{"id":303021,"date":"2019-11-28T12:23:36","date_gmt":"2019-11-28T15:23:36","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=303021"},"modified":"2019-11-28T12:23:36","modified_gmt":"2019-11-28T15:23:36","slug":"elogios-ao-golpe-de-64-e-criticas-ao-brasil-quem-foi-elizabeth-bishop-a-polemica-homenageada-da-flip","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/elogios-ao-golpe-de-64-e-criticas-ao-brasil-quem-foi-elizabeth-bishop-a-polemica-homenageada-da-flip\/","title":{"rendered":"Elogios ao golpe de 64 e cr\u00edticas ao Brasil: quem foi Elizabeth Bishop, a pol\u00eamica homenageada da Flip"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\"><\/h1>\n<div class=\"byline\"><span class=\"byline__name\">Rafael Barifouse<\/span><\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/16812\/production\/_109887129_5b3951f1-b659-4678-97b2-f74d526e9df8.jpg\" alt=\"Retrato de Elizabeth Bishop\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span>A escritora americana ser\u00e1 o primeira estrangeira a ser homenageado pela Flip<\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">A poeta americana\u00a0<a class=\"story-body__link\" href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/topics\/c1gdqgk3rggt\">Elizabeth Bishop<\/a>\u00a0(1911-1979) nunca havia colocado os p\u00e9s no Brasil antes de desembarcar no porto de Santos em 1951 para uma estadia breve de duas semanas. Mas ela foi visitar amigos no Rio, apaixonou-se por uma brasileira e acabou morando no pa\u00eds por mais de 15 anos.<\/p>\n<p>Bishop chegou com apenas um livro publicado e ainda longe de ser reconhecida como uma das maiores poetas do s\u00e9culo 20, reconhecimento que viria s\u00f3 bem mais tarde. Ela produziu boa parte de sua obra no pa\u00eds, que teve uma grande influ\u00eancia sobre seus versos, e tamb\u00e9m ajudou a divulgar a poesia brasileira no mundo.<\/p>\n<p>Morando aqui, a americana criou uma rela\u00e7\u00e3o t\u00e3o \u00edntima com o Brasil que se permitiu tecer em sua prosa e correspond\u00eancias com amigos cr\u00edticas \u00e0 cultura e aos costumes brasileiros e coment\u00e1rios sobre os eventos que testemunhava por aqui, incluindo alguns elogios ao golpe de 1964.<\/p>\n<p>Palavras que agora se voltam contra sua escolha como a homenageada da pr\u00f3xima edi\u00e7\u00e3o da Festa Liter\u00e1ria Internacional de Paraty (Flip), um dos mais importantes eventos dedicados \u00e0 literatura no Brasil.<\/p>\n<p>Bishop ser\u00e1 a primeira autora estrangeira homenageada pela Flip, que chega a sua 18\u00aa edi\u00e7\u00e3o em 2020. A organiza\u00e7\u00e3o do evento diz que a poeta era cogitada como uma poss\u00edvel homenageada h\u00e1 mais de dez anos e que seu nome foi sugerido por v\u00e1rias pessoas \u00e0 dire\u00e7\u00e3o da Flip.<\/p>\n<p>&#8220;A boa arte \u00e9 aquela que faz a gente enxergar o mundo criticamente, e a observa\u00e7\u00e3o que Elizabeth Bishop faz do mundo em sua obra \u00e9 uma boa lente para a gente entender e refletir sobre o Brasil&#8221;, diz Mauro Munhoz, diretor art\u00edstico da Flip, \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n<p>Sua produ\u00e7\u00e3o \u00e9 considerada concisa. S\u00e3o apenas 101 poemas, divididos em tr\u00eas livros, ao longo dos seus 68 anos de vida. Quem estuda sua vida e obra credita isso ao um perfeccionismo e autocr\u00edtica extremos, que a faziam se dedicar meses ou mesmo anos a um \u00fanico texto.<\/p>\n<p>&#8220;Bishop s\u00f3 publicava quando achava que estava perfeito, irretoc\u00e1vel. Nos seus rascunhos, voc\u00ea percebe como um poema que come\u00e7a sentimental e sem forma vai sendo aperfei\u00e7oado at\u00e9 tudo se encaixar e virar uma joia perfeita. Ela \u00e9 uma art\u00edfice da palavra como poucos&#8221;, diz o poeta Paulo Henriques Britto, professor de Letras da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e respons\u00e1vel pela tradu\u00e7\u00e3o de alguns trabalhos de Bishop.