{"id":303326,"date":"2019-12-01T10:04:53","date_gmt":"2019-12-01T13:04:53","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=303326"},"modified":"2019-12-01T10:04:53","modified_gmt":"2019-12-01T13:04:53","slug":"quem-eram-os-escravos-tigres-marcantes-na-historia-do-saneamento-basico-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/quem-eram-os-escravos-tigres-marcantes-na-historia-do-saneamento-basico-no-brasil\/","title":{"rendered":"Quem eram os escravos &#8216;tigres&#8217;, marcantes na hist\u00f3ria do saneamento b\u00e1sico no Brasil"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"byline\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"byline__name\">Vin\u00edcius Pereira<\/span><\/div>\n<div class=\"with-extracted-share-icons\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share-row\">\n<div class=\"share-tools--no-event-tag\">\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-twite\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/E2FD\/production\/_109890185_escravocommascara_museuscastromaya.jpg\" alt=\"Reprodu\u00e7\u00e3o de aquarela pintada por Jean-Baptiste Debret mostra um escravo 'tigre'\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span>Reprodu\u00e7\u00e3o de aquarela pintada por Jean-Baptiste Debret; escravos respons\u00e1veis pelo manejo de esgoto de cidades brasileiras<\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\" style=\"text-align: justify;\">Enquanto o Brasil discute uma forma de, finalmente, conseguir prover saneamento b\u00e1sico para toda a popula\u00e7\u00e3o, ressurge a mem\u00f3ria de um cap\u00edtulo n\u00e3o t\u00e3o conhecido desse aspecto do pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante o Brasil Imp\u00e9rio, o pa\u00eds era o maior territ\u00f3rio escravagista do Ocidente, com quase 5 milh\u00f5es de africanos escravizados. Tal n\u00famero representa cerca de 40% do total embarcado para as Am\u00e9ricas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a m\u00e3o de obra escrava sendo utilizada em larga escala, foram os cativos apelidados de &#8220;tigres&#8221; os respons\u00e1veis pelo recolhimento e despejo da urina e fezes de muitos moradores das cidades durante cerca de 300 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa \u00e9poca, a maior parte das casas n\u00e3o contava com banheiros, \u00e1gua corrente ou algum outro tipo de instala\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria. Por isso, os moradores das antigas cidades faziam as necessidades em penicos e outros recipientes de metal ou porcelana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esses objetos ficavam sob as camas ou em arm\u00e1rios at\u00e9 a manh\u00e3 seguinte, quando eram esvaziados em grandes ton\u00e9is que comportavam todos os dejetos dos moradores da casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os grandes ton\u00e9is, por sua vez, eram carregados nas costas por escravos, que os levavam at\u00e9 o mar ou a algum rio e por l\u00e1 os despejavam.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Os &#8216;tigres&#8217;<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parte do conte\u00fado, que continha ureia e am\u00f4nia, vazava dos ton\u00e9is e deixava marcas brancas sobre a pele negra, parecidas com listras. Por essa rea\u00e7\u00e3o qu\u00edmica, as marcas se pareciam com as do animal \u2014 da\u00ed o apelido em tom pejorativo dos &#8220;tigres&#8221; ou &#8220;tigrados&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cheiro dos ton\u00e9is, obviamente, n\u00e3o era agrad\u00e1vel e fazia com que as pessoas n\u00e3o se aproximassem dos &#8220;tigres&#8221; enquanto os carregavam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A pele ficava listrada, com altern\u00e2ncia de faixas pretas e outras descoloridas pela a\u00e7\u00e3o qu\u00edmica dos dejetos. Por isso, esses escravos eram conhecidos como tigres&#8221;, afirma o jornalista Laurentino Gomes, autor do livro\u00a0<i>Escravid\u00e3o<\/i>, sobre o tema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Eram escravos ou escravos de aluguel que, geralmente, eram destacados para esse tipo de trabalho&#8221;, afirma o\u00a0<a class=\"story-body__link\" href=\"https:\/\/www.bbc.co.uk\/portuguese\/topics\/03eb3674-6190-4cd7-8104-1a00991d67a3\">historiador<\/a>\u00a0Luiz Felipe de Alencastro.<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption body-narrow-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/304\/cpsprodpb\/1582D\/production\/_109890188_i0000036-20alt-001861lar-001330largori-002325altori-003253.jpg\" alt=\"Litografias antigas de Henrique Fleiuss mostram parte do cotidiano dos 'tigres'\" width=\"412\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"304\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-portrait has-caption body-narrow-width\" style=\"text-align: justify;\">Litografias antigas de Henrique Fleiuss mostram parte do cotidiano dos &#8216;tigres&#8217;<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esses negros podiam ser escravos comprados por seus donos ou aqueles que prestavam servi\u00e7os a diversas fam\u00edlias como forma de obter um rendimento extra para o dono ou para si mesmos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pr\u00e1tica, muito comum na capital da \u00e9poca,\u00a0<a class=\"story-body__link\" href=\"https:\/\/www.bbc.co.uk\/portuguese\/topics\/1cfe0e12-c314-4427-9d69-8342d145a1b1\">Rio de Janeiro<\/a>, tamb\u00e9m era usual em diversas cidades do pa\u00eds. No Rio de Janeiro, fossas eram proibidas na cidade antiga dada a proximidade do len\u00e7ol fre\u00e1tico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 registros da utiliza\u00e7\u00e3o dessa m\u00e3o de obra no Rio at\u00e9 a d\u00e9cada de 1860. J\u00e1 no Recife, por exemplo, durou at\u00e9 1882.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Tempos atr\u00e1s, fui visitar uma cidade paranaense chamada Guarapuava, a centenas de quil\u00f4metros do oceano. E l\u00e1 tamb\u00e9m, segundo me disse um historiador, havia escravos &#8216;tigres&#8217; at\u00e9 o final do s\u00e9culo 19&#8221;, disse Laurentino Gomes.