{"id":30279,"date":"2013-11-25T14:00:14","date_gmt":"2013-11-25T17:00:14","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=30279"},"modified":"2013-11-25T08:42:15","modified_gmt":"2013-11-25T11:42:15","slug":"por-que-estamos-todos-mais-doentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/por-que-estamos-todos-mais-doentes\/","title":{"rendered":"Por que estamos todos mais doentes?"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-30280\" alt=\"ImageProxy\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/ImageProxy.png\" width=\"250\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/ImageProxy.png 250w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/ImageProxy-150x150.png 150w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/ImageProxy-50x50.png 50w\" sizes=\"auto, (max-width: 250px) 100vw, 250px\" \/><\/p>\n<p>Sim, estamos mais doentes. Todos mergulhados num mundo em que tristeza virou depress\u00e3o cl\u00ednica, e que daqui a pouco um eloquente e imprescind\u00edvel sentimento chamado amor passar\u00e1 a ser classificado de \u201ctranstorno monoer\u00f3tico imagin\u00e1rio\u201d. Trata-se de um mundo no qual rejeitamos a ideia de sermos normais.<\/p>\n<p>Identificamos certos transtornos de forma caseira, enxergamos nossas pr\u00f3prias \u201cdisfun\u00e7\u00f5es\u201d e nos apressamos a ir a um m\u00e9dico (ou a uma farm\u00e1cia, nos casos mais simples) em busca de rem\u00e9dios, antes mesmo de serem prescritos. Invadem nossas vidas cotidianas incont\u00e1veis s\u00edndromes ligadas ao trabalho, \u00e0 religi\u00e3o, \u00e0s artes, \u00e0 pol\u00edtica \u2013 a qualquer coisa, enfim, que aparentemente nos tire da condi\u00e7\u00e3o de \u201cnormalidade\u201d.<\/p>\n<p>Esse crescente estreitamento da no\u00e7\u00e3o de normalidade em nossas cabe\u00e7as e o excesso de diagn\u00f3stico de doen\u00e7as mentais s\u00e3o o principal alvo de um livro curioso, f\u00e1cil e provocativo, escrito pelo psiquiatra norte-americano Dale Archer. Best-seller nos EUA como \u201cBetter than normal: how what makes you different can make you exceptional\u201d, o livro foi rec\u00e9m-lan\u00e7ado no Brasil pela editora Sextante com o t\u00edtulo\u00a0<i>Quem disse que \u00e9 bom ser normal?<\/i>.<\/p>\n<p>Em oito cap\u00edtulos, Archer descreve oito tra\u00e7os de personalidade habitualmente associados a transtornos, como a ansiedade, a personalidade histri\u00f4nica e o narcisismo, e afirma que n\u00e3o h\u00e1 nada errado com essas caracter\u00edsticas \u2013 podem ser meros sin\u00f4nimos de algu\u00e9m hiperalerta, dram\u00e1tico (ou carism\u00e1tico) e autocentrado, respectivamente. Errado mesmo, s\u00f3 se forem caracter\u00edsticas muito exacerbadas, diz o psiquiatra.<\/p>\n<p>Al\u00edvio para quem, como o signat\u00e1rio, \u00e9 impaciente e n\u00e3o consegue se concentrar em uma tarefa por muito tempo. Ou para quem tem varia\u00e7\u00f5es constantes de humor. Ou para aqueles que adoram ser o centro das aten\u00e7\u00f5es. Enquanto isso, a psiquiatria e a medicaliza\u00e7\u00e3o da vida d\u00e3o a essas pessoas o status de portadoras de sintomas de transtornos de personalidade \u2013 d\u00e9ficit de aten\u00e7\u00e3o, bipolaridade ou similares.<\/p>\n<p>\u201cComo psiquiatra, constatei que precisava olhar de forma cr\u00edtica os excessos de diagn\u00f3stico e de medica\u00e7\u00e3o\u201d, escreve Archer. \u201cMais do que isso, sinto-me na obriga\u00e7\u00e3o de divulgar uma mensagem nova e libertadora sobre transtornos mentais que devolve ao lugar certo \u2013 as suas m\u00e3os \u2013 o controle de sua personalidade e de sua sa\u00fade mental\u201d.