a escravid\u00e3o era a reden\u00e7\u00e3o dos escravos. O Padre Ant\u00f4nio Vieira, no final do s\u00e9culo 17, defendia a ideia de que era\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/10\/10\/internacional\/1507633783_573708.html\" data-link-track-dtm=\"\">uma gra\u00e7a divina que os escravos tivessem tido a oportunidade de serem escravizados<\/a>\u00a0para se incorporar a Igreja Cat\u00f3lica.<\/p>\n<blockquote class=\"quote quote_block | font_secondary border border_1 border_solid border_gray_dark border-box pull_right\">\n<div>&#8220;Se voc\u00ea entrar numa rede social agora vai ver as manifesta\u00e7\u00f5es de racismo expl\u00edcitas, cruas, inclusive no discurso do presidente da Rep\u00fablica&#8221;<\/div>\n<\/blockquote>\n<p class=\"\"><b>P.\u00a0<\/b>A Igreja Cat\u00f3lica fez uma distin\u00e7\u00e3o entre \u00edndios e africanos, certo?<\/p>\n<p class=\"\"><b>R.<\/b>\u00a0H\u00e1 uma discuss\u00e3o filos\u00f3fica e teol\u00f3gica sobre a conveni\u00eancia ou n\u00e3o de escravizar \u00edndios. Mas a realidade \u00e9 que os \u00edndios foram massacrados. Portugueses e espanh\u00f3is, quando chegaram \u00e0 Am\u00e9rica, tentaram de todas as formas escravizar os \u00edndios. A primeira carga de escravos que cruza o oceano atl\u00e2ntico n\u00e3o foi da \u00c1frica para o Brasil, mas foi daqui para Portugal, em 1511. Uma nau chamada &#8220;Bretoa&#8221;, de um senhor chamado Fernando de Noronha, que hoje d\u00e1 o nome ao nosso arquip\u00e9lago no nordeste, levando uma carga de pau-brasil, peles de on\u00e7a pintada, papagaios e 35 ind\u00edgenas que seriam leiloados em Portugal. Nos tr\u00eas s\u00e9culos seguintes o Brasil matou um milh\u00e3o de ind\u00edgenas a cada 100 anos de diversas maneiras: expuls\u00e3o de terras, guerras, exterm\u00ednio e, principalmente, pelas doen\u00e7as, como gripe, sarampo e var\u00edola. A inviabilidade pr\u00e1tica da escravid\u00e3o, todo esse massacre ind\u00edgena, coincide com a discuss\u00e3o filos\u00f3fica dos jesu\u00edtas que afirmavam que eles n\u00e3o deveriam ser escravizados. Mas o fato \u00e9 que os portugueses e espanh\u00f3is n\u00e3o conseguiram realizar seu projeto inicial que era escravizar os \u00edndios. Se eles tivessem conseguido, talvez n\u00e3o tiv\u00e9ssemos a escravid\u00e3o africana, porque t\u00ednhamos 5 milh\u00f5es de \u00edndios aqui, que foi o n\u00famero aproximado de africanos trazidos para o Brasil. H\u00e1 tamb\u00e9m uma justificativa b\u00edblica para se voltar \u00e0 \u00c1frica. No livro do G\u00eanesis, No\u00e9, ap\u00f3s dil\u00favio, se torna produtor de vinho. Em uma determinada ocasi\u00e3o, ele bebe demais, se embriaga e dorme completamente nu dentro de casa. Os tr\u00eas filhos chegam e um deles, ao ver o pai daquele jeito, ridiculariza-o. \u00c9 o Cam. Ao acordar, No\u00e9 teria lan\u00e7ado a &#8220;Maldi\u00e7\u00e3o de Cam&#8221;, dizendo que os descendentes dele seriam escravos. Os padres jesu\u00edtas diziam que os descendentes de Cam seriam os negros africanos e, portanto, candidatos naturais a escravid\u00e3o. Isso era repetido de forma exaustiva.<\/p>\n<p class=\"\"><b>P.\u00a0<\/b>Alguns pensadores do s\u00e9culo XVIII e XIX, defensores da liberdade, eram a favor da escravid\u00e3o?<\/p>\n<p class=\"\"><b>R.<\/b>\u00a0Sim,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2015\/09\/03\/ciencia\/1441297790_812347.html\" data-link-track-dtm=\"\">David Hume [fil\u00f3sofo e escritor brit\u00e2nico]\u00a0<\/a>por exemplo. Ele era acionista de uma companhia de tr\u00e1fico de escravos. Thomas Jefferson, que escreveu a declara\u00e7\u00e3o de independ\u00eancia dos EUA dizendo que todo ser humano nasce com direitos iguais, era dono de um plantel enorme de escravos. Tiradentes, her\u00f3i da Inconfid\u00eancia Mineira, era dono de meia d\u00fazia de escravos no ano que foi morto, no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p class=\"\"><b>P.