<\/p>\n<p>Esse zelo pelas palavras rendeu a Bishop dois dos principais pr\u00eamios liter\u00e1rios dos Estados Unidos: o Pulitzer, em 1956, pela antologia po\u00e9tica\u00a0<i>North &amp; South<\/i>, e o National Book Award, em 1970, com\u00a0<i>The Complete Poems<\/i>.<\/p>\n<p>Britto explica que ela faz parte da primeira gera\u00e7\u00e3o de escritores que come\u00e7ou a produzir sob o impacto dos modernistas e incorpora suas li\u00e7\u00f5es sem abrir m\u00e3o de di\u00e1logo com o passado, equilibrando-se entre diferentes tend\u00eancias.<\/p>\n<p>&#8220;Bishop cria uma tens\u00e3o interessante entre a modernidade e tradi\u00e7\u00e3o em sua obra. Usa formas modernas, como versos livres, e formas cl\u00e1ssicas, como sonetos. E, mesmo quando usa formas cl\u00e1ssicas, emprega uma linguagem radicalmente coloquial. Sua tem\u00e1tica tem elementos l\u00edricos e autobiogr\u00e1ficos, mas ela n\u00e3o cai no extravasamento emocional de outros autores. Bishop coloca sua vida no que escreve, mas de forma discreta&#8221;, diz Britto.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;Foi uma revolu\u00e7\u00e3o r\u00e1pida e bonita&#8217;<\/h2>\n<p>Se Elizabeth Bishop continha-se em seus versos, o mesmo n\u00e3o pode ser dito do que escrevia em prosa ou nas cartas trocadas com amigos, publicadas em livros ap\u00f3s sua morte. Estes textos trouxeram \u00e0 tona diversas de suas opini\u00f5es mais controversas, inclusive sobre um dos momentos mais sens\u00edveis da hist\u00f3ria brasileira.<\/p>\n<p>&#8220;Foi uma revolu\u00e7\u00e3o r\u00e1pida e bonita, debaixo de chuva \u2014 tudo terminado em menos de 48 horas&#8221;, escreveu em 4 de abril de 1964, tr\u00eas dias depois do golpe que daria in\u00edcio a mais de duas d\u00e9cadas de regime militar no pa\u00eds, em uma carta para o poeta Robert Lowell (1917-1977), seu amigo e um dos seus interlocutores mais frequentes.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/337A\/production\/_109887131_410844c6-9965-4cd4-9d73-4fd7c3fb8dac.jpg\" alt=\"Bishop com o poeta Robert Lowell no Rio\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Bishop (dir.) escrevia frequentemente para seu poeta e amigo Robert Lowell (esq.)<\/figure>\n<p>Alguns dias depois, ela expressa sentimentos ambivalentes sobre o que estava acontecendo. &#8220;Ando horrivelmente deprimida com o que est\u00e1 acontecendo por aqui, e meu \u00fanico pensamento \u00e9 ir embora por um tempo&#8221;, escreveu.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, afirma que &#8220;a suspens\u00e3o dos direitos, a cassa\u00e7\u00e3o de boa parte do Congresso etc., isso tinha de ser feito por mais sinistro que pare\u00e7a. De outro modo teria sido uma mera &#8216;deposi\u00e7\u00e3o&#8217;, e n\u00e3o uma &#8216;revolu\u00e7\u00e3o'&#8221;.<\/p>\n<p>Um m\u00eas ap\u00f3s o golpe, disse em outra carta: &#8220;Nunca na minha vida, antes de vir para c\u00e1, sonhei por um minuto que algum dia eu gostaria de ver um ex\u00e9rcito tomar o poder&#8221;.<\/p>\n<p>Bishop considerava Carlos Lacerda &#8220;muito corajoso e inteligente&#8221; e &#8220;um dos melhores amigos&#8221; que tinha no Brasil. Lacerda apoiou o golpe a princ\u00edpio, mas, depois, foi para a oposi\u00e7\u00e3o ao regime militar, para o desgosto de Bishop.<\/p>\n<p>&#8220;Carlos traiu todo mundo de forma horr\u00edvel \u2014 depois de todos os anos de luta contra a gangue do velho Vargas e a corrup\u00e7\u00e3o, de repente, por raz\u00f5es pol\u00edticas, ele se passou para o lado deles (e dos comunistas) outra vez&#8221;, escreveu ela a Lowell.