{"id":302286,"date":"2019-11-21T08:24:03","date_gmt":"2019-11-21T11:24:03","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=302286"},"modified":"2019-11-21T08:24:03","modified_gmt":"2019-11-21T11:24:03","slug":"pedagogia-da-intimidacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/pedagogia-da-intimidacao\/","title":{"rendered":"Pedagogia da Intimida\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<p style=\"font-weight: 300; text-align: justify;\">Ao inv\u00e9s de esperar pela pol\u00edcia ou pelo sistema judicial brasileiro, a viol\u00eancia de g\u00eanero, de classe e de ra\u00e7a passa a ser exercida nas escolas, contra professores e alunos \u201ctransgressores\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-302287 size-large\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/pedagogia-da-intimidacao-por-fernando-horta-latuff2-696x346-620x308.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"308\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/pedagogia-da-intimidacao-por-fernando-horta-latuff2-696x346-620x308.jpg 620w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/pedagogia-da-intimidacao-por-fernando-horta-latuff2-696x346-300x149.jpg 300w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/pedagogia-da-intimidacao-por-fernando-horta-latuff2-696x346-160x80.jpg 160w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/pedagogia-da-intimidacao-por-fernando-horta-latuff2-696x346-640x318.jpg 640w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/pedagogia-da-intimidacao-por-fernando-horta-latuff2-696x346.jpg 696w\" sizes=\"auto, (max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00a0\u00a0<b>Fernando Horta<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante as elei\u00e7\u00f5es, um candidato desconhecido quebrou uma placa em homenagem \u00e0 vereadora do RJ assassinada a mando de mil\u00edcias pr\u00f3ximas ao presidente e sua fam\u00edlia. O ato, digno do brucutu que o praticou, provocou a elei\u00e7\u00e3o do liliputiano ao Congresso. Ontem, outro destes ignorantes que passaram a povoar a c\u00e2mara quebrou uma charge do Latuff que denunciava o comprovado exterm\u00ednio da popula\u00e7\u00e3o jovem e negra nas m\u00e3os de matadores de farda e pagos com dinheiro p\u00fablico que insistirmos erroneamente chamar de \u201cpol\u00edcia\u201d. Os dois atos, comemorados por racistas e preconceituosos de todas as partes do pa\u00eds, demonstram um dos caminhos que levaram Bolsonaro e seu bando ao poder: a intimida\u00e7\u00e3o como ferramenta para \u201ccolocar as pessoas no seu lugar\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As transgress\u00f5es da ordem social historicamente constru\u00edda no Brasil come\u00e7aram a se avolumar no tecido social no segundo mandato Lula. S\u00e3o in\u00fameros os exemplos e \u201ccorpos n\u00e3o autorizados\u201d transgredindo os limites que a sociedade brasileira branca, rica e urbana permitia. Desde pobres com seus carros nas estradas (como \u201cdenunciado\u201d por jornalista conhecido por sua verve preconceituosa), nos aeroportos ou em shoppings, at\u00e9 a emancipa\u00e7\u00e3o feminina (que chegaria ao cargo da presid\u00eancia da Rep\u00fablica, com Dilma Rousseff) e a visibilidade das popula\u00e7\u00f5es LGBT, que conseguiam programas sociais de aux\u00edlio ao estudo e forma\u00e7\u00e3o e, finalmente, puderam ter seus nomes sociais reconhecidos. Todo este bloco de liberdades reconhecidas e espa\u00e7os concedidos provocou a f\u00faria dos que acreditam que a sociedade, a geografia das cidades e os espa\u00e7os de poder t\u00eam donos. Era preciso \u201ccolocar esta gente no seu lugar\u201d. A sociedade com espa\u00e7os delimitados precisava voltar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma boa parte do que representa Bolsonaro para a classe m\u00e9dia est\u00e1 aqui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O exemplo mais evidente desta revolta foram os \u201crolezinhos\u201d. Corpos negros e jovens, transgredindo os espa\u00e7os que as sociedades brancas e ricas lhes deram. E, para al\u00e9m da revolta de uma classe m\u00e9dia que se julga rica, os meios de comunica\u00e7\u00e3o e a plutocracia brasileira perceberam a oportunidade de fortalecer seus eternos guardi\u00f5es sociais. As reportagens feitas em tom de aceita\u00e7\u00e3o da tese da criminaliza\u00e7\u00e3o da transgress\u00e3o dos jovens negros, apesar de claras n\u00e3o foram suficientes. O diagn\u00f3stico foi bem feito. Estes jovens s\u00f3 tinham a petul\u00e2ncia de imporem-se em espa\u00e7os que n\u00e3o os viam ou os aceitavam porque lhes fora ensinado perigosos conceitos como \u201cigualdade de direitos\u201d, \u201cemancipa\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cempoderamento\u201d e etc. E o lugar onde se ensina, \u00e9 claro, \u00e9 nas escolas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por s\u00e9culos no Brasil, os jovens negros conviveram com o dilema de escolherem entre serem subalternos submissos (como trabalhadores com baixo n\u00edvel educacional) ou serem transgressores claros \u00e0 margem da lei (criminosos). A sociedade neoliberal dos anos 80 e 90 adicionou ainda a esta escolha a possibilidade de eles serem presos por d\u00e9cadas, sem nenhuma justificativa. Nos EUA, assim como no Brasil, o n\u00edvel de encarceramento da popula\u00e7\u00e3o negra cresce exponencialmente exatamente durante o per\u00edodo neoliberal. Os poucos negros e negras que subvertiam a ordem, o faziam somente em compara\u00e7\u00e3o