<\/p>\n<p>Para ele, o rem\u00e9dio tem de ser o \u00faltimo recurso: \u201cAs pessoas entram em um consult\u00f3rio e saem com uma receita m\u00e9dica. A psicoterapia \u00e9 subestimada\u201d.<\/p>\n<p>Dr. Archer n\u00e3o est\u00e1 sozinho. H\u00e1 uma \u201ceuforia da depress\u00e3o\u201d, como define o psicanalista brasileiro Jorge Forbes, para quem a serotonina ficou t\u00e3o popular e \u00edntima de n\u00f3s quanto o colesterol. (Se voc\u00ea desembarcou agora neste planeta ou, sensatamente, caminha \u00e0 margem dessa \u201canormalidade\u201d, conv\u00e9m explicar: a falta de serotonina no seu organismo pode levar a problemas como depress\u00e3o, enxaqueca e ins\u00f4nia, males t\u00edpicos deste s\u00e9culo).<\/p>\n<p>Isso vale tanto para os EUA, foco da aten\u00e7\u00e3o de Archer, como para o Brasil, onde o mercado de antidepressivos e estabilizadores de humor cresceu mais de 60% nos \u00faltimos cinco anos. Um mercado felic\u00edssimo como o mundo da melancolia \u2013 cerca de R$ 2 bilh\u00f5es foram movimentados de um ano para c\u00e1, segundo a consultoria IMS Health.<\/p>\n<p><b>Mal-estar coletivo<\/b><\/p>\n<p><i>Quem disse que \u00e9 bom ser normal?<\/i>\u00a0pode soar bem-humorado num tema de densidade e tens\u00e3o especiais. Mas o assunto \u00e9 s\u00e9rio, como atesta a pol\u00eamica gerada pela publica\u00e7\u00e3o, poucos meses atr\u00e1s, da nova edi\u00e7\u00e3o do\u00a0<i>Manual diagn\u00f3stico e estat\u00edstico de transtornos mentais<\/i>\u00a0(DSM), pela Associa\u00e7\u00e3o Psiqui\u00e1trica Norte-americana (APA). A APA \u00e9 a mais importante e influente entidade de psiquiatria do mundo. O DSM \u00e9 considerado a \u201cb\u00edblia da psiquiatria\u201d.<\/p>\n<p>O chamado DSM-5 desencadeou uma s\u00e9rie de artigos e livros questionando o car\u00e1ter normativo de suas classifica\u00e7\u00f5es \u2013 para muitos fundadas justamente num vertiginoso movimento de psiquiatriza\u00e7\u00e3o da vida cotidiana. O documento amplia ainda mais o n\u00famero de doen\u00e7as mentais e, por tabela, aumenta as chances de algu\u00e9m ser diagnosticado com os transtornos j\u00e1 existentes. Tamb\u00e9m reduz o n\u00famero de sintomas necess\u00e1rios para que um paciente se encaixe em determinado diagn\u00f3stico.<\/p>\n<p>Ou seja, mais pessoas tratadas com medicamentos destinados a transtornos mentais, sorriso aberto para a ind\u00fastria farmac\u00eautica. A prop\u00f3sito, 70% dos experts que trabalharam para o DSM-5 tiveram, em sua carreira recente, v\u00ednculos financeiros com essa ind\u00fastria.<\/p>\n<p>O avan\u00e7o das doen\u00e7as mentais \u00e9 assombroso: o mundo da psiquiatria reconhecia 182 patologias em 1968, com a publica\u00e7\u00e3o do DSM-2. Doze anos depois, o DSM-3 trazia 265. Agora o n\u00famero de patologias mentais se eleva a 450 categorias diagn\u00f3sticas.<\/p>\n<p>Poderia ser o resultado do avan\u00e7o da ci\u00eancia e da cria\u00e7\u00e3o de crit\u00e9rios espec\u00edficos para descobrir enfermidades da alma. Mas, no limite, \u00e9 um discurso que, segundo os psicanalistas Gilson Iannini e Antonio Teixeira, organiza a cren\u00e7a mercantil da associa\u00e7\u00e3o entre demanda e produto \u2013 no caso, doen\u00e7a mental e arsenal terap\u00eautico.