<\/p>\n<p>O escritor Marcelo Moutinho lamentou a escolha de Bishop por causa desse posicionamento pol\u00edtico. &#8220;Todas as pessoas t\u00eam o direito de errar, e de fazer suas pr\u00f3prias revis\u00f5es. N\u00e3o me filio a patrulhas eternas. Me pergunto, por\u00e9m, se nesse momento de loas efusivas \u00e0 ditadura, e mesmo \u00e0 tortura, n\u00e3o seria o caso de prestar tributo a quem tenha uma trajet\u00f3ria de compromisso com a democracia sem maiores hesita\u00e7\u00f5es&#8221;, escreveu em sua conta no Twitter.<\/p>\n<p>A escritora portuguesa Alexandra Lucas Coelho afirmou que homenagear &#8220;uma poeta estrangeira que morou no Brasil olhando-o do alto do seu horror \u00e0s massas, que apoiou com al\u00edvio o golpe militar de 1964, que rejubilou com o desfile &#8216;anti-comunista&#8217; p\u00f3s-golpe&#8221; \u00e9, &#8220;no momento que o Brasil vive, a mensagem oposta do que seria preciso&#8221;.<\/p>\n<p>Munhoz, da Flip, diz que j\u00e1 esperava por estas cr\u00edticas e que a dire\u00e7\u00e3o do evento pretendia com esta escolha estimular um debate. &#8220;Em um momento de polariza\u00e7\u00e3o e em que as pessoas est\u00e3o se isolando em bolhas, s\u00f3 a arte pode criar um ambiente de resist\u00eancia. \u00c9 bom lembrar que essa realidade n\u00e3o se limita ao Brasil. Acreditamos que a arte liter\u00e1ria de Elizabeth Bishop, fortemente conectada com o Brasil e com o mundo, ser\u00e1 capaz de fortalecer este di\u00e1logo internacionalmente&#8221;, afirma.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Momento pol\u00edtico polarizado<\/h2>\n<p>Cassiano Elek Machado, diretor editoral da Planeta no Brasil e ex-curador da Flip, considera as cr\u00edticas &#8220;compreens\u00edveis&#8221; diante do momento politico polarizado pelo qual o pa\u00eds passa, &#8220;em que as sensibilidades est\u00e3o agu\u00e7adas e qualquer coisa j\u00e1 acende uma fa\u00edsca e vira um inc\u00eandio&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 uma escolha que tem diversos pontos que podem ser contestados, mas tamb\u00e9m lan\u00e7a uma luz sobre uma poeta que produziu no Brasil uma literatura da maior qualidade, teve uma rela\u00e7\u00e3o intensa com o pa\u00eds e foi uma importante agente cultural da literatura brasileira no exterior&#8221;, diz Machado.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/14A5B\/production\/_109917548_bishop1.jpg\" alt=\"Retrato de Elizabeth Bishop\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><span class=\"off-screen\">Direito de imagem<\/span><span class=\"story-image-copyright\">ARQUIVO NACIONAL<\/span><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">Bishop chegou ao Brasil para passar duas semanas e ficou aqui por mais de 15 anos<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Machado foi curador da Flip em 2007, quando o evento homenageou Nelson Rodrigues, que tamb\u00e9m apoiou o golpe militar. &#8220;N\u00e3o teve essa pol\u00eamica, mas era um momento em que as coisas n\u00e3o estavam nem perto do que est\u00e3o hoje. Acredito que os motivos que levaram a Flip a escolh\u00ea-la ficar\u00e3o mais claros ao vermos como essa homenagem vai estar inserida dentro do festival.&#8221;<\/p>\n<p>Britto, da PUC-Rio, afirma que a decis\u00e3o &#8220;n\u00e3o deixa de ser uma infeliz coincid\u00eancia e um pouco inc\u00f4moda em um momento em que temos um governo claramente autorit\u00e1rio&#8221;, mas diz ser preciso considerar o contexto em que se se deu o apoio de Bishop ao golpe de 64.