\u00a0<\/b>Os pa\u00edses precisam pedir perd\u00e3o pela escravid\u00e3o?<\/p>\n<blockquote class=\"quote quote_block | font_secondary border border_1 border_solid border_gray_dark border-box pull_right\">\n<div>&#8220;Existia um branqueamento cultural: quanto mais r\u00e1pido ele se distanciasse da cultura africana, mais &#8216;vantajoso&#8217; seria&#8221;<\/div>\n<\/blockquote>\n<p class=\"\"><b>R.<\/b>\u00a0Creio que sim. \u00c9 uma quest\u00e3o de honestidade, algo simb\u00f3lico, porque foi um massacre, uma trag\u00e9dia humanit\u00e1ria de grandes propor\u00e7\u00f5es. Agora, tenho d\u00favida se seria poss\u00edvel pagar essa d\u00edvida. Hoje, na \u00c1frica, h\u00e1 uma elite que \u00e9 herdeira militar beneficiada pelo tr\u00e1fico de escravos, aliado aos europeus. O rei Ashanti, em\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/ghana\" data-link-track-dtm=\"\">Gana<\/a>, era fornecedor de cativos para ingleses e holandeses. Quem vai indenizar quem? \u00c9 dif\u00edcil. Acho que uma atitude pol\u00edtica de pedir perd\u00e3o \u00e9 importante. O Papa Jo\u00e3o Paulo II fez isso ao visitar a ilha de Goreia, em Senegal. N\u00e3o foi pela Igreja como um todo, mas pelos cat\u00f3licos que se envolveram no tr\u00e1fico de escravos. \u00c9 algo importante para ir diminuindo essa ferida. As cotas preferenciais para afrodescentes em escolas e postos da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Mas o simb\u00f3lico tamb\u00e9m ajuda. H\u00e1 uma d\u00edvida hist\u00f3rica que precisa ser enfrentada por palavras e gestos concretos.<\/p>\n<p class=\"\"><b>P.\u00a0<\/b>O livro diz que para cada 100 habitantes do Brasil durante a escravid\u00e3o, 86 eram escravos e 14 colonos brancos. Por que n\u00e3o houve uma rebeli\u00e3o, por exemplo? O que sustentava essa sociedade?<\/p>\n<p class=\"\"><b>R<\/b>. Havia manuais que aconselhavam fazendeiros a n\u00e3o manter plant\u00e9is de mesma origem, cultura, l\u00edngua ou regi\u00e3o geogr\u00e1fica. Isso impedia que eles se rebelassem. Existia, tamb\u00e9m, um sistema de premia\u00e7\u00e3o e puni\u00e7\u00e3o. Se o escravizado fosse rebelde, era chicoteado. Se fosse cooperativo, ganhava folga semanal, o direito de cultivar uma horta, de ir \u00e0 missa e de ganhar sua pr\u00f3pria alforria. O Brasil teve um alt\u00edssimo n\u00famero de alforrias. Um historiador norte-americano,\u00a0<a href=\"https:\/\/academic.csuohio.edu\/dramos\/documents\/resume_vita.html\" data-link-track-dtm=\"\">Donald Ramos<\/a>, afirma que a alforria foi um dos sistemas de controle mais eficientes do sistema escravista, porque ele oferecia ao cativo uma oportunidade de conquistar a liberdade e de escapar da escravid\u00e3o. H\u00e1 um estudo do historiador Manolo Florentino que diz que apenas 5% dos escravos brasileiros se rebelaram, fugiram e formaram quilombos. A principal forma de resist\u00eancia era tentar ocupar os espa\u00e7os que a sociedade escravista dava para o escravo se aproximar do universo dos brancos. Participar das irmandades religiosas, como a Nossa Senhora do Ros\u00e1rio, S\u00e3o Benedito, Santa Ifig\u00eania, dava um &#8220;status social&#8221; para o escravo, com um papel simb\u00f3lico. Existia um branqueamento cultural: quanto mais r\u00e1pido ele se distanciasse da cultura africana, mais &#8220;vantajoso&#8221; seria.