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Marcas coloniais duram at\u00e9 hoje<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fazendo uma avalia\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, houve quem associasse a explora\u00e7\u00e3o desses escravos &#8220;tigres&#8221; a um atraso no interesse do poder p\u00fablico na implementa\u00e7\u00e3o de sistemas de saneamento b\u00e1sico no pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O soci\u00f3logo Gilberto Freyre diz que a facilidade de dispor de tigres e seu baixo custo retardaram a cria\u00e7\u00e3o das redes de saneamento nas cidades litor\u00e2neas brasileiras&#8221;, afirma Gomes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Luiz Felipe de Alencastro, contudo, a m\u00e3o de obra escrava n\u00e3o era t\u00e3o barata ao ponto de se popularizar tanto no Brasil da \u00e9poca. &#8220;Os &#8216;tigres&#8217; eram gente pobre, vulner\u00e1vel ou escrava, mas n\u00e3o era uma m\u00e3o de obra barata&#8221;, diz o historiador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para al\u00e9m da desumaniza\u00e7\u00e3o desses escravos, essa forma de descarte j\u00e1 mostrava um descaso grande com a quest\u00e3o do escoamento dos dejetos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;No Rio de Janeiro, at\u00e9 hoje, a ba\u00eda est\u00e1 totalmente polu\u00edda. O desprezo pela natureza vem desde esses tempos&#8221;, conclui Alencastro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 \u00e9poca, a consci\u00eancia ambiental n\u00e3o era algo recorrente como hoje. No Brasil, isso se agravava por conta de uma bagagem da coloniza\u00e7\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o durante mais de tr\u00eas s\u00e9culos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A destrui\u00e7\u00e3o do meio ambiente \u00e9 quase t\u00e3o antiga quanto a hist\u00f3ria do Brasil. O primeiro registro oficial de tr\u00e1fico de plantas, animais silvestres e ind\u00edgenas escravizados \u00e9 de 1511, apenas uma d\u00e9cada ap\u00f3s a chegada da esquadra de Pedro \u00c1lvares Cabral&#8221;, afirma Laurentino Gomes.<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption body-narrow-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/304\/cpsprodpb\/2395\/production\/_109890190_i0000276-20alt-001866lar-001330largori-002260altori-003170.jpg\" alt=\"Litografias antigas de Henrique Fleiuss mostram parte do cotidiano dos 'tigres'\" width=\"412\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"304\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-portrait has-caption body-narrow-width\" style=\"text-align: justify;\">Litografias antigas de Henrique Fleiuss mostram parte do cotidiano dos &#8216;tigres&#8217;<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, Leo Heller, relator especial da ONU para os direitos humanos \u00e0 \u00e1gua e ao esgotamento sanit\u00e1rio, nota que \u00e9 dif\u00edcil fazer uma rela\u00e7\u00e3o entre a utiliza\u00e7\u00e3o dos tigres e o descaso em rela\u00e7\u00e3o ao saneamento b\u00e1sico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A preocupa\u00e7\u00e3o com saneamento sempre houve, mas nunca foi priorit\u00e1ria. O que ainda existe s\u00e3o locais sem nenhum tipo de esgoto (&#8230;) e a figura de quem remove o esgoto&#8221;, diz o especialista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os vest\u00edgios do per\u00edodo colonial e imperial, contudo, continuam vivos at\u00e9 hoje no pa\u00eds. Segundo Heller, o fim da escravid\u00e3o, e com ela o desaparecimento dos chamados &#8220;tigres&#8221;, n\u00e3o acabou com os problemas dos mais pobres e refletem a constru\u00e7\u00e3o da sociedade atual em rela\u00e7\u00e3o ao tema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Os escravos se transformaram em negros pobres, de periferia, que tamb\u00e9m n\u00e3o t\u00eam acesso a saneamento&#8221;, diz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No caso dos tigres, a iniciativa de Dom Pedro 2\u00ba em modernizar a ent\u00e3o capital Rio de Janeiro ao final do per\u00edodo imperial, na d\u00e9cada de 1860, d\u00e1 in\u00edcio ao saneamento b\u00e1sico no Brasil \u2014 o que come\u00e7a a diminuir a utiliza\u00e7\u00e3o dessa m\u00e3o de obra de maneira gradual nas cidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Logo, com a aboli\u00e7\u00e3o, assim como no Rio de Janeiro, esses escravos s\u00e3o substitu\u00eddos gra\u00e7as \u00e0 chegada do saneamento b\u00e1sico e maneiras mais modernas de descarte dos dejetos. Mas, assim como os demais, eles permaneceram executando servi\u00e7os de pouca qualifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Apenas a liberdade n\u00e3o representa uma mudan\u00e7a completa na vida desses ex-escravos&#8221;, diz o historiador Alain El Youssef, doutor pela USP.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;[Ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o] o Estado brasileiro n\u00e3o se preocupa em ofertar condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas \u00e0 sobreviv\u00eancia, nem em inseri-los de uma maneira respeitosa na sociedade. Isso traz reflexos at\u00e9 hoje&#8221;, afirma o historiador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dados do Sistema Nacional de Informa\u00e7\u00f5es sobre Saneamento, do Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Regional, mostram que apenas 52% da popula\u00e7\u00e3o brasileira conta, atualmente, com acesso \u00e0 coleta de esgoto. A falta de acesso ocorre principalmente em regi\u00f5es mais pobres do pa\u00eds.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nessa \u00e9poca, a maior parte das casas n\u00e3o contava com banheiros, \u00e1gua corrente ou algum outro tipo de instala\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria. 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