<\/p>\n<p>Nascida em Worcester, nos Estados Unidos, Bishop foi criada por parentes, ap\u00f3s seu pai morrer quando ela ainda era beb\u00ea e sua m\u00e3e ser internada por problemas psiqui\u00e1tricos. Chegou ao Brasil durante o in\u00edcio do segundo governo de Get\u00falio Vargas, a quem chamava de &#8220;ditador&#8221; mesmo ap\u00f3s de ele ter sido democraticamente eleito.<\/p>\n<p>Seu plano era viajar pela Am\u00e9rica do Sul, mas, no Rio, conheceu a arquiteta Lota de Macedo Soares, que idealizou a constru\u00e7\u00e3o do Aterro do Flamengo. Elas se apaixonaram, e Lota foi sua principal raz\u00e3o para permanecer no Brasil. O casal manteve um relacionamento por 16 anos.<\/p>\n<p>&#8220;Bishop era muito pouco ligada \u00e0 pol\u00edtica, e sua ades\u00e3o ao golpe foi simplesmente uma consequ\u00eancia de ela ser casada com a Lota, que era muito pr\u00f3xima de Lacerda, que foi um dos l\u00edderes civis do golpe. Ela repete tudo que ouve Lota dizer&#8221;, afirma Britto, que defende ser necess\u00e1rio separar a vida e a obra de Bishop.<\/p>\n<p>&#8220;(O poeta americano) Ezra Pound aderiu ao fascismo, mas ningu\u00e9m deixa de dar o m\u00e9rito que ele merece porque agiu de forma desprez\u00edvel e indefens\u00e1vel. O que n\u00e3o \u00e9 o caso de Bishop, porque ela n\u00e3o fez propaganda do governo militar nem foi uma porta-voz do regime. Foi uma ades\u00e3o que se deu apenas nas suas cartas&#8221;, diz Britto.<\/p>\n<p>Paulo Werneck, fundador da revista de ensaios liter\u00e1rios Quatro Cinco Um e ex-curador da Flip, afirma que a biografia de grandes nomes da hist\u00f3ria muitas vezes n\u00e3o escapa ilesa de uma an\u00e1lise mais detalhada.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 dif\u00edcil engolir aquele tipo de opini\u00e3o sobre o golpe, que a hist\u00f3ria provou ser equivocada, mas \u00e9 comum encontrarmos na vida de nossos her\u00f3is momentos ou opini\u00f5es feias. A obra de Bishop \u00e9 central no s\u00e9culo 20&#8221;, afirma Werneck.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/15C3\/production\/_109917550_bishop2.jpg\" alt=\"Elizabeth Bishop no Xingu, ao lado de uma mulher do povo ind\u00edgena Camaiur\u00e1, agosto de 1958\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Elizabeth Bishop viajou para a Amaz\u00f4nia durante os anos em que morou no Brasil<\/figure>\n<p>Por sua vez, o poeta Ricardo Domeneck disse que muitas das rea\u00e7\u00f5es contra Bishop t\u00eam sido baseadas na emo\u00e7\u00e3o e n\u00e3o na raz\u00e3o. &#8220;Ao descobrir certas declara\u00e7\u00f5es da poeta, (as pessoas) sentem-se tra\u00eddas. N\u00e3o diminuo esse sentimento. \u00c9 leg\u00edtimo, mesmo que imaturo, em minha opini\u00e3o&#8221;, escreveu em sua conta no Twitter.<\/p>\n<p>&#8220;O que desejo, eu pr\u00f3prio, e o caminho no qual gostaria que meus colegas me guiassem, \u00e9 o da razoabilidade, do senso de propor\u00e7\u00e3o, de uma no\u00e7\u00e3o madura de causalidade entre pol\u00edtica e literatura, sem simplifica\u00e7\u00f5es, sabendo identificar os verdadeiros advers\u00e1rios.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;O Brasil \u00e9 mesmo um horror&#8217;<\/h2>\n<p>As opini\u00f5es pol\u00eamicas de Bishop n\u00e3o se restringiram ao cen\u00e1rio pol\u00edtico. A pr\u00f3pria curadora do evento, Fernanda Diamant, disse ap\u00f3s o an\u00fancio que uma das inten\u00e7\u00f5es desta homenagem \u00e9 mostrar a rela\u00e7\u00e3o &#8220;intensa&#8221; e &#8220;amb\u00edgua&#8221; de Bishop com o Brasil, na qual a poeta foi &#8220;muito cr\u00edtica, mas tamb\u00e9m muito apaixonada&#8221; pelo pa\u00eds.