<\/p>\n<p class=\"\"><b>P.\u00a0<\/b>Voc\u00ea escreve que existia uma briga entre negros nascidos no Brasil e os crioulos. Como era isso?<\/p>\n<p class=\"\"><b>R<\/b>. O crioulo era o escravo de primeira gera\u00e7\u00e3o nascido no Brasil. O negro bo\u00e7al era o rec\u00e9m-chegado, tamb\u00e9m chamado de &#8220;preto novo&#8221;. O sujeito nascido no Brasil se julgava superior, porque ele havia migrado para o universo dos brancos. Ele j\u00e1 tinha constitu\u00eddo fam\u00edlia, falava a l\u00edngua portuguesa, participava das irmandades religiosas e possu\u00eda o c\u00f3digo da sociedade colonial portuguesa. O escravo chegado da \u00c1frica, n\u00e3o. As rebeli\u00f5es aconteceram justamente nesse universos dos escravos rec\u00e9m-chegados. Palmares, por exemplo, era formado por negros Jagas de Angola, que se rebelaram no final do s\u00e9culo 16, e fugiram para a Serra da Barriga, em Alagoas. A Revolta do Mal\u00eas, de 1835, foi feita por negros mu\u00e7ulmanos, na Bahia, oriundos da Nig\u00e9ria. As revoltas, fugas e quilombos ocorreram quase sempre por duas raz\u00f5es principais: crise na sociedade branca,<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/11\/20\/deportes\/1542753637_302970.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">\u00a0como no caso de Palmares, ocorrida durante guerra\u00a0<\/a>contra os holandeses, ou em decorr\u00eancia da homogeneidade \u00e9tnica e a concentra\u00e7\u00e3o de africanos que falavam a mesma l\u00edngua e possu\u00edam afinidade cultural.<\/p>\n<p class=\"\"><b>P.\u00a0<\/b>Voc\u00ea consultou fontes de testemunhos de escravos para fazer o livro?<\/p>\n<p class=\"\"><b>R.<\/b>\u00a0Pouco. Infelizmente, a hist\u00f3ria da escravid\u00e3o \u00e9 contada por pessoas brancas. Capit\u00e3es de navios negreiros, viajantes europeus que visitaram o Brasil ou a \u00c1frica no per\u00edodo. Existem alguns depoimentos e biografias relativamente raras. Outra fonte preciosa para ouvir os escravos s\u00e3o inqu\u00e9ritos policiais quando eles eram acusados de crimes. Tem inqu\u00e9ritos da Inquisi\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica que relatam escravos presos e levados para Portugal acusadas de feiti\u00e7aria e de contrariar a doutrina da Igreja. O principal quilombo do Brasil, Palmares, n\u00e3o tem nenhuma fonte a partir dos quilombolas. Tudo que se sabe de Palmares s\u00e3o de relat\u00f3rios e de expedi\u00e7\u00f5es militares enviadas ao local.<\/p>\n<p class=\"\"><b>P.\u00a0<\/b>Sobre esse tema, voc\u00ea questiona\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/04\/02\/cultura\/1554208356_198750.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">a figura de Zumbi e sua luta contra\u00a0<\/a>a escravid\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o refutar a hist\u00f3ria do principal l\u00edder negro usando relat\u00f3rios utilizados pelo Ex\u00e9rcito, que era majoritariamente branco?<\/p>\n<p class=\"\"><b>R<\/b>. De certa forma, sim. A hist\u00f3ria da escravid\u00e3o \u00e9 um assunto sens\u00edvel, porque h\u00e1 uma guerra de narrativas. E n\u00e3o \u00e9 por acaso que abro este cap\u00edtulo falando do calend\u00e1rio c\u00edvico brasileiro, com o 13 de maio e a Lei \u00c1urea, e o 20 de novembro, da Consci\u00eancia Negra, com a morte de Zumbi. \u00c9 uma guerra em andamento pela mem\u00f3ria da escravid\u00e3o. N\u00e3o tomo partido se o Zumbi era abolicionista ou um grande general comparado a Napole\u00e3o Bonaparte ou Alexandre o Grande, como alguns historiadores negros tentaram fazer. O que eu mostro \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o do Zumbi