<\/p>\n<p>Para cada classifica\u00e7\u00e3o, uma p\u00edlula com promessa de bem-estar. \u00c9 uma esp\u00e9cie de epidemia \u00e0s avessas: as pessoas, com seus desamparos e desordens, agarram-se aos males diagnosticados e se sentem aliviadas de poder descobrir o que t\u00eam. Acham o r\u00f3tulo perdido. Buscam a salva\u00e7\u00e3o no diagn\u00f3stico oficial. Por outro lado, s\u00e3o classificadas, estigmatizadas e, muitas vezes, marcadas para a vida inteira.<\/p>\n<p><b>Defini\u00e7\u00f5es pol\u00edticas<\/b><\/p>\n<p>Assunto restrito ao meio psi? Num instigante dossi\u00ea sobre o assunto, publicado na revista\u00a0<i>Cult<\/i>, o fil\u00f3sofo Vladimir Safatle mostrou que n\u00e3o. Escreveu o professor da USP:<\/p>\n<p>\u201cTudo isso poderia interessar apenas a uma comunidade limitada, composta por todos aqueles profissionais designados para tratar de problemas de sa\u00fade mental (\u2026). Mas talvez seja o caso de colocar algumas quest\u00f5es. Pois, e se categorias como \u2018sa\u00fade\u2019, \u2018doen\u00e7a\u2019, \u2018normal\u2019 e \u2018patol\u00f3gico\u2019, principalmente quando aplicadas ao sofrimento ps\u00edquico, n\u00e3o forem meros conceito de um discurso cient\u00edfico, mas defini\u00e7\u00f5es carregadas de forte pot\u00eancia pol\u00edtica?\u201d.<\/p>\n<p>A pensar. Um exemplo da utilidade pr\u00e1tica desse debate para os n\u00e3o-especialistas \u00e9 quando o assunto chega ao Transtorno do D\u00e9ficit de Aten\u00e7\u00e3o com Hiperatividade, o TDAH. Entre seus sintomas est\u00e3o incapacidade de se concentrar, atitudes impulsivas e agita\u00e7\u00e3o constante. O que no passado n\u00e3o muito distante seria considerada uma travessura infantil hoje provavelmente vira motivo para ir a um m\u00e9dico, que n\u00e3o hesita em prescrever rem\u00e9dios \u00e0 crian\u00e7a ou ao adolescente.<\/p>\n<p>Os crit\u00e9rios de diagn\u00f3stico de TDAH esperam uma crian\u00e7a capaz de brincar calmamente e mostram-se inversamente proporcionais aos est\u00edmulos e \u00e0 \u00a0competitividade a que \u00e9 exposta atualmente.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, e paradoxalmente, raros s\u00e3o os pais que n\u00e3o se preocupam dia e noite em como garantir aos filhos ocupa\u00e7\u00e3o permanente: das brincadeiras coletivas a games; de televis\u00e3o a passeios, dos tablets ao ingl\u00eas e \u00e0 nata\u00e7\u00e3o, qualquer coisa \u00e9 necess\u00e1ria para evitar que a crian\u00e7a conhe\u00e7a a solid\u00e3o, a pausa e o t\u00e9dio.<\/p>\n<p>(Num livro recente, \u201cThe distraction addiction\u201d, Alex Pang, um professor da Calif\u00f3rnia, afirmou que a vontade de se distrair \u00e9 um v\u00edcio, uma forma de depend\u00eancia).<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que tem parecido equivocada a muitos a ideia de transformar toda experi\u00eancia de sofrimento em uma patologia a ser tratada. Uma vida, como diz Vladimir Safatle, cada vez mais enfraquecida e incapaz de lidar com conflitos, contradi\u00e7\u00f5es e reconfigura\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias. Acrescento: uma vida de busca irrefre\u00e1vel da felicidade, mas incapaz de olhar de frente a tristeza e a frustra\u00e7\u00e3o inerentes \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de estarmos vivos.<\/p>\n<p>(iG)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sim, estamos mais doentes. Todos mergulhados num mundo em que tristeza virou depress\u00e3o cl\u00ednica, e que daqui a pouco um eloquente e imprescind\u00edvel sentimento chamado amor passar\u00e1 a ser classificado de \u201ctranstorno monoer\u00f3tico imagin\u00e1rio\u201d. Trata-se de um mundo no qual rejeitamos a ideia de sermos normais. 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