<\/p>\n<p>O poeta e diplomata Felipe Fortuna destacou em sua conta no Facebook diversos trechos de textos da escritora com vis\u00f5es negativas sobre o Brasil. Entre eles, passagens do livro\u00a0<i>Brazil<\/i>, publicado pela Life World Library, em que a escritora afirmou: &#8220;Muitos talentos brasileiros genu\u00ednos parecem ir para a cama muito cedo \u2014 ou para as redes&#8221;. Em outra passagem, Bishop disse: &#8220;De fato, a bananeira \u00e9 um \u00f3timo s\u00edmbolo para o pa\u00eds e para o que aconteceu e continua a acontecer nele&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 bem verdade que, em suas correspond\u00eancias, Bishop se mostrou em certos momentos encantada com alguns aspectos do pa\u00eds, como quando disse adorar a &#8220;miscel\u00e2nea internacional&#8221; formada pela conviv\u00eancia entre brasileiros e imigrantes de diferentes pa\u00edses.<\/p>\n<p>Disse que o h\u00e1bito de tomar &#8220;cafezinhos a toda hora&#8221; a estava fazendo emagrecer e contou estar &#8220;se engalfinhando&#8221; com o portugu\u00eas, que dedicou-se a aprender. A princ\u00edpio, contou em uma carta que ela e Lota tinham &#8220;horror ao Carnaval&#8221;, mas a avers\u00e3o parece ter sido superada, porque, em correspond\u00eancias posteriores, disse sempre tentavam ir \u00e0 &#8220;noite das Escolas de Samba dos negros&#8221;.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/819A\/production\/_109887133_0bea0dd6-ad36-46c5-a955-74ab23a3a3f4.jpg\" alt=\"Elizabeth Bishop sentada em cadeira com gato no colo\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Escritora americana morou no pa\u00eds por mais de 15 anos e teve uma &#8216;rela\u00e7\u00e3o intensa e amb\u00edgua&#8217; com o pa\u00eds<\/figure>\n<p>Em dado ponto, observou que &#8220;todos os meninos se chamam &#8216;Jos\u00e9&#8217; alguma coisa e todas as meninas se chamam &#8216;Maria&#8217; alguma coisa&#8221;. &#8220;Esses nomes s\u00e3o sempre abreviados em apelidos absurdos que pegam para a vida toda&#8221;, escreveu. &#8220;Aqui eu sou &#8216;dona Elizab\u00e9tchi&#8217; \u2014 sempre os prenomes. Voc\u00ea seria &#8216;seu Roberto&#8217;. N\u00e3o, acho que como tem um diploma seria o &#8216;doutor Roberto&#8217;.&#8221;<\/p>\n<p>Mas claramente incomodava-se com a pobreza, a injusti\u00e7a e o atraso. &#8220;O Brasil \u00e9 mesmo um horror&#8221;, disse ela em uma das cartas.<\/p>\n<p>Em outra correspond\u00eancia, afirmou: &#8220;Como voc\u00ea sabe, \u00e9 um pa\u00eds estranho, uma mistura dos s\u00e9culos 18 e 19 com r\u00e1pida industrializa\u00e7\u00e3o, terr\u00edvel pobreza, luxo, preto e branco, o avan\u00e7ado e o primitivo \u2014 ainda estou surpresa de me ver vivendo aqui, mas vou ficando&#8221;. Mas, na mesma carta, disse que &#8220;aqui \u00e9 meu verdadeiro lar agora&#8221;.<\/p>\n<p>O Rio era &#8220;o cen\u00e1rio mais lindo do mundo&#8221;, em sua opini\u00e3o, mas elas n\u00e3o se furtou de tratar dos seus problemas. &#8220;O Rio est\u00e1 mais louco que nunca&#8221;, escreveu para Lowell. &#8220;Falta \u00e1gua em partes da cidade e o g\u00e1s anda escasso; em cada edif\u00edcio s\u00f3 um elevador funciona e h\u00e1 filas intermin\u00e1veis, quarteir\u00f5es inteiros para pegar os \u00f4nibus mi\u00fados, cromados e brilhantes ou os bondes velhos e abertos.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Elogios e cr\u00edticas \u00e0 cultura brasileira<\/h2>\n<p>Sobre a poesia brasileira, afirmou que o que havia lido at\u00e9 dado momento era &#8220;tudo gracioso, delicado&#8221;. Apreciava os poetas Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto e Carlos Drummond de Andrade. Tamb\u00e9m gostava de Euclides da Cunha e dizia que o autor de\u00a0<i>Os Sert\u00f5es\u00a0<\/i>s\u00f3 ficava atr\u00e1s de Machado de Assis, &#8220;a \u00fanica gl\u00f3ria das letras que existe por aqui&#8221;.