como her\u00f3i nacional. Chego a conclus\u00e3o que o verdadeiro Zumbi n\u00e3o est\u00e1 nos documentos e que h\u00e1 pouqu\u00edssima coisa. O que se sabe \u00e9 a partir da hist\u00f3ria branca. O verdade Zumbi est\u00e1 na cabe\u00e7a das pessoas, \u00e9 um her\u00f3i m\u00edtico. Agora, sem d\u00favida, se trata de um her\u00f3i negro brasileiro, que se contrap\u00f5e \u00e0 Princesa Isabel. Coloco no livro coisas curiosas que dificultam a constru\u00e7\u00e3o desse her\u00f3i, como a hist\u00f3ria do Luiz Mott [antrop\u00f3logo], que levantou a hip\u00f3tese de que Zumbi fosse gay. Ningu\u00e9m incorporou esse her\u00f3i gay, porque vivemos em um pa\u00eds homof\u00f3bico, mis\u00f3gino. Claro que tive muito cuidado para construir esse cap\u00edtulo, porque ele mexe com um personagem muito importante para a identidade negra, mas eu n\u00e3o poderia fugir da raia e comprar uma hist\u00f3ria que n\u00e3o existe nos documentos. Quis mostrar diferentes narrativas e vers\u00f5es para que o leitor entenda que a hist\u00f3ria n\u00e3o se faz apenas de personagens reais e concretos, mas tamb\u00e9m de proje\u00e7\u00e3o mitol\u00f3gica.<\/p>\n<p class=\"\"><b>P.\u00a0<\/b>Quando voc\u00ea terminou o livro, algu\u00e9m negro leu?<\/p>\n<p class=\"\"><b>R.<\/b>\u00a0N\u00e3o. Passei para dois africanistas: o embaixador Alberto da Costa Silva e Irene Vida Gala. Eles me deram contribui\u00e7\u00f5es muito importantes. A Irene me chamou a aten\u00e7\u00e3o para algo que tento deixar evidente: os diferentes olhares sobre a escravid\u00e3o. Existe o olhar negro, o olhar branco e olhar atento, que \u00e9 onde me enquadro. Mas n\u00e3o tentei preencher cotas. Seria hipocrisia da minha parte tomar esse tipo de atitude, porque n\u00e3o fiz isso nos meus outros livros. Seria apenas rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. Ao\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2013\/12\/04\/opinion\/1386197042_791442.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">falar da proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica<\/a>, n\u00e3o chamei um republicanista e um monarquista para dar diferentes opini\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"\"><b>P.\u00a0<\/b>O que poderia ser uma segunda aboli\u00e7\u00e3o no Brasil?<\/p>\n<p class=\"\"><b>R.\u00a0<\/b>Acho que \u00e9 o nosso principal desafio no s\u00e9culo XXI. Se voc\u00ea imaginar que a riqueza das na\u00e7\u00f5es n\u00e3o est\u00e1 mais nos recursos naturais, mas no capital humano, o Brasil nunca ser\u00e1 um pa\u00eds decente, digno dos nossos sonhos, enquanto a imensa maioria da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o tiver educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e empregos decentes.\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/11\/19\/politica\/1574195977_206027.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Enfrentar a desigualdade social no Brasi<\/a>l \u00e9 sin\u00f4nimo de uma segunda aboli\u00e7\u00e3o, porque a maioria dos pobres s\u00e3o negros. Por isso digo que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, mas um investimento no futuro. Essa \u00e9 a principal agenda pol\u00edtica daqui para frente, ainda que tenhamos um governo hostil. Isso \u00e9 um tema represado do s\u00e9culo XIX. Qualquer governo, partido pol\u00edtico ou campanha eleitoral vai se defrontar com esse legado.<\/p>\n<\/section>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Autor do livro \u2018Escravid\u00e3o\u2019, jornalista diz que depoimentos e biografias sobre o tema s\u00e3o raras. 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