com outros negros e nunca com os brancos. Ainda que os negros chegassem em espa\u00e7os de poder, riqueza e prest\u00edgio, nunca eram aceitos completamente ou gozavam dos privil\u00e9gios, sempre brancos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os professores e as escolas, portanto, eram os vetores da desobedi\u00eancia e, em conson\u00e2ncia com a chancela \u00e0 viol\u00eancia policial, assassinatos e um maior n\u00edvel de encarceramento, o governo que foi eleito exige tamb\u00e9m o ataque \u00e0s escolas e aos professores que promovem o pensamento emancipat\u00f3rio. N\u00e3o s\u00e3o, portanto, dissociados os ataques de Bolsonaro aos negros, \u00e0s mulheres, popula\u00e7\u00f5es LGBT e aos professores e \u00e0 escola. \u00c9 o combo da intimida\u00e7\u00e3o e do autoritarismo tentando se reproduzir por meio da escola.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O exemplo evidente da \u201cmilitariza\u00e7\u00e3o\u201d das escolas chega a ser caricato. N\u00e3o \u00e9 a viol\u00eancia militar (ou de policiais militares) que faz os Col\u00e9gios Militares serem \u201cbem-sucedidos\u201d. \u00c9 uma mistura de altos sal\u00e1rios (professores dos Col\u00e9gios Militares ganham como professores universit\u00e1rios), alta qualifica\u00e7\u00e3o (quase 60% de mestres e doutores), estruturas pedag\u00f3gicas diversas e em funcionamento, e uma enorme dose de exclus\u00e3o. Os Col\u00e9gios Militares fazem concursos para escolherem seus alunos, e podem \u2013 a qualquer tempo e interesse \u2013 expulsar alunos que n\u00e3o sigam suas regras. Assim, j\u00e1 buscando os melhores alunos e depurando o que sobra por anos com amea\u00e7as de expuls\u00e3o e outros tipos de viol\u00eancia, os que sobrevivem a este sistema e chegam ao ensino m\u00e9dio s\u00e3o, evidentemente, sobreviventes capazes. Ocorre que este modelo n\u00e3o pode ser replicado em termos p\u00fablicos. Qualquer diretor de escola p\u00fablica sabe que o afastamento de algum aluno significa, mais cedo ou mais tarde, uma ordem judicial em sua mesa mandando a reintegra\u00e7\u00e3o do aluno, n\u00e3o importa o motivo da expuls\u00e3o. A l\u00f3gica do ensino p\u00fablico \u00e9 a inclus\u00e3o, a l\u00f3gica dos Col\u00e9gios Militares \u00e9 a exclus\u00e3o. Basta visitar uma sala de aula de qualquer escola p\u00fablica e contar os alunos com necessidades especiais e, em seguida, fazer o mesmo nas salas dos Col\u00e9gios Militares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que fazem os governadores que aderiram ao ris\u00edvel modelo de \u201cmilitariza\u00e7\u00e3o\u201d de Bolsonaro \u00e9 demonstrar seu completo desconhecimento a respeito da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica e dos objetivos desta farsa. Chovem den\u00fancias de viol\u00eancias, ass\u00e9dio, crimes e outras abomina\u00e7\u00f5es ainda piores nos \u201ccol\u00e9gios militarizados\u201d e nada, ou nenhum resultado, ser\u00e1 alcan\u00e7ado. Se militarizar uma escola significasse aumentar o sal\u00e1rio dos seus professores para cerca de R$ 9600,00 e implementar no corpo docente 50 ou 60% de mestres e doutores ver\u00edamos alguma mudan\u00e7a. Apenas dar emprego a policiais militares recalcados, autorit\u00e1rios e que deveriam estar nos lugares dos estudantes para aprender alguma coisa, n\u00e3o \u00e9 solu\u00e7\u00e3o para a educa\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda que n\u00e3o venhamos a ver qualquer melhora, o projeto de Bolsonaro, encampado por governadores que concordam com sua vis\u00e3o racista e preconceituosa de sociedade, ser\u00e1 bem sucedido ao iniciar a intimida\u00e7\u00e3o a professores e alunos na base. Ao inv\u00e9s de esperar pela pol\u00edcia ou pelo sistema judicial brasileiro, a viol\u00eancia de g\u00eanero, de classe e de ra\u00e7a passa a ser exercida nas escolas, contra professores e alunos \u201ctransgressores\u201d. Esta \u00e9 a \u00fanica fun\u00e7\u00e3o das escolas \u201cmilitarizadas\u201d. Cortar ou prender o cabelo, usar roupas que tornam invis\u00edveis as identidades, suprimir determinados conte\u00fados, amea\u00e7ar professores e professoras, e todo o leque de anormalidades criminosas nos espa\u00e7os pedag\u00f3gicos cumpre o papel da intimida\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica exatamente dentro das estruturas que deveriam servir para formar uma sociedade menos desigual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um estado autorit\u00e1rio \u00e9 sempre uma ferramenta a servi\u00e7o de algum projeto s\u00f3cio-econ\u00f4mico. O autoritarismo precisa aviltar o passado, o presente e o futuro ao mesmo tempo. \u00c9 pela nega\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria do per\u00edodo militar que Bolsonaro violenta o passado. \u00c9 pela viol\u00eancia policial genocida e acobertada pelo Estado em conluio com o judici\u00e1rio que Bolsonaro agride o presente. E \u00e9 pelo ataque aos professores, \u00e0s escolas e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o que Bolsonaro conforma o futuro doentio que pensa para o Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os professores e as escolas, portanto, eram os vetores da desobedi\u00eancia e, em conson\u00e2ncia com a chancela \u00e0 viol\u00eancia policial, assassinatos e um maior n\u00edvel de encarceramento, o governo que foi eleito exige tamb\u00e9m o ataque \u00e0s escolas e aos professores que promovem o pensamento emancipat\u00f3rio. 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