<\/p>\n<p>Ainda fez tradu\u00e7\u00f5es para o ingl\u00eas de poetas brasileiros como Drummond, Cabral, Cec\u00edlia Meireles e Joaquim Cardozo, depois reunidas em\u00a0<i>An Anthology of Twentieth-Century Brazilian Poetry\u00a0<\/i>(Uma Antologia da Poesia Brasileira do S\u00e9culo 20, em tradu\u00e7\u00e3o livre).<\/p>\n<p>Mas Bishop avaliou duramente alguns dos maiores s\u00edmbolos nacionais brasileiros: &#8220;Se voc\u00ea nunca v\u00ea um Picasso aut\u00eantico, finge que Portinari \u00e9 bom \u2014 ou se voc\u00ea nunca na vida ouviu boa m\u00fasica, finge que bossa nova \u00e9 bom e que Villa-Lobos \u00e9 o maior etc&#8221;.<\/p>\n<p>Em outros momentos, fez coment\u00e1rios mordazes. &#8220;H\u00e1 um grande renascimento do catolicismo pelo que vejo, e fam\u00edlias grandes s\u00e3o o estilo predominante: dez ou doze&#8221;, escreveu, para em seguida emendar: &#8220;Bem, eu n\u00e3o me incomodaria com as fam\u00edlias grandes se ficassem restritas \u00e0 classe alta (e como tudo fica simples quando n\u00e3o existe classe m\u00e9dia)&#8221;.<\/p>\n<p>Munhoz, da Flip, afirma que o evento ser\u00e1 &#8220;uma \u00f3tima oportunidade para a gente discordar de algumas posi\u00e7\u00f5es da autora e ao mesmo tempo aprofundar o conhecimento de sua obra liter\u00e1ria&#8221;.<\/p>\n<p>O diretor Bruno Barreto afirma que aqueles que criticam a escritora por estes coment\u00e1rios sofrem de um eterno complexo de vira-lata. &#8220;A autoestima dos brasileiros \u00e9 t\u00e3o baixa que n\u00e3o conseguem ouvir cr\u00edticas&#8221;, diz Barreto, que retratou o romance entre Bishop e Lota no seu filme\u00a0<i>Flores Raras\u00a0<\/i>(2013).<\/p>\n<p>O casal viveu junto at\u00e9 quase a morte da arquiteta, em 1967, em Nova York, por overdose de tranquilizantes. Barreto diz que elas eram &#8220;diametralmente opostas&#8221;. &#8220;Bishop era fr\u00e1gil, enquanto Lota era um exemplo de fortaleza. Juntas, elas se complementavam e tiveram os melhores anos de suas vidas&#8221;, afirma Barreto.<\/p>\n<p>Bishop deu aulas na Universidade de Washington e Harvard e, ap\u00f3s a morte de Lota, teve um longo relacionamento com a americana Alice Methfessel, 32 anos mais nova do que ela e com quem viveu nos Estados Unidos at\u00e9 sua morte, em 1979, por causa de um aneurisma cerebral decorrente dos anos de alcoolismo.<\/p>\n<p>O que mais chamou a aten\u00e7\u00e3o de Barreto na vida de Bishop em sua pesquisa para o longa foi sua capacidade de superar perdas, tema de um de seus poemas mais conhecidos,\u00a0<i>A arte de perder<\/i>.<\/p>\n<p>&#8220;Desde pequena, ela s\u00f3 sofreu perdas. Ela era errante, disfuncional e alco\u00f3latra, mas vai ficando mais forte entre um porre e outro. Ainda que n\u00e3o se colocasse como uma v\u00edtima de nenhuma forma, acho que a Bishop foi salva pela poesia. Talvez tivesse morrido mais cedo se n\u00e3o escrevesse.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Elizabeth Bishop viajou para a Amaz\u00f4nia durante os anos em que morou no Brasil<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":303022,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-303021","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/beth.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/303021","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=303021"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/303021\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/303022"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=303021"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=303021"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=303021"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}